Flávio de Carvalho e a “Série Trágica”

Tempos de escola, nada foi tão perturbador quanto conhecer a “Série Trágica”, de Flávio de Carvalho. São nove desenhos representando a agonia e morte da mãe do artista; esses trabalhos estão na coleção do Museu de Arte Contemporânea da USP. Talvez pelas fortes sensações, ante o que o professor Percival Tirapelli nos mostrava, guardei a impressão de que os desenhos haviam sido feitos ao lado do leito de morte de D. Ophélia Crissiuma de Carvalho.

SÉRIE TRÁGICA - I - Minha mãe morrendo, 1947, MAC - USP

Os nove desenhos a carvão, exemplos de um expressionismo intenso, vigoroso, são composições derivadas de um conjunto realizado a caneta que, sim, foram compostos ao lado do leito de morte da mãe do autor. Esses trabalhos têm recebido merecidos estudos por críticos, historiadores, entre outros. Há, quase sempre, uma busca de relações com outras obras, com outros movimentos artísticos.

SÉRIE TRÁGICA - II - Carvão, 1947, MAC - USP

O dia de Finados chegando, o pensamento voltado para aqueles que se foram e foi inevitável lembrar-me da obra de Flávio de Carvalho. Em uma tarde já distante, enquanto estava ao lado do leito de meu pai, então doente, senti a necessidade de desenhá-lo, buscando fixar aquele semblante tão significativo em toda a minha vida. Também foi uma maneira de vencer o tédio, o tempo que teima em ser violentamente vagaroso quando estamos dentro de um hospital. Enquanto esboçava traços amadores, lembrei-me da “Série Trágica” e parei, imediatamente, com um terrível receio de que ocorresse um desfecho semelhante. Felizmente, meu pai saiu daquele hospital e ainda sobreviveu bastante tempo.

SÉRIE TRÁGICA - VII - Carvão, 1947, MAC - USP

Os desenhos de Flávio de Carvalho foram feitos em 1947. As bases para trabalhos desse tipo são exercícios de captação instantânea, feitos na maioria dos cursos de desenho. Gostava muito de sair pelas imediações do Instituto de Artes, então no bairro Ipiranga, para captar a paisagem, ou alguma situação observada. Não me exercitei tanto quanto gostaria e nunca me senti um desenhista. Era bom exercitar a forma expressiva, fixar o que meus olhos observavam.

SÉRIE TRÁGICA - IX - Carvão, 1947, MAC - USP

O autor da “Série Trágica”, que tem uma vasta obra na pintura, na arquitetura e em outras formas expressivas como o teatro e a literatura, fez de seus desenhos obra de arte. Quanto mais observo os trabalhos desta série mais vejo a vida indo embora, ou então, sinto-a desesperadamente preservada. O trabalho do artista não retém a vida, mas o instante em que a mãe ainda vive, o momento em que a vida se despede do corpo. Perturbador.

Flávio de Carvalho foi irreverente, transgressor. É sempre lembrado por pinturas onde a cor é, no mínimo, exuberante. A arquitetura é parte da história do engenheiro formado na Inglaterra. A originalidade de atitudes ficou definitivamente marcada pelo passeio do artista pelas ruas de São Paulo, propondo o saiote como vestimenta ideal para nosso clima tropical; e isso nos anos de 1950. Faleceu em 1973. Uma obra sobre a qual vale refletir.

 

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