Elis Regina em 1965

elis menino das laranjas

Tornar-se cantora e ficar entre as melhores do Brasil foi tarefa gigantesca até para Elis Regina. É possível constatar a grandiosidade enfrentada pela cantora, por exemplo, traçando um painel do ano de 1965. Neste ano Elis projetou-se nacionalmente ao vencer o I Festival Nacional de Música Popular Brasileira (TV Excelsior) com “Arrastão” (Edu Lobo e Vinícius de Morais). De quebra fez um show com Jair Rodrigues e o Jongo Trio que resultou em disco e programa de TV – O Fino da Bossa – entrando definitivamente para a história da música brasileira.

Em 1965 atuavam algumas mulheres que embora na faixa dos quarenta anos, por contingências da época já eram “velha guarda”. Cantoras extraordinárias como Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha Borba e Isaurinha Garcia enfrentavam a passagem da era do rádio para a era da TV. Elis tinha o trunfo da juventude até mesmo perante outra das maiores cantoras brasileiras, Ângela Maria, que em 1965 já estava com 36 anos. Maysa, também notável entre as melhores, estava com 29 anos e Elsa Soares, sambista ímpar, chegava aos 28.

Perante grandes cantoras, ídolos reconhecidos pela crítica e pelo público, Elis Regina era uma jovem surgindo com brilho no cenário musical brasileiro. Para representar a modernidade na música brasileira Elis tinha que estar à altura de Sylvia Telles, embora o mercado exigisse que ela fosse tão popular quanto Celly Campello.

1965 - Arrastao - Elis REgina (1)

Além das cantoras já estabelecidas outras meninas, como Elis, iniciavam carreira. Em 1965 Nara Leão já era um grande nome. Dona de personalidade marcante e de uma privilegiada visão de mundo, Nara unia compositores dos morros cariocas aos jovens bem nascidos da Zona Sul, mudando os rumos da nossa música.

É bastante conhecido o fato de Nara Leão ter convidado Maria Bethânia, menina que havia conhecido na Bahia, para substituí-la no show “Opinião”. Bethânia chegou e atingiu sucesso imediato entre os cariocas que viram o show e em todo o Brasil, via rádio, cantando “Carcará”. Com Bethânia veio Gal Costa, sempre suave e sem fazer muito barulho. A dupla baiana que por si já faria tremer qualquer concorrente ainda contava com dois amigos do tipo que toda cantora precisa: grandes compositores do naipe de Gilberto Gil e Caetano Veloso.

Em 1965, aos 24 anos Nana Caymmi voltava ao Brasil para retomar a carreira. Celly Campello, que três anos antes havia abandonado a carreira recusou participar do programa Jovem Guarda. Wanderléa aceitou, tornou-se imensamente popular e, contam os biógrafos, amiga de Elis Regina.

Em 1965 eu estava com dez anos. Ouvíamos rádio durante todo o dia. Eu parava para ouvir Wanderléa com um chamado irresistível: “Atenção, atenção, eu agora vou cantar para vocês, a última canção que eu aprendi…” A moça bonita da Jovem Guarda cantava “É o tempo do amor” e eu gostava tanto quanto de “Carcará”, o “bicho que avoa que nem avião” na interpretação definitiva de Bethânia. Tenho certeza de que a primeira canção gravada por Elis que me fez parar e prestar atenção na cantora foi “Menino das Laranjas” . Com dez anos eu apenas gostava; hoje percebo que Elis canta a música com graça – a mesma graça que me encantava em Wanderléa – e interpretava intensamente, como Bethânia. De quebra, “Menino das Laranjas” é de uma notável sofisticação melódica e rítmica.

Ainda era 1965 quando vi Elis na televisão. Aos vinte anos ela cantava “Arrastão” com alegria contagiante, com a força necessária para retirar a rede de pesca cheia, farta, sem deixar de lado a doçura da intérprete que narra o pescador querendo Janaína para casar. Em maio do mesmo ano estreava, na TV Record, o programa “O Fino da Bossa”, e neste registrava-se a maior parceria vocal de Elis Regina: Jair Rodrigues.

O disco “Dois na Bossa” veio antes e deu origem ao programa de TV. No disco estão “Menino das Laranjas” e “Arrastão”, as duas músicas que me fizeram gostar de Elis Regina. Também estão outras onze canções só na primeira faixa, compondo o pot-pourri de maior êxito da dupla Elis e Jair. Definitivamente, Elis alcançava a categoria de melhor cantora do Brasil. Nesse programa, sem o que se denomina hoje “música de trabalho”, Elis pode mostrar toda a sua versatilidade, o que é possível comprovar pelas gravações preservadas por Zuza Homem de Mello, disponíveis em CDs.

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Outro dia me perguntaram como foi o impacto do lançamento do disco Construção, de Chico Buarque, em 1971. Respondi quase que mecanicamente: “- Ouvíamos no rádio. Tocava o dia inteiro!” Continuando o papo, recordei o hábito de ouvir rádio, desde criança, quando conheci toda essa gente e, principalmente, Elis Regina.

No próximo dia 19, segunda, lembraremos a grande cantora, falecida em 1982. 33 anos sem Elis! Três gerações sem a grande intérprete!Comigo, tudo começou em 1965. Impossível não registrar esses 50 anos de admiração e respeito que tenho pela maior cantora do Brasil.

Salve, Elis!

As mulheres de Ronaldo

Lamento por quem chegou aqui pensando em algo tipo “Marias chuteiras”, ou gostosonas, ou outras… O Ronaldo em destaque é o Bôscoli e as mulheres em questão são Maysa, Elis Regina e Nara Leão. Como esteve envolvido com essas três cantoras geniais, o jornalista, compositor e produtor Ronaldo Bôscoli será um dos nomes mais citados, nas próximas semanas, pela imprensa especializada em música.

Janeiro é um mês fundamental na biografia das três cantoras. No dia 19 de janeiro próximo lembraremos a morte de Elis Regina. Em São Paulo serão feitas várias homenagens a maior cantora brasileira que irão até março, quando haverá um show no Ibirapuera. Feito pela cantora Maria Rita, filha da cantora, o show  irá apresentar um repertório só de canções gravadas por Elis Regina na voz de Maria Rita. Este é para ser festejado e será no dia 17 de março, que é a data do aniversário da cantora (Marque na agenda. Um sábado, show ao ar livre, no Parque Ibirapuera).

Nara Leão, a primeira namorada, 70 anos em 2012

Bôscoli foi casado com Elis Regina, sendo pai do primeiro filho da cantora, João Marcelo Bôscoli. O casamento foi um acontecimento para a época e a vida do casal foi fartamente documentada pelos fofoqueiros de então. O registro histórico está nas diferentes biografias sobre Elis Regina ou sobre a Bossa Nova, movimento do qual Bôscoli foi um dos principais nomes.

Elis Regina faleceu em 19 de janeiro de 1982. Esse dia, 19 de janeiro, também é o dia do aniversário de Nara Leão. Além da carreira ímpar e do repertório impecável, a musa da Bossa Nova, da Tropicália, da Música de Protesto, enfim, a Nara de todas as bossas será lembrada neste ano também pelos 70 anos que faria no dia 19.

Com Maysa, tempestade na aparente calmaria da Bossa Nova

Minha primeira lembrança de Nara Leão é cantando “A Banda”. Provavelmente posso tê-la ouvido cantar outros anteriores sucessos. Todavia conheci “Carcará”, um marco na carreira de Nara, quando esta fez o show “Opinião” com João do Valle e Zé Keti, na voz de Maria Bethânia. A gravação de Bethânia foi muito executada nas emissoras de rádio de Uberaba, MG, a minha terrinha. Outro sucesso de Nara, “O Barquinho” lembro sempre é na voz de Maysa.

Coincidências que fariam a festa de exotéricos sensacionalistas, Nara Leão faleceu no dia 7 de junho de 1989, um dia depois do aniversário de Maysa. Esta faleceu bem antes, em 1977, no mês de janeiro!

A lembrança das histórias de Maysa e Boscôli estão fresquinhas na memória de quem viu a minissérie que a Globo fez sobre a cantora. Há, no programa televisivo, uma clara menção ao namoro de Nara Leão e Bôscoli, interrompido bruscamente quando Maysa anunciou seu noivado com o compositor. Ou seja, recapitulando:

19 de janeiro: Morte de Elis Regina

19 de janeiro: Aniversário de Nara Leão

22 de janeiro: Morte de Maysa

O primeiro filho de Elis é de Bôscoli

Ronaldo Bôscoli passou pela vida das três, na ordem: namorando Nara, Maysa e casando-se com Elis Regina. Como compositor, foi limitado.  Entre as músicas mais lembradas estão “Lobo bobo” (parceria com Carlos Lyra); “O barquinho” (o parceiro foi Roberto Menescal); “Tributo a Martin Luther King” (grande sucesso do cantor Wilson Simonal, que assina a canção com Bôscoli) e “Você” (com Roberto Menescal).

Como produtor musical, ao lado de Carlos Miéle,  Bôscoli deixou grandes capítulos na história da música brasileira. Produziram shows de Wilson Simonal; o programa “O Fino da Bossa”, com Elis Regina e Jair Rodrigues no comando; vários programas na TV Globo e por mais de vinte anos foram os responsáveis pelos shows de Roberto Carlos.

Bôscoli, ao conquistar Nara, Maysa e Elis, deixou um dado biográfico invejável. Infelizmente, também foi por causa dessas conquistas que elas nunca estiveram juntas em shows ou discos. Ironias da vida: separados pelos desencontros amorosos, cantoras e compositor estão juntos na história. Sempre que se falar ou escrever sobre um, os outros serão lembrados.

Boa semana!