Traga a bacia, D. Maria!

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Vendedora de Pão de ló – Debret 

Depois dos rituais de final de ano está na hora de continuar.  Tudo recomeça com algumas atividades similares para quase todo mundo: Guardar presépio, encaixotar guirlandas, desmontar árvores e… Correr atrás de exercícios e refeições leves para recuperar o que sobrou do próprio corpo. Penso ser necessário, sempre, também exercitar a fé e a esperança já que a coisa não anda fácil.

A quantidade absurda de mortos em penitenciárias e um simulacro de prefeito varrendo ruas dá bem a medida da encrenca em que continuamos metidos. Se somarmos os problemas de todos aos que carregamos individualmente a coisa pesa ainda mais. Recordo uma tirinha do Quino, com Mafalda questionando as mudanças após a passagem de ano. Se for pra continuar na mesma, para que mudar?

 

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Mafalda, de Quino. Sempre atual.

Milhares de paulistanos em férias deixam a cidade mais tranquila, não menos barulhenta. O calor não é o bastante pra me tirar cedo da cama, mas os vendedores ambulantes… Esses mostram sua força. Os entregadores de gás, sem música, batem um botijão no outro, entre as pernas, enquanto fazem o trajeto do caminhão até ao consumidor do momento. O som é interessante, cadenciado, mas quebrado abruptamente quando jogam o objeto dentro do caminhão. É movimento rápido, os entregadores são ágeis.

Olho o relógio, viro para o lado oposto e penso em cochilar. A rua, normalmente com trânsito intenso, está sem as buzinas e o vozerio dos motoristas de taxi do ponto que há na esquina próxima. Evito o celular pra não me distrair e poder dormir mais um pouquinho quando a voz característica que já vendeu “Pamonhas, pamonhas, pamonhas fresquinhas de Piracicaba” ressoa com todo vigor: “Quatro caixas de morango, por 10 reais. Quatro! Quatro caixas de morangos fresquinhos por 10 reais! Traga a bacia, Dona Maria”.

A cantilena é interminável. O homem anuncia que irá ficar parado na esquina e insiste pela Dona Maria para encher a bacia com os morangos fresquinhos. Fosse um sábado normal, desses entre semanas de trabalho insano, eu surtaria de ódio e refrearia instintos assassinos, sonhos de posse de napalm, olhar de raio laser… Descansado, continuo na cama, disposto a continuar deitado mais um pouquinho, refreando a irritação pela mensagem agressiva, importunando a vizinhança. O marmanjo não poderia suavizar seu recado? Recordações foram inevitáveis.

Em Uberaba, quando criança, vários carrinhos de picolé percorriam as ruas do bairro. Tinham um apito suave, parecido com gaita desafinada. Bastava ouvir pra gente correr a pedir dinheiro pra mãe. O som do apito definia a sorveteria de origem; era muito bom! Em outro momento, outra “gordice”, anunciada com uma leve batida em um triangulo de metal; outro vendedor, outra guloseima, era antecedido pelo som de matraca, provocando correria do quintal para a rua, da rua para a bolsa da mãe, a volta para a rua e, enfim, o silêncio das crianças tornado possível por bocas temporariamente cheias.

“Traga a bacia, Dona Maria!”. O vendedor exagera na quantidade da fala, na repetição indigesta. Entre o passado e o presente permaneço serenado. O ano está começando! Os morangos fresquinhos ajudarão na refeição leve que se faz necessária. Eu, pessoalmente, adoraria ter como única perturbação esses trabalhadores do cotidiano, caminhando por nossas ruas desde os tempos coloniais e, desde sempre, batalhadores pelo direito de viver. Infelizmente, o que torna negro o horizonte são as notícias de penitenciárias, de políticos ordinários… Apenas dois exemplos de uma batelada tenebrosa que temos para enfrentar e conviver nesse 2017.

Até mais!

Presépios, para um Natal feliz

 

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Ronaldo, Inimar, Marquito são os anjos. Anivaldo e Terezinha, os pais. Daniel, o menino Jesus.

Neste, como em muitos anos repete-se o ritual. O natal se torna visível nas diversas manifestações imateriais como folias, cantatas, missas ou através de elementos materiais: guirlandas,  árvores, ou um presépio… Eu gosto de presépio tanto quanto gosto de quem o criou, São Francisco de Assis; o Santo queria representar as condições do nascimento do menino Jesus.

O presépio mais encantador da minha infância foi, sem dúvida, um que foi construído pelo “Senhor Fumaça”, um artesão de mão cheia que, durante o dia, trabalhando em uma cerâmica, lá mesmo, aproveitando-se de sobras de materiais e do forno local, criou toda uma representação de Belém.  A sala na casa de D. Castorina era toda ocupada pelo presépio criado pelo marido (Essa casa, antes ocupada por meus pais, foi onde nasci!).

Presépio bem tradicional, aquele era composto por imensa gruta e, dentro desta, cabanas, palacetes, casas de diferentes tipos, todas em cerâmica. Estrelas, luzes coloridas. Animais domésticos, selvagens. Grupos de viajantes, caravanas e, entre essas, aquela que conduzia os magos para visitar o Salvador prometido. Das pequenas traquitanas criadas pelo “Senhor Fumaça” é nítida a lembrança de um monjolo que, abastecido por pingos de água exercia sua função de moagem de grãos. Crianças, entre uma brincadeira e outra, corríamos céleres em intervalos de tempo precisos para ver o objeto em movimento.

Jovem, atuante na mesma paróquia do Bairro Boa Vista, e já envolvido com teatro, chegou a minha vez de conduzir uma representação; um presépio vivo de lembrança muito especial. Na foto acima meu irmão caçula, Daniel, com cerca de nove meses de vida, foi o menino Jesus sobre a manjedoura. José e Maria (Anivaldo e Terezinha) cuidam da criança, protegidos por três jovens anjos (Ronaldo, Inimar e Marquito).  Nada de excepcional, exceto a lembrança de um momento nosso; feito com seriedade, reverência e, certamente, fé.

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Não sei há quanto tempo monto o presépio em minha casa. Gosto de realizar pequenas mudanças, alterar a composição da montagem e assim, em cada ano, fica diferente e sempre igual. Meu presépio tem, fundamentalmente, a função de me conduzir aos primeiros natais com minha família, ou na casa da Tia Olinda, em Ribeirão Preto, ou ainda na casa de meus avós, em Campinas. Ato familiar, as comemorações de natal reforçam minha fé no novo, naquilo que devo percorrer mesmo com perdas dolorosas pelo caminho. Meu lastro são as lembranças, reforçadas e reconstruídas em cada dezembro.

Feliz Natal pra todos!

Noites de encantamento

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Natal da Paulista em 2011, já alimentando sonhos

Já são tempos distantes e há certa dificuldade em precisar detalhes, acertar datas, ordenar acontecimentos. São lembranças acumuladas na caixa dos “primeiros natais” que emergem quando chega dezembro. Não sinto nostalgia; guardo a impressão de não ter aproveitado o bastante por não ter tido, então, a possibilidade de perceber o quanto foi bom. Talvez, esse “bom” seja uma mera cilada do tempo…

Houve uma época em que a Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, lá em Uberaba, era só uma pequena capela sob os cuidados dos frades dominicanos. Não consigo recordar nome de nenhum padre de então… Após uma pequena pausa vem um nome, Frei Alberto Chambert, mas é só um nome do qual não me recordo o rosto. Tenho certeza é do estranhamento quanto à expressão “Missa do Galo” e de não ter a menor ideia do que seria um “presépio vivo”.

Era noite alta quando saímos para a capela e em um determinado momento da missa, onde não vi nenhum galo, apareceu um casal com roupa estranha, carregando uma criança. Um grupo de crianças aglomerou-se observando o casal. Minhas duas irmãs mais velhas estavam nesse grupo; com panos na cabeça, saias coloridas. Meu irmão e um vizinho estavam carregando pedaços de madeira e estavam com bonés. Pastoras, pastores, o menino Jesus, os Reis Magos…

Provavelmente foi Belinha a organizadora desse primeiro “presépio vivo” do qual me recordo vagamente. Ela foi desde sempre a responsável por momentos ternos, de suave lembrança, de tantos quantos tenham frequentado a capela, depois tornada paróquia sob o comando dos padres Somascos.

Não posso afirmar que tenha entendido toda a história narrada em meio a cantorias, sermões e preces na capela de Nossa Senhora das Graças. Sem ler a Bíblia, dominei detalhes da história do sagrado menino da mesma forma em que milhares de outros cristãos conheceram: através do artesanato popular.  “Seu Fumaça” era morador do bairro e trabalhava na cerâmica da cidade.Com imensa capacidade, o homem criava pequenas casas em argila, queimadas no forno da cerâmica. Essas casinhas viravam um vilarejo chamado Belém, montado dentro da sala de estar da família.

O presépio do “Seu Fumaça” e de D. Castorina eram grande atração natalina para todos os meus irmãos e primos. Era noite quando víamos a montagem que lembrava uma grande gruta, cheia de estrelas e luzes coloridas e, sob a gruta, a cidade com suas casinhas, sua gente, os animais e uma estrebaria onde ficava a sagrada família. Ficávamos horas observando um fio d’água que movimentava um monjolo. Quando cheio, este tombava a água e isto era algo como uma grande mágica.

Eram outros tempos e as Folias de Reis cantavam noite adentro, batendo nas portas das casas e, quando convidadas, entravam com suas músicas ternas, contando sob outra forma a mesma história ouvida na capela e vista no presépio. Batidas de tambor, a melodia acentuada no som da sanfona, cadenciada nas cordas de violas e cavaquinhos. Um solista, voz grave de barítono, contava uma história, repetida e acentuada pelo coro que alongava a última silaba, em agudo intenso, emocionado, cortado pelo som forte do tambor que marcava o retorno de outro momento da mesma melodia.

Depois, meus avós já não moravam em Uberaba, começamos a passar nossos natais em Ribeirão Preto, na casa da Tia Olinda, irmã mais velha de minha mãe.  Eu ainda acreditava em Papai Noel e achava fantástico acordar e ver alguns brinquedos ao lado da minha cama.

Nos natais de minha infância também havia brinquedos. Não sei quantas horas, meses ou anos divaguei brincando com minha carruagem puxada por quatro cavalos. Era um brinquedo de plástico que imitava as conduções dos colonizadores da América. Também viajei milhares de quilômetros imaginários com minha máquina “Maria Fumaça”, que apitava e tocava sino (Um prodígio!) assim como percorri outro tanto com meu carro amarelo ouro e lutei, ao lado de replicas de soldados da Segunda Guerra. Nesta, entravam carruagens, Marias Fumaças e todos os meus outros brinquedos.

É bom lembrar natais sem relação com consumo. Tive poucos brinquedos. É por isso que, com absoluta certeza, guardo a lembrança carinhosa de cada um. Guardei todos eles e só me desfiz dos mesmos já com 20 anos. Foi quando nasceu meu irmão caçula para quem, de bom grado, doei meus brinquedos de infância.

Natal de 2013! Se hoje eu fosse criança guardaria as lembranças das noites da Avenida Paulista, com seus prédios tornados locais mágicos. Também sonharia com as luzes que enfeitam ruas; com as projeções no Parque do Ibirapuera, a grande árvore, as águas dançantes. Ficaria na memória o motivo de tudo isso através de todos os presépios espalhados pela cidade. Esse é o maior encantamento; a história de dois jovens que sem conseguir hospedagem tiveram o filho em uma pequena manjedoura: Um deus menino que nasceu em uma noite, muito distante dessas em que vivemos.

Até mais!

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Para suavizar o final de ano

Nosso presépio, em Uberaba, Minas Gerais.

Novembro entra com tudo para com quase todo mundo. Dobra o volume de trabalho para muitos profissionais . Uma tensão danada! O  trânsito enlouquece, já que todos vão às compras, aumentando o movimento da cidade. Com frequência tudo fica sob água pesada com chuvas que prenunciam um verão difícil. No meio de todo o reboliço da cidade ressaltam-se os enfeites das decorações natalinas. Nossa triste São Paulo finge ignorar a violência e veste-se de luzes coloridas que deixam as noites menos densas, um tanto poéticas.

O natal está logo ali! Aquele logo ali de mineiro, que ainda demora pra chegar. Algumas árvores iluminadas, alguns estabelecimentos comerciais decorados e, por que não, a casa da gente? Gosto de natal. O tempo não me fez perder a esperança de tempos melhores. E, sem medo de ser feliz, gostaria de comprar presentes, muitos! E também gosto de ficar imaginando o que vou ganhar…

Há muito que faço questão de ter um presépio em casa. Minha forma preferida de trazer o Natal para dentro do nosso lar. As condições do nascimento de Cristo, as personagens envolvidas, a lembrança de um cenário que, por amor, estilizamos.

Acima de tudo, presépios, guirlandas, arranjos, árvores enfeitadas, quebram a dureza cotidiana e enchem nossas casas de esperança, sinalizando uma etapa cumprida, apontando para novas possibilidades.

Em Uberaba montamos nosso pequeno e singelo presépio. No meio de tanta violência, morte, julgamentos pesados, colocamos alguns sinais visuais para amenizar a vida. Modificamos o ambiente para que a sensação de esperança cresça e, se possível, aumente a nossa fé em tempos melhores.

Nosso presépio está montado; simples como um semáforo que alterna suas cores chamando-nos a atenção. O ano está acabando; o natal vem aí. Vamos preparar bons momentos!

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Até mais!

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