Amigos Imaginários

jerry adriani

Mais uma vez de uma sensação já conhecida. É como se tivéssemos perdido um amigo. Desses amigos com os quais não nos encontramos muito ou deixamos de ver por todas as possíveis razões cotidianas. No entanto a notícia da morte cala fundo e sentimos a perda. Sem aquele desespero de quando são entes familiares e queridos, contudo vem a tristeza da perda do amigo imaginário acompanhada da certeza de que a morte é o fim de todos nós.

Meu primo mais velho, falecido há mais de trinta anos, era grande fã de Jerry Adriani. Gostava de pentear o cabelo como o ídolo assim como também gostava de cantar as músicas, usar roupas similares. “Foi assim”, canta Wanderléa no final do show de sucesso em cartaz, o “60! Década de Arromba”, um documentário musical: A Jovem Guarda  ditava maneiras de vestir, de cantar, de ser. E mesmo que tenhamos tomado rumos absolutamente distintos, qualquer fato relacionado à Jovem Guarda mexe com toda uma geração.

Até onde vão as lembranças todos gostávamos de Roberto Carlos. E do Erasmo, Wanderléa, Martinha, Wanderley Cardoso, Rosemary, Eduardo Araujo, Silvinha, Ronnie Von, o Trio Esperança, os Golden Boys… Sem contar as bandas como Renato e seus Blue Caps , as duplas Leno e Lilian, Os Vips… E, é claro, Jerry Adriani.

Morre Jerry Adriani aos 70 anos. Wanderléa realiza um show de sucesso também aos 70 anos e Roberto Carlos comemora aniversário em Portugal. Três momentos distintos desses amigos imaginários dos quais nos sentimos íntimos, próximos, guardando cada momento – para nós – absolutamente especial: o primeiro show, o encontro casual na rua ou no aeroporto, a revista engavetada desde os anos de 1960, a foto perdida em meio a um livro ou caderno. Perdemos um. A tristeza é inevitável.

Seria bom se nossos ídolos fossem eternos, belos, saudáveis. A vida trata de nos dar a certeza de que são humanos, finitos. Reverenciá-los vivos é fundamental. Nesses anos todos só escrevi sobre Jerry nos tempos do Papolog – o site sobre música onde trabalhei. Tenho tecido loas à Wanderléa e, às vezes, ficado irado com algumas atitudes de Roberto Carlos. E até essa ira é coisa de quem ama, de quem se decepciona e se dá o direito de julgar o outro, meter-se na vida do ídolo. Como se fossem amigos e próximos; e até nos devessem satisfação… Bobo isso, mas real, intenso.

Jerry Adriani envelheceu bonito, com a voz bela de quando começou a carreira. Teve percurso próprio e manteve-se, sempre, o galã, ídolo do tempo da Jovem Guarda que aprendemos a amar e a respeitar. Que siga em paz. Seu legado está entre nós, principalmente os discos que nos acompanharão e farão sempre com que nos lembremos do cantor paulista do Brás, que cantava em italiano, em inglês e, sobretudo, legou-nos algumas doces canções desde a época da Jovem Guarda. Fica aqui nosso adeus e gratidão!

Até mais!

Uma brasileira não desiste nunca!

Gosto de inventar histórias. Esta, abaixo, foi escrita há bastante tempo, para homenagear a Bibi, aniversariante do dia. Tava esquecida em arquivos não disponíveis. Vale a pena resgatar para, sobretudo reafirmar meu afeto e o título da história:

UMA BRASILEIRA NÃO DESISTE NUNCA!

vodka

Essa história rolou na calada, pouca gente soube e por ser esta uma ocasião especial chegou o momento de contá-la.  Em Uberaba, lá em Minas, junto com o mês de fevereiro chega um monte de garotas novas. São jovens ocupando vagas nas Universidades da cidade. Abre-se a temporada de caça para as novatas e a remarcação de território das meninas da cidade.

Ano passado chegou uma moça, como se diz por lá, metida à besta, uma fubá! Era de Barretos, São Paulo, e gabava-sede ser tão boa quanto qualquer peão se o assunto fosse copo. Não havia cerveja que a derrubasse! Tinha vindo pra Uberaba junto com uma prima, de Catalão, em Goiás, que também se gabava de derrubar toda a cachaça de um bar. Parecia ser esse o “marketing” das novatas frente aos rapazes uberabenses. As duas só entoavam música da banda SAIA RODADA.

Vamos “simbora” pra um bar

Beber, cair, levantar

Vamos “simbora” pra um bar

Beber, cair e levantar

Beber, cair e levantar…

Começaram a reinar nas noites de domingo, em frequentado bar da Avenida Santos Dumont. Tudo caminharia bem senão fosse pelo ato de beber e falar demais. Beber não era problema, mas falar pelos cotovelos… Certo dia, de cara cheia e língua solta, começaram a menosprezar as filhas da terra, afirmando que não haveria em Uberaba ninguém capaz de derrubá-las na bebida.

Mineiros, em geral, são quietinhos e, é conhecimento de toda a nação, dão um boi pra não entrar em uma briga e uma boiada inteira pra não sair. Estava armada a contenda. Tudo bem beber, tudo bem namorar alguns rapazes, mas menosprezar uberabense era demais! Foi tudo muito rápido. Mal as duas disseram as bobagens para que uma uberabense prontamente aceitasse o desafio, desde que a bebida fosse vodka.

A paulista de Barretos não titubeou em aceitar o desafio, muito menos a prima de Catalão. Segundo elas, traziam bebida antes mesmo da concepção, posto que os pais de ambas haviam tido PEPINO DI CAPRI como ídolo.

Champagne per brindare um incontro

Con te Che già eri di un altro

Ricordi c’era stato um invito:

Stacera si va tutti a casa mia…

A Uberabense caiu na risada com a história do champagne. Só poderia ter dado naquelas duas. Onde já se viu tanto romantismo estrangeiro! Cheia de orgulho familiar, a mineirinha contou que, desde o bisavô, o lema da família já tinha sido imortalizado por INEZITA BARROSO:

Pego o garrafão e já “balanceio”

Que é pra mor de vê se tá mesmo cheio

Não bebo de vez porque acho feio

No primeiro gorpe chego inté no meio

No segundo trago é que eu desvazeio

Oi, lá!

Estava claro que a contenda seria boa! Grande! Os rapazes rodearam as meninas, armou-se uma banca de apostas e até um sujeito, galã por conta de uma mãe mentirosa (Ela falou e ele acredita que é!), resolveu premiar a vencedora com ROBERTO CARLOS.

Amanhã de manhã

Vou pedir um café pra nós dois

Te fazer um carinho e depois…

A indignação foi geral. Entrar com café antes do porre? Se houvesse tido um ensaio não teria saído tão perfeito. As três bebedoras responderam e mandaram às favas o galã em uníssono, com a força do velho e ótimo CHICO BUARQUE:

Pai! Afasta de mim esse cálice

Pai! Afasta de mim esse cálice

Pai! Afasta de mim esse cálice…

E a mineirinha emendou, colocando o chato pra escanteio, quebrando tudo com o BARÃOVERMELHO, banda do coração da moça:

Embriague-se, embriague-se

De noite ou ao meio dia

Embriague-se, embriague-se numa boa

De vinho, virtude ou poesia…

O barman resolveu incrementar a contenda, dando uma rodada de graça para todos os presentes. Interessado em ampliar vendas criou, de imediato, uma primeira regra para as três concorrentes: aquela que fosse ao banheiro estaria fora do jogo. As duas forasteiras gabaram-se do título de “bexiguinhas de ouro” conquistado numa noite como aquela, na Festa do Peão de Barretos.

A segunda regra criada pelo barman foi baseada em célebre sucesso de ELIZETH CARDOSO. O início da peleja seria com a banda residente tocando “Eu bebo Sim” três vezes e a concorrente que tomasse a maior quantidade de tragos durante a execução da música, corresponderia a pontos na disputa. Portanto, não bastaria manter-se de pé; a vitória seria dada a quem bebesse mais durante toda a noite. E a banda mandou ver:

Tem gente que já ta com o pé na cova

Não bebeu e isso prova

Que a bebida não faz mal

Uma pro santo, bota o choro, a saidera

Desce toda a prateleira

Diz que a vida ta legal

Eu bebo sim…

A moça de Barretos tomou 19 doses e a de Catalão, 18. A mineirinha… 22. As três, nessa altura, encostadas no balcão, já tinham os olhos vidrados, a boca pastosa, as pernas bambas, a cabeça pesada. Nenhuma dava sinais de um possível abandono da luta.

Uma hora depois, com outras três garrafas esvaziadas a coisa parecia chegar ao final, quando bateu a falta de elegância. A caloura de Catalão pediu um balde e, vomitando, foi desclassificada. A moça de Barretos tomou ares de vitoriosa e a mineirinha resolveu fazer serenata para o próprio copo, embalando este e lembrando CAZUZA:

Benzinho, eu ando pirado

Rodando de bar em bar

Jogando conversa fora

Só pra te ver passando, gingando…

A expectativa crescia e, como todo mineiro é precavido, a ambulância já havia chegado preparada para tratar comas alcoólicos. A banca de apostas crescia e o bolo chegava perto dos dez mil reais, dinheiro vivo, metade destinada à vencedora. Percebendo a proximidade do fim, o barman,resolveu abrir outras quatro garrafas de vodka, garantindo com isso, mais quatro vendas. As meninas encararam e um imbecil lembrou outro imbecil, famoso nas transmissões esportivas, onde, em qualquer jogo, solta a pérola: – Dramático! É um jogo de vida ou morte!

Antes de terminarem a segunda garrafa, das últimas disponíveis, a moça de Barretos caiu sobre o copo, escorregando feito lesma chão abaixo. O bar inteiro ovacionou a mineirinha que, com um grito de “chega!”, calou todo mundo, emendando para espanto geral: -Gente, eu estou só começando!

Sem dividir as garrafas restantes com ninguém, guardando o dinheiro obtido na disputa em uma bolsa a tiracolo,caiu ao começar a quarta garrafa. Quando correram pra socorrê-la, outro grito: “-Pode parar que eu ainda não acabei”. E ainda com cérebro para lembrar-se de uma conhecida lá de Belém do Pará, soltou a frase que ninguém, presente no bar naquela noite, jamais esquecerá: “- Eu bebo até cair e quando eu caio bebo deitada, porque sou brasileira e não desisto nunca!”

Essa mineirinha lembra outra que faz aniversário neste dia 6. Certamente  BIBI não beberá tanto quanto a dessa história, mas que  vai beber, isso vai!

bibi

Feliz aniversário, Adryana Gabriela!

 

Até!

O gado, Chico e os Dinossauros

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Uberabense distante, a comemoração do aniversário da cidade é acontecimento que suscita lembranças, reascende o passado. Por outro lado, aqui e por todos os lugares em que estive ao anunciar que sou de Uberaba recebo de volta a identificação imediata da cidade mineira onde nasci.

“- Lá é terra de gado, do Zebu! De gente de muito dinheiro”, dizem. Aviso logo que não sou fazendeiro, que não pertenço às famílias de criadores que trouxeram o gado indiano para o Brasil. Falo da Exposição, da Feira Agropecuária do Parque Fernando Costa. Lembro tempos de criança que ignorando o governo militar que nos foi imposto ficava orgulhoso por ver, bem de perto, todos os Presidentes da República…

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Os grandes pavilhões de gado da Exposição eram religiosamente visitados. Se não nos dispensavam das aulas do Cristo Rei matávamos aula, e andávamos sorrateiros, evitando um flagrante de pais ou familiares. Foi lá, também, que descobri o significado da palavra carisma durante um show de Roberto Carlos. O “Rei” cantava e, do local onde estava percebi, surpreso, que eu era o único a não olhar para o palco. Foi por acaso, mas depois voltei a olhar e confirmei o fato. Roberto Carlos cantando e as pessoas, como que tomadas, mantinham os olhos fixos no cantor.

“- Terra do Chico Xavier, não é mesmo?”, dizem outros, invariavelmente com a complementação: “estive lá, conheci o grande líder espírita”. Conto, todo orgulhoso, do meu primeiro emprego, em uma agência bancária onde tive a oportunidade de conhecer Chico Xavier. Ele era simpático, educado, carinhoso… Entrava na agência sempre sorrindo, saudando todos os presentes.

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Pra ser honesto, naquela época mantinha distância do espiritismo. Em casa, todos católicos, éramos orientados à respeitar e ficar longe. Chico faleceu; eu não morava em Uberaba, mas já frequentava centros espíritas paulistanos. Minha irmã mais velha e outros familiares passaram horas na fila imensa formada para o último adeus ao grande Chico Xavier. Quem faz questão de dar um adendo nas conversas sobre Chico Xavier sou eu: – Indo a Uberaba, não deixe de conhecer a Casa de Antusa. Um lugar abençoado que ainda mantém a aura da grande médium que ali atendeu milhares de pessoas.

“- Não é lá que tem os dinossauros?”, perguntam alguns; é a referência mais recente sobre a minha cidade. Conheci muitos arqueólogos e esses sempre lembram o trabalho dos paleontólogos em Peirópolis. As pesquisas científicas em Uberaba divulgam outra faceta da cidade, o conhecimento como prioridade. No museu estão expostos fósseis de Dinossauros e de outros animais, despertando a curiosidade de adultos e crianças.

Denuncio minha idade quando informo que conheci a Estação Ferroviária de Peirópolis, onde hoje funciona o Museu dos Dinossauros. O marido de minha prima Maria era telegrafista da Companhia Mogiana e, volta e meia, passava temporadas trabalhando na pequena estação. Também informo que, sempre que possível, vou ao local, muito bonito.

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Estive em Peirópolis recentemente; fui levado pela querida Edna Idaló. Fomos almoçar na Toca dos Dinossauros uma deliciosa comida mineira. Convite da Edna que, aniversariante, teve a carinhosa ideia de colocar-me junto de sua família para uma simpática comemoração. As fotos de Peirópolis enfeitam este post, priorizando os jardins, homenageando Edna e marcando o aniversário da minha cidade.

Sei que milhares conhecem Uberaba como a Capital do Zebu. Também que milhões associam a cidade ao maior médium de todos, Chico Xavier. Neste dois de março, estas lembranças são singelo presente para minha cidade, deixando um convite para todos os que me honram lendo este blog. Visitem Uberaba! Terra do Zebu, do Chico e dos Dinossauros.

Até mais!

Mudanças são apelos persuasivos

Um aluno pediu-me para escrever sobre Fátima Bernardes, Roberto Carlos e duas campanhas que estão no ar. Vai aqui um mote para posteriores reflexões com esse aluno e todos os demais:

Imagens de divulgação das campanhas
Imagens de divulgação das campanhas

Uma mesma empresa, a JBS, lançou duas campanhas publicitárias. Uma com Fátima Bernardes e outra, com Roberto Carlos. A campanha estrelada pela apresentadora e jornalista é da agência WMcCann; a do cantor é da agência Lew Lara\TBWA. Um motivo comum justifica a escolha dessas personalidades: a mudança. Fátima Bernardes mudou de vida ao deixar o Jornal Nacional pelo programa matinal que apresenta na Rede Globo e Roberto Carlos, dizem, mudou hábitos alimentares. Não é mais vegetariano!

As críticas ao comercial com o cantor são pesadas e, até onde percebo, não há nenhuma manifestação contrária pela escolha de Fátima Bernardes. Roberto Carlos vem de uma polêmica participação quanto a direitos autorais onde grana tende a pender mais que intimidade; além disso, é cantor de versos contra a matança de baleias, constituindo-se motivo para vegetarianos manifestarem-se furiosos pelo cantor voltar a comer carne.

Fátima Bernardes carrega um título até aqui pouco divulgado: Em 2013, na 12ª edição da Pesquisa Marcas de Confiança, foi apontada como a apresentadora mais confiável do Brasil (Desbancou Silvio Santos!). Tem, então, a responsabilidade de corresponder ao público (74% de acordo com a pesquisa) divulgando produtos de qualidade. O que se espera é que a mãe de trigêmeos (ela sempre fala de si no programa) coloque os produtos que divulga para alimentar os próprios filhos.

As vendas de carne empacotada e com logotipo aumentaram com Tony Ramos, que agora é narrador do comercial de Roberto Carlos. Resta saber se o cantor irá influenciar os hábitos de compras de seus fãs e qual o impacto que o comercial terá nos milhões de vegetarianos que há no país (9%, dados do IBOPE). Um resultado que os números, no final das campanhas, serão os reais avaliadores. Sim, os números! Mudanças são apenas temas transformados em apelos persuasivos pela publicidade. Afinal, a gente sabe, campanhas comerciais implicam basicamente uma coisa: faturar!

Até mais!

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Recolher outro livro… Qual o problema, Roberto Carlos?

capa-do-livro-jovem-guarda-mod

Pela segunda vez o “Rei” tenta tirar um livro de circulação. Em 2007 ele conseguiu que a biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, escrita por Paulo César de Araújo, fosse recolhida das livrarias. Agora, os advogados contratados por RC tentam o mesmo com outro livro, “Jovem Guarda: moda, música e juventude”, de Maíra Zimmermann, da editora Estação das Letras e Cores.

As alegações são as mesmas de sempre: “fatos de foro íntimo e pessoal do cantor”. Acontece que o livro de Maíra Zimmermann é uma obra acadêmica; ou seja, é “resultado da pesquisa de mestrado desenvolvida pela autora no programa de mestrado em Moda, Cultura e Arte do Centro Universitário Senac”. Sendo obra acadêmica é uma pesquisa detalhada, exposta com detalhes nas 529 notas de rodapé, documentada em fontes e referências bibliográficas que ocupam mais de 10 páginas.

Será que RC chegou a ver o tal livro? Será que consegue perceber a diferença entre um trabalho de mestrado e uma revista ordinária de fofocas? O problema seria dinheiro?

Alguns números: A editora informa ter colocado mil exemplares à venda. Comprei um exemplar hoje (e se bater alguém na minha porta, pedindo de volta, só entrego com ordem de juiz!) por 48,00 reais. Assim, mantendo esse preço e vendendo toda a tiragem, a editora receberá 48.000,00. Se o contrato foi na base de 10% para o autor, Maíra Zimmermann poderá receber a fortuna de 4.800,00 reais.

Do processo que moveu contra Paulo César de Araújo, segundo este, RC alegou estar perdendo dinheiro, já que “fãs deixariam de comprar o CD para comprar a biografia. Ele pediu multa de 500.000 reais por dia em que o livro seguisse circulando e pediria uma indenização ao final do processo, que foi encerrado com o recolhimento das 11.000 cópias ainda disponíveis do livro”.

Já foi notificado que RC fez contrato com a editora Leya, que publicará uma “biografia autorizada” e que o projeto inclui filme sobre a vida do cantor. É um direito dele, sem dúvida, mas essa história de biografia autorizada… Certamente o livro não dirá que RC gravou “Quero que vá tudo para o inferno”, já que o cidadão não fala a palavra inferno, nem permite que outro cantor grave a música. Seria isso?

Roberto Carlos, como todo ser humano, tem direitos autorais e concordo que administre seus bens, seus segredos e fatos pessoais conforme suas convicções. Todavia, a Jovem Guarda não é propriedade dele. Se alguns artistas desse período influenciaram as pessoas através do modo de vestir, de cortar ou deixar crescer o cabelo, de usar adereços, de expressarem-se através de gestos e expressões peculiares, enfim, se fizeram história, essa história é de toda uma nação, não de um indivíduo. E é disso que trata o livro “Jovem Guarda: Moda, música e juventude”.

Não vi nada publicado na imprensa sobre a quarta capa do livro de Maíra Zimmermann conter texto assinado por Wanderléa. Sim, a “maninha do rei” colaborou com o livro e diz, entre outras coisas, que “Seu conteúdo vem me trazer a dimensão da minha atuação nesse contexto”; mais além, a cantora afirma: “nossa participação foi válida, acrescentando valores de troca, experiência e referência para tantas vidas”. Que pena que RC queira tirar de circulação algo, segundo Wanderléa, “tão minucioso e verdadeiro”.

Só para completar: o livro cita muita gente; só para ficar na esfera de cantores notáveis no período: Wanderley Cardoso, Martinha, Celly Campello, Eduardo Araújo, Ronnie Von, Vanusa, Rosemary, Ari Sanches, George Freedman, Os Incríveis e dezenas de outros que, junto com Roberto Carlos, fizeram a história que também é a história de milhões de brasileiros.

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Até mais!

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– Roberto, não traga de volta o LP!

single, cd, e no comercial a expressão “compacto duplo”

Quando vi o comercial divulgando o “Compacto Duplo” de Roberto Carlos, pensei: – Bingo! Esses indivíduos sabem com quem estão falando. A mensagem estava endereçada para pessoas que sabem exatamente o que é um Compacto Duplo e que, certamente, estranhariam a expressão “CD – Single”.

Já nos habituamos com a expressão CD, que é Compact Disc, e ele vem “virgem” ou cheio de músicas, de imagens e diferentes possíveis arquivos. Agora, “CD – Single” é sempre uma dúvida, já que o dito cujo vem com uma ou várias canções. A mensagem do novo trabalho “Roberto Carlos – Esse cara sou eu” revive uma expressão que os milhões de fãs do Rei entendem bem. Se o “Brasa” lançasse um compacto simples, viriam duas canções. No atual, compacto duplo, vem quatro. A única vantagem do presente objeto: não precisa “Virar” o disco. As quatro canções, sabemos bem, estão na mesma face.

Há tantas expressões estrangeiras no mercado! Chega a irritar, principalmente quando percebemos que a idéia é “agregar valor”, ou seja, tornar a bugiganga mais cara por conta do “single”, saca! Vamos ao exemplo: o mais recente CD do cantor, “Roberto Carlos em Jerusalém”, é duplo (ou seja, dois CDs no álbum) com 11 canções no CD 1 e outras 11 canções no CD 2, e está sendo vendido por  R$ 39,80, num site que está aberto aqui, enquanto escrevo.  O CD – Single, com apenas 4 canções e dessas, duas inéditas,  custa R$ 9,90, no mesmo site. Façam as contas!

Sem mesquinharia! Não há dinheiro que pague uma boa música. O que compramos é uma reprodução, podendo ouvir quantas vezes quisermos, onde e como der vontade. O ruim é alguém mudar o nome da coisa e cobrar muito mais caro, porque o velho compacto vira “single”. Essa é uma boa forma de incentivar a pirataria, porque o povo não é trouxa e já percebeu, há muito, que gente de má fé tenta vender “singles”, como se um “single” fosse melhor que uma “canção”!

Os negociantes estão aí, sempre tentando tirar a grana da gente. Nesse momento presenciamos a volta de um nome – Compacto Duplo – em um formato diferenciado por um preço alto. O pior é retirarem um produto do mercado, alegando que o novo é melhor e, em seguida, voltam com o tal produto, agora tornado “cult” (olha aí, novamente o valor agregado!) e por isso, cobram um preço mais que abusivo.

CD e Vinil, preços absolutamente distintos para o “produto”

Para exemplificar, minha amada, idolatrada, salve, salve, Maria Bethânia: A cantora lançou o CD “Oásis de Bethânia”; belíssimo e com a qualidade que faz dela uma das mais respeitadas intérpretes desse país. O CD está por razoáveis R$ 29,90 no mercado online. Este é o 50º disco da cantora e, para comemorar a data, a gravadora (leia-se negociante!) lançou um vinil.

Vinil é o nome que popularizam para o antigo LP, ou Long-Play. Faço parte de uma geração que comprou LPs de Roberto Carlos, Wanderléa, Chico Buarque, Elis Regina, Milton Nascimento e, entre outras feras, é claro, Maria Bethânia. LP era um “discão” com cerca de 6 músicas de cada lado. O vinil é o material de que são feitos os tais LPs que sumiram um tempo do mercado após o surgimento do CD, com suposta nova tecnologia, melhor som, melhor qualidade, etc. O vinil era material que riscava, furava, quebrava, enfim, algo velho e acabado.

Depois que o mercado foi infestado de CDs e até de outros formatos, resolveram reviver o LP, dizendo que este é maravilhoso, sensacional, com um som diferenciado e único e, provavelmente, por todas essas excelentes qualidades, custa  no mínimo duas vezes mais que o CD. Exemplo básico: “Oásis de Bethânia”, o CD, custa R$ 29,90. “Oásis de Bethânia”, o vinil, custa R$ 68,90. Estão me chamando de otário?

A tecnologia avança e o CD já é quase passado. Convivemos atualmente com o mp3 e outras mumunhas digitais. A “decadência” do CD já é anunciada e, provavelmente, ele desaparecerá para, algum tempo depois, voltar “cult”, como o antigo LP, atual Vinil. Quanto custaria um vinil de Roberto Carlos?

Pague quem quiser; pague mais caro quem puder. E prossigam com a “viagem na maionese” divagando sobre as diferenças sonoras entre o 78rpm (só os mais velhos conhecem este), o LP, o compacto simples, o duplo, o CD, o mp3…  E toda a aparelhagem necessária para que esses objetos possam cumprir a função. A boa música, até que merece. Mas é bom não esquecer aquela canção interpretada com propriedade por Elis Regina que dizia:

…nossos ídolos ainda são os mesmos

E as aparências não enganam não

Estão em casa guardados por Deus

Contando o vil metal…

Alguns desses ídolos, é bom prestar atenção, reclamam da falta de liberdade para gravar o que, quando, como entendem. Todavia, ficam caladinhos quando a discussão envolve o preço do disco, seja no formato que for, em suas belas casas, “contando o vil metal”. Roberto Carlos vende CDs e Compactos Duplos, assim como Maria Bethânia vende CD e Vinil. Se Roberto lançar um vinil, a máquina publicitária fará voltar o LP para o falar cotidiano. Tudo bem, desde que não esqueçamos que são meras peças da grande indústria que fatura alto, camuflando mesmices sob formatos diferenciados.

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Bom final de semana

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Nota:

Os versos acima são da música “Como nossos pais”, de Belchior.

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Alguns detalhes sobre Altamiro Carrilho

Antes dos primeiros versos de “Detalhes” é o inesquecível som de uma flauta que faz com que identifiquemos a canção. Altamiro Carrilho faz uma abertura brilhante para aquela que está entre as maiores canções da dupla Roberto e Erasmo Carlos. Nem sempre nos damos conta do quanto um instrumentista importa em nossas vidas; mas não dá para imaginar “Detalhes” sem aquele som simples, tão característico, evocando toda uma situação mágica e encantadora, precedendo a interpretação impecável de Roberto Carlos (Clique para ouvir).

Em 1971 Altamiro Carrilho participou da gravação de “Detalhes”. No mesmo ano, no VI Festival Internacional da Canção, a banda de Altamiro dá um maravilhoso suporte para Wanderléa. Cantando “Lourinha”, de Fred Falcão e Arnoldo Medeiros, Wanderléia deixava evidente que já estava longe da Jovem Guarda, interpretando este gracioso chorinho com o acompanhamento preciso e virtuoso de Carrilho.

Com Roberto Carlos e Wanderléa conheci o flautista genial que foi Altamiro Carrilho. Tão genial que me levou a fantasiar que a flauta foi um instrumento criado para solo de chorinhos, maxixes, marchinhas… Altamiro Aquino Carrilho (21/12/1924) começou a carreira em 1949, gravando com Moreira da Silva. “Brasileirinho” (Waldir Azevedo e Pereira Costa) e “Espinha de Bacalhau” (Severino Araújo) são gravações antológicas, tanto quanto “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu), só para citar alguns registros instrumentais.

Certamente a música “Detalhes” está entre as mais executadas nas emissoras de rádio e tv do Brasil. Não é só; Altamiro Carrilho está presente também em outros grandes sucessos; é difícil imaginar “Meu caro amigo” (Chico Buarque e Francis Hime) sem o flautista; e na gravação original da trilha do seriado Gabriela, é ele a dar um colorido especial, enriquecendo a interpretação de Gal Costa

O que e o quanto mais temos de Altamiro Carrilho em nossas vidas, na música brasileira? Se acontecer uma pesquisa aprofundada é certo que encontraremos muito mais do músico que faleceu, aos 87 anos, nesse 15 de agosto. Será um encontro com gente do nível de Pixinguinha, Vicente Celestino, Caetano Veloso, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Jacó do Bandolim, Clara Nunes e mais, de outro universo onde estão Bach, Beethoven, Chopin… Muito, muito grande esse Altamiro Carrilho.

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Até!

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Nota: o falecimento de Altamiro Carrilho foi destaque em toda a imprensa. O G1 apresentou uma seleção de entrevistas que valem uma visita; clique aqui para acesso aos vídeos.

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