André Rieu contra os guardiões eruditos

O maestro popstar

Amigos de Uberaba virão a São Paulo para um show que André Rieu fará na cidade. Fiquei intrigado em saber quem estava com “essa bola toda” para trazer minhas amigas para uma noite no ginásio do Ibirapuera.  Sim, não conhecia nada sobre o cidadão. Conversando com um e outro, recordei que já vi uma cantora, parte do elenco, no programa do Jô Soares. Ainda achando estranho, soube que o maestro fará 18 shows (DEZOITO!) no Ginásio do Ibirapuera; o tamanho deste local é bem conhecido de quem assiste aos shows do programa Criança Esperança.

Descobri que André Rieu é holandês, nascido em 1949. Dirige uma orquestra com cerca de 60 integrantes – denominada Johann Strauss – criada em 1989. O primeiro CD foi lançado em 1994 (Strauss & Co.), alcançando sucesso mundial. Olhando para aspectos da biografia do artista – filho de maestro, começou estudando violino aos cinco anos – parece algo comum; e o grande sucesso de público, dizem, deve-se aos concertos com cenários luxuosos, figurinos de época e muita descontração do maestro juntamente com seus músicos. O repertório – basicamente assentado nas populares valsas de Johann Strauss e de outros compositores vienenses.

Outras descobertas: o maestro é bastante odiado por alguns críticos e o adjetivo mais suave que dão ao holandês é “picareta”. Não vou citar nominalmente esses críticos, principalmente porque em textos muito nervosos deixam transparecer um fato perturbador: André Rieu não faz o que eles querem que o maestro faça. Simples assim.

Pessoas do universo da chamada “música erudita”, ou “música clássica”, costumam ser muito rígidos. Tomam a música quase que como religião e com frequência – já tive várias oportunidades de presenciar – vão a concertos não para apreciar, mas para ver se o músico está “fazendo direito”. Isso implica em seguir as partituras originais com maior seriedade do que religiosos seguem a Bíblia. Concertos, como certos atos religiosos, acontecem no mais absoluto silêncio, em atitude reverente de ambas as partes, artistas e platéia.

Carmen Monarcha, de Belém do Pará, é solista na orquestra de Rieu

É bom que saibam que aprecio concertos. Gosto de ouvir instrumentos sendo afinados; aprecio profundamente o respeito com que se reverencia o maestro, os solistas e estou entre aqueles que não toleram ruídos desagradáveis durante uma apresentação de música erudita. Nem tudo precisa ser “na palma da mão” e algumas árias merecem absoluto silêncio até o último acorde. Aliás, também tenho a mesma postura ao ouvir certos intérpretes como Milton Nascimento, por exemplo. Não quero ouvir quem quer que seja berrando na mesa ao lado; quero a voz límpida e emocionante do grande cantor e compositor.

Gente como André Rieu dispensa a sisudez do músico erudito para deitar e rolar no universo pop. O maestro se diz popstar, gosta da idéia e alimenta seu público com atitudes simpáticas; por exemplo, sempre canta uma canção do país onde se apresenta e a grande dúvida de alguns amigos, ingresso garantido para as apresentações brasileiras é se ele irá cantar Villa-Lobos ou Tom Jobim. Pode ser Carlos Gomes, afirma animada uma grande amiga.

O maestro é irreverente, brinca com seu público e, este, dança e canta com emocionada e esfuziante participação. André Rieu diz que “O importante é você deixar falar seu coração”; isso, a gente sabe, é um risco danado, porque coração exagera, derrama, exaspera; tomadas pelo coração as pessoas desatinam. Para desespero dos críticos eruditos, essas apaixonadas platéias desafinam, perdem compasso, atravessam, erram tudo e… são felizes! E quem pode impedir alguém de ser feliz?

As pessoas são felizes e alguns críticos estão falando mal delas, do público de André Rieu, com cada adjetivo! Aí, não dá! O pior crítico é aquele que determina o que o artista deve fazer. Se os artistas seguissem tais críticos, teríamos ido além das pinturas rupestres? Artista faz o quer; se o crítico ainda não aprendeu isso, vai ficar rosnando sozinho no canto, no máximo com o apoio de “artistas” que não vão além de um concerto, quanto mais de dezoito! E até onde os registros permitem confirmação, esses críticos não são guardiões da obra de compositores que não criaram para deuses, mas para seres humanos. Todavia, irão chiar muito; enquanto isso, amigos de Uberaba, de Santo André, de Goiânia e milhares de outras pessoas que não conheço lotarão o Ibirapuera. Que tenham um bom espetáculo!

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Bom final de semana.

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O último trem

Vivemos um momento histórico fantástico, onde a Internet promove encontros, aproxima pessoas. Faz pouco tempo, publiquei aqui um texto que já havia postado em meu blog anterior. Com o título  “Um garçom, um trem, um gavião“, recordei as viagens de trem, quando criança, com minha família. O que levou-me a tais recordações foi uma entrevista no Programa do Jô, com um garçom que trabalhou na Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. O senhor entrevistado foi um dos possíveis autores da façanha; trechos do que escrevi:

“Entre as estações de Ituverava e Canindé, outras vezes, na região de Aguaí, um gavião acompanhava o trem. Um garçom ficava com um pedaço de carne espetado em um garfo, esticando o braço para fora do trem, até que o pássaro conseguisse pegar a refeição.

… Chegava no trecho habitado pela ave, o trem diminuía a velocidade e todo mundo corria para as janelas. A linha tinha muitas curvas e corríamos de um lado para o outro do vagão para presenciar o acontecimento. Foram anos com isso ocorrendo e houve momentos em que dois pássaros – pai e filho? – acompanhavam o trem. Há registros desse fato até 1977 e, repito, perderam-se os fatos de como tudo começou”.

Gilberto Mussio, que ainda não conheço pessoalmente, é de Jaú, no Estado de São Paulo e leu minha publicação e comentou ter comprado de um fotógrafo uma foto, feita para um documentário e, nas memórias de Gilberto, o fato ocorria em Ipeuna. Voltando ao local, ele não encontrou a estação e acredita que o fotógrafo tenha se equivocado com o nome do lugar.

Caro Gilberto, posso afirmar que ele errou. Ipeuna não consta entre as estações, ou postos, da tronco ferroviário que liga Ribeirão Preto a Uberaba. A história da Mogiana é parte da história de minha família. Meu avô paterno, José dos Santos Vinagreiro,  trabalhou na estrada de ferro durante quarenta e cinco anos. Outros tios, muito queridos, tiveram a Mogiana como único emprego e até hoje, tenho primos que trabalham por lá. Esse “por lá” implica em uma vasta gama de ramais que ligam Ribeirão Preto a Franca, no Estado de São Paulo e estas a minha Uberaba, e a Araguari, ambas em Minas Gerais.

Quem terá outras imagens desse momento?

Fiquei emocionado ao receber a foto enviada por Gilberto Mussio e pedi autorização para dividi-la com os que leem esse blog, com meus amigos e familiares que têm muito de suas vidas e lembranças ligadas à velha e querida Mogiana. Atualmente, nas linhas entre Ribeirão Preto e Uberaba só trafegam trens de carga. Recordo-me ainda de quando anunciaram o fim dos trens de passageiros. Foi lamentável pelo descaso com um meio de transporte eficaz, barato e seguro, presente no mundo inteiro, mas que no Brasil foi esmagado pelo interesse de montadoras e de políticos interessados em receber benefícios advindos da indústria automobilística.

Como relatei anteriormente, e tive o prazer de constatar, vi  (e sendo criança, não tenho a menor condição de precisar a data) um gavião acompanhado por um filhote buscando a carne oferecida pelo garçom. E agora, fiquei pensando no último trem, em todas as pessoas que deixaram de ter uma condução confortável para suas viagens, e em um gavião perdido no tempo, sobrevoando a linha, esperando um trem que não voltou a passar.

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Grato, Gilberto, pela foto. Bom final de semana para todos!

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Um garçom, um trem, um gavião

A primeira estação que conheci

Das memórias de infância tenho como preciosas as viagens de trem, freqüentes, que fazíamos de Uberaba a Campinas, com eventuais paradas em Ribeirão Preto. Era mais confortável e – lembro-me bem – não foi difícil viajar com o tronco envolto em gesso por um problema de coluna na adolescência. Podia andar entre um vagão e outro, passando pela primeira classe, a segunda, o carro restaurante… As janelas eram disputadas – não, não havia ar condicionado – e além da ventilação havia a paisagem. Conheci cada cidade, cada posto em que os trens paravam.

Mal o trem saia, duas personagens apareciam. O chefe do trem, que vinha verificar as passagens, validando-as e o garçom. Esse era o que eu mais esperava. Vendia refrigerantes, sanduíches, geléias e… refeições. Podia-se ir ao carro restaurante ou comer um “PF” básico, por preços acessíveis.

Das lembranças da estrada e suas respectivas estações, algumas mereceram especial carinho do garoto que fui. Em Jaguariuna, um barzinho com balcão que dava para a plataforma, vendia mexericas em cestinhas de vime. Era quase um fetiche e aguardava a chegada da cidade, da estação, com grande ansiedade.

Atravessar o Rio Grande era ganhar o mundo

As pontes sobre os rios eram atração a parte. A do Rio Grande, que nos trazia para o Estado de São Paulo, a de Mogi-Guaçu, passando pelo rio cheio de pedras, a ponte sobre o Rio Pardo… Há sinais de tiros da Revolução de 32, na ponte do Rio Grande, e já não me recordo o nome da ponte que os revolucionários, com receio de alguma emboscada, fizeram com que meu avô atravessasse com eles, sob ameaça de morte caso algo não desse certo.

Meu avô trabalhou 45 anos na Companhia Mogiana e depois, aposentado, morou em uma casa no bairro Taquaral, em Campinas, em rua paralela à estrada de ferro. Tios, primos, trabalharam em diferentes cargos, em diferentes ramais e estações.

E tem a história do Gavião: Como começou? Não se sabe e não há registro. E todo aquele que trabalhou na Mogiana, como garçom, costuma assumir a autoria do fato. Entre as estações de Ituverava e Canindé, outras vezes, na região de Aguaí, um gavião acompanhava o trem. Um garçom ficava com um pedaço de carne espetado em um garfo, esticando o braço para fora do trem, até que o pássaro conseguisse pegar a refeição.

“Meninos, eu vi!”. E era mágico. O trem noturno saia de Campinas por volta das 22:00 e chegava em Uberaba dez, doze horas depois. Portanto, era de manhã, antes do almoço, quando o trem ia em direção a Minas Gerais que o fato ocorria. Não tenho certeza de quantas vezes presenciei o acontecimento. Chegava no trecho habitado pela ave, o trem diminuía a velocidade e todo mundo corria para as janelas. A linha tinha muitas curvas e corríamos de um lado para o outro do vagão para presenciar o acontecimento. Foram anos com isso ocorrendo e houve momentos em que dois pássaros – pai e filho? – acompanhavam o trem. Há registros desse fato até 1977 e, repito, perderam-se os fatos de como tudo começou.

Antiga foto da estação de Campinas, hoje transformada em Centro Cultural

Essa história toda vem a propósito de uma entrevista dada por MARIO BENEVIDES, quinta-feira, ao PROGRAMA DO JÔ. Um velho garçom da extinta Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. A produção do programa, precária, não soube levantar os dados corretos sobre o percurso Campinas-Brasília, o Trem Bandeirante, como era chamado. Assim, quem viu o programa ficou no dry-martini que o garçom preparou e nas brincadeiras sobre os nomes dos filhos do mesmo. O programa pecou em uma informação fundamental: a linha existe, funciona para trens de carga, o que não existe são trens que transportem passageiros.

Resolvi escrever sobre o assunto porque é fundamental que possamos – sempre – reivindicar de todos os governos a retomada dos trens de passageiros, sem que a gente precise de uma Copa do Mundo para que isso ocorra. São mais confortáveis, ecologicamente corretos… e por ai vai. Perdemos os trens para a indústria automobilística e presenciamos hoje o caos urbano, as estradas cheias e perigosas, só para citar dois problemas.

Aqui escrevo habitualmente sobre música. Como os trens ficam nisso? Simples, ouçam “O Trenzinho do Caipira” (Heitor Villa-lobos), “Ponta de Areia”  (MILTON NASCIMENTO / FERNANDO BRANT) e tantas outras canções sobre o tema. Eu, como bom mineiro, gosto demais disso, Sô!

Isso é "Trem bão!"

(Publicado originalmente no Papolog)