
Fosse Minas Gerais a Pasárgada do Bandeira, com todos os rios navegáveis e cheios de gente bonita nas beiras e a gente de Minas teria maiores afinidades com portos. Seriam locais de paradas pra namorar, como ensina o poeta sobre o tal paraíso. Por terras de Minas há rios grandes, como o Grande e não mais Doces, como o Doce, castigado pelo ser humano. Pelas Gerais caminham o Jequitinhonha, o São Francisco. Portos relevantes, não. Esses ficam nas vizinhanças.
Volta e meia vem alguém dizer que Minas não tem mar, como se mineiros não soubessem geografia. Pelas Gerais há rios, estradas reais e plebeias e vontade dos mineiros em ir longe. Muito longe! Nascidos em chapadas costumam ter desejo de ir além de onde elas terminam. Os que têm serras e montanhas pela frente vivem curiosos para saber o que há do outro lado. Os belíssimos horizontes mineiros se constituem em estímulos para que se possa alcançá-los e ir para o novo fim do mundo que se avizinha quando se chega ao fim do mundo. Já os portos… São portos.
Fosse fácil medir e veríamos a imensa carga de sentimentos que flutuam em estações, aeroportos, portos. Obviamente que essa energia – se há energia brotada dos afetos – vive em constante busca de equilíbrio entre os que chegam e os que partem. Alegrias, tristezas, saudade antecipada, ausência finda. A pluralidade de sensações em um porto, penso, são mais duradouras. Um ônibus vira a esquina e aquele que fica já se distrai ao voltar para casa. O trem ligeiro, últimos carros já em velocidade avançada, somem na curva e os aviões, rapidíssimos, levantam voo e somem entre as nuvens. Navios, não.
Os transatlânticos, imensas cidades flutuantes, recebem seus viajantes e, sinal de saída, apitam algumas vezes. Parece não haver um padrão. Tudo indica que, conforme a festa, apita-se uma ou mais vezes. Desatracando, saem muito lentamente, pesados e preguiçosos, percorrendo o estuário até atingir o oceano. E para quem tem a possibilidade e tempo para observá-los, esses navios gigantes demoram um tempão para atravessar o horizonte. Azar de quem, apaixonado, permanece ali olhando enquanto o ser amado vai embora.
Há barcos menores, transportando trabalhadores entre uma ilha e outra, dessas para o continente. Cheios de cotidiano com infinitos pequenos detalhes que diferenciam um dia do outro. Há outros, de pescadores esperançosos de bom trabalho, sem contratempos e tempestades. Saem em horários determinados pelo conhecimento do mar, da maré, das correntezas diferentes em cada tempo, época do ano. E há os imensos navios de carga que, à distância, pareciam objetos fantasmas sem viva alma à vista, não fosse a fumaça de chaminés indicadoras de alguém queimando não sei o que.
Quis o destino que eu, mineiro, viesse a morar próximo de um porto. Dá janela vejo o intenso movimento do porto, e pelo noticiário fico sabendo daquilo que meus olhos não alcançam. O transatlântico com a celebridade da hora, as exportações maiores que as importações e as drogas, muita apreensão de drogas. E a música de Caetano Veloso, inspirada no texto de Fernando Pessoa brinca em meu cérebro:
O barco, meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração
O porto, não!
Navegar é preciso, viver não é preciso…
É imensurável o quanto de vida passa pelo porto. Esse vai e vem extraordinário, constante, que me faz voltar ao tempo de menino, lá em Minas, quando ver um rio era simultaneamente buscar a ponte para atravessá-lo. E se era um monte, achar a trilha para percorrê-lo e ir além. Os rios de Minas me trouxeram até aqui. O porto é mais um lugar de passagem, que vou descobrindo aos poucos, reconhecendo a movimentação, percebendo os hábitos, desvendando os mistérios. Um local para ir além e, mesmo negando-o – o porto, não – ter a certeza de que o prazer da viagem é ter onde partir e aonde chegar.
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Obs.:
Os Argonautas (1969), de Caetano Veloso foi inspirada nas “Palavras de pórtico” (primeira publicação, 1965), de Fernando Pessoa.
Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira, foi publicado no livro “Libertinagem”, de 1930.