Fernanda Torres, uma melhor.

Fernanda Torres em Ainda estou aqui. Foto divulgação.

A iminência de um Oscar para Fernanda Torres tem causado barulho por aí. A campanha levada em frente pela atriz é parte do negócio – sim, o filme “Ainda Estou aqui”, de Walter Salles, carece de retorno financeiro – e evidencia mais que o habitual trabalho de produtores e artistas na busca da visibilidade e de conquistas para garantir novos investimentos.

Um trabalho insano, se considerarmos as distâncias geográficas percorridas semanalmente pela atriz. A gente nunca sabe onde Fernanda está. Isso implica em horas de cansativos voos, mudanças climáticas absurdas e, como se não bastasse cabelo e maquiagem no eterno tira e põe, há que se manter o astral e o bom humor. Fernanda tem tirado de letra e, tudo indica, angariado afetos por onde passa. Não há como resistir à espontaneidade, ao sorriso franco, à elegância sem ostentação, ao rosto limpo e sem os procedimentos que causam ruídos estéticos em algumas de suas concorrentes do momento.

Antunes Filho, também da categoria “um melhor”, no caso, diretor de teatro, afirmava sobre a absoluta necessidade de conhecimento e inteligência para atores e atrizes. Fernanda Torres (que poderia ser apenas bem articulada, a origem lhe facilitaria o trânsito no meio artístico) confirma a premissa de Antunes e mais: domina a linguagem escrita em textos inteligentes em carreira literária paralela, domina idiomas como o inglês e o italiano e esbanja repertório sobre o que faz e sobre o mundo em que vive. E, para coroar toda essa gama de talentos, é das raras atrizes que transitam com inegável competência entre o drama e a comédia.

O mundo está conhecendo Fernanda Torres. Já deveria ter dado atenção similar quando ela, jovem, foi melhor atriz em Cannes. Naquele momento, 1986, a Rede Globo não liberou a atriz das gravações de Selva de Pedra e ela não esteve no festival em que foi premiada. Certamente a visibilidade obtida com a Palma de Ouro teria sido outra. Pelo sim, pelo não, Fernanda Torres abandonou as novelas. Abdicou do destino de “mocinha” ou “vilã” e seguiu os passos da mãe ao tomar as rédeas da própria carreira, iniciada anos antes no teatro quando registrou êxitos como em Rei Lear.

Logo depois da novela vieram as peças Orlando, The flash and crash days e, entre outras, 5 x comédia (1996), que marca o encontro profissional entre a atriz e Luiz Fernando Guimarães, com quem contracenou em Os Normais. Em 2001 o Brasil conheceu Vani, e Fernanda Torres se tornou definitivamente uma atriz popular. Amada e respeitada pela imensa capacidade de, literalmente, se jogar na personagem. O casal cometia insanidades, extrapolava neuroses, se metia em confusões imensas e o público ria, como riu anos depois, 2011, quando Fernanda se tornou Fátima, formando dupla impagável com Andréa Beltrão.

O filme do Walter Salles que catapultou Fernanda Torres ao estrelato mundial é certamente um marco do cinema nacional e da carreira da atriz. Mas os fãs não se esquecem, entre outras, da Carula, de Marvada Carne, ou da Maria, de O que é isso companheiro. Há uma hierarquia entre essas personagens e Eunice Paiva? Certamente que sim, principalmente sendo Eunice personagem real, de importância histórica ao enfrentar a ditadura militar. Fernanda Torres foi a caipira ingênua, a urbana neurótica, a suburbana desinibida e atirada e por aí caminhou, sempre com um grau de humanidade que leva o público a se identificar, a se apaixonar. Ao se deparar com Eunice, Fernanda não economizou ao mostrar, em minúcias, a grande mulher que Eunice foi. Isso é trabalho de atriz. Melhor atriz. Uma melhor que, em dado momento divide com a mãe, Eunice já doente. Dona Fernanda, uma melhor.

Fernanda Torres em A casa dos Budas Ditosos. Foto Luciana Prezia/divulgação.

Enfim, quis escrever este texto antes do Globo de Ouro, antes do Oscar. Prêmios são bons porque reconhecem publicamente a atuação profissional de artistas. Mas, em qualquer instância, com ou sem prêmios há os melhores. Não comparativamente. Os melhores pelo fato de serem os melhores no que fazem. Tão melhores quanto Fernanda Torres, que já alertou para todo mundo baixar a bola. Um pouco de bom senso e a gente pode se balizar pelo prêmio que não veio para Fernanda Montenegro. Se vier para a filha, melhor, se não vier, ambas estão nesta categoria, são as melhores. A tal Gwyneth Paltrow não está. Cate Blanchett e Meryl Streep estão. O tempo e os filmes garantem quem é melhor.

Quero concluir este registro sobre meu afeto por Fernanda Torres relembrando quando a vi, menina, no final da peça estrelada por Fernanda Montenegro “As Lágrimas amargas de Petro Von Kant”. Enquanto a mãe nos atendia nos camarins, ela se despediu educadamente anunciando que ia para o hotel. Era só uma menina se despedindo da mãe que estava trabalhando. Depois a vi no palco, já dona do ofício, deixando para registrar por último “A casa dos Budas Ditosos”, quando literalmente passei mal de tanto rir. Como não amar quem nos faz rir tanto e tão gostoso quanto Fernanda Torres? Eunice Paiva é um grande personagem por si, mostrado ao mundo por uma melhor atriz. A melhor atriz, Fernanda! Sem sobrenome, pois as duas Fernandas de “Ainda estou aqui” são as melhores.

Notas:

As lágrimas amargas de Petra Von Kant – 1982, Peça de Rainer Werner Fassbinder, direção de Celso Nunes. É desta peça que Fernanda Torres viralizou com um meme: “minha mãe deitada no chão, bêbada, apaixonada pela Renata Sorrah. Pensei: minha mãe é muito louca”.

– 5 x Comédia, (1996), adaptação de Marcus Alvisi e direção de Hamilton Vaz Pereira, Marcus Alvisi, Mauro Rasi, Pedro Cardoso.

– A casa dos Budas Ditosos (2003), baseado no livro de João Ubaldo Ribeiro, direção de Domingos de Oliveira.

– A Marvada Carne (1985), de André Klotzel.

– Em Cannes, o filme foi “Eu sei que vou te amar” (1986), de Arnaldo Jabor.

– O que é isso companheiro (1997), baseado no livro de Fernando Gabeira, dir. de Bruno Barreto.

– Orlando (1989), baseado na biografia de Virginia Woolf dir. Bia Lessa

– Rei Lear (1983), de W. Shakespeare, direção de Celso Nunes.

– The flash and crash days (1991) de Gerald Thomas.

Os órfãos de Glória Perez

É muita família incompleta! A Brisa de Lucy Alves é mãe, mas não tem pai nem mãe. Chiara, da estreante Jade Picon não tem mãe; Ari, o Chay Suede, não tem pai. Faz tempo que não aparece tanto órfão em uma única novela. E não são poucos!

Entre as personagens centrais sem pai nem mãe estão: a Núbia (Drica Moraes), a Guida (Alessandra Negrini), o Oto (Rômulo Estrela), a Talita (Dandara Mariana), o Moretti (Rodrigo Lombardi), o Guerra (Humberto Martins), a Cidália (Cássia Kiss), Gil (Rafael Losso), Stênio (Alexandre Nero), Heloísa (Giovanna Antonelli), o professor Dante (Marcos Caruso) e por aí vai. Tem mais! É só checar as personagens. Quem segue a novela Travessia, de Glória Perez, deve ter percebido essa estranha quantidade de gente solta no mundo. Sem lastro, sem raízes.

Antes que D. Glória Perez me pergunte se eu fiz o “L”, informo que sim, fiz, e já pondero: Ah, mas tem família sim! a Tia Cotinha, de Ana Lúcia Torres lembra a Margarida, namorada do Pato Donald. Muitos sobrinhos sem eira nem beira. Todos caem no colo da tia. Rudá tem mãe, tia, padrasto e nenhum pai para defendê-lo! As moças, irmãs, ficaram sós no mundo, já que não há menção de outro familiar. Há uma família atual, formada por Lais (Indira Nascimento) e Dimas (Ailton Graça) e um casal de filhos que enfrenta o vício do menino em jogos virtuais. Uma avozinha, um avô, faria um bom jogo entre as crianças e os pais.

Mais que a orfandade geral, pais e avós costumam roubar a cena em novelas. Que me perdoem os mais jovens, mas, os veteranos garantem momentos de puro deleite para nós, noveleiros. Aproveito e saio de Travessia para homenagear Renata Sorrah em Vai na fé. Não sobra para ninguém quando a atriz assume a atriz na novela (Se não entendeu a frase é porque ainda não teve o prazer de ver a Sorrah dando show!). Voltemos à Travessia.

Tenho cá com meus botões que elenco de novela é uma escala onde o topo, tomando Travessia como exemplo, está ocupado por Ana Lúcia Torre, Marcos Caruso, Cássia Kis e Drica Moraes. Esse grupo de atores faz, literalmente, todo e qualquer tipo de personagem com brilho único e se sobressai de longe aos demais. Infelizmente estão órfãos, ou sozinhos, embora resvalem aqui e ali em possíveis relações.

Nem de longe ocorre, em Travessia, a possibilidade de um embate como o criado pela mesma autora em Caminho das Índias, envolvendo D. Laura Cardoso (Laksmi) e Lima Duarte (Shankar), que protagonizaram cenas memoráveis, de absoluta emoção. Também de Glória, em O Clone tivemos momentos belíssimos entre Stênio Garcia (Tio Ali) e Jandira Martini (Zoraide), tão intensas e belas quanto outras, na mesma novela, protagonizadas por Nívea Maria (Edna) e Juca de Oliveira (Prof. Albieri).

Glória Perez sabe escrever para atores veteranos e colocá-los em cenas que transbordam beleza e talento. Se não o faz, em Travessia, creio ser por conta da COVID. Sim, a maldita pandemia que criou protocolos e limitou o trabalho de atores mais velhos. Provavelmente a autora terminou a sinopse em pleno caos da doença e foi tirando aqui, cortando ali, deixando de lado os núcleos familiares profundos que apresentou em novelas anteriores. Tenho também cá comigo que foi a emissora quem limitou as personagens feitas por atores mais velhos. Do contrário, por que colocar tanta gente órfã na mesma história? Aí fica aquela coisa estranha, de gente sem lastro, sem memória.

Vou nessa! Hoje tem o casamento, ou não, da neta do Chico Buarque, que entrou na história como pesquisadora. Também sem pai, nem mãe, nem ninguém. Vejo Clara Buarque e fico com saudade da Marieta Severo e de tanta gente boa que está em casa.

Até mais!