Amigos Imaginários

jerry adriani

Mais uma vez de uma sensação já conhecida. É como se tivéssemos perdido um amigo. Desses amigos com os quais não nos encontramos muito ou deixamos de ver por todas as possíveis razões cotidianas. No entanto a notícia da morte cala fundo e sentimos a perda. Sem aquele desespero de quando são entes familiares e queridos, contudo vem a tristeza da perda do amigo imaginário acompanhada da certeza de que a morte é o fim de todos nós.

Meu primo mais velho, falecido há mais de trinta anos, era grande fã de Jerry Adriani. Gostava de pentear o cabelo como o ídolo assim como também gostava de cantar as músicas, usar roupas similares. “Foi assim”, canta Wanderléa no final do show de sucesso em cartaz, o “60! Década de Arromba”, um documentário musical: A Jovem Guarda  ditava maneiras de vestir, de cantar, de ser. E mesmo que tenhamos tomado rumos absolutamente distintos, qualquer fato relacionado à Jovem Guarda mexe com toda uma geração.

Até onde vão as lembranças todos gostávamos de Roberto Carlos. E do Erasmo, Wanderléa, Martinha, Wanderley Cardoso, Rosemary, Eduardo Araujo, Silvinha, Ronnie Von, o Trio Esperança, os Golden Boys… Sem contar as bandas como Renato e seus Blue Caps , as duplas Leno e Lilian, Os Vips… E, é claro, Jerry Adriani.

Morre Jerry Adriani aos 70 anos. Wanderléa realiza um show de sucesso também aos 70 anos e Roberto Carlos comemora aniversário em Portugal. Três momentos distintos desses amigos imaginários dos quais nos sentimos íntimos, próximos, guardando cada momento – para nós – absolutamente especial: o primeiro show, o encontro casual na rua ou no aeroporto, a revista engavetada desde os anos de 1960, a foto perdida em meio a um livro ou caderno. Perdemos um. A tristeza é inevitável.

Seria bom se nossos ídolos fossem eternos, belos, saudáveis. A vida trata de nos dar a certeza de que são humanos, finitos. Reverenciá-los vivos é fundamental. Nesses anos todos só escrevi sobre Jerry nos tempos do Papolog – o site sobre música onde trabalhei. Tenho tecido loas à Wanderléa e, às vezes, ficado irado com algumas atitudes de Roberto Carlos. E até essa ira é coisa de quem ama, de quem se decepciona e se dá o direito de julgar o outro, meter-se na vida do ídolo. Como se fossem amigos e próximos; e até nos devessem satisfação… Bobo isso, mas real, intenso.

Jerry Adriani envelheceu bonito, com a voz bela de quando começou a carreira. Teve percurso próprio e manteve-se, sempre, o galã, ídolo do tempo da Jovem Guarda que aprendemos a amar e a respeitar. Que siga em paz. Seu legado está entre nós, principalmente os discos que nos acompanharão e farão sempre com que nos lembremos do cantor paulista do Brás, que cantava em italiano, em inglês e, sobretudo, legou-nos algumas doces canções desde a época da Jovem Guarda. Fica aqui nosso adeus e gratidão!

Até mais!

Mudanças são apelos persuasivos

Um aluno pediu-me para escrever sobre Fátima Bernardes, Roberto Carlos e duas campanhas que estão no ar. Vai aqui um mote para posteriores reflexões com esse aluno e todos os demais:

Imagens de divulgação das campanhas
Imagens de divulgação das campanhas

Uma mesma empresa, a JBS, lançou duas campanhas publicitárias. Uma com Fátima Bernardes e outra, com Roberto Carlos. A campanha estrelada pela apresentadora e jornalista é da agência WMcCann; a do cantor é da agência Lew Lara\TBWA. Um motivo comum justifica a escolha dessas personalidades: a mudança. Fátima Bernardes mudou de vida ao deixar o Jornal Nacional pelo programa matinal que apresenta na Rede Globo e Roberto Carlos, dizem, mudou hábitos alimentares. Não é mais vegetariano!

As críticas ao comercial com o cantor são pesadas e, até onde percebo, não há nenhuma manifestação contrária pela escolha de Fátima Bernardes. Roberto Carlos vem de uma polêmica participação quanto a direitos autorais onde grana tende a pender mais que intimidade; além disso, é cantor de versos contra a matança de baleias, constituindo-se motivo para vegetarianos manifestarem-se furiosos pelo cantor voltar a comer carne.

Fátima Bernardes carrega um título até aqui pouco divulgado: Em 2013, na 12ª edição da Pesquisa Marcas de Confiança, foi apontada como a apresentadora mais confiável do Brasil (Desbancou Silvio Santos!). Tem, então, a responsabilidade de corresponder ao público (74% de acordo com a pesquisa) divulgando produtos de qualidade. O que se espera é que a mãe de trigêmeos (ela sempre fala de si no programa) coloque os produtos que divulga para alimentar os próprios filhos.

As vendas de carne empacotada e com logotipo aumentaram com Tony Ramos, que agora é narrador do comercial de Roberto Carlos. Resta saber se o cantor irá influenciar os hábitos de compras de seus fãs e qual o impacto que o comercial terá nos milhões de vegetarianos que há no país (9%, dados do IBOPE). Um resultado que os números, no final das campanhas, serão os reais avaliadores. Sim, os números! Mudanças são apenas temas transformados em apelos persuasivos pela publicidade. Afinal, a gente sabe, campanhas comerciais implicam basicamente uma coisa: faturar!

Até mais!

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Recolher outro livro… Qual o problema, Roberto Carlos?

capa-do-livro-jovem-guarda-mod

Pela segunda vez o “Rei” tenta tirar um livro de circulação. Em 2007 ele conseguiu que a biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, escrita por Paulo César de Araújo, fosse recolhida das livrarias. Agora, os advogados contratados por RC tentam o mesmo com outro livro, “Jovem Guarda: moda, música e juventude”, de Maíra Zimmermann, da editora Estação das Letras e Cores.

As alegações são as mesmas de sempre: “fatos de foro íntimo e pessoal do cantor”. Acontece que o livro de Maíra Zimmermann é uma obra acadêmica; ou seja, é “resultado da pesquisa de mestrado desenvolvida pela autora no programa de mestrado em Moda, Cultura e Arte do Centro Universitário Senac”. Sendo obra acadêmica é uma pesquisa detalhada, exposta com detalhes nas 529 notas de rodapé, documentada em fontes e referências bibliográficas que ocupam mais de 10 páginas.

Será que RC chegou a ver o tal livro? Será que consegue perceber a diferença entre um trabalho de mestrado e uma revista ordinária de fofocas? O problema seria dinheiro?

Alguns números: A editora informa ter colocado mil exemplares à venda. Comprei um exemplar hoje (e se bater alguém na minha porta, pedindo de volta, só entrego com ordem de juiz!) por 48,00 reais. Assim, mantendo esse preço e vendendo toda a tiragem, a editora receberá 48.000,00. Se o contrato foi na base de 10% para o autor, Maíra Zimmermann poderá receber a fortuna de 4.800,00 reais.

Do processo que moveu contra Paulo César de Araújo, segundo este, RC alegou estar perdendo dinheiro, já que “fãs deixariam de comprar o CD para comprar a biografia. Ele pediu multa de 500.000 reais por dia em que o livro seguisse circulando e pediria uma indenização ao final do processo, que foi encerrado com o recolhimento das 11.000 cópias ainda disponíveis do livro”.

Já foi notificado que RC fez contrato com a editora Leya, que publicará uma “biografia autorizada” e que o projeto inclui filme sobre a vida do cantor. É um direito dele, sem dúvida, mas essa história de biografia autorizada… Certamente o livro não dirá que RC gravou “Quero que vá tudo para o inferno”, já que o cidadão não fala a palavra inferno, nem permite que outro cantor grave a música. Seria isso?

Roberto Carlos, como todo ser humano, tem direitos autorais e concordo que administre seus bens, seus segredos e fatos pessoais conforme suas convicções. Todavia, a Jovem Guarda não é propriedade dele. Se alguns artistas desse período influenciaram as pessoas através do modo de vestir, de cortar ou deixar crescer o cabelo, de usar adereços, de expressarem-se através de gestos e expressões peculiares, enfim, se fizeram história, essa história é de toda uma nação, não de um indivíduo. E é disso que trata o livro “Jovem Guarda: Moda, música e juventude”.

Não vi nada publicado na imprensa sobre a quarta capa do livro de Maíra Zimmermann conter texto assinado por Wanderléa. Sim, a “maninha do rei” colaborou com o livro e diz, entre outras coisas, que “Seu conteúdo vem me trazer a dimensão da minha atuação nesse contexto”; mais além, a cantora afirma: “nossa participação foi válida, acrescentando valores de troca, experiência e referência para tantas vidas”. Que pena que RC queira tirar de circulação algo, segundo Wanderléa, “tão minucioso e verdadeiro”.

Só para completar: o livro cita muita gente; só para ficar na esfera de cantores notáveis no período: Wanderley Cardoso, Martinha, Celly Campello, Eduardo Araújo, Ronnie Von, Vanusa, Rosemary, Ari Sanches, George Freedman, Os Incríveis e dezenas de outros que, junto com Roberto Carlos, fizeram a história que também é a história de milhões de brasileiros.

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Até mais!

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– Roberto, não traga de volta o LP!

single, cd, e no comercial a expressão “compacto duplo”

Quando vi o comercial divulgando o “Compacto Duplo” de Roberto Carlos, pensei: – Bingo! Esses indivíduos sabem com quem estão falando. A mensagem estava endereçada para pessoas que sabem exatamente o que é um Compacto Duplo e que, certamente, estranhariam a expressão “CD – Single”.

Já nos habituamos com a expressão CD, que é Compact Disc, e ele vem “virgem” ou cheio de músicas, de imagens e diferentes possíveis arquivos. Agora, “CD – Single” é sempre uma dúvida, já que o dito cujo vem com uma ou várias canções. A mensagem do novo trabalho “Roberto Carlos – Esse cara sou eu” revive uma expressão que os milhões de fãs do Rei entendem bem. Se o “Brasa” lançasse um compacto simples, viriam duas canções. No atual, compacto duplo, vem quatro. A única vantagem do presente objeto: não precisa “Virar” o disco. As quatro canções, sabemos bem, estão na mesma face.

Há tantas expressões estrangeiras no mercado! Chega a irritar, principalmente quando percebemos que a idéia é “agregar valor”, ou seja, tornar a bugiganga mais cara por conta do “single”, saca! Vamos ao exemplo: o mais recente CD do cantor, “Roberto Carlos em Jerusalém”, é duplo (ou seja, dois CDs no álbum) com 11 canções no CD 1 e outras 11 canções no CD 2, e está sendo vendido por  R$ 39,80, num site que está aberto aqui, enquanto escrevo.  O CD – Single, com apenas 4 canções e dessas, duas inéditas,  custa R$ 9,90, no mesmo site. Façam as contas!

Sem mesquinharia! Não há dinheiro que pague uma boa música. O que compramos é uma reprodução, podendo ouvir quantas vezes quisermos, onde e como der vontade. O ruim é alguém mudar o nome da coisa e cobrar muito mais caro, porque o velho compacto vira “single”. Essa é uma boa forma de incentivar a pirataria, porque o povo não é trouxa e já percebeu, há muito, que gente de má fé tenta vender “singles”, como se um “single” fosse melhor que uma “canção”!

Os negociantes estão aí, sempre tentando tirar a grana da gente. Nesse momento presenciamos a volta de um nome – Compacto Duplo – em um formato diferenciado por um preço alto. O pior é retirarem um produto do mercado, alegando que o novo é melhor e, em seguida, voltam com o tal produto, agora tornado “cult” (olha aí, novamente o valor agregado!) e por isso, cobram um preço mais que abusivo.

CD e Vinil, preços absolutamente distintos para o “produto”

Para exemplificar, minha amada, idolatrada, salve, salve, Maria Bethânia: A cantora lançou o CD “Oásis de Bethânia”; belíssimo e com a qualidade que faz dela uma das mais respeitadas intérpretes desse país. O CD está por razoáveis R$ 29,90 no mercado online. Este é o 50º disco da cantora e, para comemorar a data, a gravadora (leia-se negociante!) lançou um vinil.

Vinil é o nome que popularizam para o antigo LP, ou Long-Play. Faço parte de uma geração que comprou LPs de Roberto Carlos, Wanderléa, Chico Buarque, Elis Regina, Milton Nascimento e, entre outras feras, é claro, Maria Bethânia. LP era um “discão” com cerca de 6 músicas de cada lado. O vinil é o material de que são feitos os tais LPs que sumiram um tempo do mercado após o surgimento do CD, com suposta nova tecnologia, melhor som, melhor qualidade, etc. O vinil era material que riscava, furava, quebrava, enfim, algo velho e acabado.

Depois que o mercado foi infestado de CDs e até de outros formatos, resolveram reviver o LP, dizendo que este é maravilhoso, sensacional, com um som diferenciado e único e, provavelmente, por todas essas excelentes qualidades, custa  no mínimo duas vezes mais que o CD. Exemplo básico: “Oásis de Bethânia”, o CD, custa R$ 29,90. “Oásis de Bethânia”, o vinil, custa R$ 68,90. Estão me chamando de otário?

A tecnologia avança e o CD já é quase passado. Convivemos atualmente com o mp3 e outras mumunhas digitais. A “decadência” do CD já é anunciada e, provavelmente, ele desaparecerá para, algum tempo depois, voltar “cult”, como o antigo LP, atual Vinil. Quanto custaria um vinil de Roberto Carlos?

Pague quem quiser; pague mais caro quem puder. E prossigam com a “viagem na maionese” divagando sobre as diferenças sonoras entre o 78rpm (só os mais velhos conhecem este), o LP, o compacto simples, o duplo, o CD, o mp3…  E toda a aparelhagem necessária para que esses objetos possam cumprir a função. A boa música, até que merece. Mas é bom não esquecer aquela canção interpretada com propriedade por Elis Regina que dizia:

…nossos ídolos ainda são os mesmos

E as aparências não enganam não

Estão em casa guardados por Deus

Contando o vil metal…

Alguns desses ídolos, é bom prestar atenção, reclamam da falta de liberdade para gravar o que, quando, como entendem. Todavia, ficam caladinhos quando a discussão envolve o preço do disco, seja no formato que for, em suas belas casas, “contando o vil metal”. Roberto Carlos vende CDs e Compactos Duplos, assim como Maria Bethânia vende CD e Vinil. Se Roberto lançar um vinil, a máquina publicitária fará voltar o LP para o falar cotidiano. Tudo bem, desde que não esqueçamos que são meras peças da grande indústria que fatura alto, camuflando mesmices sob formatos diferenciados.

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Bom final de semana

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Nota:

Os versos acima são da música “Como nossos pais”, de Belchior.

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Alguns detalhes sobre Altamiro Carrilho

Antes dos primeiros versos de “Detalhes” é o inesquecível som de uma flauta que faz com que identifiquemos a canção. Altamiro Carrilho faz uma abertura brilhante para aquela que está entre as maiores canções da dupla Roberto e Erasmo Carlos. Nem sempre nos damos conta do quanto um instrumentista importa em nossas vidas; mas não dá para imaginar “Detalhes” sem aquele som simples, tão característico, evocando toda uma situação mágica e encantadora, precedendo a interpretação impecável de Roberto Carlos (Clique para ouvir).

Em 1971 Altamiro Carrilho participou da gravação de “Detalhes”. No mesmo ano, no VI Festival Internacional da Canção, a banda de Altamiro dá um maravilhoso suporte para Wanderléa. Cantando “Lourinha”, de Fred Falcão e Arnoldo Medeiros, Wanderléia deixava evidente que já estava longe da Jovem Guarda, interpretando este gracioso chorinho com o acompanhamento preciso e virtuoso de Carrilho.

Com Roberto Carlos e Wanderléa conheci o flautista genial que foi Altamiro Carrilho. Tão genial que me levou a fantasiar que a flauta foi um instrumento criado para solo de chorinhos, maxixes, marchinhas… Altamiro Aquino Carrilho (21/12/1924) começou a carreira em 1949, gravando com Moreira da Silva. “Brasileirinho” (Waldir Azevedo e Pereira Costa) e “Espinha de Bacalhau” (Severino Araújo) são gravações antológicas, tanto quanto “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu), só para citar alguns registros instrumentais.

Certamente a música “Detalhes” está entre as mais executadas nas emissoras de rádio e tv do Brasil. Não é só; Altamiro Carrilho está presente também em outros grandes sucessos; é difícil imaginar “Meu caro amigo” (Chico Buarque e Francis Hime) sem o flautista; e na gravação original da trilha do seriado Gabriela, é ele a dar um colorido especial, enriquecendo a interpretação de Gal Costa

O que e o quanto mais temos de Altamiro Carrilho em nossas vidas, na música brasileira? Se acontecer uma pesquisa aprofundada é certo que encontraremos muito mais do músico que faleceu, aos 87 anos, nesse 15 de agosto. Será um encontro com gente do nível de Pixinguinha, Vicente Celestino, Caetano Veloso, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Jacó do Bandolim, Clara Nunes e mais, de outro universo onde estão Bach, Beethoven, Chopin… Muito, muito grande esse Altamiro Carrilho.

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Até!

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Nota: o falecimento de Altamiro Carrilho foi destaque em toda a imprensa. O G1 apresentou uma seleção de entrevistas que valem uma visita; clique aqui para acesso aos vídeos.

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Sete mil vezes Caetano Veloso

Impossível não reverenciar Caetano Veloso quando este grande, entre os maiores compositores brasileiros, completa 70 anos. O natalício será neste próximo dia sete de agosto. Difícil escrever algo novo sobre Caetano já que o mesmo, merecidamente, será homenageado pelos maiores intelectuais deste país; difícil também escrever para alguém que escreve tão bem! Mas, vamos lá, deixar o coração falar para homenagear alguém que, ao longo de tantos anos, propiciou momentos incríveis para milhões de brasileiros.

Claudia Cardinale e Brigitte Bardot
Todo mundo, como Caetano, sonhava com Cardinale e Bardot

A primeira música que emerge, quando penso em Caetano Veloso, fala de um amor arrebatador. Todavia, como a música brasileira é sempre presente em minha vida, inclusive em sala de aula, falar em primeira é falar em “Alegria, alegria”. Criança – eu tinha 9, 10 anos – pouco sabia que em música brasileira não se usava guitarra elétrica. A música daquele rapaz cabeludo da Bahia era contagiante; eu não usava nem lenço nem tinha documento e era, como todo garoto de então, apaixonado por Brigitte Bardot, com uma grande queda para Claudia Cardinale. Tudo era uma grande festa!

…Espaçonaves, guerrilhas

Em Cardinales bonitas

Eu vou

Em caras de presidentes

Em grandes beijos de amor

Em dentes, pernas, bandeiras,

Bomba e Brigitte Bardot…

A vida tratou de ensinar-me que Caetano Veloso era mais que “Alegria, Alegria”. Antes de completar 17 anos saí de casa pela primeira vez. Foram tempos conturbados para todo o país e eu, como o baiano de Santo Amaro da Purificação, também tive que vir embora. “No dia em que eu vim-me embora” a canção de Caetano Veloso e seu parceiro Gilberto Gil, é trilha profunda para o retirante que sou.

…E quando eu me vi sozinho

Vi que não entendia nada

Nem de por que eu ia indo

Nem dos sonhos que eu sonhava…

Caetano Veloso foi embora para Londres onde criou “London, London”, uma das mais belas canções com a capital inglesa como tema, e voltou para um Brasil de sempre, com “podres poderes” que demoraram a tomar rumo. Longe de Uberaba fui ao primeiro show daquelas quatro figuras mágicas, então denominadas “Doces Bárbaros”: Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Quem é da minha geração pode entender qual o impacto de, em um mesmo palco, encontrar quatro imensas feras da nossa música. Isso em uma época onde não rolavam festivais de verão e similares. No show, no disco, o aprendizado que persigo e que pretendo seguir enquanto vivo:

O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar…

Ame-o e deixe-o ir aonde quiser…

Ame-o e deixe-o ser o que ele é…

Alguém importa quando importa para a vida de muita gente. É o caso de Caetano Veloso que, creio, seja autor de canções para a vida da maioria dos brasileiros. Desde o primeiro disco o compositor, também excelente cantor, jamais fugiu de suas raízes populares. Gravou Vicente Celestino com o mesmo respeito que gravou Chico Buarque; fez sucesso com canções de Peninha, Roberto Carlos e atualmente segue em parceria nos palcos, ao lado de Maria Gadu.

Caetano Veloso 70 anos

Poderia alongar-me aqui e escrever sobre a trilha sonora de “Velhos Marinheiros”; a adaptação do romance de Jorge Amado foi para os palcos de São Paulo, com uma trilha baseada em Caetano Veloso; meu amigo Ivan Feijó participou deste trabalho e corrigiu-me a memória (vejam no comentário abaixo). No espetáculo teatral dirigido por Ulysses Cruz, Ivan contribui com as canções de Vicente Celestino. Poderia escrever sobre as inesquecíveis aulas de Dirce Ceribeli, na UNESP, introduzindo semiologia através das letras das canções do compositor. Poderia contar um monte de histórias; várias delas com “Eclipse Oculto” como tema.

Nosso amor não deu certo

Gargalhadas e lágrimas

De perto fomos quase nada

Tipo de amor que não pode dar certo

Na luz da manhã

E desperdiçamos os blues do Djavan…

Tantas histórias de tantas vidas com a música de Caetano Veloso ali, presente; marcando acontecimentos, tornando pessoas inesquecíveis. As canções são sempre novas para quem não as conhece. Tornam-se vivas e tornam vivas as pessoas, mesmo que o tempo tenha ficado longe demais. Muitas histórias, mas hoje é segunda-feira…

– Vamos trabalhar!

Então, deste humilde blog quero desejar outros 70 anos ou setenta mil vezes setenta para Caetano Veloso. Penso que basta uma música para fazer célebre um grande compositor. Sou contra cobranças ou exigências de novas canções, novos sucessos, outra “Sampa”. Cada pessoa tem sua preferência e, em se tratando de Caetano Veloso, esse leque é bastante amplo. Eu prefiro “Sete mil vezes”. Feliz de quem pode amar e, para esse amor, tomar emprestada a música e a letra de Caetano Veloso para soltar o gogó….

Sete mil vezes eu tornaria a viver assim
Sempre contigo transando sob as estrelas
Sempre cantando a música doce
Que o amor pedir pra eu cantar
Noite feliz, todas as coisas são belas
Sete mil vezes, e em cada uma outra vez querer
Sete mil outras em progressão infinita…

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Feliz aniversário, Caetano Veloso!

Boa semana para todos!

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Para os melhores amigos…

As melhores canções. Não dá pra escolher uma, porque há muitas e todas são emocionantes. Cada um tem a sua preferida e neste post estão aquelas que me ocorrem sempre quando penso nos meus grandes amigos (todos eles são melhores!)…

Para ler este post, seja manhã, tarde ou noite, clique aqui para ouvir Abílio Manoel. A canção é a inspiração básica para entrar no clima e relembrar outras sobre amizade. “Bom dia, amigo” é uma composição interpretada pelo autor, Abílio Manoel. Cantei muitas vezes essa música com grupos de criança e ao pensar esse texto, foi inevitável relembrá-la. Então, clique e deixe o som de fundo para continuar a ler.

Um lugar assim, para conviver com meus amigos.

Algumas canções são tiro e queda quando o tema é amizade. Em qualquer lista aparece, sem delongas, “Canção da América”, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Quem pode negar que “Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito”? O mais difícil desta música é escolher entre a interpretação de Elis Regina (clique para ouvir) e a do próprio Milton Nascimento; mas, essa é outra questão.

Outra que não falta em uma provável lista também é figurinha carimbada, presente em todo e qualquer boteco onde cantar ainda é possível: “Amigo é Pra Essas Coisas”, composta por Silvio da Silva Jr. e Aldir Blanc. Um diálogo transformado em sambinha dos bons;  marcou toda uma geração que sabe que “tua amizade basta” e que “o apreço não tem preço”. A interpretação do MPB-4 é imbatível.

Amigo que é amigo escuta, atentamente, todas as nossas agruras amorosas. Quando apaixonados, se o amor está em crise, diante de uma nova paixão, encucados por uma desavença, só mesmo um amigo pra nos ouvir. Para amores complicados Roberto Carlos e Erasmo Carlos criaram uma verdadeira obra-prima: “Amiga”. Originalmente a música foi criada especialmente pelo desejo de Roberto Carlos gravar com Maria Bethânia. Veja-os, em 1982.

Shangrila, para sonhar um lugar ideal para grandes amigos.

Foi nos anos 80 que Djavan criou “Nobreza”. Talvez a mais bela canção para a amizade verdadeira entre dois homens. Os versos são ousados para ouvidos conservadores e, provavelmente por isso, a música não é tão comum em bares e similares. É difícil para a maioria dos rapazes, mesmo diante do melhor amigo, cantar “uma bela amizade é assim: dois homens apaixonados…” Talvez um dia a coisa mude de rumo; mas que é uma belíssima música, é só ouvir e comprovar.

Chico Buarque, o melhor de todos os nossos compositores, criou com Francis Hime “Meu Caro Amigo”. É uma carta em forma de chorinho, para soltar o gogó amaciado por uma boa cerveja. E como amigo verdadeiro assume a família do outro, “a Marieta manda um beijo para os seus, um beijo na família, na Cecília, nas crianças…”

Se você chegou até aqui já leu minhas escolhas para a música preferida sobre amizade. Sinta-se livre para indicar outra fora desta relação, que talvez eu não conheça ou tenha deixado de fora. Caso indique outra, não deixe de mencionar os autores. Eles merecem.

Nosso Lar, para viver todas as vidas com meus amigos

A vida me presenteou com amigos incríveis – muitos! – só entendo uma música para expressar o que sinto por meus amigos; é a canção que escolhi para concluir este, na voz suave e inesquecível de Mercedes Sosa: Los Hermanos, de Atahualpa Yupanqui. Se você é realmente meu amigo, esta canção é pra você.

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Bom final de semana!

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Até!