A pescaria, para não esquecer

Grande mesmo, ele só conhecia o rio, divisa de Minas Gerais com São Paulo. O trem de passageiros diminuía a velocidade para entrar na ponte que, em tal momento, era fechada ao tráfego de automóveis ou caminhões. O rio imenso, Rio Grande! O menino nunca viu peixes, nem mesmo quando atravessou a ponte caminhando com o pai. Não nadou nem pescou por lá!

Pescar mesmo foi na Lagoa do Taquaral. Em Campinas, no tempo em que só havia o bairro de mesmo nome. Do outro lado do lago era puro mato e muitos eucaliptos. A maior lagoa do mundo para quem não conhecia outras lagoas, o mar. Com a parentada ele aprendeu a colocar isca, jogar a linha e esperar, esperar, esperar…

“…Mas os peixes não querem cooperar

Se eu não pescar nenhum

Com que cara vou ficar…”

Essa prática acontecia nas férias e o menino precisava voltar para Uberaba, para o Alto do Boa Vista que, por tal nome, já se conclui a ausência de lagoas e rios. Lá no alto se ouvia muito rádio e entre tantas vozes havia uma, com história de pescador fajuto, que compra peixe no mercado para ficar bem na fita. As músicas ingênuas, contanto pequenas histórias… Com o pescador fajuto o menino aprendeu a escrever cartas, formato bem definido na canção:

“Escrevo-te estas mal traçadas linhas, meu amor

Porque veio a saudade visitar meu coração…”

Andando com primos e colegas de escola o menino conheceu o estúdio e o auditório da PRE-5, Rádio Sociedade do Triângulo Mineiro. Durante a semana entravam no estúdio e, caladinhos, viam e ouviam os locutores de então atuando nos programas vespertinos. Ficou a lembrança do Cirquinho do Xuxu (Edson Iglesias), Júlio César Jardim (Casquinha) que atuavam com Lídia Varanda. Aos domingos havia o programa com auditório e as crianças cantavam acompanhadas por um regional extraordinário, que acompanhava as crianças em qualquer canção, sem qualquer ensaio.

Xuxu e Lídia chamam o garoto inscrito. A plateia lotada e o menino, sem medo de ser feliz: O que você vai cantar? A Pescaria, responde o garoto.

“E mal o broto me vê passar ouço sempre ela falar

Se ele é um bom pescador, serve pra ser meu amor”.

E assim Erasmo entrou e permanece na minha memória, desde quando aos 10 anos cantei a singela canção em um programa infantil. Já se vão 57 anos!

Consta por aí que os encontros entre geminianos são para todo o sempre, mesmo quando distantes. Erasmo Carlos, Wanderléa, Maria Bethânia, Chico Buarque, Paul McCartney… Só para ficar no campo da música esses exemplos de uma mesma geração de artistas que entraram em minha vida. Todos são geminianos, como eu. Pretensão não custa nada… Sempre me senti feliz por estar na mesma casa astral desse povo e sonhar em ter um pouquinho do talento com o qual presentearam a vida de milhões de pessoas.

Lá longe, nos tempos de A Pescaria, Erasmo foi o cara da Festa de Arromba, registrando toda uma gama de artistas que amávamos e que não esqueceríamos, imortais na canção. Já se mostrava o amigo de Roberto Carlos e Wanderléa, tranquilo e sem qualquer tentativa de concorrência, dono de si e do seu lugar. Mereceu de Roberto uma declaração pública de amizade e fraternidade:

“…cabeça de homem, mas o coração de menino

Aquele que está do meu lado em qualquer caminhada”

Eu já não morava em Uberaba e, trabalhando na mesma Campinas das pescarias de infância, recebi um telefonema que recolocava Erasmo na minha história. Recebi um telefonema de Ronaldo Feliciano de Assis, “O meu amigo Ronaldo!”, me informando que “Roberto Carlos fez uma música sobre nossa amizade”. Amigo!

O Erasmo que eu mais gosto é o de Meu nome é Gal e Cachaça Mecânica. É maravilhoso ver Gal Costa mostrar a indiscutível superioridade vocal cantando uma música de Erasmo e duelando com uma guitarra na célebre interpretação. Em Cachaça Mecânica, Erasmo dialoga com Chico Buarque referenciando Construção, em letra precisa e criativa sobre nossa gente.

Há tantas canções de Erasmo! Sem contar as parcerias com Roberto! Muitas! Todavia, há aquelas que nos acompanham por toda a vida, nos levam ao puro deleite e, quando a vida nos machuca, acompanham nosso sofrimento. O Erasmo de “A pescaria” é doce, como são doces as lembranças de infância. Ronaldinho e meus melhores amigos estão em “Amigo”, como estão Erasmo, Gal Costa, Pablo Milanez, Rolando Boldrin, Lizette Negreiros, entre os seres queridos que acabam de partir. Para todos eles, peço perdão pelo egoísmo e insisto:

“…Onde você estiver, não se esqueça de mim
Quando você se lembrar, não se esqueça que eu
Que eu não consigo apagar você da minha vida
Onde você estiver, não se esqueça de mim”.

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Notas: As canções citadas acima estão nos vídeos, disponíveis abaixo.

A pescaria

A carta

Festa de Arromba

Amigo

Meu nome é Gal

Cachaça Mecânica

Não se esqueça de mim

Acontece!

A dimensão de um artista pode ser medida pelo que é percebido pelo ser humano. Quanto maior e mais diversa essa percepção, maior é o artista. Gal Costa deve estar batendo recordes de adjetivos, de maneiras de percebê-la, frutos de uma carreira que a colocou entre maiores da música popular. E é assim, tentando driblar a tristeza, que teço loas para Gal. E, mal esboço esse parágrafo, chega a notícia de outra perda, Rolando Boldrin. Difícil!

Gal falava, raramente a percebi fazendo declarações. Não é sutil. É algo absolutamente claro e distinto da maioria entre artistas pares. Ao invés de colocar-se em um púlpito, palanque ou palco, Gal deixa registrado em vídeos sua fala aos entrevistadores, cheia de simplicidade, plena de clareza e decisão quanto a um modo de ser e estar na vida. Essa fala, com frequência, vinha carregada de alegria e tranquilidade.

Creio não haver dúvidas de que a cantora sabia sobre si própria: quem era, que posição ocupava no panteão das nossas cantoras. É dessa certeza que a percebo tranquila, cantando com quem quer que fosse: Elis, Bethânia, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Tom Jobim… Tranquila e serena, Gal aguardava cada entrada e, chegando o momento, mostrava quem era. Cantando!

Já escrevi em outros momentos que sinto necessidade de referir a obra, verdadeira forma de imortalizar um artista. Difícil optar por canções representativas do repertório de Gal Costa. Vou citar algumas, minha percepção do quanto Gal foi grande. E desencanada!

Eu te amo, do show e álbum Os Mais Doces Bárbaros. Foi quando percebi que aquela voz era única ao subir aos céus finalizando um “serei pra sempre o seu cantor…”

Mãe da Manhã, do disco O sorriso do gato de Alice, Gal fazendo de sua voz “meu amparo, aro de luz na gruta da dor”.

Estrela, estrela, do disco Fantasia foi, por muito tempo, minha preferida da cantora que brilhava “quase sem querer” por certamente ter aprendido a “Deixar, ser o que se é”.

Há muitas canções nessa vida para ouvir e ouvir e ouvir Gal. E minha geração teve a honra e a benção divina em contar com a voz doce e única que, sabendo-se assim, podia viver com segurança e leveza sobre os palcos. Há exemplos marcantes dessa leveza, lá atrás, quando éramos jovens e a menina Gal se apresentava em um programa da TV Record, cantando Trem das Onze. Tranquila e serena, canta com e para a plateia.

Em outro momento, Gal estava em um programa de tv e sobe arquibancadas, na plateia, cantando junto ao público. Ao descer, escorrega e cai. Levanta-se tranquilamente dizendo “Acontece!” e continua cantando, assim como já o tinha feito com um acidente no violão, registrado no Fa-tal. Simples, tranquila e serena, com uma segurança única que a fazia enfrentar milhares de pessoas munida de voz e violão (a lembrança mais forte na Avenida São João, em São Paulo, em memorável Virada Cultural). Sempre a comparei aos grandes artistas americanos com seus shows mega produzidos afirmando que para Gal, bastava só o microfone e o violão.

Deixei para concluir este texto a canção de Cazuza, Brasil, quando Gal revelou um país que sempre teimamos em ver. Esse Brasil que não mostra a sua cara e que esconde facetas, muitas delas constantemente lembradas por Rolando Boldrin. Com seus casos, suas prosas e canções, o ator e cantor Boldrin deixa uma obra em que o país caboclo, caipira, sertanejo está vivo e dentro de nós. Um país onde “a viola fala alto”, em todos nós, e “toda moda é um remédio para meus desenganos”.

Duas duras perdas. Descansem em paz, Gal Costa, Rolando Boldrin!

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As canções citadas neste post estão disponíveis abaixo.

Acontece:

Eu te amo

Mãe da manhã

Estrela, estrela

Brasil

Vide vida marvada

Trem das onze

Luiz Gonzaga é retorno garantido

O mercado musical costuma arriscar pouco. A lei que rege o setor é o lucro. Os diferentes lançamentos que envolvem o nome de Luiz Gonzaga são sinais evidentes da força do velho Lua. O mote vem pelo centenário de nascimento do sanfoneiro, cantor e compositor pernambucano. As gravadoras prepararam uma série de lançamentos com discos inteiros dedicados à obra de Gonzaga; há coletâneas e gravações especiais como o CD do grupo Fala Mansa (sobre este escrevi aqui).

Há que se tomar cuidado com alguns lançamentos, como a coletânea “Gilberto Gil Canta Luiz Gonzaga”. Por exemplo, das 14 músicas do disco de Gil, 6 estão no disco “As canções de eu, tu, eles”, lançado em 2000. Pura repetição que nada vai acrescentar para os fãs de Gil; todavia, vale para quem gosta de Luiz Gonzaga e quer ver as canções do mestre na voz do cantor e compositor baiano. Outro disco de Gil, “Fé na festa, ao vivo” (2010), contém várias das músicas do lançamento atual. Tome mais repetição.

Já o produtor Thiago Marques Luiz apostou em 50 gravações inéditas para homenagear Luiz Gonzaga. Nos três CDs do projeto, denominado “100 Anos de Gonzagão” tem gente tão distinta quanto Eliana Pitman e Gaby Amarantos, Ednardo e Filipe Catto. Artistas nordestinos são previsíveis e estão no projeto: Amelinha, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Elba Ramalho; além desses há velhos parceiros de Gonzaga, como Dominguinhos, Anastácia e o neto do Rei do Baião, Daniel Gonzaga.

Thiago Marques foi fundo na idéia da universalidade de Gonzaga. Os meninos do Vanguart, por exemplo, estão entre Amelinha e Cida Moreira, duas intérpretes consagradas. Angela Ro Ro precede Jussara Silveira e Wanderléa abre o terceiro CD que é fechado pelo Nation Beat.  Há resgates de gente como Maria Creusa e Elke Maravilha (? Pois é…) e ótimas surpresas nas vozes de Rolando Boldrin (Ele canta Açucena Cheirosa) e Zezé Motta ( ela canta A vida do Viajante – veja relação completa de músicas e seus intérpretes abaixo).

Outro cd, ainda sem data para lançamento, é projeto da cantora Marina Elali. Ela é neta de Zé Dantas, um dos principais parceiros de Luiz Gonzaga. Um disco só com canções de Dantas e Gonzaga trará a interpretação de Marina Elali para “Riacho do Navio”, “O Xote das Meninas”, “Cintura Fina” e outras. Dominguinhos e Elba Ramalho estão nos planos da cantora para a concretização do disco.

O mais importante de tudo: A Sony Music pretende reeditar toda a discografia de Luiz Gonzaga. Tomara que não fique só na proposta. Mais que registros de ocasião, carecemos de preservar a obra desse extraordinário compositor. Conforme noticiado, estão previstos 60 CDs, incluindo canções originalmente gravadas em 78 rotações. Vários discos de Luiz Gonzaga, falecido em 1989, nunca saíram em CD, o que justifica e amplia a importância desse projeto.

Bom saber que ha interesse mercadológico na música brasileira. Que grandes empresas, artistas e produtores investem na obra de um artista do porte de Luiz Gonzaga. Não é difícil imaginar o quanto de dinheiro já foi investido e o quanto poderá render para todos os envolvidos. Muito bom. Mas que o essencial não fique de fora: toda a obra de Gonzaga reeditada.

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Até mais!

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Conheça as músicas dos CDs da Lua Music:

CD 1 – SERTÃO
Asa Branca – Dominguinhos, Amelinha, Geraldo Azevedo, Ednardo e Anastácia; A Volta da Asa Branca – Fafá de Belém; A Morte do Vaqueiro – Zé Ramalho; No Meu Pé de Serra – Elba Ramalho; Estrada de Canindé – Geraldo Azevedo; Légua Tirana – Amelinha; Assum Preto – Vanguart; Acauã Cida Moreira;  Juazeiro – Daniel Gonzaga; Riacho do Navio – Ayrton Montarroyos; A Vida do Viajante – Zezé Motta; A Feira de Caruaru – Anastácia e Osvaldinho do Acordeon;  Vozes da Seca – Cátia de França; Baião da Garoa – Passoca; Pau de arara – Chico César; Ave Maria Sertaneja – Guadalupe e Liv Moraes; Boiadeiro – André Rio (com participação especial de Mestre Genaro); Noites Brasileiras – Gonzaga Leal

CD 2 – XAMÊGO
A Sorte É Cega – Filipe Catto; Orélia – Ylana Queiroga; Xamêgo – Maria Alcina; O Cheiro da Carolina – Forró in the Dark; Xanduzinha – Karina Buhr; Balance Eu – Thaís Gulin;  Vem Morena – Ednardo; Cintura Fina – Gaby Amarantos; Qui Nem Jiló – Angela Ro Ro; Sabiá – Jussara Silveira; A letra I – Verônica Ferriani e Chorando as Pitangas; Açucena Cheirosa – Rolando Boldrin e Regional Imperial; O Xote das Meninas / Capim Novo – Elke Maravilha e Trio Dona Zefa; Roendo a Unha – Célia; Dúvida – Maria Creuza; Olha pro Céu – Vânia Bastos

CD 3 – BAIÃO
Baião – Wanderléa; Respeita Januário – Zeca Baleiro; Daquele Jeito – Dominguinhos; Imbalança – Paulo Neto; Paraíba – Márcia Castro; Dezessete Légua e Meia – Milena; Forró de Mané Vito – Eliana Pittman; ABC do Sertão – Virgínia Rosa; Forró no Escuro – Simoninha; Baião de Dois – Claudette Soares e B3 Orgão Trio; Dezessete e Setecentos /Calango da Lacraia / O Torrado – Edy Star e Banda Monomotor; Deixa a Tanga Voar – Ela; Lorota Boa – Silvia Machete; Siri Jogando Bola – China; Derramaro o Gai – 5 a Seco;  Mangaratiba – Silvia Maria e Dalua; Madame Baião – Nation Beat