Vila Maria é Emoção no Carnaval

VILA MARIA BAIANAS ESTA.jpg
Ala das Baianas da Vila Maria. União do sagrado e do profano.

A história comprova: O que fica de um bom carnaval é a velha e intensa emoção diante da musa, da alegoria, da fantasia engraçada… Para uma escola de samba vencer o campeonato é exigido muito mais.  Tudo começa com um belo e bom enredo a soma de todas as alas, todos os quesitos, todos os detalhes atingindo o coração do público leva à vitória, independendo de resultados oficiais. Assim, sem receios, sem titubear: vou guardar o carnaval de 2017 como aquele em que, pela primeira vez, fiquei intensamente emocionado por uma escola, a Unidos de Vila Maria.

“Aparecida – A Rainha do Brasil; 300 anos de amor e fé no coração do povo brasileiro” foi o enredo que uniu com rara competência o sagrado e o profano. O carnavalesco Sidney França estreou celebrando o jubileu dos 300 anos da aparição da imagem nas águas do Rio Paraíba do Sul. Os pescadores encontrando a santa foi mote para subir imensa escultura na abertura do desfile que, ainda, teve como destaque a ala das baianas vestidas tal qual a Santa e terminando com chave de ouro ao colocar réplica da basílica transformada em alegoria.

Aos teus pés vou me curvar

Senhora de Aparecida

A prece de amor que nos uniu

Salve a Rainha do Brasil

O samba de Leandro Rato, Zé Paulo Sierra, Almir Mendonça, Vinicius Ferreira, Zé Boy e Silas Augusto contou linearmente o enredo proposto. Saltando da história para os hábitos atuais, a Vila Maria mostrou que é possível tratar de temas aparentemente impensáveis dentro da tradição carnavalesca.

A primeira noite do carnaval de São Paulo teve Elba Ramalho na abertura. A cantora foi  carregada feito santa por um grupo de rapazes da Tom Maior, o que conota lembranças nada agradáveis de senhorias incapazes de andar com as próprias pernas… A Mocidade Alegre veio correta, sem conseguir empolgar a plateia. Depois da Vila Maria, a emoção continuou com o desfile da Acadêmicos do Tatuapé que, com o enredo “Mãe-África conta a sua história: do berço sagrada da humanidade à terra abençoada do grande Zimbabwe” fez um carnaval para vencer o campeonato no grupo especial.

Que me perdoem as outras, já vou para o segundo dia, direto para a Unidos do Peruche. A segunda escola que passou pelo sambódromo, no sábado, cantou Salvador “Cidade da Bahia, Caldeirão de Raças, Cultura, Fé e Alegria”. A comissão de frente lembrou grandes ícones da cidade: atores representando Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e, entre outros, Jorge Amado e Raul Seixas, abriram o desfile da escola, dançando com leveza e graça.

A riqueza de detalhes é o maior trunfo da Império da Casa Verde. A campeã de 2016 veio íntegra, luxuosa, com alas inteiras fantasiadas com o maior capricho e, notável, a maquiagem dos foliões. É comum ver gente desfilando com cara amarelada, piorada pela iluminação exagerada. Ao fazer da maquiagem complemento da fantasia, Jorge Freitas garante bons pontos para a escola.

De repente a lembrança de Gonzagão emociona até corações endurecidos. A emoção volta a imperar com a escola Dragões da Real que homenageou “Asa Branca”, a música de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Triste por si, Asa Branca conta a história, infelizmente atual, dos problemas decorrentes da seca, mas a história aposta na esperança, em “samba em forma de oração”… “Que eu voltarei, viu, pro meu sertão”.

Fonte inesgotável para bons sambas, o nordeste e, especificamente a Bahia, propicia mais emoção no carnaval. É a Vai-Vai com “No Xirê do Anhembi, A oxum mais bonita surgiu – Menininha, Mãe da Bahia – Ialorixá do Brasil”.  Há muito que a Vai-Vai não fazia um desfile tão intenso, com fantasias de rara beleza, da primeira à última ala. Se for a campeã, será título merecido para a escola da Bela Vista.

Outras agremiações passaram pelo Anhembi mostrando sua força. A Rosas de Ouro provou publicamente seu carisma, mantendo a plateia cativa, aguardando essa que foi a última escola a desfilar no grupo especial para um “banquete de alegria”.  O enredo da roseira diz, em determinado momento, “não importa a religião, Salve Cosme e Damião”. Salve! Quem irá negar saudação aos santos, a Nossa Senhora Aparecida, à Mãe Menininha do Gantois? O melhor do carnaval continua sendo a capacidade de fazer sorrir e, tocados profundamente, até mesmo chorar.

VILA MARIA CARNAVAL.jpg
A Basílica na Avenida. O inusitado que emociona.

A Liga das Escolas de Samba de São Paulo buscou neste 2017 uma formação diferenciada para os jurados. Todos os apaixonados por carnaval estão ansiosos, aguardando os resultados para saber o que se passou na cabeça do grupo de juízes formado por gente de fora da cidade, que foi para a cabine via sorteio, após concurso acirrado. Que venha a campeã! A vitória importa para todos os que lutaram para fazer a grande festa. Para quem ama o carnaval, importa que a festa continue grande e bela.

Eu aposto e desejo que a campeã seja a Vila Maria. Ficarei contente se for a Vai-Vai, a Tatuapé, a Peruche… O júri pode decidir por outra, sem problemas. Como todo júri é soberano, fazer o que? Júri nenhum manda no coração da gente. O meu coração, em 2017, é todinho da Vila Maria.

Até mais.

Junho de santos e artistas

Bethânia, Chico, Erasmo e Wanderléa: Junho!

Sapeando na internet vi um vídeo com Wanderléa participando do novo programa do Danilo Gentili. Antes vi a campanha publicitária com a participação dela, sobre o trânsito em São Paulo. Agora, estava também na reprise do Globo de Ouro, no canal Viva. Três vezes Wanderléa que, por final, fez aniversário neste dia 5. Junho, finalmente, começou. E Wanderléa vem reforçar a lembrança de minha avó materna, que também fazia aniversário neste dia. Wanderléa, Erasmo Carlos e minha avó. Que trio!

Vovó comemorava o próprio aniversário e o de todos nós, crianças, fazendo sequilhos. Recentemente encontrei sequilhos industrializados; tive ímpetos assassinos por chamarem aquilo de sequilho. Como os feitos por minha avó só encontrei, em tempos recentes, no Estado do Maranhão. Especificamente em um simpático hotel em Imperatriz, quando de passagem para Açailândia. O café da manhã no hotel, em Imperatriz, foi com toda uma série de bolos, pães e outras preciosidades, como o sequilho, tudo feito na hora. Após o café, andando pelo centro da cidade fiquei impressionado com a quantidade de lojas vendendo vestidos típicos das festas juninas.

Quem é do norte, nordeste, vive as festas de junho com uma intensidade mil vezes maior que no sudeste. É gostoso brincar com o folclore que envolve o primeiro santo de junho, Antônio, o casamenteiro. Na véspera do dia 13 ainda há moças que acreditam nos poderes do santo para arranjar-lhes um marido. Logo depois, dia 24, vem São João, o Batista; aquele que batizou Jesus Cristo e para o qual se acende a fogueira, avisando Maria, a mãe de Cristo, sobre o nascimento do filho de Isabel.

Entre 13 e 24 de junho, outros artistas, todos bem amados: Chico Buarque, no dia 17; Maria Bethânia, Isabella Rossellini e Paul McCartney no dia 18; Jean-Paul Sartre no dia 21; Meryl Streep no dia 22. No dia 23 é o dia de Elza Soares. Só feras! Grandes feras! Juntinho com São João, no dia 24, por exemplo, nada mais, nada menos que Bob Dylan.

Junho de Sartre, Guimarães Rosa e Saint-Exupéry

Caminhando para o final do mês, as festas continuam para prestar homenagens também a São Pedro, o dono da porta do céu. Próximos dessa data, sintomaticamente, grandes figuras, acima do comportamento dos comuns:  João Carlos Martins, o maestro, faz aniversário dia 25 e em seguida, 26, Gilberto Gil. Depois de Gil, dia 27, Guimarães Rosa, antecedendo Raul Seixas que é do dia 28. No próprio dia de São Pedro, lembramos Antoine de Saint-Exupéry. Finalmente, se o mês de junho começa, no dia primeiro, com a loira Marilyn Monroe, termina com a perturbadora morenice de Dira Paes, no dia 30.

É fatal voltar ao passado em Junho. Um tanto de melancolia; rever o passado, pensar naquilo que vem pela frente. É como me sinto neste mês do meu aniversário; repensando o presente, vendo o que é possível fazer no futuro. Se eu penso em artistas e santos, mais que vaidade, tem a vontade ser como eles. Tento ser legal para um dia, quem sabe, estar entre eles quando alguém, no meio da noite, escrever sobre o próprio mês de nascimento. Por enquanto, nem santo, nem artista; apenas humano. Com vontade de ser melhor. Já está de bom tamanho; ou não…

.

Até mais!

.

Raul Seixas, com deus e o lobisomem

(“Raul: O início, o fim e o meio” é um documentário que estréia na próxima sexta-feira, dia 23. Esta será uma semana de muitas lembranças do compositor. Abaixo, recordo alguns momentos entremeados com a música do “Maluco Beleza”) 

Eu já estava em São Paulo, em 1982. Em pleno vapor, cantando em botecos e trabalhando um disco independente (Pois é; gravei um compacto. Os mais jovens terão dificuldades em saber o que é um compacto simples…). Estava muito distante de Raul Seixas no pensamento e no trabalho musical que eu então desenvolvia.

Veio, em maio daquele ano, a notícia da prisão. Sem documentos, acharam que o Raul Seixas que se apresentou em um show, em CaieirasSão Paulo, não era o próprio. Foi preso e espancado como impostor. Impostor de si mesmo…

...Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor…(1)

E lá naquela época, como agora, recordo alguns fatos da vida do Raul, que permearam a vida musical tupiniquim: Gostaria de ter participado de uma passeata, com o próprio, cantando “Ouro De Tolo” pelas ruas da cidade. Ele fez isso no Rio De Janeiro e eu estava em Minas Gerais. Mas essa passeata não seria nada impertinente ainda hoje, pela Rua Boa Vista, ou pelas Avenidas Paulista, Faria Lima e similares, aqui em São Paulo…

…E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social… (2)

Raul Seixas, penso eu, viveu inconformado. Entre seus sonhos, seu ideal de mundo, sua vertente musical e a realidade mercadológica, urbana e mesquinha de um país sob domínio ditatorial e, depois, durante o longo processo de abertura política. E inconformado, como ele incomodou!

…Faze que tu queres
Pois é tudo
Da Lei! Da Lei!
Viva! Viva!
Viva A Sociedade Alternativa… (3)

O cara escreveu muito, atuou em diferentes áreas. Em 1973 brigava pelos Direitos Humanos e no ano seguinte foi exilado, após a Polícia Federal recolher e queimar seus manifestos. Voltou rápido, e não menos desafiador mandando seus recados para todos os lados:

Enquanto você
Se esforça pra ser
Um sujeito normal
E fazer tudo igual… (4)

Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar… (5)

Sua carreira, com altos e baixos, deixou uma obra que clarifica um sujeito, um ser humano. Acredito que o melhor que um grande artista pode fazer por nós é deixar-nos rumos, alento. E Raul Seixas estará conosco por muito tempo ainda, porque nos enviou entre tantos recados especiais, este, que acalenta todos que vivem momentos de crise:

Veja!
Não diga que a canção
Está perdida
Tenha em fé em Deus
Tenha fé na vida
Tente outra vez!…
.
Beba! (Beba!)
Pois a água viva
Ainda tá na fonte
(Tente outra vez!)
Você tem dois pés
Para cruzar a ponte
Nada acabou!
Não! Não! Não!… (6)

É isso aí, Raul Seixas ou Raulzito! Carimbador Maluco ou Maluco Beleza, o cara deixou bem claro que, em toda a sua vida…

…Raul Seixas e Raulzito 
Sempre foram o mesmo homem
Mas pra aprender o jogo dos ratos
Transou com Deus e com o lobisomem… (7)

Se Raul Seixas quem disse, quem somos nós para contestar? O cara foi a mosca na nossa sopa. Não veio para concluir nada. Veio para ser o “o início, o fim, e o meio”!

.

Até!

.

 .

NOTAS: (1) METAMORFOSE AMBULANTE, Paulo Coelho/Raul Seixas; (2) OURO DE TOLO, Raul Seixas; (3) SOCIEDADE ALTERNATIVA, Paulo Coelho/Raul Seixas; (4) MALUCO BELEZA, Raul Seixas/Claudio Roberto; (5) GITA, Raul Seixas/Paulo Coelho; (6) TENTE OUTRA VEZ, Raul Seixas/Marcelo Motta/Paulo Coelho; (7) AS AVENTURAS DE RAUL SEIXAS NA CIDADE DE THOR, Raul Seixas. Texto originalmente publicado no Papolog em 27.08.2008.

“Bilogia” é Raul Seixas relançado

O box que reúne os dois discos de Raul Seixas

Os dois últimos álbuns de Raul Seixas já estão nas lojas, em um Box duplo (Bilogia, Uma história em dois CDs de Carreira). “Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!” e “A Pedra do Gênesis”, marcam o final da carreira do cantor e compositor, sendo seus últimos trabalhos individuais. Depois desses, sairia o disco de Raul Seixas com Marcelo Nova, “A Panela do Diabo”, lançado dias antes da morte do baiano, em 1989, aos 44 anos.

Com tanta gente produzindo bons discos aos sessenta, setenta anos, se vivo, como seria a produção de Raul Seixas? É comum ouvir dizer que os últimos trabalhos do roqueiro foram “decadentes”. Todavia, ante tanta mediocridade musical por aí, de jovens entre os 18 e os 25/30 anos, como é que se pode mesmo classificar a última safra do “Maluco Beleza”?

Há sucessos, dessa ultima leva: “Cowboy Fora da Lei”, “Cantar”, “A Lei” e “Lua bonita”. Contam que o processo de gravação de “Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!” foi demorado, devido aos problemas de saúde de Raul. E há também, no segundo disco, “A Pedra do Gênesis”, canções que foram vistas como premonição, presságio.Todavia, nada mais são do que o aspecto filosófico que sempre marcou o trabalho do cantor e compositor.

Os dois trabalhos, originalmente lançados pela gravadora “Copacabana”, registram uma parceria profissional, Claudio Roberto, e uma parceria afetiva representada pelas canções feitas com Lena Coutinho, a última companheira de Raul Seixas. Pessoas que acompanharam os derradeiros movimentos de uma carreira profissional que sempre será lembrada pela universalidade de suas canções, o atemporal de letras inesquecíveis.

Vale conhecer; também vale o registro da obra pelo autor. Com o talento de sempre e a realidade que marcou seus últimos anos.

Toca Raul!

 

Nota: Faixas da “Bilogia”

 

Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!

1.” Quando Acabar o Maluco Sou Eu”. Raul Seixas / Lena Coutinho / Cláudio Roberto

2.”Cowboy Fora da Lei”. Raul Seixas / Cláudio Roberto

3.”Paranóia II (Baby Baby Baby)”. Raul Seixas / Lena Coutinho / Cláudio Roberto

4.”I Am”. Raul Seixas

5.”Cambalache”. Enrique Discépolo / Versão: Raul Seixas

6.”Loba” . Raul Seixas / Lena Coutinho / Cláudio Roberto

7.”Canceriano sem Lar (Clínica Tobias Blues)”. Raul Seixas

8.”Gente”. Raul Seixas / Cláudio Roberto

9.”Cantar”. Raul Seixas / Cláudio Roberto

 

A Pedra do Gênesis

1.”A Pedra do Gênesis”. Raul Seixas / Lena Coutinho / José Roberto Abrãao

2.”A Lei”. Raul Seixas

3.”Check-up”. Raul Seixas

4.”Fazendo o Que o Diabo Gosta”.Raul Seixas / Lena Coutinho

5.”Cavalos Calados”. Raul Seixas

6.”Não Quero mais Andar na Contramão (No No Song)”.David P. Jackson / Hoyt Axton / Versão: Raul Seixas / Lena Coutinho

7.”I Don’t Really Need You Anymore”. Raul Seixas / Cláudio Roberto 8.”Lua Bonita”. Zé do Norte / Zé Martins

9.”Senhora Dona Persona (Pesadelo Mitológico nº 3)Raul Seixas / Lena Coutinho

10.”Areia da Ampulheta”. Raul Seixas