Aos 70, pronto para outro “por acaso”

Por acaso, “papagaio de pirata” na Veja

Certamente não nasci por acaso. O Aparecido, que carrego no nome, comprova promessa materna para que eu nascesse. A mania de escrever, que trago da infância, é o que me leva a refletir e exercitar a memória.

Sempre fiquei irritado com a expressão “O Brasil não tem memória”. Até onde eu saiba o país é uma abstração social construída por um longo processo cultural. Sendo abstração, cabe a quem construiu e a quem nela vive registrar o que a faz ser, ou seja, lembranças e memórias. Em síntese: Não diga que o Brasil não tem memória se você não escreveu nem uma única linha sobre sua mãe. E, calminha, a mãe aqui não é apenas a genitora, mas a outra, a pátria, que pode ser mátria, aquela do poema do Vinícius de Moraes. A vida está cheia de mães: a dor, a rua, a necessidade, coisas que nos ensinam a sobreviver. Bom registrar que só a mãe mulher costuma dar a vida pelos filhos.

Uma distinção entre preservar a memória e ser conservador é necessária. Continuando na linha “mãe”, parece óbvio dizer que gostaria que mamãe tivesse uma vida melhor. Ela até que viu a reviravolta que a mulherada deu após o surgimento da pílula anticoncepcional, as ideias revolucionárias da década de 70 e pôde usar um monte de eletrodomésticos que tornaram menos pesadas as tarefas domésticas. Há uma imensa distinção entre conservar as mães dentro da cozinha, com tudo o que a tecnologia puder proporcionar, e lutar para que as tarefas – TODAS – do universo familiar sejam divididas, compartilhadas pelo casal.

Mamãe batalhou para que os filhos estudassem. Enquanto vivo serei grato; se escrevo foi por ter tido livros, revistas, gibis e uma mãe que insistiu para minha ida à escola. Ela queria para os filhos uma vida melhor. E o ideal é que esse melhor fosse planejado, ou seguisse uma onda que, lá em casa, vingou nas irmãs, todas professoras! Havia um papo que meninos deveriam ser engenheiros ou médicos, garantindo uma profissão sem patrão e com possibilidade de ganhar grana. Não rolou!

Por acaso, no Piauí, lá no Parque Nacional da Serra da Capivara (Foto: Cris Buco)

Meu irmão Valdonei tinha vocação para atividades autônomas. Foi o primeiro, talvez o único, a entrar em conflito com meus pais por preferir o trabalho ao estudo. Eu cresci em um momento em que a televisão se popularizava e, junto com o cinema, tive outros fascínios, outros desejos. Lá pelos cinco, seis anos de vida quis ser bailarino como os que via na tv. Não sendo russo, fui bastante criticado pela família. A primeira carga de preconceito das tantas que vieram pesar sobre o meu lombo. Carreira de bailarino ficou para uma próxima encarnação. Se reencarnar, escolherei nascer perto do Bolshoi.

No cinema conheci Joselito no primeiro filme que assisti, “O pequeno rouxinol”. Era um garoto espanhol com uma garganta privilegiada que fez sucesso lá e cá. A música entrou como perspectiva num dos “teatros da Belinha”, a moça que, na paróquia, fazia apresentações de pequenas peças, esquetes, números musicais para angariar fundos para as ações sociais. Eu devia cantar a “Canção do jornaleiro” e “O engraxate”. Músicas melosas de garotos de rua tentando sobreviver.

Eu cantava o dia inteiro. No telhado, em cima de árvores, no banheiro durante intermináveis banhos (para desespero do meu pai, preocupado com as contas de luz). Passei por programas infantis de rádio, cantei em serenatas com colegas do bairro, em missas, casamentos e botecos. Adulto, já dono de primeiras composições, gravei disco, fui cantar por aí até descobrir que odiava cantar profissionalmente. Em bares, era começar a cantar, sem aquele tradicional “silêncio que vai se ouvir o fado” dos portugueses, e já vinha o burburinho da plateia. Pior o bêbado chato, pedindo para você, que é barítono, cantar música de soprano. Ainda hoje não consigo acreditar que Roberto Carlos goste de cantar Emoções e não é à toa que Maria Bethânia canta Carcará com arranjos diferenciados.

Por acaso, via Pri Cirino, fui juiz de carnaval.

Os acontecimentos se entrelaçam, a vida segue. Até pensaram que eu faria engenharia e tive alguns problemas por querer estudar filosofia. “Não dá dinheiro!” era a frase para o cara que sonhava com uma vida franciscana. Mas veio o primeiro “por acaso” de alguns que norteariam minha vida.

Por acaso comecei a atuar em teatro, quando meu amigo Ronaldo precisou de alguém que escrevesse e dirigisse uma peça para encerrar um encontro de jovens. Começava ali uma trajetória de infinitos detalhes e quero ressaltar aqui o que me pega de jeito: redigi 48 peças. Dessas, 14 continuam inéditas. Caso você queira montar alguma, pagando direitos autorais, entre em contato pelo meu e-mail. Também escrevo sob demanda respeitando valores éticos. Sou de esquerda.

Também foi por acaso que um sujeito abriu um jornal em Santo André, no ABC. Entre os patrocinadores, uma agência de viagens. Maria da Penha, minha amiga, escreveria sobre os destinos oferecidos pela CVC e, percebendo a lacuna, informou ao proprietário que conhecia alguém que poderia escrever sobre teatro. Depois desse primeiro vieram outros três jornais, oito revistas, dois sites e alguns blogs. No mais longevo, este blog onde você lê este texto, contabilizo 1009 textos publicados desde 2011.

Por acaso, via Rafael Mendes, entrando no universo digital.

Lá pelas tantas já sabia das dificuldades de sobreviver trabalhando em teatro e, se sobrevivia com jornalismo, queria mais alguma coisa. Foi quando o Grupo Boi Voador foi fazer turnê em Portugal e um dos seus atores, Rossi, sendo professor, precisava de um substituto na escola. Domingos Quintiliano me indicou e lá começou uma atividade que mantive por 34 anos. Foram três colégios e duas universidades. Milhares de alunos, alguns grandes amigos.

Há diversos outros, no entanto desejo registrar o mais recente “por acaso”. A música que havia ficado em plano secundário voltou ao meu cotidiano. Sugestão e incentivo de Flávio Monteiro, fui parar no Madrigal Ars Viva. Estou lá, feliz da vida, estudando com afinco e aprendendo, aos 70, a cantar em latim, francês, italiano, alemão (alemão é foda!). E conhecendo pessoas incríveis, vivendo experiências especiais como cantar a Misa Creolla, primeiro com grupo de músicos e depois com a Orquestra Sinfônica de Santos.

Nas atividades principais desses anos todos é a escrita permeando tudo. A escrita não veio por acaso. Graças à minha mãe, às minhas professoras. De tudo o que faço – e fiz – na vida, a escrita permanece. Até onde vou, não sei. Segue a vida! O que virá? Certamente que, se lúcido, escreverei. Te convido a ler e, sobretudo, tento te estimular. Escreva sua história. Faça um vídeo, componha uma canção, um poema. Registre sua história e mande à merda essa falácia de o país não ter memória. O Brasil sou eu, somos nós (“Grande coisa”, “Bela bosta”, “Se achando”). Pois é, bom ou ruim, somos nós. Ah, e por escrever, me aguarde: novo romance vem por aí (aguarde o próximo post!).

Até!

A ilusão da permanência

Encontrando velhos conhecidos são comuns as expressões “você continua o mesmo!”, “Você não mudou nada!” ou similares. Parece-me que a maioria espera que concordemos, que retribuamos com um “você também”. Não é incomum um tom de ressentimento ao afirmarmos que “fulano mudou demais”, “beltrana não é a mesma de antes”. Essas constatações carregam um tom de traição, um sentimento de derrota: “Envelheceu, né!”.

Para com as pessoas públicas costumamos exigir maior permanência. Maria Bethânia diminuiu em muito as corridinhas pelo palco. Ganhou elegância no andar e no gracioso gesto com que reverencia e agradece ao público. Há quem cobre dela os motivos dos fios brancos! Wanderléa, sempre linda, teima em evitar as “provas de fogo” e os “pare o casamento”, cantando Sueli Costa ou gravando chorinhos, o trabalho atual. Os viúvos da Jovem Guarda saem desolados do show. “Wanderléa mudou muito”! É melhor o show de Roberto Carlos, onde “Emoções” não faltarão.

Estranhamento nacional, a postura política da ex-namoradinha do Brasil revelou uma pessoa bem esquisita, traição brutal às personagens meigas e carinhosas de tantas novelas. Ela mantém a postura, o jeito de menear a cabeça, o sorriso aberto, a caricatura que, o tempo clareou, esconde uma mulher bem diferente. Imediatamente passou a ser chamada de velha!  Para alguns, talvez, a suprema ofensa para as mudanças percebidas e a vaidade de Regina Duarte.

Parece que as mudanças não são bem-vindas justamente por nos obrigarem a enfrentarmos as nossas próprias mudanças. Os muitos quilos, as muitas rugas, todos os pelos e cabelos esbranquiçados, a ausência de viço na pele, estão entre as evidências que disfarces, pinturas e maquiagens os mais evidentes só fazem acentuar.

Todo mundo tem espelho e momentos de encarar os efeitos do tempo. A visão cotidiana nos ilude fazendo com que nos sintamos os mesmos, o que não evita nosso espanto quando encaramos fotos antigas que acentuam as mudanças que carregamos, e que caminham, aliadas ao tempo, nos transformando. Infinitamente pior que o espelho são os males que atingem os nossos corpos, incapazes de manter a permanência que mora na nossa vontade. Consultórios e clínicas entram no nosso cotidiano proporcionalmente ao tempo que estamos no planeta. Mais tempo, mais médicos.

Estamos de passagem e a expressão “viagem” ao invés de “morte” é bem melhor. Também há quem prefira “experiente” a “velho”. A realidade, por pior e difícil que possa parecer, é o que temos e, portanto, melhor que a ilusão. Não somos mais os mesmos! Nossos ídolos não são mais os mesmos. Aceitar essa questão é o que nos possibilita maior empatia para com fases da vida de todos – jovens, adultos ou velhos. O que é absurdo é constatar o universo em movimento, as transformações contínuas da natureza e pensar que nos mantivemos imutáveis.  Como se houvesse um dia para tomar consciência de si e fixar tal data. Que bobagem!

P.S. 1 – É óbvio que quem vos escreve já passou dos 60. Gosto de Bethânia desde Carcará, de Roberto, desde O Calhambeque e de Wanderléa, desde O tempo do amor. Assisti quase todas as novelas protagonizadas por Regina Duarte, e atualmente tento esquecer a decepção para não espinafrar a atriz.

P.S. 2 – Acredito estar de passagem e estou lendo textos sobre projeções da consciência. A ideia de experiências fora do corpo físico me atraem cada vez mais. Penso sempre em viagens astrais observando o movimento de nuvens no céu sobre o mar.

P.S. 3 – A decisão em escrever o texto acima foi após ter visto vídeos de fragmentos recuperados da Jovem Guarda. Como Roberto Carlos e Wanderléa mudaram!

Sobre ser Pentacampeão de fato e de memória

Copa do Mundo? Abaixo uma, entre milhões de outras histórias.

1955 – Nasci, um ano depois de a Alemanha ganhar sua primeira Copa do Mundo.

1958 – SUÉCIA – Havia o rádio. E alguém falava rápida e desesperadoramente. De vez em quando as pessoas gritavam, mas em algum momento meu pai saia para o quintal e soltava fogos. Os vizinhos soltavam fogos, o bairro, a cidade. Minha mãe ou uma das minhas três irmãs prendiam-me, já que aquilo era perigoso. Meu irmão podia acompanhar meu pai, segurando os canudos que faziam enorme barulho. Como o fato era comum, ou seja, ouvir um cara desesperado falando aos borbotões e ver meus familiares gritando ou não durante a coisa, aprendi meio que por osmose que aquilo era futebol. E nós, do Brasil, éramos Campeões Mundiais. E meu primo Poy, o Oswaldo, era goleiro do Uberaba Sport Club. E meu irmão Valdonei jogava no time do Hermes, o Estrelinha.

1962 – CHILE – Já foi bem mais interessante. Eu sabia o que era o futebol, embora não jogasse por jogar mal. Gostava de pegar a bola com a mão e, mesmo assim, não fui goleiro. Meu primeiro ídolo foi Gilmar, um goleiro sensacional. Ele pegava bolas nas partidas que ouvia no rádio e, no mesmo dia, à noite, pegava outras bolas no jogo que passava pela TV. Eu não tinha noção de a transmissão do rádio acontecer simultaneamente à partida e que, na televisão, era videoteipe. Diferença que me passava desapercebida: quando pelo rádio, meu pai mantinha o lance de soltar fogos.

Meu segundo ídolo foi Garrincha e, com ele, o substituto de Pelé, o Amarildo. Havia um Vavá, mas só vim a ser chamado assim bem depois. Muito depois dessa Copa conheci Djalma Santos. Estive no velório dele, em Uberaba, e fiquei decepcionado ao ver o “falatório” de matracas presentes. Falta de respeito com o grande jogador. Sorry, Pelé, mas na “minha” primeira Copa, com consciência de ser um evento de tal porte, Garrincha e Amarildo brilharam. E o Mané, com seus dribles engraçados, fazendo gringo de besta ganhou minha admiração e predileção para todo o sempre. Salve, Mané Garrincha!

1970 – MÉXICO – Ali já estava definida uma postura que assumo ainda hoje. Contra a toda poderosa Europa, colonialista cruel, cabe impor derrotas onde nos é possível.  Dessa feita foi a Itália “humilhada” pela seleção canarinho, o que já havia ocorrido com a Suécia em 58 e com a Tchecoslováquia em 62. E sem o Brasil no páreo, minha torcida vai para a América do Sul. E nesses tempos atuais, vai para a África, a Ásia. Europa, não! (antes de terminar este a Argentina mandou a Holanda polir seus tamancos em outra freguesia! Bravos!)

Em 1970 já tinha noção básica do uso que se faz do futebol em situações diversas. O lema “Brasil, ame-o ou deixe-o” era algo estranho, já que vizinhos haviam desaparecido em – soube depois – prisões militares, assim como a polícia política esteve na casa de outros vizinhos revirando tudo, rasgando livros, levando outros embora. Em 70 sentia também a diferença brutal de tratamento entre as diferentes modalidades esportivas. Não fui goleiro, mas pratiquei vôlei. Para quem viveu essa época sabe a merda que era. Primeiro, o futebol. O “resto” era resto mesmo.

Dane-se, o planeta e todos os problemas sociais: ter um time com Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Gerson, Carlos Alberto, Félix… Esses nomes estão na memória e ser Tricampeão Mundial é lembrança de sonho, de festa.

1994 – ESTADOS UNIDOS – Me parece que essa história de jogador de futebol acreditar que visual ganha partida começou mesmo foi com o Dunga, e seu cabelo esquisito nos EUA quando fomos Tetra. Bom, fez escola, é só ver os jogadores de hoje em altas transações visuais… E cada um sabe a dor e a delícia de um cabelo, uma roupa, um parangolé! Sejamos felizes!

Lembrança boa mesmo é do Branco chutando de longe e marcando um gol em cima da Holanda. Romário que era certeza de gol me faz, até hoje, repetir um “se fosse o Romário não perderia esse gol”. E tinha o Bebeto, que segue na vida com a dignidade e a postura que teve em campo. E o Taffarel!? Um amigo de infância, lá em Uberaba, homenageou o goleiro logo no nascimento do primogênito, um Taffarel mineirinho.

Aquele cara lá, da Itália, que errou o pênalti, não teve a benção do Papa? Baggio perdeu em um momento crucial. Eu tenho um pé atrás com o Zico, quando perdeu um pênalti em 1986 para a França. Faz muito tempo, mas magoou! Logo você, Zico?

2002 – COREIA DO SUL & JAPÃO – Todo palmeirense que se preza gostaria de canonizar Marcos, o São Marcos que foi goleiro do Pentacampeonato Brasileiro e megacampeão no Palmeiras. Vi o goleiro em campo e em pizzaria, lá em São Paulo. Cordial e educado, com a tranquilidade dos campeões e dos grandes atletas. Nunca me pagou uma pizza!

São lembranças pessoais e eu, que havia dormido na final da Copa anterior, 1998 na França, vencido pela cansaço e momentaneamente pela vida, durante a Copa, presenciei cenas absurdas, algumas registradas nas peripécias das personagens do meu primeiro romance “dois meninos”. A vida me fez ver tudo diferente e eu estava bem escaldado dessas coisas do esporte. Todavia…

Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo, Roberto Carlos, Roque Júnior… Um time de “erres” brilhantes e inesquecíveis. Guardei na memória as arrancadas de Ronaldo, a alegria, competência e o sorriso de Ronaldinho, a força do chute de Roberto Carlos. Sem desmerecer os demais, mas lembranças são assim mesmo.

Enfim, espero estar vivo quando chegar o hexa. Ele virá. Por enquanto vou homenageando todos os jogadores de todas as épocas da seleção, inclusive daquelas que não venceram uma Copa. Esses atletas nos dão alegrias de uma tal forma que, quando perdem, preferimos odiar os técnicos. Os mesmos técnicos que não citei por não citar mesmo. Não guardei os nomes, lamento. Estou supermegahyper odiando um técnico que, certamente, é motivo de outros ódios.

Técnicos e cartolas sobrevivem na história oficial, na cabeça dos “amantes do futebol”, daqueles que têm imensa e doentia paixão (Valeu, Neto! Adorei ver você sintetizando toda a nossa loucura por futebol! Que piti, meu irmão! Bom demais lavar a alma!).

Gente como eu guarda, na memória para esta e outras vidas, cinco figuras muito especiais, elegantes, heroicos. Aqueles que tomam a taça e a erguem para a nossa inenarrável alegria. Bellini (1958), Mauro (1962), Carlos Alberto (1970), Dunga (1994) e Cafu (2002). Quem nunca sonhou estar no lugar deles?

Acabando mesmo: Devemos agradecer aos deuses. E pedir perdão. Nunca deixar de pedir perdão. Como podemos merecer a vitória em uma Copa quando em nosso território foi roubada a Taça Jules Rimet? Os deuses são bons. Tanto que nos permitiram duas vitórias após esse triste fato que, registro, para deixar bem claro o lado nada bom que nós, brasileiros, temos. Mas, os deuses esquecem e, acreditem, o hexa virá.

Aguardemos.

A pescaria, para não esquecer

Grande mesmo, ele só conhecia o rio, divisa de Minas Gerais com São Paulo. O trem de passageiros diminuía a velocidade para entrar na ponte que, em tal momento, era fechada ao tráfego de automóveis ou caminhões. O rio imenso, Rio Grande! O menino nunca viu peixes, nem mesmo quando atravessou a ponte caminhando com o pai. Não nadou nem pescou por lá!

Pescar mesmo foi na Lagoa do Taquaral. Em Campinas, no tempo em que só havia o bairro de mesmo nome. Do outro lado do lago era puro mato e muitos eucaliptos. A maior lagoa do mundo para quem não conhecia outras lagoas, o mar. Com a parentada ele aprendeu a colocar isca, jogar a linha e esperar, esperar, esperar…

“…Mas os peixes não querem cooperar

Se eu não pescar nenhum

Com que cara vou ficar…”

Essa prática acontecia nas férias e o menino precisava voltar para Uberaba, para o Alto do Boa Vista que, por tal nome, já se conclui a ausência de lagoas e rios. Lá no alto se ouvia muito rádio e entre tantas vozes havia uma, com história de pescador fajuto, que compra peixe no mercado para ficar bem na fita. As músicas ingênuas, contanto pequenas histórias… Com o pescador fajuto o menino aprendeu a escrever cartas, formato bem definido na canção:

“Escrevo-te estas mal traçadas linhas, meu amor

Porque veio a saudade visitar meu coração…”

Andando com primos e colegas de escola o menino conheceu o estúdio e o auditório da PRE-5, Rádio Sociedade do Triângulo Mineiro. Durante a semana entravam no estúdio e, caladinhos, viam e ouviam os locutores de então atuando nos programas vespertinos. Ficou a lembrança do Cirquinho do Xuxu (Edson Iglesias), Júlio César Jardim (Casquinha) que atuavam com Lídia Varanda. Aos domingos havia o programa com auditório e as crianças cantavam acompanhadas por um regional extraordinário, que acompanhava as crianças em qualquer canção, sem qualquer ensaio.

Xuxu e Lídia chamam o garoto inscrito. A plateia lotada e o menino, sem medo de ser feliz: O que você vai cantar? A Pescaria, responde o garoto.

“E mal o broto me vê passar ouço sempre ela falar

Se ele é um bom pescador, serve pra ser meu amor”.

E assim Erasmo entrou e permanece na minha memória, desde quando aos 10 anos cantei a singela canção em um programa infantil. Já se vão 57 anos!

Consta por aí que os encontros entre geminianos são para todo o sempre, mesmo quando distantes. Erasmo Carlos, Wanderléa, Maria Bethânia, Chico Buarque, Paul McCartney… Só para ficar no campo da música esses exemplos de uma mesma geração de artistas que entraram em minha vida. Todos são geminianos, como eu. Pretensão não custa nada… Sempre me senti feliz por estar na mesma casa astral desse povo e sonhar em ter um pouquinho do talento com o qual presentearam a vida de milhões de pessoas.

Lá longe, nos tempos de A Pescaria, Erasmo foi o cara da Festa de Arromba, registrando toda uma gama de artistas que amávamos e que não esqueceríamos, imortais na canção. Já se mostrava o amigo de Roberto Carlos e Wanderléa, tranquilo e sem qualquer tentativa de concorrência, dono de si e do seu lugar. Mereceu de Roberto uma declaração pública de amizade e fraternidade:

“…cabeça de homem, mas o coração de menino

Aquele que está do meu lado em qualquer caminhada”

Eu já não morava em Uberaba e, trabalhando na mesma Campinas das pescarias de infância, recebi um telefonema que recolocava Erasmo na minha história. Recebi um telefonema de Ronaldo Feliciano de Assis, “O meu amigo Ronaldo!”, me informando que “Roberto Carlos fez uma música sobre nossa amizade”. Amigo!

O Erasmo que eu mais gosto é o de Meu nome é Gal e Cachaça Mecânica. É maravilhoso ver Gal Costa mostrar a indiscutível superioridade vocal cantando uma música de Erasmo e duelando com uma guitarra na célebre interpretação. Em Cachaça Mecânica, Erasmo dialoga com Chico Buarque referenciando Construção, em letra precisa e criativa sobre nossa gente.

Há tantas canções de Erasmo! Sem contar as parcerias com Roberto! Muitas! Todavia, há aquelas que nos acompanham por toda a vida, nos levam ao puro deleite e, quando a vida nos machuca, acompanham nosso sofrimento. O Erasmo de “A pescaria” é doce, como são doces as lembranças de infância. Ronaldinho e meus melhores amigos estão em “Amigo”, como estão Erasmo, Gal Costa, Pablo Milanez, Rolando Boldrin, Lizette Negreiros, entre os seres queridos que acabam de partir. Para todos eles, peço perdão pelo egoísmo e insisto:

“…Onde você estiver, não se esqueça de mim
Quando você se lembrar, não se esqueça que eu
Que eu não consigo apagar você da minha vida
Onde você estiver, não se esqueça de mim”.

——–xxx———

Notas: As canções citadas acima estão nos vídeos, disponíveis abaixo.

A pescaria

A carta

Festa de Arromba

Amigo

Meu nome é Gal

Cachaça Mecânica

Não se esqueça de mim

Pequenos lembretes para corações inquietos

“Espinho que pinica, de pequeno já traz ponta” diz Macunaíma via Mário de Andrade. É assim: daqui há alguns séculos, aposto, alguma fã irá encontrar Roberto Carlos e implorar: Cante “Emoções”! E o artista, com vontade de fulminar a cidadã informará sacanamente dividindo o fardo: a Wanderléa está logo ali! E a fã chata correrá para a Ternurinha gritando: “Prova de Fogo”! Cante “Prova de Fogo”!

Ora, caríssimos leitores, diante desse quadro como é que a gente pode pensar em renovação? A gente bem que gostaria de mudanças, mas nem mesmo o Fausto Silva pode deixar de afirmar que “quem sabe faz ao vivo”. Se o fizer, é provável que algumas pessoas terão uma síncope, seguida de desinteria e depressão.

Parece brincadeira, mas tenho cá com meus botões que a coisa é séria. Nós, brasileiros adoramos fixar situações, acontecimentos, tendo notória lerdeza em aceitar transformações e mudanças. Há até os que preferem acreditar na Bíblia com seu Adão e Eva a aceitar a Teoria da Evolução. A monarquia, por exemplo, acabou por aqui em 1889! E a gente não perdeu tempo em compensar o trauma elegendo reis e rainhas do rádio, do maracatu, do carnaval, da bateria, da primavera, sem esquecer as majestades máximas: O Rei Pelé e, of course, o Rei Roberto Carlos!

A mais recente coroa foi para a querida cantora Teresa Cristina, a Rainha das Lives. Tetê, pois temos essa intimidade com a soberana, certamente tem aversão aos escravagistas monarcas brasileiros. O maior problema da monarquia hoje, no Brasil, se reflete no comum “você sabe com quem está falando?”, pergunta algum nobre de araque que, ao encontrar um igual costuma ouvir como resposta um nada original “com um grande merda”. Estabelecida a crise na nobreza a contenda costuma enunciar, de ambas as partes, atributos familiares da mais baixa categoria. Uma beleza!

Uma inverdade, como dizem os políticos com medo de levar umas bifas ao chamar o rival de mentiroso, ou como prefiro, um folclore nacional é que brasileiro não tem memória. Basta um meliante qualquer se vestir de padre e os fiéis filhos de Deus já saem beijando mão, pedindo a benção e acreditando em tudo o que o safado diz. É verdade que o povo religioso tem dificuldade em distinguir a Igreja Católica da concorrência, principalmente quando essa utiliza denominação similar. Também não muda o simulacro de cristão que deseja a morte do próximo, que manda pobres e doentes para longe de si, em seguida entrando no templo e rezando feito anjinho (será que anjos rezam?).

Ao que parece, memória mesmo não existe é em relação à política. Ou, vai ver, o brasileiro não dá a menor importância para os fulanos representantes que mudam de opinião com a mesma rapidez daquele torcedor que muda o humor conforme o andamento do jogo. Fortes indícios confirmam que o eleitor não se importa hoje com as alianças de seus candidatos com os inimigos de ontem. Também nosso eleitor esquece promessas, compromissos, acordos… Político pode trafegar na mais absoluta falta de honestidade que brasileiro pouco se importa, é o que mostram as eleições. Ok, estou exagerando, afinal a lista dos não reeleitos é bem grandinha, mas…

Há gente bem intencionada em nosso país que discute esquerda, direita, centro, progressistas, conservadores, mas o que não muda, de jeito nenhum na geral, na arquibancada ou perante a tv é o deixar tudo isso de lado perante um jogo de futebol. Ou o capítulo final da novela (alguém vai perder Pantanal?). Eleições com grandes quantidades de abstenções e votos em branco é fato permanente e, para não aumentar a lista quero registrar o hábito de que considerável parcela da população não consegue nem mesmo cumprir horários. O relógio foi inventado no ano 725 DC e ao mineiro Santos Dumont atribui-se a invenção do relógio de pulso, mas brasileiro acho que o outro tem a obrigação de esperá-lo! Coisa de gentalha, diria Dona Florinda, o Kiko, do Chaves e eu.

A querida e finada Elke Maravilha dizia que levaríamos uns quatrocentos anos para nos tornarmos civilizados. Tenho comigo que Elke tinha razão. Coisa que os “europeus brasileiros” odeiam é o fato de que a imensa maioria de pessoas que migraram para cá vieram porque a vida em seus locais de origem era uma merda! Mas, se acham europeus! Superiores! Esses devem odiar a cena de Bacurau, o filme em que a forasteira interpretada por Karine Teles leva um tiro na cara após afirmar ser superior aos nordestinos, pois vem do sul, é “europeia”. (Qualquer semelhança com a reação da região sul sobre os votos recebidos por Lula…).

Outra forma de superioridade é o comum “Gente de bem”. Essa categoria, nesse país, costuma roubar, assassinar, mentir, enganar, iludir… O que interessa é aparentar e usar subterfúgios para seguir em frente, mantendo essas coisas na clandestinidade. Gente de bem adora parecer, ao invés de ser. Homens pintam cabelo, mulheres fazem plástica, homens colocam prótese peniana, mulheres fazem ninfoplastia e assim, a relação de coisas que brasileiro faz para enganar o tempo só muda conforme o progresso da ciência. No mais, há pessoas que escondem a idade (isso não muda nunca?), embora estejam há cinco décadas, ou mais, presentes na mídia. O velho e imutável preconceito em relação aos velhos!

Estamos vivendo um período turbulento com o tal segundo turno das eleições presidenciais. E como as atitudes de políticos e eleitores não tem sido as esperadas ou desejadas, a tendência é chegarmos próximos do desespero. A luta está caótica! Bobagem! Acalmemos nossos corações inquietos. O que parece fim do mundo vai virar festa com o primeiro jogo da Copa do Mundo. É certo que irá rolar medo enorme de um novo 7 x 1! Mas, somos brasileiros, melhor futebol do mundo, vencer mais um campeonato vai contribuir para mudar os ânimos e manter as coisas como são. E isso sim, é triste.

No post passado assinalei algumas pequenas, mas consideráveis mudanças. Há outras e se alguém quiser comentar e dizer quais são eu agradeço. Afinal, o que não muda em mim, sertanejo desnutrido, é uma postura Macunaíma. Sou chegado ao vidão marupiara! Por isso vou parar por aqui. Ai, que preguiça!

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Notas:

As duas imagens deste post são do filme Macunaíma (1969) de Joaquim Pedro de Andrade: Paulo José e Grande Otelo são os intérpretes da personagem de Mário de Andrade.

Setembro e as flores do nosso jardim

O jardim em construção e o outro, dos tempos da Bela Vista.

Equilíbrio é circunstância que nos faz bem. Temperança, a virtude bíblica quando aplicada ao clima nos dá o conforto necessário para viver sem os excessos do verão e os rigores do inverno. Outono e primavera sinalizam, respectivamente, anúncios de fim e de início da vida. E setembro chega, dando adeus ao inverno e celebrando a vida que explodirá em flores, sinal máximo de renovação da vida, da natureza.

Anunciada oficialmente para 22 de setembro, a primavera já deu sinais no nosso pequenino jardim com duas tímidas e desbravadoras flores do nosso Lírio da Paz. Os últimos dias desse inverno rigoroso e ventos atlânticos por mim até então desconhecidos judiaram primeiro das nossas samambaias e em seguida, do “comigo ninguém pode”.  As aspas estão em decorrência da ironia entre o nome da folhagem e a força do vento invernal que rasgou e queimou as folhas, antes fortes e belas.

Em dias de Roberto Carlos, longe de ser o Rei me deparei com o estrago do tempo e verbalizei mil desculpas e, parando tudo, providenciei novo espaço para o Comigo Ninguém Pode. Sempre conversando sobre a nova vida que virá. Já havia feito o mesmo com as samambaias, agora também protegidas do vento, das chuvas e do frio. Tendo por base o jardim da orla aqui em Santos, com vários canteiros com belos Lírios da Paz, estou mantendo o vaso na sacada, atento aos possíveis efeitos desse fim de inverno.

O hábito vem de longe! Se está tudo bem com as plantas, está tudo bem com a vida. Na nossa nova casa realizei um velho sonho de uma sacada com vasos, bem florida, bem cheia de verde e ocasionais cores de flores e frutos. Os destaques estão citados acima: o vaso maior com Comigo Ninguém Pode, o médio com Lírios da Paz, samambaia e Flor de Maio, e três pequenos, um com Espada de São Jorge e Santa Rita, outro com uma flor pequenina recebida como presente de aniversário e o terceiro, um órfão de origem desconhecida.

O pequeno órfão foi, há mais de 20 anos, jogado no lixo por alguém…  Vendo o pequeno vaso abandonado não resistimos, João Luiz e eu, trazendo-o para casa. Guerreiro, ele nunca arrefeceu e invariavelmente renova todas as suas folhas, até mesmo já florindo algumas vezes. Foi o primeiro a dar sinal de estar feliz em Santos, com novas e verdíssimas folhas. O mesmo não ocorreu com as “estrelas da companhia”.

A samambaia com sua grande quantidade de folhas caindo pelas laterais do vaso suspenso me lembram os cabelos de gente muito querida e de madeixas vastas: Gal Costa, Wanderléa, Maria Bethânia… Foi a primeira vítima dos ventos frios do litoral. Em noites de tempestade os ventos do atlântico embaraçaram e rebentaram folhas, transformando o vaso em Medusa nervosa, tensa. Mil pedidos de desculpa e pronta mudança para área protegida. Em pouco mais de duas semanas já dá sinais de que, em breve, voltará a bater cabelo melhor que qualquer Drag Queen.

O anúncio de novas folhas é o sinal de que a “Comigo Ninguém Pode” está bem. E, exercendo meu direito a superstições cotidianas, sei que tudo ficará bem, ou que novo projeto dará certo se, junto com a novidade aparecem novas folhas no meu vaso. Foram essas que me deram a certeza de ter dado passo certo nessa mudança.  Todavia… Ontem passei boa parte do dia tratando da doente, acidentada pelo vento e pelo frio que queimou e maltratou a maioria das grandes folhas. Logo a convalescente voltará ao brilho costumeiro. Os jovens brotos estão lá e, superstição número dois, não conto quantos brotos são. Isso é para que todos vinguem e se tornem belas folhas.

Já desejei um dia que toda e qualquer casa tivesse um jardim. Uma sacada com plantas, uma janela com vasos de flores… Silenciosas e tímidas, nossas flores exigem pouquíssimos cuidados e brindam-nos diariamente com seu frescor, suas cores, tudo cheio de muita vida. E setembro é o mês em que, desejosas da primavera, nossas plantas renovam-se como se preparando para a grande festa que esse mês nos traz, a chegada da primavera.

Boa primavera para todos nós!

RC, por isso essa voz tamanha

Junho chega com Roberto Carlos voltando com tudo por aqui. O título acima é do livro do Jotabê Medeiros, lançado em abril deste ano. Lendo o livro me dei conta de que lá se vão 58 anos de convivência, desde as primeiras canções do “Rei” que entraram em minha memória. A leitura é emocionante por dois motivos básicos: a memória de infância acionada em cada trecho do livro e a percepção do tempo, da história que caminha ignorando nossas vontades. Tempo, tempo, tempo, tempo… diz outra canção, de Caetano Veloso, este também presente na vida de Roberto Carlos.

Conheci Jotabê Medeiros no ano passado, durante a Bienal do Livro de São Paulo quando mediei uma mesa da qual participou também o jornalista e escritor Nelson Motta. Assunto daquele momento, a vida do Nelson Motta e as biografias escritas por Jotabê, “Belchior, apenas um rapaz latino-americano” e “Raul Seixas, não diga que a canção está perdida”. Agora nos encontraremos no Trem das Lives, e o assunto será “Roberto Carlos, por isso essa voz tamanha”, celebrando os 80 anos do cantor e compositor,

O livro sobre Roberto Carlos oferece sobretudo aos fãs uma profunda viagem pelas diferentes fases da vida do parceiro de Erasmo Carlos, favorecendo lembranças sobre a Jovem Guarda, Wanderléa, e tudo o que veio depois. Há “detalhes”, muitos! De coisas esquecidas, de fatos desconhecidos, de momentos em que nossas vidas aconteceram com a trilha sonora de canções inesquecíveis.

Eu vesti calça calhambeque e, junto com essa, um cinturão “tremendão”… Minhas irmãs compravam discos, guardavam fotos. Tive um caderno onde colava fotos da Wanderléa… Meu irmão e meu avô curtiam a Martinha. O padrinho Nino ouvia “A Distância” e a namorada achava que era por conta de umas desavenças… ele ria e a gente sabia, ele se lembrava de outra namorada, anterior, perdida no tempo. Um dia Ronaldinho me ligou, em pleno expediente. Eu, no trabalho, tive que parar: – Escuta aí a música que o RC fez pra nós. “Você meu amigo de fé, meu irmão, camarada…” Como o próprio RC diria, “são muitas emoções” e eu ficaria horas escrevendo sobre essas.

Próximo domingo tem Roberto Carlos na live que farei com Jotabê Medeiros. Todos convidados para reviverem momentos pessoais e conhecer outros faces contadas pelo escritor. Aguardo todo mundo!

Trem das Lives, domingo, dia 06, 18h00

instagram.com/tremdaslives