Não é só uma senhorinha com um jornal

Uma imagem comum, corriqueira, e de imediato nem me dou conta de que a dita cuja se constituiu em gatilho para um montão de coisas. A foto de uma senhorinha lendo o jornal. Certamente há inúmeras semelhantes não fosse esta particular, familiar, minha mãe. Laura.

Das coisas que emergiram a primeira foi a lembrança de cartas, inúmeras cartas. Um ritual certamente raríssimo nos dias de hoje. Os meios de comunicação facilitam gravar a mensagem e, fato, não é necessário saber escrever para se comunicar com os parentes distantes.

Frequentemente íamos à estação ferroviária ver se havia chegado encomenda. Oriundas de Campinas, onde residiam meus avós, ou de Ribeirão Preto, onde morava tia Olinda. Cestas de vime, cobertas com tecido branco costurado às bordas, e papel colado nesta com os dados do destinatário. Trazida a cesta para a casa havia certamente boas surpresas. Um presente de aniversário, bolo ou doce de ocasião, e a carta. Mamãe se sentava, nós os filhos em volta, e ela lia em voz alta, a gente sentindo a entonação do autor da missiva.

Leitura meio complicada para meus poucos anos eram revistinhas semanais com a publicação de capítulos da novela O Direito de Nascer. Revistas de rádio teatro. Com fotos de moças ou casais bonitos na capa e, na quarta capa, a foto de gente como Cléa Simões, Ézio Ramos ou Gilmara Sanches, que eu guardo na memória como as vozes mais bonitas das radionovelas.

“Textão”, como dizem hoje, era o enorme livreto com a Hora de Adoração. Membro da Congregação do Sagrado Coração, mamãe se obrigava a ir mensalmente à Igreja da Adoração Perpétua onde rezava todo o livrinho, que deveria somar uma hora de reza que, para o menino ansioso, era uma eternidade. Mamãe sussurrando e o garoto só sentindo alívio com o sinal da cruz final.

Havia fotonovelas, gibis e os livros. O primeiro livro, que mamãe guardava com certo ciúme, foi por ela utilizado no primário: “Os companheiros”, que depois me foi presenteado. Entre as páginas, inúmeros cartões de lembranças dos colegas de escola, além de “santinhos” de todas as datas e matizes.

E veio José de Alencar, que meu irmão Valdonei deveria fazer trabalho para a escola. Encarei o livro imenso, O Guarani, o primeiro grande livro que li. Depois vieram outros, como uma coleção do Jorge Amado, de minha irmã Walcenis e, da minha irmã Waldênia, a obra completa de Fernando Pessoa, os livros sobre o ator, de Stanislavski e a antologia de Mário de Andrade. Li tudo! E mais um monte de outros.

Com o tempo o rádio foi substituído gradativamente pela televisão. Mamãe, já idosa, assistia novelas e “interagia” com as personagens, guardando ressentimentos e mágoas de “vagabundas traidoras”, às vezes sofrendo um bocado por não saber se deveria amar ou odiar Eva Wilma, com a primeira dupla Ruth e Raquel de que se tem notícia. Nas sextas-feiras, mamãe viajava com o Globo Repórter, preferindo sempre os programas sobre o que apelidávamos de “mundo animal”.

Sempre que se fala em educação penso em D. Laura, a minha mãe. Ela tinha amor pelo conhecimento e sabia do poder deste. Fez das tripas coração para facilitar, junto com meu pai, educação formal para os seis filhos. E dentro de nossa casa o silêncio era sagrado quando alguém precisava estudar. Comprar cadernos e livros eram dias de festa e ler, uma enorme satisfação.

As fotos “oficiais” são ótimas. A família registrou as conclusões de curso, as formaturas, os bailes. Papai e mamãe orgulhosos ao lado dos filhos “estudados”. Todavia, é esse registro dessa senhoria lendo jornal que mais me comove. É o momento cotidiano e comum dentro do nosso lar. Mamãe atenta ao jornal, lido de cabo a rabo.

Sinto não ter registrado minha mãe lendo os livros que escrevi. Tenho as informações de minha irmã, mamãe no mesmo cantinho, sentada lendo os textos de jornais em que trabalhei, dos livros que li. E os elogios de minha mãe que, sem dúvidas, os que mais me importaram receber. Hoje, 03 de novembro de 2024, mamãe estaria completando 97 anos. Que chegue a ela as orações dos filhos e dos entes queridos. Em especial, nossa gratidão pelo conhecimento facilitado a nós, seus filhos.

Sem celular ou os cacarecos da modernidade

Um momento em Olinda, Pernambuco, exercitando o sonho de viver sem amarras e  em harmonia com a natureza.
Em Olinda, Pernambuco, sonhando viver sem amarras e em harmonia com a natureza.

Meu celular, acompanhando as tendências atuais, resolveu esquentar de tal forma que me provocou o receio de um acidente desagradável; já li que baterias explodem e o melhor é não arriscar. Antes que eu tomasse a decisão de desligar o aparelho ele… “morreu”.  Tive alguns minutos de pânico, algumas horas de incômodo e já estou quase feliz sem o dito cujo.

Nada como a ausência de algo supostamente importante para que percebamos o quão presos estamos aos cacarecos da modernidade. Na real, a primeira sensação ante uma falha de um objeto caro, que não tem nem um ano de uso, é de profunda irritação. Algumas vontades: jogar a porcaria na parede; difamar a empresa – neste caso específico a SAMSUNG – para toda a humanidade e, em momentos de delírio, imaginar absurdos tipo questionar os céus a razão do castigo; ou ainda indignar-se perante o descaso do cacareco para conosco.  – Que atrevido!

Após a inicial irritação, vem o terror da falta de comunicação; na cabeça da pessoa importantíssima que pensamos ser bate um brutal desespero: E se Barack Obama quiser discutir a privacidade mundial comigo? E se Maria Bethânia pretender minha companhia para um sorvete na praia? E se… A pior consequência de todas é a fatal “como conseguirei viver sem isso”…

– Muito bem, obrigado! Não há nada tremendo no meu bolso e nem corro o risco do barulho indiscreto de uma chamada durante as várias reuniões que ando fazendo. Também começo a perceber que o imediatismo em saber, resolver, responder ou comunicar pode ser substituído pelo controle da ansiedade, pela reflexão para uma melhor solução e, entre outras coisas pela liberdade de caminhar sem precisar dizer para quem quer que seja – Obama, Bethânia, ou um querido familiar – onde estou.

Bom, após mais de 48 horas sem o cacareco moderno, algumas ponderações, mesmo que embaraçosas… Ninguém me chamou pelo telefone fixo! Ninguém questionou via e-mail ou a rede social do momento – Facebook – o motivo de eu não atender chamadas. O mundo continua bem sem mim; a temperatura mantém-se quentíssima por toda a região e eu, bom, deixarei para consertar ou procurar outro cacareco lá pra semana que vem. Vou aproveitar mais alguns momentos para exercer o delicado exercício de conviver comigo mesmo.

De quantos cacarecos realmente precisamos? Sou um indivíduo que pretende viver com o mundo, no mundo, portanto longe estou de pregar contra celulares. Todavia, esse fato serviu para recordar que já vivi sem esse objeto e que, vez em quando, posso caminhar pela cidade “sem lenço, sem documento” e sem celular. Apenas vivendo a alegria de passear pela avenida. Já senti em tempos passados o mesmo em relação à TV, ao computador, e realizo periódicos exercícios de desligamento de aparelhos. Somarei o celular, com muito gosto, no conjunto de coisas que devo desligar por algumas horas para poder fazer coisas tipo refletir, pensar, sonhar, devanear… Enfim, viver.

Até mais!

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“E se de repente” a gente fosse brincar?

O melhor carnaval é a festa do “e se de repente”.  Sim, em algum momento, num “repente”, o indivíduo resolve ser rei, ou sapo, banana, ou sabe-se lá até onde vai a piração humana. Lá em Uberaba, como em tantas outras cidades do Brasil, um monte de marmanjos resolvem brincar de ser mulher. A fantasia é a mais barata já que basta emprestar roupas de mães, namoradas, irmãs ou amigas e, vestindo toda a composição, exagerar na dose, caricaturar. A diversão é garantida, desde que o mundo é mundo. Todo mundo gosta.

São Luiz do Paraitinga, marchinhas em ambiente aconchegante.

“E se de repente” a gente acordasse a cidade, fizesse com que ela voltasse aos tempos de sempre, alegre e vibrante? E é assim que vejo o carnaval de Olinda, com suas orquestras de frevo, ou as tardes de São Luiz do Paraitinga com suas marchinhas eternizando as ruas da velha cidade. Aliás, as velhas cidades são propícias para o carnaval, pois suas ruelas estreitas convidam ao aconchego. Até os discretos mineiros tornam Ouro Preto barulhenta. É carnaval!

Toda brincadeira, por mais simples, supõe regras. Em Veneza, a regra é usar máscaras.  Em Santos, São Paulo, há décadas passadas, uma regra era a fantasia de papel, para fazê-la desmanchar-se no mar, destino de todos os foliões daquela festa. Há regras licenciosas, tipo “ninguém é de ninguém”, com muitos beijos e, hoje em dia, pouco arrependimento. Há regras comerciais, tipo “só brinca dentro da corda quem tem abada”. Todavia, é carnaval, e o brasileiro inventou a pipoca, para burlar o dono da grana e brincar ao som das baianas maravilhosas e seus caminhões sonoros iluminados.

“E se de repente” a gente levasse o carnaval a sério. Foi assim, penso eu, que surgiram as escolas de samba. Não há brincadeira mais séria do que brincar de ser sambista. Carnavalesco pode fazer as loucuras que quiser desde que mantenha a Comissão de frente, a ala das baianas, o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira e outras coisas mais. Para que tudo ficasse o mais certinho possível, criaram os tais sambódromos, onde tudo foi projetado e pensado para brincar seriamente o carnaval.

As máscaras: mistério e romance em Veneza

Tem gente que não gosta. Respeito, mas confesso que tenho dificuldade em entender. Fico pensando: como é que esse sujeito brinca de “faz de conta”? Será que ele não se encanta com a elegância e leveza da porta-bandeira? Não se apaixona pela malemolência da passista? Pelo menos não marca o ritmo com a bateria? E quando Ivete pede “tira o pé no chão”, o cara fica plantado, tipo “to esperando  a condução”? Confesso, tenho dificuldade em entender.

Já quis ser pierrô, mestre-sala, cantor de marchinhas. Gostei, uma vez, de vestir-me de frade franciscano. Fiz das tripas coração para equilibrar um imenso papagaio no ombro, brincando de ser o Santo de Assis. De todos os carnavais, nada supera uma ação pós-baile, na minha juventude: dia seguinte, voltamos ao salão, sujo de tudo quanto é coisa mais montanhas de confetes e serpentinas, para procurar… Uma lente de contato! Tenho testemunhas! ENCONTRAMOS.

“E se de repente” eu me tornasse um mega-star? Aprendi essa com Mafalda Pequenino, uma atriz adorável e querida amiga. Foi ela quem me disse: – “O sambódromo é a minha maior platéia! Todos vão ali pra me ver. E é assim que entro na passarela! Olhem-me, estou aqui, cantando e dançando pra vocês!” Já experimentei a brincadeira. É bom demais. Faço de conta que sou o máximo e entro na onda. Parece que todo mundo me aplaude. Sou o maior destaque da escola.

Finalmente, há também aquela situação: “E se de repente” os planos fossem outros? O carnaval é legal porque preparamos o inesperado para surpreender o outro. A vida é legal porque nos coloca o inesperado. Senhores, não mais serei abacaxi neste carnaval; de repente, os planos mudaram e  parafraseando Chico Buarque,  vou “na galeria” assistindo tudo “na mais fina companhia”.  Com muita honra estarei entre os jurados do jornal Diário de São Paulo, para escolher os melhores do carnaval paulistano que receberão o Troféu Nota 10.

E se de repente… Boa diversão para todos!