RC, por isso essa voz tamanha

Junho chega com Roberto Carlos voltando com tudo por aqui. O título acima é do livro do Jotabê Medeiros, lançado em abril deste ano. Lendo o livro me dei conta de que lá se vão 58 anos de convivência, desde as primeiras canções do “Rei” que entraram em minha memória. A leitura é emocionante por dois motivos básicos: a memória de infância acionada em cada trecho do livro e a percepção do tempo, da história que caminha ignorando nossas vontades. Tempo, tempo, tempo, tempo… diz outra canção, de Caetano Veloso, este também presente na vida de Roberto Carlos.

Conheci Jotabê Medeiros no ano passado, durante a Bienal do Livro de São Paulo quando mediei uma mesa da qual participou também o jornalista e escritor Nelson Motta. Assunto daquele momento, a vida do Nelson Motta e as biografias escritas por Jotabê, “Belchior, apenas um rapaz latino-americano” e “Raul Seixas, não diga que a canção está perdida”. Agora nos encontraremos no Trem das Lives, e o assunto será “Roberto Carlos, por isso essa voz tamanha”, celebrando os 80 anos do cantor e compositor,

O livro sobre Roberto Carlos oferece sobretudo aos fãs uma profunda viagem pelas diferentes fases da vida do parceiro de Erasmo Carlos, favorecendo lembranças sobre a Jovem Guarda, Wanderléa, e tudo o que veio depois. Há “detalhes”, muitos! De coisas esquecidas, de fatos desconhecidos, de momentos em que nossas vidas aconteceram com a trilha sonora de canções inesquecíveis.

Eu vesti calça calhambeque e, junto com essa, um cinturão “tremendão”… Minhas irmãs compravam discos, guardavam fotos. Tive um caderno onde colava fotos da Wanderléa… Meu irmão e meu avô curtiam a Martinha. O padrinho Nino ouvia “A Distância” e a namorada achava que era por conta de umas desavenças… ele ria e a gente sabia, ele se lembrava de outra namorada, anterior, perdida no tempo. Um dia Ronaldinho me ligou, em pleno expediente. Eu, no trabalho, tive que parar: – Escuta aí a música que o RC fez pra nós. “Você meu amigo de fé, meu irmão, camarada…” Como o próprio RC diria, “são muitas emoções” e eu ficaria horas escrevendo sobre essas.

Próximo domingo tem Roberto Carlos na live que farei com Jotabê Medeiros. Todos convidados para reviverem momentos pessoais e conhecer outros faces contadas pelo escritor. Aguardo todo mundo!

Trem das Lives, domingo, dia 06, 18h00

instagram.com/tremdaslives

God save the queen!

Qual o motivo de implicarem com a idade da Rainha Elizabeth II? Estão querendo que ela morra? O problema é a idade da soberana inglesa, 94 anos, ou a idade média do brasileiro ser de apenas 76,7 (IBGE) de vida? Não seria o ideal que todas as pessoas tivessem as mesmas possibilidades de sobrevida que os nobres e ricos do planeta?

As brincadeiras com Elizabeth II são, no mínimo, de humor duvidoso. Pior, escancaram o preconceito em uma cultura onde juventude é valor, quando não passa de breve fase da vida humana. Provavelmente as pessoas que criticam e criam memes sobre a Rainha tem seus pais ou avós mortos na casa dos 70, 80 anos.

Muitos dessas “humoristas” certamente não valorizam o SUS, que aumentou em muito a vida dos brasileiros e, certamente, desconhecem os tratamentos que levam à longevidade de uma pessoa. Confundem tratar a saúde com “harmonização facial”, procedimentos estéticos que mascaram o tempo, mas criam feições falsas, beiços imensos, caras rigidamente inexpressivas que, cá entre nós, a Rainha Elizabeth não tem…

Tenho ojeriza às críticas sobre a idade da Rainha Elizabeth. Nunca quis, nem quero ser súdito inglês. O que me incomoda, profundamente, é que em nosso país os idosos não são respeitados. Estamos vivenciando neste momento uma atitude dos governos paulistas – estado e município, a capital – tirando dos idosos a passagem gratuita nos meios de transporte: trens, metrôs e ônibus. É bom salientar que aposentado não tem aumento. Apenas reajuste que, para 2021, está empatado com a inflação. E a sociedade se cala.

Outro aspecto da desvalorização da velhice, no nosso país, está escancarado nas praias cheias, nos bares lotados durante a epidemia. Quantos desses frequentadores de locais aglomerados moram sozinhos? Quantos estão levando o vírus para dentro de casa e, com isso, colocando a vida de pais e avós em risco? A Rainha inglesa pode ficar afastada e, com toda a certeza, está protegida de gente irresponsável. Sim, é quase certo que ela sobreviverá à essa pandemia e, se a genética valer, ela ultrapassará os 100 anos, vivendo tanto quanto a Rainha Mãe. Pessoalmente, é o que desejo.

Nos versos do hino britânico, os ingleses pedem pela saúde e pela vida da Rainha: God save the Queen! Por aqui… Carecemos de campanhas para que cedam lugares em filas, em bancos de praça, em meios de transporte. Recentemente, a mãe de um amigo, já idosa, foi à feira e quis comer um pastel. Um casal consumindo pasteis ocupava três bancos, sendo que o terceiro banco destinaram ao suco e prato com o salgado. Sem lugar disponível, quando a idosa solicitou a cadeira deu início a uma discussão desagradável e desnecessária. Quantos exemplos similares teríamos para registrar?

Há outro lado: Fernanda Montenegro, neste dia 25, divertiu e emocionou o país ao lado de outra veterana, Arlete Salles, e da filha, Fernanda Torres. Neste momento, nas emissoras de televisão está o comercial onde Fernanda brilha. Fernanda e Arlete são exemplos ao lado de Lima Duarte, Francisco Cuoco, Natália Thimberg … Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Wanderléia… Todos acima dos 70 anos.  Também presenciamos inúmeras expressões de tristeza e respeito pela morte de Nicette Bruno que, não posso deixar de notar, viveu menos que a Rainha Elizabeth. Artistas idosos merecem nosso respeito tanto quanto a gente comum, seja de que profissão for.

Enfim, não vou falar de outro idoso a não ser eu mesmo. Tenho 65 anos! Já velho, para alguns, mas com a capacidade (dane-se a modéstia!) de muitas coisas! Entre elas escrever em defesa de gente mais velha do que eu. Eu gostaria muito que os “humoristas” que ironizam a idade de Elizabeth II olhassem para si mesmos, para o que tem, o que viram, o que farão. Tenho orgulho da minha idade e do tempo que já vivi – um pouco desapontado com o momento presente. Sobretudo tenho orgulho do que fiz. E tenho planos, muitos planos para o futuro. Estou aí, feito a Elizabeth, pronto para o que der e vier.

Não vou listar meus feitos, apelo para Macunaíma: “Ai! Que preguiça!” Agora, se quiserem fazer meme com minha idade, sou alguém que viu o homem pisar na lua, ouviu Elis Regina cantar Arrastão no Festival da Excelsior, usou calça calhambeque que era o que os jovens artistas da Jovem Guarda usavam e, se muito criança não percebi o horror que foi a instauração da ditadura militar, estive junto aos que lutaram pela democratização do país. Atendi Chico Xavier, assisti Bibi Ferreira, Ângela Maria, vi comício do acadêmico Mário Palmério e muito, muito mais…

Amigos Imaginários

jerry adriani

Mais uma vez de uma sensação já conhecida. É como se tivéssemos perdido um amigo. Desses amigos com os quais não nos encontramos muito ou deixamos de ver por todas as possíveis razões cotidianas. No entanto a notícia da morte cala fundo e sentimos a perda. Sem aquele desespero de quando são entes familiares e queridos, contudo vem a tristeza da perda do amigo imaginário acompanhada da certeza de que a morte é o fim de todos nós.

Meu primo mais velho, falecido há mais de trinta anos, era grande fã de Jerry Adriani. Gostava de pentear o cabelo como o ídolo assim como também gostava de cantar as músicas, usar roupas similares. “Foi assim”, canta Wanderléa no final do show de sucesso em cartaz, o “60! Década de Arromba”, um documentário musical: A Jovem Guarda  ditava maneiras de vestir, de cantar, de ser. E mesmo que tenhamos tomado rumos absolutamente distintos, qualquer fato relacionado à Jovem Guarda mexe com toda uma geração.

Até onde vão as lembranças todos gostávamos de Roberto Carlos. E do Erasmo, Wanderléa, Martinha, Wanderley Cardoso, Rosemary, Eduardo Araujo, Silvinha, Ronnie Von, o Trio Esperança, os Golden Boys… Sem contar as bandas como Renato e seus Blue Caps , as duplas Leno e Lilian, Os Vips… E, é claro, Jerry Adriani.

Morre Jerry Adriani aos 70 anos. Wanderléa realiza um show de sucesso também aos 70 anos e Roberto Carlos comemora aniversário em Portugal. Três momentos distintos desses amigos imaginários dos quais nos sentimos íntimos, próximos, guardando cada momento – para nós – absolutamente especial: o primeiro show, o encontro casual na rua ou no aeroporto, a revista engavetada desde os anos de 1960, a foto perdida em meio a um livro ou caderno. Perdemos um. A tristeza é inevitável.

Seria bom se nossos ídolos fossem eternos, belos, saudáveis. A vida trata de nos dar a certeza de que são humanos, finitos. Reverenciá-los vivos é fundamental. Nesses anos todos só escrevi sobre Jerry nos tempos do Papolog – o site sobre música onde trabalhei. Tenho tecido loas à Wanderléa e, às vezes, ficado irado com algumas atitudes de Roberto Carlos. E até essa ira é coisa de quem ama, de quem se decepciona e se dá o direito de julgar o outro, meter-se na vida do ídolo. Como se fossem amigos e próximos; e até nos devessem satisfação… Bobo isso, mas real, intenso.

Jerry Adriani envelheceu bonito, com a voz bela de quando começou a carreira. Teve percurso próprio e manteve-se, sempre, o galã, ídolo do tempo da Jovem Guarda que aprendemos a amar e a respeitar. Que siga em paz. Seu legado está entre nós, principalmente os discos que nos acompanharão e farão sempre com que nos lembremos do cantor paulista do Brás, que cantava em italiano, em inglês e, sobretudo, legou-nos algumas doces canções desde a época da Jovem Guarda. Fica aqui nosso adeus e gratidão!

Até mais!

Mudanças são apelos persuasivos

Um aluno pediu-me para escrever sobre Fátima Bernardes, Roberto Carlos e duas campanhas que estão no ar. Vai aqui um mote para posteriores reflexões com esse aluno e todos os demais:

Imagens de divulgação das campanhas
Imagens de divulgação das campanhas

Uma mesma empresa, a JBS, lançou duas campanhas publicitárias. Uma com Fátima Bernardes e outra, com Roberto Carlos. A campanha estrelada pela apresentadora e jornalista é da agência WMcCann; a do cantor é da agência Lew Lara\TBWA. Um motivo comum justifica a escolha dessas personalidades: a mudança. Fátima Bernardes mudou de vida ao deixar o Jornal Nacional pelo programa matinal que apresenta na Rede Globo e Roberto Carlos, dizem, mudou hábitos alimentares. Não é mais vegetariano!

As críticas ao comercial com o cantor são pesadas e, até onde percebo, não há nenhuma manifestação contrária pela escolha de Fátima Bernardes. Roberto Carlos vem de uma polêmica participação quanto a direitos autorais onde grana tende a pender mais que intimidade; além disso, é cantor de versos contra a matança de baleias, constituindo-se motivo para vegetarianos manifestarem-se furiosos pelo cantor voltar a comer carne.

Fátima Bernardes carrega um título até aqui pouco divulgado: Em 2013, na 12ª edição da Pesquisa Marcas de Confiança, foi apontada como a apresentadora mais confiável do Brasil (Desbancou Silvio Santos!). Tem, então, a responsabilidade de corresponder ao público (74% de acordo com a pesquisa) divulgando produtos de qualidade. O que se espera é que a mãe de trigêmeos (ela sempre fala de si no programa) coloque os produtos que divulga para alimentar os próprios filhos.

As vendas de carne empacotada e com logotipo aumentaram com Tony Ramos, que agora é narrador do comercial de Roberto Carlos. Resta saber se o cantor irá influenciar os hábitos de compras de seus fãs e qual o impacto que o comercial terá nos milhões de vegetarianos que há no país (9%, dados do IBOPE). Um resultado que os números, no final das campanhas, serão os reais avaliadores. Sim, os números! Mudanças são apenas temas transformados em apelos persuasivos pela publicidade. Afinal, a gente sabe, campanhas comerciais implicam basicamente uma coisa: faturar!

Até mais!

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Recolher outro livro… Qual o problema, Roberto Carlos?

capa-do-livro-jovem-guarda-mod

Pela segunda vez o “Rei” tenta tirar um livro de circulação. Em 2007 ele conseguiu que a biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, escrita por Paulo César de Araújo, fosse recolhida das livrarias. Agora, os advogados contratados por RC tentam o mesmo com outro livro, “Jovem Guarda: moda, música e juventude”, de Maíra Zimmermann, da editora Estação das Letras e Cores.

As alegações são as mesmas de sempre: “fatos de foro íntimo e pessoal do cantor”. Acontece que o livro de Maíra Zimmermann é uma obra acadêmica; ou seja, é “resultado da pesquisa de mestrado desenvolvida pela autora no programa de mestrado em Moda, Cultura e Arte do Centro Universitário Senac”. Sendo obra acadêmica é uma pesquisa detalhada, exposta com detalhes nas 529 notas de rodapé, documentada em fontes e referências bibliográficas que ocupam mais de 10 páginas.

Será que RC chegou a ver o tal livro? Será que consegue perceber a diferença entre um trabalho de mestrado e uma revista ordinária de fofocas? O problema seria dinheiro?

Alguns números: A editora informa ter colocado mil exemplares à venda. Comprei um exemplar hoje (e se bater alguém na minha porta, pedindo de volta, só entrego com ordem de juiz!) por 48,00 reais. Assim, mantendo esse preço e vendendo toda a tiragem, a editora receberá 48.000,00. Se o contrato foi na base de 10% para o autor, Maíra Zimmermann poderá receber a fortuna de 4.800,00 reais.

Do processo que moveu contra Paulo César de Araújo, segundo este, RC alegou estar perdendo dinheiro, já que “fãs deixariam de comprar o CD para comprar a biografia. Ele pediu multa de 500.000 reais por dia em que o livro seguisse circulando e pediria uma indenização ao final do processo, que foi encerrado com o recolhimento das 11.000 cópias ainda disponíveis do livro”.

Já foi notificado que RC fez contrato com a editora Leya, que publicará uma “biografia autorizada” e que o projeto inclui filme sobre a vida do cantor. É um direito dele, sem dúvida, mas essa história de biografia autorizada… Certamente o livro não dirá que RC gravou “Quero que vá tudo para o inferno”, já que o cidadão não fala a palavra inferno, nem permite que outro cantor grave a música. Seria isso?

Roberto Carlos, como todo ser humano, tem direitos autorais e concordo que administre seus bens, seus segredos e fatos pessoais conforme suas convicções. Todavia, a Jovem Guarda não é propriedade dele. Se alguns artistas desse período influenciaram as pessoas através do modo de vestir, de cortar ou deixar crescer o cabelo, de usar adereços, de expressarem-se através de gestos e expressões peculiares, enfim, se fizeram história, essa história é de toda uma nação, não de um indivíduo. E é disso que trata o livro “Jovem Guarda: Moda, música e juventude”.

Não vi nada publicado na imprensa sobre a quarta capa do livro de Maíra Zimmermann conter texto assinado por Wanderléa. Sim, a “maninha do rei” colaborou com o livro e diz, entre outras coisas, que “Seu conteúdo vem me trazer a dimensão da minha atuação nesse contexto”; mais além, a cantora afirma: “nossa participação foi válida, acrescentando valores de troca, experiência e referência para tantas vidas”. Que pena que RC queira tirar de circulação algo, segundo Wanderléa, “tão minucioso e verdadeiro”.

Só para completar: o livro cita muita gente; só para ficar na esfera de cantores notáveis no período: Wanderley Cardoso, Martinha, Celly Campello, Eduardo Araújo, Ronnie Von, Vanusa, Rosemary, Ari Sanches, George Freedman, Os Incríveis e dezenas de outros que, junto com Roberto Carlos, fizeram a história que também é a história de milhões de brasileiros.

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Até mais!

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– Roberto, não traga de volta o LP!

single, cd, e no comercial a expressão “compacto duplo”

Quando vi o comercial divulgando o “Compacto Duplo” de Roberto Carlos, pensei: – Bingo! Esses indivíduos sabem com quem estão falando. A mensagem estava endereçada para pessoas que sabem exatamente o que é um Compacto Duplo e que, certamente, estranhariam a expressão “CD – Single”.

Já nos habituamos com a expressão CD, que é Compact Disc, e ele vem “virgem” ou cheio de músicas, de imagens e diferentes possíveis arquivos. Agora, “CD – Single” é sempre uma dúvida, já que o dito cujo vem com uma ou várias canções. A mensagem do novo trabalho “Roberto Carlos – Esse cara sou eu” revive uma expressão que os milhões de fãs do Rei entendem bem. Se o “Brasa” lançasse um compacto simples, viriam duas canções. No atual, compacto duplo, vem quatro. A única vantagem do presente objeto: não precisa “Virar” o disco. As quatro canções, sabemos bem, estão na mesma face.

Há tantas expressões estrangeiras no mercado! Chega a irritar, principalmente quando percebemos que a idéia é “agregar valor”, ou seja, tornar a bugiganga mais cara por conta do “single”, saca! Vamos ao exemplo: o mais recente CD do cantor, “Roberto Carlos em Jerusalém”, é duplo (ou seja, dois CDs no álbum) com 11 canções no CD 1 e outras 11 canções no CD 2, e está sendo vendido por  R$ 39,80, num site que está aberto aqui, enquanto escrevo.  O CD – Single, com apenas 4 canções e dessas, duas inéditas,  custa R$ 9,90, no mesmo site. Façam as contas!

Sem mesquinharia! Não há dinheiro que pague uma boa música. O que compramos é uma reprodução, podendo ouvir quantas vezes quisermos, onde e como der vontade. O ruim é alguém mudar o nome da coisa e cobrar muito mais caro, porque o velho compacto vira “single”. Essa é uma boa forma de incentivar a pirataria, porque o povo não é trouxa e já percebeu, há muito, que gente de má fé tenta vender “singles”, como se um “single” fosse melhor que uma “canção”!

Os negociantes estão aí, sempre tentando tirar a grana da gente. Nesse momento presenciamos a volta de um nome – Compacto Duplo – em um formato diferenciado por um preço alto. O pior é retirarem um produto do mercado, alegando que o novo é melhor e, em seguida, voltam com o tal produto, agora tornado “cult” (olha aí, novamente o valor agregado!) e por isso, cobram um preço mais que abusivo.

CD e Vinil, preços absolutamente distintos para o “produto”

Para exemplificar, minha amada, idolatrada, salve, salve, Maria Bethânia: A cantora lançou o CD “Oásis de Bethânia”; belíssimo e com a qualidade que faz dela uma das mais respeitadas intérpretes desse país. O CD está por razoáveis R$ 29,90 no mercado online. Este é o 50º disco da cantora e, para comemorar a data, a gravadora (leia-se negociante!) lançou um vinil.

Vinil é o nome que popularizam para o antigo LP, ou Long-Play. Faço parte de uma geração que comprou LPs de Roberto Carlos, Wanderléa, Chico Buarque, Elis Regina, Milton Nascimento e, entre outras feras, é claro, Maria Bethânia. LP era um “discão” com cerca de 6 músicas de cada lado. O vinil é o material de que são feitos os tais LPs que sumiram um tempo do mercado após o surgimento do CD, com suposta nova tecnologia, melhor som, melhor qualidade, etc. O vinil era material que riscava, furava, quebrava, enfim, algo velho e acabado.

Depois que o mercado foi infestado de CDs e até de outros formatos, resolveram reviver o LP, dizendo que este é maravilhoso, sensacional, com um som diferenciado e único e, provavelmente, por todas essas excelentes qualidades, custa  no mínimo duas vezes mais que o CD. Exemplo básico: “Oásis de Bethânia”, o CD, custa R$ 29,90. “Oásis de Bethânia”, o vinil, custa R$ 68,90. Estão me chamando de otário?

A tecnologia avança e o CD já é quase passado. Convivemos atualmente com o mp3 e outras mumunhas digitais. A “decadência” do CD já é anunciada e, provavelmente, ele desaparecerá para, algum tempo depois, voltar “cult”, como o antigo LP, atual Vinil. Quanto custaria um vinil de Roberto Carlos?

Pague quem quiser; pague mais caro quem puder. E prossigam com a “viagem na maionese” divagando sobre as diferenças sonoras entre o 78rpm (só os mais velhos conhecem este), o LP, o compacto simples, o duplo, o CD, o mp3…  E toda a aparelhagem necessária para que esses objetos possam cumprir a função. A boa música, até que merece. Mas é bom não esquecer aquela canção interpretada com propriedade por Elis Regina que dizia:

…nossos ídolos ainda são os mesmos

E as aparências não enganam não

Estão em casa guardados por Deus

Contando o vil metal…

Alguns desses ídolos, é bom prestar atenção, reclamam da falta de liberdade para gravar o que, quando, como entendem. Todavia, ficam caladinhos quando a discussão envolve o preço do disco, seja no formato que for, em suas belas casas, “contando o vil metal”. Roberto Carlos vende CDs e Compactos Duplos, assim como Maria Bethânia vende CD e Vinil. Se Roberto lançar um vinil, a máquina publicitária fará voltar o LP para o falar cotidiano. Tudo bem, desde que não esqueçamos que são meras peças da grande indústria que fatura alto, camuflando mesmices sob formatos diferenciados.

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Bom final de semana

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Nota:

Os versos acima são da música “Como nossos pais”, de Belchior.

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Alguns detalhes sobre Altamiro Carrilho

Antes dos primeiros versos de “Detalhes” é o inesquecível som de uma flauta que faz com que identifiquemos a canção. Altamiro Carrilho faz uma abertura brilhante para aquela que está entre as maiores canções da dupla Roberto e Erasmo Carlos. Nem sempre nos damos conta do quanto um instrumentista importa em nossas vidas; mas não dá para imaginar “Detalhes” sem aquele som simples, tão característico, evocando toda uma situação mágica e encantadora, precedendo a interpretação impecável de Roberto Carlos (Clique para ouvir).

Em 1971 Altamiro Carrilho participou da gravação de “Detalhes”. No mesmo ano, no VI Festival Internacional da Canção, a banda de Altamiro dá um maravilhoso suporte para Wanderléa. Cantando “Lourinha”, de Fred Falcão e Arnoldo Medeiros, Wanderléia deixava evidente que já estava longe da Jovem Guarda, interpretando este gracioso chorinho com o acompanhamento preciso e virtuoso de Carrilho.

Com Roberto Carlos e Wanderléa conheci o flautista genial que foi Altamiro Carrilho. Tão genial que me levou a fantasiar que a flauta foi um instrumento criado para solo de chorinhos, maxixes, marchinhas… Altamiro Aquino Carrilho (21/12/1924) começou a carreira em 1949, gravando com Moreira da Silva. “Brasileirinho” (Waldir Azevedo e Pereira Costa) e “Espinha de Bacalhau” (Severino Araújo) são gravações antológicas, tanto quanto “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu), só para citar alguns registros instrumentais.

Certamente a música “Detalhes” está entre as mais executadas nas emissoras de rádio e tv do Brasil. Não é só; Altamiro Carrilho está presente também em outros grandes sucessos; é difícil imaginar “Meu caro amigo” (Chico Buarque e Francis Hime) sem o flautista; e na gravação original da trilha do seriado Gabriela, é ele a dar um colorido especial, enriquecendo a interpretação de Gal Costa

O que e o quanto mais temos de Altamiro Carrilho em nossas vidas, na música brasileira? Se acontecer uma pesquisa aprofundada é certo que encontraremos muito mais do músico que faleceu, aos 87 anos, nesse 15 de agosto. Será um encontro com gente do nível de Pixinguinha, Vicente Celestino, Caetano Veloso, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Jacó do Bandolim, Clara Nunes e mais, de outro universo onde estão Bach, Beethoven, Chopin… Muito, muito grande esse Altamiro Carrilho.

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Até!

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Nota: o falecimento de Altamiro Carrilho foi destaque em toda a imprensa. O G1 apresentou uma seleção de entrevistas que valem uma visita; clique aqui para acesso aos vídeos.

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