“O Tíutio”, o nosso jornal

Slide1

Basta olhar para a imagem e o tempo, já distante, reaviva o cheiro de álcool e tinta característicos da impressão via mimeografo. Mesmo com todas as andanças, mudanças daqui e dali, ainda tenho um exemplar. É “O Tíutio” de número quatro, o jornal do Movimento de Jovens da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, lá em Uberaba, MG.

Nosso grupo, lá no Bairro Boa Vista, começou com o trabalho de outros jovens, do então chamado Movimento Mundo Novo, cujos participantes eram de outras paróquias da cidade. Estimulados pelos Padres Somascos continuamos o trabalho. Esses já estavam na paróquia desde a década anterior e guardo, com muito carinho, muito do que aprendi com o Padre Nicola Rudge, a quem chamávamos Padre Nicolau ( Com ele descobri a arte do renascimento, aprendi xadrez enquanto ouvia música erudita, em especial, a ópera italiana).

A turma de acólitos (os populares coroinhas) criado pelo Pe. Nicolau caminhou naturalmente para o grupo de jovens, assim como as meninas do grupo que nas novenas, anualmente, coroava as imagens de Maria. Outros padres, Líbero Zappone e Américo Veccia, passaram a trabalhar conosco. Américo, o Tíutio que deu título ao jornal, tinha foco em ações da pastoral vocacional e Pe. Líbero, a quem chamávamos Coronel, era o Vigário de então.

O Coronel justificava o título com “ordens” variadas. “– Vocês irão tocar violão na missa daqui a um mês!” Fátima Borges e eu, obedientes, corremos para ter aulas e no tempo exigido estávamos, trêmulos, executando acordes para que nossos amigos cantassem.  Outra ordem, mexeu com todo o grupo, cerca de 50 pessoas: “- Na próxima quermesse vocês serão os festeiros!”.  Uma revolução. Em toda a história da paróquia as quermesses eram feitas por casais experientes do bairro, com domínio e prática daquele tipo de evento. O grupo topou o desafio e fez um belo trabalho.

Slide2.JPG

O jornal – faz tempo! – não sei como surgiu, mas está no exemplar que guardo menção à grande colaboração do “Coronel”. A redação está assim descrita: “Valdo, Inimar, Luiz Albino e Ronaldo. Os desenhos foram a cargo de: Gerson”. Os assuntos? Um texto reflexivo de abertura, algumas piadas e muita brincadeira com algumas pessoas participantes do grupo. O número, último do ano de 1975, registra nome e endereço de 46 integrantes.

Já tínhamos sinais de que as coisas mudariam. Fátima Borges, por exemplo, já havia ido de mudança com a família para Goiânia. Logo eu também viria embora. E dos que constam desse velho jornal mimeografado, lamento algumas erdas irreparáveis: Ronaldo Feliciano de Assis, meu querido amigo, faleceu. Também falecidos: João Cardoso Borges e Maria Catarina Souto. Talvez outros, não sei. Muitos integrantes permaneceram lá no bairro, formaram família, os filhos já crescidos, certamente há avós entre esses jovens do Tíutio. Outros foram pra outras cidades, outros estados. E o tempo passou.

Foi em uma dessas arrumações de final/começo de ano que mostrei ao Agostinho Hermes, meu irmão Gugu, o jornal de quando éramos jovens e ele, na época menino, era acólito cuja atuação está registrada nas fotos de casamento de minha irmã Walderez. Ele impediu-me de jogar fora o velho exemplar, assim como também o texto da primeira homilia que fiz, sob as ordens do Coronel, tendo como tema a Parábola do Semeador. – É história, Vavá! Tem que registrar no blog. E aqui está.

Nosso país anda feio! Os anos de 1970 também foram difíceis: estávamos lá! Semeando esperança e nos preparando para seguir em frente. Até onde percebo, via redes sociais, ou papos pessoais, continuamos na luta. A fé pode não ser a mesma, assim como os ideais foram mudando com o tempo, mas ouso afirmar: – Somos gente do bem. E aprendemos boa parte do que somos lá, ao lado dos padres.

Os Somascos ensinaram-nos a fazer reuniões, organizar eventos, discutir textos, planejar ações de integração, discussão. Entre muitas atividades, creio, que a principal foi a discussão e interpretação de textos. Da Bíblia, dos livros de formação e de letras de canções, notícias de jornal, poesias. Um aprendizado informal, mas que certamente norteia a vida de todos aqueles que viveram intensamente aqueles anos.

Meu carinho aos padres e para todos os meus companheiros de grupo, para quem vai este texto. Meus sentimentos aos familiares por aqueles que partiram.

Terminarei registrando todos os nomes citados no jornal; um encontro virtual para lembrar tempos em que sonhávamos grande e, quem sabe, não seja este um pequeno estímulo para continuar a sonhar. No mínimo, um bocado de histórias para lembrar.

Ajair dos Reis Farias Pinto, Alcides Delfino Camilo, Anivaldo Santana, Antonio Sebastião de Souza, Antonio Sergio Manzan, Ariadina Aparecida Borges, Célio Heli Batista, Daniel Lázaro das Neves, Delcio José Matos, Dulcelane dos Santos Loureiro, Eleusa de Fátima Ramos, Getúlio de Oliveira, Gilberto dos Reis Mota, Haidee Maria Fialho, Inimar Eurípedes Santana, João Cardoso Borges, José Geraldo de Oliveira, José Humberto da Silveira, Lúcia Helena Ribeiro, Luiz Albino Gonçalves, Marco Antonio Britto, Maria Amélia Cruz, Maria Aparecida Souto, Maria Bernadete Camilo, Maria Bernadete da Silveira, Maria Catarina Souto, Maria das Graças, Maria das Graças Silveira, Maria Lucia Souto, Maria Natividade Ramos, Marilene Alves, Marilene Justino, Marina Alves Rocha, Marisa Helena Alves, Marluce Aparecida Justino, Marluce Helena de Souza, Marta Aparecida Camilo, Paulo Roberto da Silveira, Pedro Bernardino da Silveira, Pedro Delfino Camilo Filho, Ronaldo Feliciano de Assis, Shirley de Matos, Silvia Gonçalves, Tania Cristina Melo Oliveira, Valdo Vinagreiro Resende, Vanildo Portela de Jesus.

Até mais!

Noites de encantamento

Avenida Paulista 2011
Natal da Paulista em 2011, já alimentando sonhos

Já são tempos distantes e há certa dificuldade em precisar detalhes, acertar datas, ordenar acontecimentos. São lembranças acumuladas na caixa dos “primeiros natais” que emergem quando chega dezembro. Não sinto nostalgia; guardo a impressão de não ter aproveitado o bastante por não ter tido, então, a possibilidade de perceber o quanto foi bom. Talvez, esse “bom” seja uma mera cilada do tempo…

Houve uma época em que a Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, lá em Uberaba, era só uma pequena capela sob os cuidados dos frades dominicanos. Não consigo recordar nome de nenhum padre de então… Após uma pequena pausa vem um nome, Frei Alberto Chambert, mas é só um nome do qual não me recordo o rosto. Tenho certeza é do estranhamento quanto à expressão “Missa do Galo” e de não ter a menor ideia do que seria um “presépio vivo”.

Era noite alta quando saímos para a capela e em um determinado momento da missa, onde não vi nenhum galo, apareceu um casal com roupa estranha, carregando uma criança. Um grupo de crianças aglomerou-se observando o casal. Minhas duas irmãs mais velhas estavam nesse grupo; com panos na cabeça, saias coloridas. Meu irmão e um vizinho estavam carregando pedaços de madeira e estavam com bonés. Pastoras, pastores, o menino Jesus, os Reis Magos…

Provavelmente foi Belinha a organizadora desse primeiro “presépio vivo” do qual me recordo vagamente. Ela foi desde sempre a responsável por momentos ternos, de suave lembrança, de tantos quantos tenham frequentado a capela, depois tornada paróquia sob o comando dos padres Somascos.

Não posso afirmar que tenha entendido toda a história narrada em meio a cantorias, sermões e preces na capela de Nossa Senhora das Graças. Sem ler a Bíblia, dominei detalhes da história do sagrado menino da mesma forma em que milhares de outros cristãos conheceram: através do artesanato popular.  “Seu Fumaça” era morador do bairro e trabalhava na cerâmica da cidade.Com imensa capacidade, o homem criava pequenas casas em argila, queimadas no forno da cerâmica. Essas casinhas viravam um vilarejo chamado Belém, montado dentro da sala de estar da família.

O presépio do “Seu Fumaça” e de D. Castorina eram grande atração natalina para todos os meus irmãos e primos. Era noite quando víamos a montagem que lembrava uma grande gruta, cheia de estrelas e luzes coloridas e, sob a gruta, a cidade com suas casinhas, sua gente, os animais e uma estrebaria onde ficava a sagrada família. Ficávamos horas observando um fio d’água que movimentava um monjolo. Quando cheio, este tombava a água e isto era algo como uma grande mágica.

Eram outros tempos e as Folias de Reis cantavam noite adentro, batendo nas portas das casas e, quando convidadas, entravam com suas músicas ternas, contando sob outra forma a mesma história ouvida na capela e vista no presépio. Batidas de tambor, a melodia acentuada no som da sanfona, cadenciada nas cordas de violas e cavaquinhos. Um solista, voz grave de barítono, contava uma história, repetida e acentuada pelo coro que alongava a última silaba, em agudo intenso, emocionado, cortado pelo som forte do tambor que marcava o retorno de outro momento da mesma melodia.

Depois, meus avós já não moravam em Uberaba, começamos a passar nossos natais em Ribeirão Preto, na casa da Tia Olinda, irmã mais velha de minha mãe.  Eu ainda acreditava em Papai Noel e achava fantástico acordar e ver alguns brinquedos ao lado da minha cama.

Nos natais de minha infância também havia brinquedos. Não sei quantas horas, meses ou anos divaguei brincando com minha carruagem puxada por quatro cavalos. Era um brinquedo de plástico que imitava as conduções dos colonizadores da América. Também viajei milhares de quilômetros imaginários com minha máquina “Maria Fumaça”, que apitava e tocava sino (Um prodígio!) assim como percorri outro tanto com meu carro amarelo ouro e lutei, ao lado de replicas de soldados da Segunda Guerra. Nesta, entravam carruagens, Marias Fumaças e todos os meus outros brinquedos.

É bom lembrar natais sem relação com consumo. Tive poucos brinquedos. É por isso que, com absoluta certeza, guardo a lembrança carinhosa de cada um. Guardei todos eles e só me desfiz dos mesmos já com 20 anos. Foi quando nasceu meu irmão caçula para quem, de bom grado, doei meus brinquedos de infância.

Natal de 2013! Se hoje eu fosse criança guardaria as lembranças das noites da Avenida Paulista, com seus prédios tornados locais mágicos. Também sonharia com as luzes que enfeitam ruas; com as projeções no Parque do Ibirapuera, a grande árvore, as águas dançantes. Ficaria na memória o motivo de tudo isso através de todos os presépios espalhados pela cidade. Esse é o maior encantamento; a história de dois jovens que sem conseguir hospedagem tiveram o filho em uma pequena manjedoura: Um deus menino que nasceu em uma noite, muito distante dessas em que vivemos.

Até mais!

.

Velho amigo, S. Jerônimo Emiliani

Quando o Papa Francisco abençoou hoje a Capela de São Jerônimo Emiliani, no Rio de Janeiro, as lembranças bateram fortes. Conheci São Jerônimo através do Padre Luigi Stela, o primeiro sacerdote da Ordem dos Padres Somascos que assumiu a Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Bairro Boa Vista, lá na minha querida Uberaba.

Paróquia de Nossa Senhora das Graças, Uberaba, MG, onde conheci os Somascos e São Jerônimo Emiliani.
Paróquia de Nossa Senhora das Graças, Uberaba, MG, onde conheci os Somascos e São Jerônimo Emiliani.

O Padre Luigi, Luís, como o chamávamos, rezava sempre para São Jerônimo, “Patrono Universal dos órfãos e da Juventude Abandonada”. Ficam mais claras, coerentes, as intenções do Papa Francisco ao escolher rezar na capela do santo que é patrono da juventude no Encontro Mundial que ocorre nesta semana, no Rio de Janeiro.

São Jerônimo nasceu em Veneza, no ano de 1486, filho da nobreza veneziana. Em 1510, já na carreira militar, confiaram a Jerônimo a Fortaleza de Castelnuovo de Quero onde caiu prisioneiro em ação bélica. Foi libertado milagrosamente por Nossa Senhora. Certamente começa aí a transformação que levaria o nobre Jerônimo ao serviço de Deus.

A morte de um irmão de Jerônimo, que deixou quatro crianças e antes de falecer pede a ele que cuide dos sobrinhos é o começo de nova etapa. Em seguida, outro irmão falece e outros sobrinhos, órfãos, foram também acolhidos por Jerônimo. Anos depois alugaria uma casa em Veneza, onde começou a dar guarida para outros órfãos, constituindo-se este na primeira semente de muitos orfanatos e colégios.

Jerônimo foi discípulo de São Caetano de Tiene, que é o santo que dá nome à simpática São Caetano do Sul, no grande ABC, tornando-se um dos discípulos do Divino Amore, organização criada por São Caetano. Nesta circunstância e após ter sido curado de uma moléstia é que Jerônimo decide dedicar-se aos órfãos. Todo um imenso trabalho deu origem, na aldeia de Somasca, próxima de Veneza e Milão, a Companhia dos Servos dos Pobres, a precursora da Ordem dos Padres Somascos.

Conheci a vida de São Jerônimo através do livro UM HERÓI DESCONHECIDO, a biografia escrita pelo Pe. Carlo Pellegrini, traduzida pelo Pe. Líbero Zappone.  Na adolescência chamávamos o Pe. Líbero de Coronel. Ele tinha um jeito todo peculiar de nos dirigir, enérgico, daí o apelido que, até onde me lembro, foi dado por Fafá, a Fátima Borges. O Coronel foi o primeiro sacerdote Somasco ordenado no Brasil. Mas antes de o Pe. Líbero chegar à vida dos jovens do Boa Vista, lá em Uberaba, conhecemos o Pe. Nicola Rudgi, o Pe. Nicolau.

Sem dúvidas, o Pe. Nicolau foi o mais culto entre todos os padres que conheci. Houve uma época em que ele lecionou as principais disciplinas do antigo Curso Clássico, no Colégio Diocesano, lá em Uberaba. Fui acólito (o popular coroinha) deste padre e na companhia dele, junto com outros garotos, aprendi a jogar xadrez, a conhecer o Renascimento e o Barroco e, lembrança mais sólida, uma grande coleção de discos que possibilitou-nos conhecer as mais belas óperas italianas.

Os padres Somascos cuidaram de um Abrigo de Menores, também lá do nosso bairro. O Pe. Pedro é sempre lembrado pela dedicação aos órfãos que por lá passaram.  Enquanto alguns trabalhavam no orfanato, outros orientavam os jovens paroquianos. O Pe. Enzo Campana, O Pe. Domênico, entre outros, estão entre os padres Somascos que marcaram a minha vida e a de muitos outros amigos.

Capela lateral e interior da nossa paróquia.
Capela lateral e interior da nossa paróquia.

O Padre Américo Veccia foi o primeiro padre que hoje me veio à lembrança. Através dele e na companhia de amigos estive em Manguinhos, no Rio de Janeiro, há muitos anos. Os Somascos mantinham uma paróquia por lá, deixada posteriormente, por questões administrativas. Lá, bem perto, fica a comunidade onde esteve o Papa Francisco abençoando a capela consagrada a São Jerônimo Emiliani.

Minha geração deve muito aos Padres Somascos. Através deles aprendemos a viver em grupo, a organizar ações educativas e sociais, a conhecer uma igreja engajada e voltada para necessidades reais.  Ainda hoje, cada um desses queridos padres está presente de forma distinta na vida dos moradores do Bairro Boa Vista. Casamentos, batizados, festas, reuniões, orientações de todo o tipo. No discurso de cada um está sempre a figura de São Jerônimo Emiliani, o santo que aprendi a respeitar e a quem recorro sempre quando peço por um menor abandonado.

.

Até mais!

.

Auto da Esperança, o meu começo.

Outro dia, Marilene Justino postou uma foto no Facebook e ficou evidente a ação do tempo. Era uma foto, de uma peça, feita em um ano que ninguém mais sabia qual. A imagem trouxe lembranças, fez-nos contatar pessoas distantes… A história é algo que se perde se não há registro. É a história de como o teatro entrou em minha vida, quando estava em um grupo de jovens e sonhava mudar o mundo.

Auto da Esperança Valdo Resende
O “Auto da Esperança”, teatro para um grupo de jovens.

Houve um grupo de jovens na Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Bairro Boa Vista, em Uberaba, MG. Surgiu na esteira dos movimentos de liderança cristã, inspirados na Ação Operária Católica francesa, buscando aproximar Igreja e juventude. Era a década de 1970. Os Padres Somascos nos deram espaço e apoio intelectual. O grupo estudava diferentes temas e participava de várias ações dentro da paróquia. Entre essas ações, anualmente fazíamos um encontro de aprofundamento, exclusivo para os participantes do grupo de jovens.

O “Auto da Esperança”, nossa primeira investida em teatro, foi um presente para os participantes do encontro anual de jovens. Ronaldo Feliciano de Assis ficou responsável por criar um momento teatral, em segredo, para ser apresentado no início da tarde. Um mês antes ele veio até minha casa, pedindo ajuda, pois nada havia saído do papel. Eu também não sabia fazer teatro; mas éramos jovens…

Uma colagem com base em Godspell e Sinal Fechado
Uma colagem com base em Godspell e Sinal Fechado

Em dezembro de 1975 ocorreu o encontro. Após o almoço foi preparado uma série de atividades lúdicas para o pessoal do grupo. A equipe “sumiu” entre uma brincadeira e outra, dirigindo-se para o salão de palestras onde ocorreria a apresentação. No local havia um anfiteatro, mas não nos foi permitido usar o auditório, muito menos o palco. Descobrimos, logo na primeira tentativa de montagem, que o mundo não é nada fácil para quem faz teatro.  Mas éramos jovens e… Estreamos utilizando grandes mesas de reunião como palco.

Uma colagem foi o que apresentamos. O filme Godspell (1973, Direção de David Greene), um musical da Broadway, adaptação do Evangelho de São Mateus, e o disco Sinal Fechado (Chico Buarque, 1974) foram as duas bases para nossa montagem, por nós denominada Auto da Esperança. Todo o pessoal envolvido manteve segredo e nossos amigos e demais convidados para o encontro foram surpreendidos com nossa apresentação.

Estreamos sobre mesa, mais saltimbancos impossível.
Estreamos sobre mesa, mais saltimbancos impossível.

Gostaria muito de coletar as impressões daqueles que participaram daquele momento, fundamental para a minha vida. O início de uma paixão que dura até hoje e, mesmo não sendo minha principal atividade profissional, o teatro é o canal através do qual me manifesto artisticamente. Neste exato momento estou com um novo texto, lá no querido e distante Pará, com montagem já em fase de produção. Estou no Pará; essa expressão possível porque um dia estive em Uberaba, com a Equipe de Teatro Nossa Senhora das Graças, fazendo o Auto da Esperança.

O teatro surgiu em minha vida dando-me uma grande lição, naquela agora longínqua tarde em minha cidade. A estréia do nosso grupo foi recebida com uma ovação espetacular, sucesso absoluto. A vaidade bateu forte e eu estava pronto para colher os frutos do sucesso. Escrevera o texto, escolhera as músicas, definira figurino, cenário… Eu era “o máximo”! Os atores foram abraçados, beijados, saudados como grandes naquele dia. Eu fui ignorado. Ninguém sabia o que eu havia feito. Não devo ter conseguido esconder a cara de decepção. Foi o Pe. Américo Veccia o único a cumprimentar-me após a apresentação. E aproveitou para dizer-me que eu considerasse que as pessoas presentes não estavam habituadas com autores, diretores e outras funções teatrais invisíveis.

Guardei o manuscrito e a cópia que, certamente, foi utilizada por uma das atrizes, Maria Amélia.
Guardei o manuscrito e a cópia que, certamente, foi utilizada por uma das atrizes, Maria Amélia.

Naquele dia, como era costume, o encontro terminou com uma missa. Durante essa, fui carinhosamente abraçado por todos os atores, por todo o pessoal do teatro. O segundo presente que recebi naquele dia. O primeiro veio com o aprendizado do teatro enquanto forma de expressão artística, não local para alimentar vaidades. Foi muito bom!

A semente cresceu. Entre os palestrantes daquele dia estavam professores da Faculdade de Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino, que nos convidaram para uma apresentação para o pessoal do curso de letras. Fizemos muitas outras apresentações, em diferentes lugares, a equipe já aumentada, alterada com a presença de novos colaboradores, como prova a foto de 1976, feita em Goiânia, após uma apresentação na cidade.

Fizemos peças para apresentações durante as cerimônias litúrgicas e outras montagens que foram apresentadas no bairro, em toda Uberaba e em várias cidades da região. Uma história singela que envolveu muitas vidas, determinando caminhos para muita gente.

O Auto da Esperança, Valdo Resende, em Goiânia
Da esquerda para a direita: Luis Albino segura os ombros de Maria Catarina. Walter, Maria Amélia Cruz, “Eulindo”, Marisa Helena Alves, Célio Heli Batista, Rubens, Maria Judite da Silveira. Embaixo: José Humberto Silveira, Marilene Justino, Daniel, Marluce Justino e Ronaldo Feliciano de Assis.

Eu gostaria de pedir aos meus amigos que fizeram parte desse trabalho para que registrassem logo abaixo, nos comentários, suas impressões e recordações dessa fase de nossas vidas. Um jeito de lembrar, uma forma de preservar nossa memória através de lembranças fundamentais do que fomos um dia, base do que somos agora. Pode ser que meus amigos não concordem, ou que não tenham as mesmas lembranças. Fazer o que; como diz o velho ditado, minha memória…

Entrou por uma porta
Saiu pela outra, quase nua
Quem quiser que conte a sua!

.

Boa semana para todos!

.

Duas irmãs, as primeiras

Imagine que em um dia, já perdido no tempo, recebo um telefonema de Goiânia: “- Oi, você vai ser tio!” Alguns anos transcorridos e estou em um carro rumo à UNICAMP acompanhando a mãe e o bebê, agora mocinha, levando esta para residir na cidade universitária. Este pode ser um fato que dimensiona bem minha amizade com Fátima Borges, a mãe. O tal telefonema chegou porque a amizade vinha de longe, muito longe.

Com Fafa, sempre!

Crescemos em Uberaba, no bairro Boa Vista, e nos aproximamos já na infância. Os tempos eram outros, de uma rigidez absurda determinando meninos de um lado, meninas de outro. Fátima Borges, daqui para a frente só Fafá, começou no teatro primeiro que eu, encenando as peças preparadas por uma moça chamada Isabel, a Belinha. Essa é, efetivamente, a lembrança que ficou não como a primeira, mas viva recordação de como tudo começou.

Comecei em teatro por outras vias, com minha irmã Waldênia levando-me ao TEU – Teatro Experimental de Uberaba. Eram momentos muito legais de festivais de música, de teatro, e minha irmã, começando a universidade, frequentava cineclubes, sessões de teatro. Eu acompanhava e ia tomando gosto pela coisa.

Com Waldenia, todo o tempo!

Um salto no tempo e estou com Fafá no grupo de jovens da Paróquia de Nossa Senhora das Graças. Vivíamos entre os Padres Somascos: Nicolau, Líbero, Américo, Pedro, Enzo… Italianos que nos ensinaram muitas coisas: Um deles, Líbero, gostava de propor desafios. Um desses foi que o grupo de jovens deveria realizar a quermesse, algo restrito aos mais velhos. Lembro-me ao lado de Fafá, visitando os jornais da cidade para divulgar nosso primeiro grande evento. Desse período, marcante e determinante para nossas vidas, Padre Líbero desafiou-nos a tocar violão acompanhando a missa. Vivíamos brincando de fazer barulho com o instrumento. E lá fomos nós, fazer aulas de violão e, poucos meses após, responder positivamente ao desafio do pároco.

Dei meus primeiros passos em teatro no grupo paroquial. Foi minha irmã Waldênia quem me colocou em contato com um livro de Constantin Stanislavski, o grande diretor  teatral  russo, criador do melhor método de estudo para atores. A música foi para plano secundário, um componente entre as montagens teatrais que realizei. Para Fafá, a música tornou-se fundamental e ela, já distante do nosso cotidiano, foi cantar na noite de Goiânia. Enquanto minha amiga cantava em bares e eventos, da capital goiana e região, passei a residir em São Paulo e comecei a trabalhar por aqui.

Será que ela sabe que eu guardo o panfleto?

Na minha bagagem para São Paulo, aprendidos com Waldênia, trouxe os versos de Fernando Pessoa, romances de Fernando Sabino e Autran Dourado e outros livros de Stanislavski. Foi uma boa base para enfrentar a vida. Outro tanto de tempo, convidado pela produtora Sonia Kavantan, montei uma peça infanto-juvenil, “A História de Lampião Jr e Maria Bonitinha”, texto de Januária Cristina Alves. Nessa peça voltava a trabalhar com Fafá, chegando de Goiânia para morar em Santo André, no ABC. O teatro da infância, a música na juventude; Fafá interpretou e cantou, lindamente, sob minha direção.

No presente Waldênia ensina-me outras coisas que ela aprendeu sendo mãe, agora avó. Gostaria de ser tranquilo como ela, de manter frieza em situações complicadas e de saber deixar de lado quem não vale nossas preocupações. Ainda aprenderei. Com Fafá a amizade continua, com uma cumplicidade que não tem tamanho e com um afeto cada vez mais sólido. Cada um no seu canto, sempre juntos. Concretamente juntos também no trabalho: Fátima Borges é a revisora do nosso livro “UM PROFISSIONAL PARA 2020”.

Família que minha irmã formou. Os filhos lindos puxaram “Eulindo”

Deus me deu três irmãs de sangue que amo muito. Únicas em personalidade, em modo de ser e viver. E também fui abençoado com grandes amizades. Tenho mais de uma dezena de melhores amigas. Melhores sim, todas elas; no mais puro sentido do que seja melhor. Não há escala de importância. Há um imensurável amor. No entanto, tudo tem um começo. Waldênia é a primeira lá de casa, a primogênita. Fafá é a primeira grande amiga na minha vida. As duas são aniversariantes neste 15 de setembro. Duas mulheres, irmãs que a vida me deu. Feliz aniversário, meninas!

.

Até mais!

.