A cidade é uma mistura de agitação e calmaria, talvez acompanhando o movimento das marés. O tempo e o mar, é Iemanjá quem sabe, conta o atendente da barraca que oferece cerveja, caipirinhas. “Vai ser o que ela quiser. E se ela quiser, ela acaba com tudo isso aqui” diz o rapaz que costuma ouvir os chamados que vem por entre as águas. E nada, indo o mais longe possível, independendo da hora. Prefere a noite, muito mais calma.
Nem tudo é idílico e há pontos do imenso jardim que limita praia e avenida. Há ratos, enormes, inúmeros. Alimentam-se de sobras de comida deixadas por frequentadores que nem sempre seguem regras de conduta coletivas. Deixam restos esparramados, nem esperam os garis terminarem o serviço e já estão jogando pedaços de coisas, ou lançando-as fora das lixeiras. Um vizinho, entre risos, lembrou quando a prefeitura arrumou um monte de gatos, deixando-os ao longo do jardim para acabarem com os ratos. Sumiram. Segundo o vizinho viraram espetinho.
Para os que podem durante os dias de semana desfrutar das tardes tranquilas à beira mar as histórias chegam; não tantas quanto as ondas, nem com a tranquilidade e leveza das nuvens. Às vezes vem leves, despretensiosas como pequenos barcos à vela. Também vêm com o peso dos imensos cargueiros, cheios de segredos e mistérios. Pode-se saber com certa facilidade o que trazem dentro dos pallets de diversas cores e tamanhos. Entre esses pode ter algo estranho, assim como é no casco que a polícia sempre encontra presas toneladas de cocaína.
Foi assim, com enorme preambulo, cheio de moralismo barato e de ordinária justiça divina que Wanderlei se aproximou. Nem sempre damos conversa aos transeuntes, principalmente quando visivelmente alterados por bebida, droga ou se, nunca saberemos, o aparente delírio de alguns ocorre por fome. Pedem dinheiro, cigarro, e são até desaforados, como aquele que pediu 20, 15, 10 reais e, exasperado, aceitaria 5. Quando disse não ter – pois raramente ando com dinheiro – ele foi embora me maldizendo, deixando claro que se arrumasse um tostão voltaria pra me dar, pois eu estava pior que ele.
Wanderlei chegou de mansinho, trazendo todos os seus pertences consigo. Uma sacola pendurada a tiracolo, uma mochila pesada, suja, nas costas. Falou de Deus, de como é bom ser respeitado como gente, que somos todos irmãos, que sonha ter uma casa. Queria voltar a dormir de conchinha com a companheira, mas precisa encontrar outra, pois tiveram que se separar. A mulher danou a usar cocaína, o que não foi legal.
Mantinha o olhar atento, esperando a deixa para dizer “não quero”, “não tenho”, e ao mesmo tempo a curiosidade veio. Como essa gente sem eira nem beira consegue o pó? Dizem que é caro. As conjecturas faríamos depois: pode ser como pagamento por aviãozinho, pode ser subproduto, tipo craque. Mantinha meu olhar fixo naquele homem magro, barba por fazer, suado e sujo. Sem deixar de sonhar insistia em um lugar para si, longe das inconstâncias do mar. Queria trabalhar! E resolveu nos mostrar o que sabia fazer, como ganhava a vida.
Ao abrir a sacola que estava a tiracolo vimos um monte de latas. E ele, orgulhoso, mostrou-nos um cinzeiro feito com o material reciclado. Embora interessante, o olhar do homem percebeu que não havia nos conquistado com o objeto um tanto fora de moda, destinado ao desprezo das gerações não fumantes. “Vou fazer uma para vocês verem como eu sei trabalhar! Só preciso ter um lugar pra trabalhar, vender e ter minha casa”.
Sem parar de falar, Wanderlei pegou uma latinha dessas que são vendidas aos montes em quiosques e barracas. Primeiro, com a ajuda de um canivete, tirou o adesivo que cobria a lata, deixando visível o alumínio, ou material que o valha. Sob nossos olhos, pegou uma tesoura, cortou aqui e ali, e aprontou a base do que pretendia. Outra lata, para utilizar partes específicas, e repetindo os procedimentos concluiu a panela, “Uma panela de pressão!”, apresentou ao final, orgulhoso.
São os turistas que compram, ele disse completando que um “gringo” chegou a dar R$ 100,00 reais por uma peça. A isca foi maior do que poderíamos abocanhar. Rindo, disse a ele que as peças, isqueiro e panela, tinham ficados ótimas, mas não tínhamos todo esse dinheiro. Resignado, ele sentenciou. “Aceito o que você tiver”. Ficamos, Flávio e eu, com a panela. Embora ele tenha insistido para que ficássemos com os dois objetos pelos R$ 20,00 reais que estavam conosco.
É certo que a foto não faz jus ao objeto. Fundamentalmente a panelinha não revela que foi feita de pé, seu criador falando calmamente, quase sem parar. Mãos sofridas e calejadas trabalharam com admirável rapidez o objeto, que resta dizer, Wanderlei aprendeu com um pessoal que “mora aí”, apontando-nos para moradores de praia sentados em bancos próximos. “Eu não! Eu vou ter minha casa, uma mulher para dormir de conchinha”.
A panelinha está entre os objetos que enfeitam nossa casa. Olho para ela e pretendo guardá-la para recordar que entre os moradores da praia há de tudo. Desde aqueles que é bom mantermos distância, como outros que ajudam a recolher cadeiras e barracas, empurrando enormes carrinhos no começo da noite, ou os que vendem balas e outros cacarecos. Essencialmente, que há gente como o Wanderlei que em qualquer circunstância terá como trunfo uma admirável habilidade artesanal. E um papo tranquilo para vender seus produtos.
Santos, primavera de 2024.
Série: Cacarecos, badulaques e bugigangas.





