Habituada, a vizinhança ignora o ser estranho em que ele se tornou. Convive com o jeito robótico de andar, os pés mal se elevando do chão e raspando pesado como um avião descendo sem rodas. Monótono e em ritmo regular ele caminha sem olhar para a frente, para os lados, ignorando o mundo à sua volta. O olhar permanece fixo a um ou dois metros à frente. Se visualiza algum empecilho contorna, à vista do final da calçada para, e só então olha instintiva e rapidamente para os lados antes de atravessar.
Bermudas e camisetas pretas, meias e tênis da mesma cor sugerem uniforme. Resquícios do que foi um dia ele recusa qualquer outra cor, principalmente o verde. Já ouviram-no vociferar contra o Palmeiras e aclamar o Corinthians. Não consta que levante a cabeça para ver os jogos de futebol pela televisão; assiste as partidas pela pequena tela de um aparelho celular sem outra serventia, exceto sintonizar o canal local. Durante os jogos permanece estático, olhar fixo sem manifestar grandes reações quando perde ou vence o time do coração. Apenas levanta ligeiramente o braço na hora do gol. Nada mais.
Ele faz caminhadas matutinas e vespertinas. O suor corre livremente pelo rosto, pelos braços manchando a camiseta, a bermuda. Sugere excessos, falta de higiene e talvez seja esse mais um dos motivos para que o ignorem. Houve um curto período em que puxava um cãozinho vira-lata pela coleira. Serviu de admiração para as pessoas notarem que em breve o animal caminhava no mesmo ritmo, as passadas espelhadas no andar do dono. Quando aguardavam passagem nas esquinas o cãozinho permanecia também imóvel e de cabeça baixa.
Durou pouco. O ser andando cabisbaixo puxando o cão que, por imitar o tutor, não percebeu o ciclista e morreu atropelado. O homem sentou-se no passeio e chorou copiosamente por horas. Não dava atenção a quem passava e nem mesmo falou com os policiais que pararam ao ver a situação inusitada. Ao insistirem para tirá-lo do local ele resistia e chorava mais alto, desesperado. A situação só se resolveu quando um vizinho passou e o identificou, orientando os policiais sobre o endereço dos familiares.
O pequeno grupo de curiosos ao redor do homem e do cachorrinho morto se calou com a chegada de uma mulher, altiva, séria, ignorando totalmente os olhares dos presentes. “Adriano, levante-se! Pegue seu cachorro e vamos para casa”. Ele atendeu prontamente e, de pé, seguiu na mesma toada, na mesma postura. A mãe foi sem olhar para trás certa de ser obedecida. Só quando chegaram ao portão de onde moram ela se manifestou. “Não entre com esse cachorro morto dentro de casa. Fique aqui que vou buscar o saco de lixo. Já liguei para uma empresa, virão buscar e dar um fim nisso”. Ele intensificou o choro. Ela concluiu: “Você é um homem. Para de chorar”. Ele obedeceu.
Tudo continuaria como dantes no quartel de Abrantes se não entrasse o Bento na vida de Adriano. Seu Bento, como é conhecido o dono da pequena frutaria que se estabeleceu no quarteirão adjacente à moradia do rapaz. Dono de simpatia profissional, carecendo de garantir freguesia, Bento cumprimenta alegremente aos passantes, insistindo mesmo aos taciturnos, aos mal-humorados ou apressados. Comenta o dia, a roupa, o sol ou a chuva e quando bem recebido já emenda: “Esse sol pede um suco de caju, venha ver como estão bonitos”. Fez muito conhecidos e até amigos, incluindo nesses Adriano.
Nada fazia com que o rapaz respondesse às investidas de Bento. Bom dia, ou boa tarde eram tão ignorados quanto um “que sol gostoso”, ou “que chuva chata!”. Sábio comerciante, Bento evitava perguntar aos amigos já feitos sobre o estranho rapaz. Ninguém gosta de bisbilhotice, de fofoca. Há que se respeitar as diferenças, sem refrear a curiosidade. O meio de atingir o rapaz era tão óbvio que Bento assumiu-se momentaneamente burro antes de soltar o primeiro “Fala, corintiano!”.
Adriano alterou visivelmente o passo, voltando rapidamente ao ritmo de sempre com o primeiro cumprimento. Isso não passou desapercebido a Bento que, dia seguinte, durante a passagem do rapaz soltou um “Vai, Corinthians!”. Certamente o rapaz ouviu, pois parou por dois, três segundos antes de continuar a caminhar. Bento resolveu apelar para métodos visuais. Dia seguinte, quarta-feira, vestiu a camisa do time para trabalhar. Quando Adriano se aproximou Bento foi direto ao ponto: “De quanto vamos ganhar hoje?”.
Aos sessenta e quatro anos, quarenta de frutaria, Bento estava habituado aos olhares de fregueses, de transeuntes. Vindo lá do sudeste do Piauí, passou por temporada no Rio de Janeiro antes de uma mudança para São Paulo e a mais recente, para Santos. Sabia distinguir os interessados em seus produtos, os mal-amados em eterna indisposição. Aprendera a quem oferecer algo à mais, e aos que podia insistir mesmo que estivessem com as mãos carregadas de sacolas. Não era de criança gulosa nem de trabalhador cansado o olhar que Adriano lhe dirigiu. Não era um olhar simpático, nem antipático e, só mesmo uma percepção aguçada notaria algo além da mera indiferença. Um mínimo de curiosidade estava naquele olhar aparentemente opaco, sem vida. Era o olhar de quem encontrara um ser humano.
Adriano parou ao ouvir a pergunta do vizinho. Demorou alguns instantes para roboticamente virar-se, a cabeça baixa, fixa na posição costumeira. Levantando a cabeça vagarosamente olhou para seu interlocutor como se há muito tempo não visse ninguém. Viu o homem moreno diferente do que se lembrava do pai, dos tios, todos muito brancos, cabelos loiros ou grisalhos. Percebeu o sorriso tranquilo e recordou o jeito simpático de um antigo professor. Sorriu ao ver a camiseta preta e branca, o distintivo do time amado. Com dificuldade balbuciou, dando ao outro a certeza de que falar era algo raro para o rapaz. “2 a zero tá bom!”.
Sem mudanças drásticas. Foi apenas o começo de uma amizade. Adriano continua o mesmo, caminhando duas vezes pelas ruas do entorno de sua casa. Quando chove não caminha, mas vai até a frutaria de Bento, parada obrigatória de todos os dias. Ao chegar conversa alegre e fluentemente com o amigo. Prioritariamente falam de futebol. Volta e meia surge um ou outro tema qualquer. Conversam sobre tudo e às vezes até uma terceira pessoa entra no assunto. Adriano é simpático e atencioso. Bento, sempre sorridente, gosta de oferecer frutas verdes ao amigo que, tenaz, recusa veementemente. Só aceita maçã, tomate, laranjas maduras, uvas. Nada verde, nunca! Ele é fiel às cores do seu time. No bairro, Adriano deixou de ser o estranho. Ele é o amigo de Bento. São corintianos, do time “mais brasileiro”.
Santos, verão de 2025.
Nota: Imagem criada com IA.










