Sina de escritor

Como começou nem ele mesmo sabe. Pode ter surgido em distantes manhãs quando, ainda na cama, ouvia as novelas de rádio seguidas por sua mãe. Ou teria sido à noite, em cotidianas reuniões familiares quando as parentes contavam umas às outras tal filme, um capítulo não assistido, um livro lido. Essa mania de contar histórias teria surgido com os casos que, chegando da rua, eram narrados pelo pai para toda a família?

Havia uma vizinha que contava histórias da Espanha. E o avô, cheio de causos de assombrações. Também umas tias, fofoqueiras, detalhando histórias alheias com pitadas críticas, maledicências misturadas com anedotas. E os padres! Com fatos antigos, de antes do nada. “No princípio era o verbo!”.  E vieram as árvores, os territórios, os reis, as viagens.

Das primeiras narrativas compostas por ele, reconhece as decorrentes das necessidades domésticas. Como está sua avó? Me conta, como foi seu dia na escola? Quero saber direitinho o motivo da sua professora estar me chamando! E ai dele se não apresentasse boas razões para não ter feito as tarefas escolares, ou por ter conversado com os amigos durante a missa. O castigo vinha certo. Junto com as consequências desses corretivos foram engendradas, com certeza, vinganças espetaculares. Ele iria se matar e ela iria chorar no velório, e passaria a vida a levar flores no cemitério, soluçando, arrependida.

Do avô ganhou um bloco, lápis, exclusivamente para escrever histórias. E não terminou o primeiro romance, como não terminaria várias outras histórias ao longo da infância, adolescência, juventude. Começava a escrever e no meio do enredo perdia o interesse, achava tudo sem graça. Um dia ouviu que era coisa de gente do signo de gêmeos, deixar coisas pelo caminho. Bobagem! Eram histórias bobas, ruins. Tal qual o exercício que, não se completando, exige do atleta o frequente recomeçar.

A descoberta mais interessante daquelas fases iniciais veio com a decisão de escrever um diário. Espartano, ele obrigou-se a escrever todos os dias e isso gerava dificuldades imensas quando, o que era bem comum, não acontecia nada de relevante, emocionante, instigante. Os dias comuns são exercícios incríveis para um pretenso escritor. É fácil narrar o quebra-quebra do vizinho, a morte da bezerra, o assalto ao trem pagador. Exercício mesmo é escrever sobre o cotidiano medíocre onde nada de relevante, pitoresco ou dramático acontece. Ele viveu momentos de aprendizado ao ter que ir para além do aparente.

De certeza desses tempos de aprendizagem ele tem a escrita enquanto ato solitário. E mesmo quando dizem escrever em conjunto, o ato de elaborar qualquer enunciado antes de anunciá-lo é ato solitário. Alguns vícios também decorreram daqueles momentos iniciais como, por exemplo, escrever à noite. De preferência com mais ninguém acordado pela casa. Foi quando efetivamente criou os primeiros textos; alguns contos, crônicas, poemas, peças de teatro.

Redigir peças teatrais sob demanda foi eficaz pela imediata exposição dos resultados ao público. A resposta também imediata na reação da plateia, às vezes durante a apresentação. Com temas densos, dramáticos, ele tinha clareza do resultado nos aplausos finais, escassos ou fartos, tímidos ou efusivos. Se era comédia, a angústia era imediata, terminando com os primeiros risos e chegando ao êxtase quando esses se tornavam gargalhadas.

Escrever profissionalmente, para revistas, jornais, sites, foi percebido como ato fundamental para aprimorar o ofício, esquecer questões adolescentes tipo “só consigo escrever à noite”. Foi o tempo de diariamente entrar em uma redação, ocupar uma mesa e trabalhar, ou seja, escrever o que era preciso, o necessário, o que era esperado ou solicitado. Aprendeu a rir de coisas tipo inspiração. Guardou esta para as futuras tentativas de literatura.

Hoje, que o tempo passou, ele contabiliza um, dois, três… seis livros. Vendidos aqui, acolá, atingiram “Europa, França e Bahia”, é certeza. Ele está, comprovadamente, por aí. Há títulos esgotados!  Quer coisa melhor? No entanto, como se retornando aos primeiros momentos, vem a necessidade do interlocutor. Escrever sem ser lido é tipo sexo não consumado.  Meses e anos para construir um texto, elaborar uma narrativa, desenvolver uma história! Às vezes, ele sente vontade de escrever e mais nada. Todavia, só se reconhece escritor quando lido.

Terminado o texto, este mesmo se é que você chegou até aqui, ocorrerá ou não a magia entre emissor e receptor, autor e leitor. Não se trata da resposta mercadológica que se mensura por resultado de vendas. Nem da vaidade tola das críticas e dos elogios simples ou rebuscados. O esperado é que ocorra uma união íntima entre esses dois seres, o que escreve e o que lê. Serena se concordarem, ou cheias de pensamentos argumentativos para, oportunamente, expor as próprias ideias, outra conclusão ou ponto de vista.

E assim aguardarei, caro leitor, que tenhas algo a me dizer. Se assim for, até breve!