O que ele aprendeu desde muito cedo é que não é fácil entender algumas mulheres. Irmãs, primas, amigas, colegas, cada uma tinha um jeito de ser e, vez em quando, mudanças de humor que ele demorou para compreender. Nunca sabia ao certo o que elas queriam! O certo é que, tímido, buscou “ficar na sua”, como dizem por aí. Essa postura acabou por torná-lo um garoto solitário, adolescente taciturno e fechado. Sem turminha da rua, da escola, do trabalho.
Foi uma vizinha que descobriu o potencial do jovem sempre fechado, mas aberto ao amor e ao sexo, não necessariamente nessa ordem. Distante em reuniões, era após as refeições, ou durante festinhas que Afrânio se entusiasmava com doces e sobremesas. Numa dessas ocasiões, quando já adepto de natação e de longas corridas matinais, as coxas do rapaz chamaram a atenção da vizinha já adulta e fogosa. Entre as pernas grossas do moço havia sugestão de algo a mais e a vizinha, vendo o entusiasmo dele por doces durante um aniversário, se aproximou decidida: “Você gosta de panacota, Afrânio? Tenho uma deliciosa” E piscou apenas com o olhar esquerdo.
Falsa loira de cabeleira farta e seios volumosos, Afrânio não entendeu a busca de intimidade e isolamento contida no convite da vizinha Marlene que, rápida no gatilho, percebeu a virgindade do moço no olhar, no gaguejar e em uma inequívoca ereção quando sentiu o braço dela roçando-lhe as pernas. Ela resolveu insistir: Minha panacota é doce, suave, boa de ser comida va-ga-ro-sa-men-te! Antes da última sílaba piscou novamente o olho, abrindo um sorriso que mesmo o virgem Afrânio entendeu. Marlene marcou a tarde do dia seguinte para que ele experimentasse a iguaria.
Ao voltar desse primeiro encontro, já proprietário da panacota da vizinha, um alegre e viril Afrânio foi procurar em livros, revistas e dicionários o significado de panacota. Devia ser uma novidade no universo do sexo, já que não encontrou o doce entre as múltiplas denominações para a vagina. Ele, de cara, preferiu panacota à xoxota. Sem nenhum texto, nenhuma referência à iguaria que acabara de experimentar, entendeu o motivo de Marlene ter sido enfática ao murmurar em seu ouvido: “Minha panacota é única e você jamais irá esquecê-la”.
Décadas passadas, Afrânio já é homem solitário, divorciado e sem filhos. Mantém-se distante das redes sociais e só busca a internet quando muito necessário. Continua nadando, correndo nos finais de semana e, vez ou outra frequenta um conhecido bar onde, eventualmente, conhece mulheres como ele, dispostas à encontros intensos, mas sem maiores envolvimentos. O amante ideal para interessadas em momentos furtivos. Homens como ele não contam vantagens em grupos de amigos, tornando-se até mesmo indiscretos e, por isso, dispensáveis.
Analista de dados, sempre fechado às voltas com documentos, arquivos, contas, riscos, processos, foi durante um almoço comum de quarta-feira, na fila do caixa do restaurante que Afrânio ouviu uma confidência entre duas moças, uma morena espetacular, dizendo para a amiga: “Hoje vou experimentar minha perereca de dentes!”
Ele percebeu no primeiro minuto a semelhança entre a moça ali, bem perto de si, e Marlene, a antiga vizinha dona da inesquecível panacota. Afrânio sentiu-se novamente menino, sem conter a incômoda e inesperada ereção bem ali, na fila do caixa, imaginando como seria uma perereca de dentes. Consultou o próprio relógio e viu que ainda dava tempo para uma tentativa de aproximação. Pediu licença, se apresentou e convidou as duas para um café ali, agora. “Para que esperar?”. Sua postura evidenciou interesse inequívoco em Tereza. A amiga se foi deixando que os dois se conhecessem.
Afrânio foi direto. Estava diante de uma mulher bonita, interessante e, esperava, livre! Ela confirmou estar só. Ele continuou: Ela era por demais interessante, fizera-o voltar no tempo, nas primeiras paixões e gostaria muito de poder intensificar esse encontro e ir além. Tereza ficou assustada com a pressa, o repentino interesse de um cara que nunca havia visto. Refreou as intenções do homem com firmeza e foi direta ao ponto: “Somos adultos, Afrânio. Vá devagar e diga exatamente o que você quer de mim!” E ele, sem a menor possibilidade de conseguir se conter murmurou, cheio de tesão: “Eu quero a sua perereca de dentes!”.
O café parou para observar a gargalhada imensa da mulher. Quando conseguiu refrear o riso, Tereza desancou com Afrânio: “Já vi muita tara, por aí, meu caro! Como escreveu Caetano, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, mas tudo tem medida!”. O homem sabia que havia feito algo errado. Lembrou-se da infância, da dificuldade em entender algumas mulheres. Queria que ela falasse baixo, que parasse de rir, os presentes no café olhando, rindo e gargalhando ainda mais quando ela elevou a voz: “Porra, meu caro, o que você quer fazer com a minha perereca de dentes?”
Tereza saiu e deixou Afrânio só, enfrentando os olhares dos presentes. O garçom veio com a conta e, voz baixa, com cumplicidade duvidosa informou: “Eu também tenho perereca de dentes. Podemos combinar alguma coisa, se você quiser!” Afrânio deixou o dinheiro sobre a mesa e saiu, direto para o escritório onde poderia engolir a raiva e digerir a frustração. Abriu o computador, entrou na internet à procura de uma perereca dentada. Viu fotos precisas de próteses de resina, meias dentaduras a preços módicos. Desligou o aparelho e ficou sonhando com Marlene, com a doce e suave panacota e amaldiçoando todas as pererecas de dente do planeta.
