Maçã matutina ao desvario: Uma receita

Esta maçã já era!

Linda, suculenta, desejável, cheirosa, apetitosa… e por aí vai. E dá-lhe dentadas. Várias. E toca a mastigar uma, duas, trinta vezes para que a casca seja triturada. O pensamento voa para a primeira vez que vi a Branca de Neve. Não é bom aceitar coisas de estranhos, ensina a história infantil. Maçãs podem estar envenenadas. Com os tais agrotóxicos, quase todas estão envenenadas! Saudade do quintal da minha tia Isaura. Havia uma macieira e ela não usava nada além de água para nos garantir frutas deliciosas.

Branca de Neve vivia com 7 anões (danada!) e após comer a maçã ganhou um príncipe de brinde. Abriram-se as portas do prazer para a mocinha, que seguiu os caminhos de Eva. Dá para imaginar o planeta sem a mordida dada por Eva? Recordo uma cena muda no cinema. Imagens belíssimas, casal bonito andando entre folhas escondendo as partes e, de repente, aparece a serpente. Eva aceita, dá – a maçã – para o Adão e… Vento, calor, frio, dor e prazer. O filme não mostra o casal descobrindo o como se faz indo direto para os filhos. Seriam esses o real castigo divino? “Não diga isso, meu filho”, diria minha mãe, “filhos são bençãos”.

Tenho preguiça de comer maçã. Demora muito e tem um quê de enganar trouxa. A gente para na fruta, não comendo mais nada, cansado de mastigar. Pensa estar saciado, mas não dura muito para que a fome venha, feroz, exigindo “arroz com feijão e um torresmo à milanesa”, para lembrar Adoniran Barbosa e sua música que, certeira e atual, informa a realidade de muitos: “Trouxe ovo frito, trouxe ovo frito” diz o Dito do samba. Certamente não há maçãs de sobremesa nas marmitas desses operários. Também, demorando tanto para mastigar… melhor algo que se coma mais rápido, para logo “puxar a paia” após o almoço.

Os Stollens, cuja receita não vai maçã, e Rita, que faz apfestrudell e outras delícias.

Maçã é fruta cheia de coisas. Quer dizer, uma maçã é só uma maçã. O que estou pensando após o almoço do parágrafo anterior é que torta de laranja é torta de laranja. Já a torta de maçã é apfelstrudell e, segundo consta, a receita vem da Áustria. Rita Della Rocca, minha amiga, faz essas coisas austríacas tipo stollen, que é um panetone austríaco e, segundo o deus google, a receita vem de Dresden. Vou deixar aqui um link para a página do Instagram da Rita que é artista plástica, cenógrafa, professora trabalhando com eco design e cozinha de família.

Último naco da minha maçã que, agora, só existe na foto, na lembrança e temporariamente no meu estômago…

Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais…

Adoro essa canção. É do Raul Seixas em parceria com o Paulo Coelho e, embora duvide da igualdade das maçãs e acreditar firmemente “que além de dois existem mais” espero ainda nesta encarnação poder viver, na real, os versos:

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro mas eu vou te libertar…

Maçã é uma fruta demorada para se comer. Não é bom para cafés da manhã de quem está em cima da hora para ir ao trabalho. Maçã é bom para Branca de Neve fazer apfelstrudell para a felicidade dos anões mineiros, antes de saírem buscando seus diamantes. Também é uma fruta boa para despertar Adões distraídos. “Venha cá, Adão! Experimente minha maçã!” sem esquecer de um bom preservativo ou outro anticoncepcional… Enfim, maçã é boa para Euzinho, cheio das manhãs preguiçosas, podendo degustar vagarosamente enquanto vou pensando e matutando sobre esse texto que, para finalizar, deseja boas maçãs para todos e envia um beijo especial para Rita, a Della Rocca.

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Notas:

– Torresmo à milanesa, primeira canção citada acima, é de Adoniran Barbosa e Carlinhos Vergueiro. Os autores fizeram uma gravação inesquecível, com participação mais que especial de Clementina de Jesus.

– A maçã, de Raul Seixas e Paulo Coelho foi gravada algumas vezes. Em enquete totalmente pessoal e com participação exclusiva do autor deste blog, a melhor interpretação é a de Ney Matogrosso.

– Visitem o link da Rita Della Rocca e entrem em contato com a artista para encomendas. Super recomendo!

Raul Seixas, com deus e o lobisomem

(“Raul: O início, o fim e o meio” é um documentário que estréia na próxima sexta-feira, dia 23. Esta será uma semana de muitas lembranças do compositor. Abaixo, recordo alguns momentos entremeados com a música do “Maluco Beleza”) 

Eu já estava em São Paulo, em 1982. Em pleno vapor, cantando em botecos e trabalhando um disco independente (Pois é; gravei um compacto. Os mais jovens terão dificuldades em saber o que é um compacto simples…). Estava muito distante de Raul Seixas no pensamento e no trabalho musical que eu então desenvolvia.

Veio, em maio daquele ano, a notícia da prisão. Sem documentos, acharam que o Raul Seixas que se apresentou em um show, em CaieirasSão Paulo, não era o próprio. Foi preso e espancado como impostor. Impostor de si mesmo…

...Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor…(1)

E lá naquela época, como agora, recordo alguns fatos da vida do Raul, que permearam a vida musical tupiniquim: Gostaria de ter participado de uma passeata, com o próprio, cantando “Ouro De Tolo” pelas ruas da cidade. Ele fez isso no Rio De Janeiro e eu estava em Minas Gerais. Mas essa passeata não seria nada impertinente ainda hoje, pela Rua Boa Vista, ou pelas Avenidas Paulista, Faria Lima e similares, aqui em São Paulo…

…E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social… (2)

Raul Seixas, penso eu, viveu inconformado. Entre seus sonhos, seu ideal de mundo, sua vertente musical e a realidade mercadológica, urbana e mesquinha de um país sob domínio ditatorial e, depois, durante o longo processo de abertura política. E inconformado, como ele incomodou!

…Faze que tu queres
Pois é tudo
Da Lei! Da Lei!
Viva! Viva!
Viva A Sociedade Alternativa… (3)

O cara escreveu muito, atuou em diferentes áreas. Em 1973 brigava pelos Direitos Humanos e no ano seguinte foi exilado, após a Polícia Federal recolher e queimar seus manifestos. Voltou rápido, e não menos desafiador mandando seus recados para todos os lados:

Enquanto você
Se esforça pra ser
Um sujeito normal
E fazer tudo igual… (4)

Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar… (5)

Sua carreira, com altos e baixos, deixou uma obra que clarifica um sujeito, um ser humano. Acredito que o melhor que um grande artista pode fazer por nós é deixar-nos rumos, alento. E Raul Seixas estará conosco por muito tempo ainda, porque nos enviou entre tantos recados especiais, este, que acalenta todos que vivem momentos de crise:

Veja!
Não diga que a canção
Está perdida
Tenha em fé em Deus
Tenha fé na vida
Tente outra vez!…
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Beba! (Beba!)
Pois a água viva
Ainda tá na fonte
(Tente outra vez!)
Você tem dois pés
Para cruzar a ponte
Nada acabou!
Não! Não! Não!… (6)

É isso aí, Raul Seixas ou Raulzito! Carimbador Maluco ou Maluco Beleza, o cara deixou bem claro que, em toda a sua vida…

…Raul Seixas e Raulzito 
Sempre foram o mesmo homem
Mas pra aprender o jogo dos ratos
Transou com Deus e com o lobisomem… (7)

Se Raul Seixas quem disse, quem somos nós para contestar? O cara foi a mosca na nossa sopa. Não veio para concluir nada. Veio para ser o “o início, o fim, e o meio”!

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Até!

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NOTAS: (1) METAMORFOSE AMBULANTE, Paulo Coelho/Raul Seixas; (2) OURO DE TOLO, Raul Seixas; (3) SOCIEDADE ALTERNATIVA, Paulo Coelho/Raul Seixas; (4) MALUCO BELEZA, Raul Seixas/Claudio Roberto; (5) GITA, Raul Seixas/Paulo Coelho; (6) TENTE OUTRA VEZ, Raul Seixas/Marcelo Motta/Paulo Coelho; (7) AS AVENTURAS DE RAUL SEIXAS NA CIDADE DE THOR, Raul Seixas. Texto originalmente publicado no Papolog em 27.08.2008.