CANTOS E CONTOS DO RIO PARAÍBA DO SUL

Após levar montagens com textos que abordam a história e as características de cada cidade o Projeto Arte na Comunidade volta aos mesmos locais com um segundo texto. “Cantos e contos do Rio Paraíba do Sul” é a montagem, como o próprio título indica, sobre a região visitada e o mesmo texto foi apresentado nas cidades contempladas pelo projeto.

Conrado Sardinha, Luciana Fonseca e Rodolfo Oliveira voltaram a Cruzeiro, Lavrinhas e Queluz, onde verificaram os resultados da primeira visita (Quando solicitaram dos alunos narrativas próprias sobre as cidades) e também convidaram os mesmos para o encerramento, ocorrido em locais públicos de cada município.

“Cantos e Contos do Rio Paraíba do Sul” resgata lendas, fatos históricos e culturais da região, além de alertar para a necessidade da preservação ambiental. Escrito e dirigido por Valdo Resende, a direção musical é de Flávio Monteiro e os figurinos de Carol Badra.

Idealizado por Sonia Kavantan, o Arte na Comunidade 4 foi patrocinado pela Alupar, Taesa e apoiado pelas Usinas Queluz e Lavrinhas. Uma realização da Kavantan & Associados, Ministério da Cultura e Governo Federal.

Havendo interesse em reproduzir o texto ou interpretá-lo, é necessária a citação do motivo pelo qual o texto foi escrito e a autoria do mesmo.

CANTOS E CONTOS DO RIO PARAÍBA DO SUL

Original de Valdo Resende

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Luciana Fonseca e, acima, Rodolfo Oliveira e Conrado Sardinha. Foto: Atelier da Fotografia

(CARACTERIZADO BASICAMENTE TAL QUAL NA APRESENTAÇÃO ANTERIOR O ATOR ENTRA CANTANDO A MÚSICA DE ABERTURA; CAMINHANDO POR ENTRE O PÚBLICO DEVERÁ SEMPRE QUE POSSÍVEL RESGATAR ELEMENTOS DA PRIMEIRA APRESENTAÇÃO).

Vamos brincar de teatro…

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Luciana Fonseca e a letra da música de abertura. Foto: Atelier da Fotografia

Meus amigos: Voltei! Que bom estar novamente com vocês. Fazer teatro na própria cidade para os parentes, os amigos, os conhecidos é muito bom. Eu andei por toda a cidade, em várias escolas. Vou repetir meu nome; gosto que guardem o meu nome. Sou… (ADRIANO, CHICO ou PEDRO) e desta vez estou de volta para contar outros fatos, outros contos e cantos, agora da nossa região. Vamos brincar de teatro e o tema da nossa apresentação é o Vale do Paraíba, a Serra da Mantiqueira, as outras cidades do Vale. Vai ser muito legal. Vamos nessa? Quem já aprendeu a canção pode cantar comigo:

(CANTA APENAS O REFRÃO)

Vamos brincar de teatro…

Eu já andei muito por aí, nesse mundão de Deus. Fazendo peças de teatro, escrevendo e recitando meus versos. Vi muitos lugares bonitos, cidades encantadoras, regiões inteiras de uma beleza intensa, exuberante. Viajei pelo planalto, pela caatinga, pelo serrado, por florestas fechadas… Conheci as chapadas de Minas Gerais, o pantanal de Mato Grosso, nossas praias de norte a sul! Mas, nada supera o meu vale. O nosso Vale do Paraíba! É bem verdade que minha opinião é tendenciosa; como dizem por aí, cada um puxa a sardinha para a sua lata, não é mesmo? Mas, como não gostar daqui?

Eu sempre gostei de contar as histórias da nossa cidade e da nossa terra. Sempre que me perguntavam: – Onde fica a sua cidade? E pra fazer mistério, para acentuar a magia da nossa região eu respondia: – Sou das terras da A-man-ti-kir! Ninguém entendia nada e eu completava: A-man-ti-kir, a serra que chora. E escolhi contar tudo através do teatro. Em teatro, já sabem, não é, a gente pode ser tudo o que quiser!

(VINHETA. O ATOR CONTARÁ A LENDA DA MANTIQUEIRA INTERPRETANDO VOCALMENTE TODAS AS PERSONAGENS. CHAMARÁ QUATRO CRIANÇAS E ENTREGARÁ, A CADA UMA, ADEREÇOS MÍNIMOS PARA CARACTERIZAR AS PERSONAGENS. O ATOR DISTRIBUIRÁ AS QUATRO CRIANÇAS PELO PALCO, FACILITANDO O ENTENDIMENTO DO PÚBLICO).

Para contar a história da A-man-ti-kir, vou precisar de quatro crianças. Dois meninos e duas meninas. Quem quer brincar comigo?  (APÓS ESCOLHER AS CRIANÇAS). Bom, fiquem atentos, cada um aqui é um personagem e eu vou contar a história e vocês ilustrarão, com o corpo e as expressões de vocês. Vamos começar.

(ENTREGANDO ADEREÇOS PARA CADA CRIANÇA)

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Conrado Sardinha prepara criança para brincar de teatro. Foto: Atelier da Fotografia

(UM PEQUENO COCAR PARA UMA MENINA) – Você é uma indiazinha. (PARA A PLATEIA). Guardaram? Ela é uma índia da tribo tupi.

(UMA TESTEIRA DOURADA PARA UM GAROTO) – Você será o sol. O nosso rei dos astros. Um sol brilhante e forte!

(UMA TESTEIRA BRANCA PARA UMA MENINA) – Você será a Lua! Nosso satélite que enfeita o céu deixando-o claro, bonito.

(UM PEQUENO COCAR VERMELHO PARA UM MENINO) – E você, com esse cocar vermelho, será Tupã, o Deus poderoso dos índios. Deus tupã!

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“O sol” observa “Tupã” sob o comando de Rodolfo Oliveira. Foto: Atelier da Fotografia

Agora, vamos começar a história. (APROXIMA-SE DE CADA CRIANÇA, NA MEDIDA EM QUE CRIA AS VOZES DE CADA PERSONAGEM. O TOM DA CENA DEVE SER FARSESCO, ACENTUANDO A BRINCADEIRA DO FAZER TEATRAL. O ATOR, SEMPRE QUE POSSÍVEL, ORIENTARÁ AS REAÇÕES E EXPRESSÕES DE CADA CRIANÇA).

ÍNDIA – Olá! Eu sou uma indiazinha tupi. Sou muito linda e gosto de brincar com as flores e com os pássaros. Ultimamente tenho ficado um pouco triste. É que estou apaixonada. Muito apaixonada. Super apaixonada! #apaixonada!

(O ATOR VOLTA A SER ELE MESMO ENQUANTO CAMINHA PARA O SOL)

ATOR – #apaixonada! Será que essa indiazinha tem whatsApp? Eu, hein. Vai saber, não é? Vamos ao outro personagem, o sol!

SOL – Olhem para mim! Vejam como sou… Amarelo como o ouro, gostoso como o amarelo mel! Todos admiram minha grandeza e ficam amarelados perante minha força. Meus raios são amarelos fantásticos!

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Conrado Sardinha orienta criança que faz “o sol”. Foto: Atelier da Fotografia.

ATOR – (VOLTANDO PARA A ÍNDIA) Esse sol é modesto como ele só!

INDIA – Oh, como sou infeliz! Oh, de que me adianta ter os cabelos negros lindos, boca carnuda linda se o sol, por quem estou apaixonada, nem me enxerga. Oh! Estou apaixonada pelo sol e ele nem me percebe, não sabe que eu existo. Oh, mundo cruel!

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Conrado Sardinha observa menina que faz “a lua”. Foto: Atelier da Fotografia.

ATOR – Coitadinha! A menina passava horas e horas olhando para cima e nada de o sol percebê-la! Que bobo! Uma indiazinha tão linda! Acontece que, um dia – sempre tem um dia nessas histórias – o sol percebeu a menina e… Ficou ligado na garota! Enfeitiçado pela doce indiazinha. Ficou tão apaixonado que resolveu não sair mais do alto do céu, só pra permanecer olhando a menina. Imaginem! O sol, parado no centro do céu, lá de cima namorando a menina! Os outros índios da aldeia, os animais, os seres todos não entendiam a falta da noite? Onde a noite tinha ido parar? Acontece que mais alguém estava apaixonada pelo sol! A lua! (APROXIMA-SE DA CRIANÇA QUE FAZ A LUA).

LUA – Ai que ódio! Que ódio, que ódio, que ódio! Esse solzinho ousa me desprezar! E pior, me trocou por essa indiazinha borocoxô.

ATOR (QUEBRANDO A CENA). Borocoxô? Que palavra antiga, dona lua! Assim a senhora entrega a sua idade. Ninguém mais por aqui sabe o que é borocoxô (VOLTA RAPIDAMENTE PARA A MENINA QUE FAZ A LUA).

LUA – Indiazinha chata foi o que eu quis dizer. E agora tenho que ficar aqui, no canto, porque o sol bobão não sai do alto do céu. Vou reclamar para Tupã, eles vão ver o que é bom pra tosse! (APROXIMANDO-SE DO MENINO QUE FAZ TUPÃ). Tupã, vê se pode, ele fica lá no céu, aquela indiazinha na terra, um chove não molha, e acabaram-se as noites, todas as noites! Como os animais vão descansar? Como as pessoas poderão dormir? Está tudo secando. Esturricando de tanto sol! Ah, eu tentei falar com ele e ele disse que nem Tupã, nem você, Tupã, tira ele de lá!

ATOR – Luazinha ciumenta. Venenosa. Tupã não deixou por menos.

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Um “tupã” feliz ao lado de Rodolfo Oliveira. Foto: Atelier da Fotografia

TUPÃ – Acordem nuvens negras! Acordem raios enraivecidos! Escureçam todo o céu. Tirem o sol para lá! Vou criar, com minhas mãos de Deus, a montanha mais alta que já existiu! Apareça! Grande montanha! Enorme, imensa!E vou colocar essa indiazinha lá dentro, longe dos olhos do sol. E resolvo essa situação.

ATOR – (REUNE AS QUATRO CRIANÇAS PERTO DE SI) Pobre indiazinha! O que poderia fazer contra Tupã, a Lua? Lá, dentro da imensa serra criada por Tupã só fazia chorar. Chorou tanto, mais tanto, que suas lágrimas alcançaram o topo da serra e desceram, formando rios e mais rios por todo o vale. Foi assim que surgiu A-man-ti-kir, a serra que chora. A-man-ti-kir, que todos chamamos Mantiqueira! E assim termina nossa história. Palmas para nossos atores! (AGRADECE AS CRIANÇAS, CONDUZINDO-AS DE VOLTA A SEUS LUGARES).

Linda a lenda de como surgiu a Serra da Mantiqueira, vocês não acham? Nas minhas apresentações teatrais essa lenda interessa a todos, pois todos ficam encantados com a grandiosidade e beleza da nossa Mantiqueira.

Vocês sabiam que a Mantiqueira tem 500 quilômetros de extensão? E que dos dez pontos mais altos do Brasil, quatro estão aqui, na nossa serra? Todavia, esses números todos que dizem respeito ao complexo imenso da Mantiqueira não são mais importantes que um único pôr de sol. Nós, que somos daqui, somos presenteados constantemente com imagens mágicas, fantásticas, o melhor show que a natureza pode oferecer.

Eu já estive lá em cima, à noite, acampando em noite de lua cheia. O nosso vale é tão lindo e as nossas cidades, iluminadas, parecem o céu na terra, cheio de estrelas reunidas em grupos, cada grupo indicando uma localidade. Cruzeiro, Lavrinhas, Queluz, Lorena, Aparecida, Taubaté…

Uma noite de lua muito clara, lá de cima, todos nós conseguíamos ver o Rio Paraíba, serpenteando pelo Vale. Nosso belo rio Paraíba do Sul não nasce na Serra da Mantiqueira; ele vem de outro lado, a Serra da Bocaina que, por sua vez, é parte da Serra do Mar. Para que os colonizadores chegassem até aqui tiveram que subir a Serra do Mar e para irem atrás do ouro, em Minas Gerais, tiveram que atravessar a Mantiqueira. Nosso Vale do Paraíba ali, entre duas serras.

A história do Vale do Paraíba ganha dimensão mundial, mundial mesmo, no período em que o Brasil não só exportava café para o mundo todo; nosso país era o maior produtor de café e as primeiras fazendas mais importantes estavam aqui, no Vale do Paraíba. O nosso ouro, a nossa riqueza veio primeiramente do café.

(CANTA A CANTIGA “O CAFÉ”)

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Cantiga de roda e também de trabalho: “O Café” foi um dos resgates do Arte na Comunidade.

Uma reviravolta mundial ocorreu em 1929, quando a bolsa de valores de Nova York caiu, fazendo cair os preços das mercadorias em praticamente todo o mundo. O café, que valia ouro, passou a valer muito pouco e como tínhamos grandes estoques tivemos que queimar o café que não conseguimos vender. Muitos fazendeiros ficaram arruinados, mas logo em seguida se levantaram, extraindo madeira das encostas da serra, cultivando cana de açúcar e, depois, com o passar dos anos, valorizaram a pecuária leiteira, da qual fomos grandes produtores. Café, madeira, cana, leite! É muita riqueza!

Se a gente prestar atenção vai perceber que toda a riqueza da nossa região está ligada aos nossos rios. Todo o nosso vale é amplamente irrigado por água doce.

Podemos dizer que a vida das pessoas, habitantes do Vale do Paraíba, está intimamente ligada aos rios, cachoeiras, córregos; há histórias, muitas histórias envolvendo nossa gente e os rios. Há verdadeiras, aquelas que estão registradas nos livros e na lembrança das pessoas e há também outras, que aconteceram no imaginário de alguns criadores que, contando fábulas e lendas para os filhos, netos, amigos, enriqueceram a imaginação de todos.

É daqui, do Vale do Paraíba, que as histórias do Saci, do Caipora e da Cuca, entre muitos outros seres, saíram para ganhar páginas de livros, as telas do cinema e da televisão (PEGA O LIVRO CONTOS E LENDAS DE UM VALE ENCANTADO, DE RICARDO AZEVEDO). Algumas estão aqui, neste livro. Histórias contadas pelas avós, pelos tios, que foram recolhidas por um autor legal, o Ricardo Azevedo. Eu gosto muito da história que ele chama de Sopa de Malandro.

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Conrado Sardinha exibe o livro de Ricardo Azevedo. Foto: Atelier da Fotografia

Essa história é do tempo quem que Pedro Malazarte, um caboclo esperto andava por todo lado. Ele gostava de correr mundo e um dia veio passear por aqui, no Vale do Paraíba. Subiu um pouco da serra, cansou, voltou, atravessou rios, córregos, boa parte do vale e, claro, teve uma hora que sentiu muita fome. Mas, muita fome mesmo! Sabe aquela fome que parece que está destruindo a barriga da gente? Pois então, quando Pedro passou por uma casa, em uma das tantas fazendas por aqui, sentiu cheiro de comida… Esperem! Vou interpretar os dois; o Pedro e a dona de casa. Foi mais ou menos assim:

(VINHETA. O ATOR PREPARA-SE PARA INTERPRETAR PEDRO MALAZARTE E UMA COZINHEIRA DO VALE. UM CHAPEU PARA PEDRO E UM LEQUE PARA A DONA DE CASA SÃO OS ELEMENTOS MÍNIMOS SUGERIDOS).

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Duas personagens e um ator. O Projeto priorizou o jogo teatral. Foto: Atelier da Fotografia

PEDRO – Ai, que fome! Como é duro caminhar quando a gente tem fome. Esperem, mas que cheiro de comida é esse? Hum; que delícia! Não resisto, vou pedir um pouquinho dessa comida.

ATOR – Pedro bateu palmas (FAZ A AÇÃO) e apareceu uma mulher, com cara de poucos amigos. (FAZ UM PEQUENO JOGO, SIMULANDO OS DOIS PERSONAGENS)

MULHER – O que o senhor quer?

PEDRO – Boa tarde, Dona. Andei a manhã inteira, a tarde toda, venho de longe e não tenho nada para comer. Estou com tanta fome! A senhora poderia me arranjar um pouquinho de comida?

ATOR – E a mulher, com cara de deboche e de poucos amigos respondeu:

MULHER – Moço, não tenho comida. Aliás, eu nem vou jantar. Outro dia, quem sabe!

ATOR – O cheiro de comida que se espalhava pelo ar dizia que a mulher era mentirosa. Pedro fingiu acreditar e, de repente, teve uma ideia. Vejam o que ele fez!

PEDRO – Tudo bem, dona. Não faz mal. Eu dou um jeito. Já que a senhora não pode me dar comida eu vou preparar uma sopa de pedra.

MULHER – Sopa de quê?

PEDRO – Sopa de pedra! A senhora nunca experimentou? É uma das melhores sopas que tem. Aprendi com minha mãe. A mãe da senhora não ensinou como fazer sopa de Pedra? É melhor que sopa de batata, cenoura, sopa de feijão, de milho.

MULHER – Nunca ouvi falar.

PEDRO – Se a senhora me emprestar um tacho, eu faço a sopa pra matar a minha fome e, ao mesmo tempo ensino-a como fazer uma deliciosa sopa de pedra.

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As versões de Luciana Fonseca e Rodolfo Oliveira  para o Pedro Malazarte.

ATOR – Já ouviram dizer que a curiosidade matou um burro? Pois então; e não é que a mulher emprestou um tacho para o Pedro? Ele, espertíssimo, arrumou alguns gravetos, fez uma fogueira, encheu o tacho de água e colocou pra ferver, enquanto saiu por ali, bem em frente à mulher, escolhendo as pedras para a tal sopa.

PEDRO – (PEGANDO SUPOSTAS PEDRAS) Hum; essa pedra é boa. Substanciosa! Essa aqui também; essa, não. É dura demais. Nossa; essa é das mais gostosas que tem. E essa daqui? Delícia!

ATOR – A mulher olhando e Pedro catando pedras. Limpou todas e já foi jogando dentro do tacho. Quando a água começou a ferver ele, com a voz mais macia do mundo, pediu:

PEDRO – Não daria pra senhora me arrumar uma colher e um tantinho assim de manteiga? Por obséquio!

ATOR – A mulher atendeu arrumando a colher e a manteiga, curiosa para ver como era a tal sopa. Pedro começou a mexer a sopa e voltou a pedir, com a mesma voz macia.

PEDRO – E um tiquinho de sal, tem?

ATOR – A mulher atendeu e o Pedro emendou:

PEDRO – E um pouquinho de cheiro-verde? E uma rodelinha de cebola? Uma batatinha e um chuchu, tem? Essa sopa vai ficar muito boa!

ATOR – E a mulher, só indo buscar coisa por coisa que o Pedro pedia. O cheiro começou a ficar bom e foi então que Pedro fez o pedido final:

PEDRO – Por favor, a senhora não tem um pedacinho de linguiça e um punhadinho de arroz? É só pra dar gosto.

ATOR – A mulher voltou com a linguiça e o arroz. Pedro terminou de fazer a sopa e ainda pediu um prato e uma colher para a mulher que, ali, curiosa, viu ele tomar toda a sopa. E lá se foi o cheiro-verde, a cebola, a batata, o chuchu, a linguiça e o arroz. A mulher até sentiu vontade de tomar um pouco da sopa, mas Pedro tomou tudo, deixando as pedras no fundo da panela. Só as pedras. A mulher, olhando aquilo e já se sentindo otária perguntou:

MULHER – Mas… e as pedras?

ATOR – Pedro pegou as pedras, guardando-as no bolso e se despediu, rindo da cara da mulher.

PEDRO – Vou levar as pedrinhas comigo, para a próxima sopa! Tchau! (CORRE EM VOLTA DO PALCO, COMO SE FUGINDO DA MULHER)

ATOR – Não adiantou nada ser ruim e não dar comida para o Pedro. Ele, esperto, levou a melhor! Há muitas outras histórias aqui e em outros livros do Ricardo Azevedo. Este livro chama “Contos e Lendas de um Vale Encantado”, o nosso vale do Paraíba. A gente pode ler as histórias e contá-las para outros, brincando de fazer teatro, como fizemos agora. Mas, não são só lendas que tem aqui. Há ditados populares da região, quadrinhas, receitas, crendices e adivinhas. Quer saber, vamos brincar de adivinhas?

Vou convidar algumas crianças para brincar de adivinha!

(O ATOR CONVIDA CRIANÇAS, COLOCANDO-AS AOS PARES PARA TENTAR ADIVINHAR AS RESPOSTAS DAS PROPOSIÇÕES. UMA PRANCHETA E LÁPIS OU CANETA SERÃO OFERECIDOS PARA QUE AS CRIANÇAS REGISTREM AS RESPOSTAS. O ATOR DIRÁ A ADIVINHA, REPETIRÁ A MESMA E DARÁ TEMPO PARA AS RESPOSTAS).

ATOR – Prestem bastante atenção que esta é fácil. Vamos lá. Ninguém fala a resposta, anota no papel pra que a gente veja quem adivinhou. Não vale assoprar. Lá vai:

O que é; o que é?

Luiz tem na frente

Miguel tem atrás

Solteiro tem no meio

E casado não tem mais?

(O ATOR REPETE A ADIVINHA E ESTABELECE O TEMPO PARA A RESPOSTA. APÓS UM TEMPO MÍNIMO DÁ A RESPOSTA E INICIA A PRÓXIMA ADIVINHA).

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A adivinha estimula a memória e a interpretação de texto. Foto: Atelier da Fotografia

ATOR – Muito bem, agora vamos para a segunda adivinha. Muita calma, atenção e vamos adivinhar. Não se esqueçam, não é pra falar, é para escrever a resposta.

O que é; o que é?

É verde, mas não é planta,

Não é bule, mas tem bico.

Conversa, mas não é gente,

Vergonha não tem um tico?

ATOR – Palmas para quem acertou! Agora, a última adivinha! Vamos ouvir, adivinhar e anotar a resposta. Atenção! Essa adivinha é das boas!

O que é; o que é?

É ave, mas não tem bico.

É ave, mas ninguém caça.

É ave sem asa e sem pena.

É ave cheia de graça.

(O ATOR DÁ A RESPOSTA, PEDE APLAUSOS PARA OS PARTICIPANTES, AGRADECE E CONDUZ AS CRIANÇAS A SEUS LUGARES).

ATOR – Ave-maria! Maria, a Aparecida. Nossa região ficou muito famosa por conta da aparição da imagem de Maria no Rio Paraíba. A mãe do Cristo não só teria aparecido, mas também feito vários milagres. O Vale do Paraíba abriga todas as religiões, mas é impossível negar a importância de Aparecida no cenário católico nacional.

Todo mundo sabe ou ouviu falar de como a imagem apareceu. Um fidalgo português com fome, exigindo comida e a saída foi pescar para atender o homem. Três pescadores encontraram a santa ao jogarem a rede para pescar. Acharam o corpo, sem cabeça, em seguida pescaram a cabeça da imagem e por fim, conseguiram pescar muitos peixes. Ok! Acharam a imagem dentro do rio. Mas, cá pra nós, quem foi que jogou a santa dentro do Paraíba?

Quem foi que jogou a santa dentro do Paraíba?

Diz a lenda, e aí, é lenda, que no tempo de antigamente apareceu uma gigantesca e monstruosa cobra no rio Paraíba. Era tão grande, mas tão grande, que quando a cabeça estava em Queluz, o rabo ainda estava em Cruzeiro! Dizem que ela devorou muitos pescadores e que fez buracos imensos, pra se esconder, em toda a extensão do rio. O povo tinha medo que as cidades despencassem, caindo nos buracos feitos pela cobra gigante e vivia assustado pelas constantes mortes de pescadores. O buraco feito pela cobra ia longe, tão fundo, que diziam que chegava até ao inferno. Um terror! Até que um dia, o povo resolveu pedir ajuda à santa:

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Rodolfo Oliveira diz versos inspirados em Ariano Suassuna. Foto: Atelier da Fotografia.

Valei-nos, Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré!

Não há bode, não há cobra, ninguém que pode com a fé,

Afaste do rio essa cobra, mande-a pra onde puder,

Valei-nos, Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré.

E jogaram a imagem no rio, bem na frente da cara da cobra. É, foi isso sim. A imagem foi boiando rio abaixo e a cobra foi seguindo, seguindo, até desaparecer pra nunca mais voltar. O monstro foi embora e a imagem acabou se partindo nas pedras do Paraíba, indo para o fundo, só sendo encontrada muito tempo depois. Como diz Chicó, aquele amigo de João Grilo, que por sua vez é amigo da Compadecida, tudo gente do Ariano Suassuna: “- eu não sei, só sei que foi assim”!

Esse tempo de santos e lendas, de índios e colonizadores ficou na história, lá longe. O Vale do Paraíba, como todo bom lugar, foi se transformando com o crescimento do país, com a chegada das grandes empresas, grandes indústrias que favoreceram o crescimento das cidades mudando tudo por aqui. Só aqui, no Estado de São Paulo, são 39 municípios sediados no Vale do Paraíba. Alguns se tornaram grandes metrópoles, mudando totalmente a economia da região.

Outro dia estava olhando e descobri que temos, em todo o Vale, mais de dois milhões e duzentos mil habitantes! Mais de dois milhões! É gente demais, não é? Gente que precisa trabalhar, que precisa de energia elétrica pra manter usinas siderúrgicas, a indústria aeronáutica, indústria bélica além, é claro, da agropecuária. Uau! Muita coisa!

Quando há muita coisa os problemas aparecem. Por isso devemos estar sempre atentos para garantir a qualidade de vida do nosso vale. Quando visitei as escolas, quando estive aqui, ensinei origami para algumas crianças.

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Luciana Fonseca com o origami, feito junto com os alunos de cada cidade.

Fizemos um peixe, lembram-se? Para quem não se lembra, ou para quem não sabe, a ideia é fazer um peixe com dobradura, a arte do origami e, com isso, alertar as pessoas para que não sujem nossos rios. Vamos fazer o peixe? Vou ensinar a vocês.

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Momento de fazer origami para lembrar de preservar o rio.

(APÓS FAZER O PEIXE, PROSSEGUE) Desta vez, além de fazer o peixe – sim, porque essa é uma campanha que devemos manter, sempre! – vou cantar pra vocês uma música! Mas, eu gostaria de não cantar sozinho. Quero algumas crianças que façam o coro, cantando junto comigo. Quem gosta de cantar? Quem vem cantar comigo?

(O ATOR DEVE ESCOLHER UM MÍNIMO DE CINCO CRIANÇAS, NO MÁXIMO DEZ, EVITANDO ENCHER DEMAIS O ESPAÇO CÊNICO. DEVE ENSINAR O REFRÃO E, SEMPRE QUE POSSÍVEL, UMA COREOGRAFIA BÁSICA).

ATOR – Atenção que primeiro vamos aprender o refrão:

Limpe a água

Limpe o rio

Piraquara quer pescar!

ATOR – Piraquara é o pescador, o homem do campo que vive da pesca. Vamos lá, de novo, vamos aprender a cantar e a dançar, vamos fazer um som legal.

Limpe a água

Limpe o rio

Piraquara quer pescar!

ATOR – E agora que estamos com o refrão na ponta da língua vou fazer o meu som, que lembra muitos peixes de água doce e alguns dos principais rios do nosso país. Vamos lá!

(A MÚSICA DEVE SER ACOMPANHADA, NO MÍNIMO, POR PALMAS FAZENDO O RITMO E DANDO ANDAMENTO APROPRIADO. O REFRÃO É DITO PRIMEIRAMENTE PELO ATOR QUE, NO BIS, PEDE O ACOMPANHAMENTO DAS CRIANÇAS).

Cadê tilápia, traíra?

Onde tem tucunaré?

Piabuçu nunca vi!

Nem jundiá, nem mandi!

Limpe a água, limpe o rio

Piraquara quer pescar

Pra onde foi surubim?

Piau-palhaço vai voltar?

Não vejo mais lambari

Piabanha onde é que tá?

Limpe a água limpe o rio

Piraquara quer pescar

Bagre-guri tem ali?

Ximboré, curimbatá?

Corvina do outro lado?

Dourado veio pra ficar!?

Limpe a água limpe o rio

Piraquara quer pescar

Paraíba, Rio Doce,

Amazonas, Paraná

São Francisco, Beberibe,

Araguaia, Japurá,

Rio Madeira, Tietê,

Rio Purus, Juruá,

Tocantins, Solimões,

Brasileiro quer pescar!

Limpe a água limpe o rio

Brasileiro quer pescar (REPETE DUAS VEZES)

(O ATOR AGRADECE E CONDUZ AS CRIANÇAS A SEUS LUGARES, PREPARANDO-SE PARA ENCERRAR A APRESENTAÇÃO)

ATOR – Cantar é bom, porque dá um clima de festa. E essa festa é válida para que nós fiquemos atentos para as coisas do nosso Vale do Paraíba. Para os problemas, buscaremos soluções e para tudo o que há de bom por aqui vamos preservar e celebrar, meus amigos…

(CONFORME A CIDADE, O RESPECTIVO ATOR DIZ OS VERSOS ABAIXO)

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Luciana Fonseca esteve em Queluz

Violeta é meu nome!

Sendo pobre nunca passei fome,

Pois nasci em belo vale

Onde aprendi a pescar,

A carpir, fabricar!

Senhores, sou de Queluz

Devo me despedir,

Agora vou terminar.

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Além de Lavrinhas, Rodolfo Oliveira também foi Pedro Menestrel, em algumas escolas de Cruzeiro

Adriano, este é o meu nome,

Sendo pobre, nunca passei fome,

Pois nasci em belo vale

Onde aprendi a pescar

A carpir, fabricar!

Senhores, nascido em Lavrinhas!

Devo me despedir,

Agora vou terminar.

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Conrado Sardinha apresentou-se em Cruzeiro.

Pedro Menestrel é meu nome

Sendo pobre, nunca passei fome,

Pois nasci em belo vale

Onde aprendi a pescar

A carpir, fabricar!

Senhores, nascido em Cruzeiro!

Devo me despedir,

Agora vou terminar.

(APÓS OS VERSOS O ATOR DESPEDE-SE CANTANDO)

E agora, quem se lembrar da canção que cante comigo:

(CANTA A MUSICA DE DESPEDIDA)

Vamos brincar de teatro

Vamos brincar de ser…

Tchau, pessoal! Adeus! Até a próxima!

Valdo Resende/2016

OS SETE RIOS DE LAVRINHAS

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Rodolfo Oliveira é Adriano, o bardo em Os Sete Rios de Lavrinhas. Foto: Atelier da Fotografia

O Projeto Arte na Comunidade tem, entre seus principais objetivos, contar histórias e estimular esta atividade em crianças das escolas das cidades visitadas. Para isso inclui em seus textos autores e obras que, no final do projeto, estão entre os livros que são doados às bibliotecas das escolas para uso comum.

Na quarta edição do Arte na Comunidade, no Vale do Paraíba, escolhemos autores de textos teatrais (Sylvia Orthof, por exemplo, no texto para Lavrinhas) e nossos atores lembraram menestréis, bardos, poetas, saltimbancos, em um divertido exercício de teatro dentro do teatro tendo, como apoio, os adereços e figurinos criados por Carol Badra.

Em “Os Sete Rios de Lavrinhas” Rodolfo Oliveira interpreta Adriano, um bardo que lembra personagens correlatos à história do município do Vale do Paraíba. Escrito e dirigido por Valdo Resende, com direção musical de Flávio Monteiro, o trabalho foi apresentado em todas as escolas municipais.

Havendo interesse em reproduzir o texto ou interpretá-lo, pedimos a citação do motivo pelo qual o texto foi escrito e dos profissionais envolvidos na montagem original.

Idealizado por Sonia Kavantan o Arte na Comunidade 4 foi patrocinado pela Alupar, Taesa e apoiado pelas Usinas Queluz e Lavrinhas. Uma realização da Kavantan & Associados, Ministério da Cultura e Governo Federal.

OS SETE RIOS DE LAVRINHAS 

Original de Valdo Resende

(CARACTERIZADO COM ELEMENTOS QUE REFEREM UM BARDO, O ATOR ENTRA CANTANDO A MÚSICA DE ABERTURA CAMINHANDO POR ENTRE O PÚBLICO E, ANTES DE IR PARA O ESPAÇO CÊNICO PRINCIPAL – PALCO OU SALA DE AULA – BRINCA COM OS PRESENTES; ADRIANO DEVE CAMINHAR RAPIDAMENTE POR ENTRE TODOS, AGITADO).

 

Vamos brincar de teatro

Vamos brincar de ser,

Viver muitos personagens

Nessa viagem e assim crescer.

O palco é a rua, a sala,

A praça ou o nosso quintal

A história a gente inventa

Ou conta aquela já bem contada

Que recontada, não tem igual!

(TERMINANDO DE CANTAR, CUMPRIMENTA A PLATEIA)

Meus amigos: Cheguei!

(NOS PRIMEIROS MOMENTOS O ATOR SE MOSTRARÁ TENSO, ELÉTRICO, ESTRESSADO).

Olá para todos! Tudo bem? Como vão? Ah, que bom que eu cheguei aqui! Não via a hora de chegar à minha Lavrinhas! Não via a hora, mesmo! Ando tão fatigado, extenuado, cansado, esgotado, combalido, estressado, acabado! A vida por aí não anda nada fácil! De onde venho é muita correria, muita tensão, muita agitação! E eu, estressado, só pensava em vir pra minha cidade, encontrar minha família, meus amigos e… Brincar de teatro! (RESPIRA FUNDO) Foi só chegar por aqui, olhar as casas, os rios, as pessoas e já estou me sentindo melhor. Já quero brincar! Teatro é tão relaxante, tão divertido, bom para distrair, desanuviar!

Vamos brincar de teatro

Vamos brincar de ser,

Viver muitos personagens

Nessa viagem e assim crescer.

(RESPIRA EXAGERADAMENTE FUNDO, RELAXADO) Eu nasci aqui, em Lavrinhas. Faz tempo! Bem ali, na Rua Manoel Horta, perto da Igreja. Uma calmaria, uma tranquilidade! O rio passando no fundo de casa, aquele barulho gostoso! Naquela época eu já adorava ouvir a chuva caindo sobre o rio. Vocês já pararam pra prestar atenção? Quando a chuva cai e as águas ganham maior volume, correm mais depressa, como se fossem para uma grande festa! Depois a chuva passa, a água volta a correr como sempre. Eu gostava de ter o rio passando ali, no fundo do quintal. Eu subia em um pé de goiaba e, lá de cima, ficava olhando a água correr, imaginando onde ela iria parar… Iria evaporar e tornar a cair em forma de chuva? Terminaria fervendo em uma panela e virando caldo de feijão? Café? Refrigerante? Dá pra lembrar um monte de usos para á água.

Ontem, quando cheguei, estava muito mais elétrico e muito mais estressado. Estava assim, vejam! (O ATOR FAZ UMA PANTOMIMA, FINGINDO-SE AGITADO). Aí, deixei minha bagagem na casa de uns amigos e chispei, corri, acelerei, disparei até a Cachoeira da Pedreira. Cheguei lá e mergulhei de roupa e tudo no poço… Uma delícia! Aí, foi só deixar a água cair forte, fresca, gostosa. Aquele banho me fez sentir que havia chegado. Estava em casa.

Foi olhando a natureza que aprendi a gostar de poesia. Ficava buscando palavras para expressar o que eu via; as corredeiras, os pássaros, a mata, a serra… Uma vez, na Festa de São Francisco de Paula, apareceu um cantador, viajante nordestino, que cantava e contava histórias em versos. Fiquei encantado e naquele dia resolvi que seria poeta, cantador, contador de histórias. Comecei a estudar o assunto e descobri que eu seria um bardo! Espera! Está na hora de vocês saberem, em versos, um pouco mais do que sou.

(O ATOR DECLAMA OS VERSOS APRESENTANDO-SE AO PÚBLICO)

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Rodolfo Oliveira. Foto divulgação/Atelier da Fotografia

Atenção, todos vocês,

Apresento-me, sou um bardo!

Um poeta diferente,

Não faço da vida um fardo.

Desde os tempos de outrora

Pela graça do Senhor

Conto histórias, mitos, lendas,

Invento fábulas e lorotas

E por ser um vencedor

Fui mais além nessa vida,

Prestem atenção: sou um ator!

Adriano, este é o meu nome,

Sendo pobre, nunca passei fome,

Pois nasci em belo vale

Onde aprendi a pescar

A carpir, fabricar!

Senhores, nascido em Lavrinhas!

Vim aqui me apresentar.

(TERMINA FAZENDO MESURAS E VOLTA A FALAR NORMALMENTE)

Os bardos, dizem, surgiram há muito tempo, lá na Europa. Antes mesmo dos trovadores, dos menestréis que são outros tipos de poetas. Bardo é um nome diferente, não é? Todos os poetas, trovadores, menestréis gostam de versos, de rimas, de contar e cantar histórias. O bardo narra a história de sua gente em versos, em prosa, com música. Gostando de poesia e de teatro foi fatal conhecer um dos maiores poetas e dramaturgos de todos os tempos: William Shakespeare! Lá da Inglaterra. Chamam-no “o bardo”. Pois em suas peças há muita poesia e ele também escreveu sonetos.

Desculpem-me a ousadia; muita pretensão ser tão bom quanto ele; entretanto, a gente deve espelhar-se no que há de melhor; é assim que crescemos. Olhando para o alto. Então, tendo crescido aqui me habituei a observar a grandeza da serra, a determinação dos nossos rios, às riquezas do nosso vale… Tudo tão maravilhoso! Tomei a decisão de contar pelo mundo a história da minha terra. Em verso e prosa.

Lógico que, de cara, não consegui dominar as palavras, os versos. Fui aprendendo aos poucos e, em teatro, a gente aprende observando. Meu professor dizia: (IMITANDO UM POSSÍVEL PROFESSOR) “– Adriano; observe a vida, as pessoas, só assim você poderá ser ator. Observar e viver, esta é a missão do poeta, de todo artista. Você é capaz de lembrar-se da sua gente, lá da sua cidade?”. Claro que sou! E o professor me disse? “-Será mesmo? Vamos começar fisicamente!”. Hein? Observar fisicamente? Como assim, observar fisicamente? E ele continuou: “- Adriano lembre-se das pessoas de sua cidade, do que elas faziam; do que elas fazem e são e reproduza com seu próprio corpo”.

(O ATOR, CONFORME NOMINA, VAI IMITANDO GESTUALMENTE)

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A primeira pessoa que me veio à mente foi o Padre Antonio (IMITA COM GESTOS SACROS); eu ajudava o padre nas missas e, por isso, sabia tudo o que ele fazia (VOLTA A IMITAR). Depois me lembrei do Tio Manoel; (NARRA REALIZANDO AS AÇÕES SUGERIDAS) Tio Manoel, volta e meia, saia de casa, ia até a beira do rio e, pegando a canoa, saia remando em pé; o máximo! Procurava um bom lugar para pescar. Imaginem só! (IMITA O BARQUEIRO REMANDO) É difícil manter o equilíbrio com o barco em movimento, balançando; e meu tio ali, firme! Dizia que aprendeu com descendentes de índios que viveram por aqui. Tio Manoel passava horas pescando. Pegava a vara, acertava o anzol, punha a isca e, lançando na água esperava pacientemente por um bom peixe. (REPETE A SEQUÊNCIA RAPIDAMENTE) Caminhar, pegar o barco, navegar, pescar… (MUDA O TOM) E os peixes sumindo, sumindo. Pesca exagerada, água poluída… (QUEBRA O CLIMA) Vamos brincar de teatro! Quero cinco crianças! Cinco! Vamos brincar de teatro e começar fisicamente, como aprendi com meu professor.

(O ATOR ORIENTA AS CRIANÇAS PARA CRIAÇÕES FÍSICAS DE PROFISSÕES COMUNS AOS HABITANTES DA CIDADE. ANUNCIA A PROFISSÃO E REALIZA GESTOS, FACILITANDO A LEMBRANÇA OU O CONHECIMENTO PARA CADA PARTICIPANTE).

Prestem atenção! Quem sabe fazer de conta que está garimpando? Com bateia, uma peneira própria para pescar. Onde teve ouro, sempre poderá haver novamente. (FAZENDO AS AÇÕES COM AS CRIANÇAS) Mergulhando a bateia na água, enchendo com o cascalho que há no fundo do rio, chacoalhe para frente e para trás, de um lado e de outro e retire da água. A sujeira se dissolve, as partes menores passam pela bateia ficando o cascalho e, se der sorte, encontramos ouro! E esse local onde o ouro está é o que chamamos lavra. Lavrinhas! Várias lavras de ouro!

(ESCOLHE ENTRE AS CRIANÇAS AQUELA QUE SERÁ O GARIMPEIRO) Quem quer ser o garimpeiro? Tem que ser forte, resistente, porque dá uma dorzinha nas costas… (DEFINE A CRIANÇA). Bom, agora vamos brincar de lenhador; vamos extrair madeira para a produção de carvão vegetal. (FAZENDO AS AÇÕES) Escolhemos a árvore e, com um machado, fazemos um primeiro corte que será a base onde colocaremos a serra. Lenhador tem que ser forte! Não é fácil segurar e sustentar uma serra elétrica! E tem que ser responsável! Escolhe a área para extrair a madeira, mas depois tem que replantar e reflorestar. Do contrário, a madeira acaba. Já não temos tanta mata por aqui… Vamos escolher um lenhador! (DEFINE A CRIANÇA. AS PRÓXIMAS PROFISSÕES SERÃO ESCOLHIDAS COM MAIS RAPIDEZ).

Já temos um garimpeiro e um lenhador, agora está na hora de encontrar quem saiba ordenhar. Em um sítio todos sabem ordenhar. (FAZ A AÇÃO) Quem gosta de leite? Queijo, iogurte, manteiga? Então, para ter leite é preciso ordenhar. Eu sei ordenhar, pois aprendi quando passava férias com meu avô. Vamos ordenhar! Com força e delicadeza! (FAZ E ESCOLHE UMA CRIANÇA, RETOMANDO A BRINCADEIRA). Quem vai ordenhar? Já temos um garimpeiro, um lenhador e aquele que irá ordenhar.

Vamos lembrar meu tio Manoel? Mas, sem pescar de pé que estou cansado e gosto de pescar para relaxar. Vamos pescar! Pega a vara, acerta a linha, coloca o anzol, a isca, lançar na água e… Eita, vida boa! (SENTADO, PARA FAZER A PESCARIA O ATOR FINGE QUE DORME, ATÉ SIMULAR UM PUXÃO NA LINHA). Opa! Olha o peixe! Pesquei! Pesquei um! (PERMANECE SENTADO PARA A PRÓXIMA AÇÃO) Vamos escolher, definindo o pescador do nosso grupo. (PARA A ÚLTIMA CRIANÇA) E você que ficou por último, mas não menos importante será um soldado! Mas, não um soldado qualquer (REALIZA A AÇÃO) Um combatente! Lutando bravamente em uma trincheira, atirando para garantir seus ideais! O combatente da Revolução de 1932!  (SIMULA ATIRAR COM UMA METRALHADORA).

E agora, senhoras e senhores, temos cinco criações físicas que serão fundamentais para compor uma história! Uma pequena história que aprendi de um querido vizinho, antigo morador da nossa cidade. Vai ser assim: eu vou contando a história, como se fosse meu antigo e simpático vizinho e nossos atores ilustrarão fisicamente os fatos narrados nessa boa história. Só que para narrar irei me transforma no meu vizinho, um velhinho muito querido!

(O ATOR MUDA A CAMISA E COLOCA ADEREÇOS COMO UM BONÉ, ÓCULOS E UM CACHECOL, COMPONDO A PERSONAGEM. EM SEGUIDA, NARRA E REALIZA AS AÇÕES COM AS CRIANÇAS).

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Rodolfo Oliveira em Os Sete Rios de Lavrinhas. Foto: Atelier da Fotografia

AVELINO – Olá! Tudo bem com vocês? Meu nome é Avelino! Avô de Amélia, Aurora, Alice e amigo de Adriana. Eu sou um cidadão Lavrinhense. Um verdadeiro cidadão Lavrinhense! Não basta nascer aqui. Pra começar, eu adoro comer! Peixe! Um peixe bem fritinho, um pirão… (BRINCA DE PESCADOR JUNTO COM A CRIANÇA DETERMINADA PARA TAL AÇÃO). Pescar é bom, não é mesmo, compadre? Surubim, bagre, dourado! Compadre, você já ouviu falar que trouxeram o dourado de longe? Que não havia dourado no Paraíba? Trouxeram do Paraná! Não estou mentindo não! Compadre fique aqui pescando que eu preciso continuar minha história.

Além de pescador um lavrinhense deve saber cortar lenha. Eu cortei muita lenha por aqui. Escolher a árvore, derrubar e cortá-la em bons pedaços (FAZ A AÇÃO JUNTO COM A CRIANÇA DETERMINADA). Para nosso fogão à lenha, em casa, escolhíamos madeira sequinha, evitando encher a cozinha de fumaça. Madeira úmida dá uma fumaceira! E vendíamos para a companhia da estrada de ferro. Ganhamos muito dinheiro extraindo madeira. Derrubando uma árvore aqui, tirando o mato dali, fomos abrindo espaços na mata para nossas fazendas, para a criação de gado leiteiro. Qual criança vai me ajudar a ordenhar? Você? Ah, vamos ordenhar!

Nos sítios da minha família tirávamos leite para nosso sustento. E o excedente, o que não iríamos usar ia para os grandes laticínios. Nas grandes fazendas eram centenas de litros; na região, milhares de litros de leite. Hoje eu tomo leite de caixa… Tenho uma saudade do leite ordenhado ali, na hora, quentinho! Um cheiro! Uma delícia! (PARA A CRIANÇA) Quer tirar mais um pouquinho? Vamos ver se você aprendeu direitinho! (OBSERVA) Muito bom!

(DEIXA A CRIANÇA ORDENHANDO E APROXIMA-SE DA QUE FARÁ O GARIMPEIRO) Sabem que eu já achei umas pepitas de ouro? Bem pequenas; pequenininhas! Dizem que onde houve ouro pode aparecer mais. Aí, nas horas vagas eu, lavrinhense, gostava de matar o tempo garimpando (FAZ A AÇÃO). Sete rios para a gente procurar um cantinho e, quem sabe, encontrar uma pepita de ouro! Há muito tempo garimpeiros descobriram por aqui pequenas Lavras e, é claro, garimparam o ouro. Lavrinhas! Vai que a gente encontra uma pedrinha amarela! No mínimo, umas pedras bonitas. Eu tenho sete! Uma de cada rio que banha a região. (MUDA DE TOM) Acontece, agora, de a gente garimpar lixo. Sem problemas! A gente aproveita e colabora para limpar nossos rios. Mas, que tal não jogar lixo no rio? (VOLTA) Ai, minhas costas! Não tenho mais tanta disposição para garimpar. O tempo passa. Todavia, se for necessário lutar, estou pronto! (APROXIMA-SE DO SOLDADO)

Eu espero nunca mais, nunca mais mesmo, não mais pegar em armas. Nem eu, nem um Lavrinhense, nem um paulista ou um brasileiro. Somos gente da mesma terra, não temos que lutar uns contra os outros. (FAZ A AÇÃO) Eu lutei na revolução. 1932! Foi difícil, foi duro, mas se precisar eu luto de novo. Só se precisar. Agora, só de brincadeira. (VOZ DE COMANDO) Soldado! Fogo! Quem puder que se esconda das nossas balas! (FINGE FARSESCAMENTE QUE LEVA UM TIRA) Ai, ai, me acertaram! Socorro! Estou morrendo! Morri!

(CAI. VINHETA. TIRA OS ADEREÇOS, VOLTANDO A SER ADRIANO).

ADRIANO – Palma para os nossos atores! Grandes atores que interpretaram fisicamente a pequena peça “Os habitantes de Lavrinhas”. Palmas! E agora, por favor, eu peço que nossos atores permaneçam no palco. Sim, vamos continuar o “lance” do teatro. Então, meu professor nos ensinou a observar as pessoas e a reproduzir, compor os gestos caracterizando-as, certo? Pois bem, ele também nos fez observar coisas e acrescentar som. O cara era pirado! (IMITA O PROFESSOR) “– Adriano, se o povoado de Lavrinhas cresceu com a chegada da estrada de ferro, com a construção da nossa estação, represente um trem”. Hein? Trem? Representar um trem? Ai, meu Deus, porque é que eu fui dizer a ele que a nossa estação foi a segunda a ser construída aqui no Vale do Paraíba? Fazer o que! Quando professor pede é porque quer que a gente aprenda, evolua. Já fizemos garimpeiro, pescador, lenhador… Vamos fazer um trem! (PARA AS CRIANÇAS QUE JÁ ESTÃO NO ESPAÇO CÊNICO) Vocês me ajudam? Por favor! Vamos compor um trem!

Para compor um trem vamos começar pela locomotiva. Daquelas antigas, Maria Fumaça! Com aquelas travas presas, movimentando as rodas (FAZ OS GESTOS COMPONDO A LOCOMOTIVA). Agora vamos fazer os carros, os vagões. Fila indiana para nosso trenzinho. (ESTABELECE UM SINAL) E atenção, quando eu fizer sinal, todo mundo apita. Vamos Ensaiar! (FAZ O GESTO) Piuiiiiiiiii! Agora, vamos brincar de trem! Primeiro um ensaio e depois vamos fazer pra valer. Vamos lá. Ensaiando! (FAZ O ENSAIO) E agora é pra valer! Atenção. No meu gesto, o apito! Não esqueçam.

(O ATOR DIRÁ OS VERSOS EM TRÊS VELOCIDADES, QUE MARCARÃO O RITMO DO ANDAR DO TREM. COMEÇA LENTAMENTE E ACELERA NO FINAL).

Meu trenzinho pequenino

Desce a Serra, vai pro mar,

Vai correndo, vai ligeiro,

Sobe a serra devagar

Meu trenzinho de menino

Para sempre vou lembrar!

(FAZ O GESTO PARA O APITO E VOLTA ACIMA, NO PRIMEIRO VERSO. REPETE TRÊS VEZES).

E o nosso trem termina essa viagem aqui, em Lavrinhas. Palmas para nossas crianças! E vamos em frente! Eu gosto de fazer coisas no palco. Gosto de fazer gente e gosto de fazer coisas. É; e de fazer coisas! (PEGA O LIVRO DA SYLVIA ORTHOF) em teatro da pra fazer de conta que a gente é tudo o que der na cabeça da gente ou do autor. (MOSTRA O LIVRO)

Neste livro aqui está o texto da primeira peça de teatro que fiz como ator profissional. Na escola a gente estuda e pensa em ser galã, bem bonitão. Entretanto, vocês acham que eu estreei nos palcos fazendo um príncipe? Um rei? Um herói? (PAUSA) Meu primeiro personagem foi… Um chuveiro! É! Um chuveiro; isso mesmo! (MOSTRA O LIVRO) A autora do texto é a Sylvia Orthof. Nas peças escritas por ela os personagens são pessoas, coisas, seres mágicos.

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Rodolfo Oliveira em Os Sete Rios de Lavrinhas. Foto: Atelier da Fotografia

Ah! Minha primeira peça! O nome da peça é este aqui, que está na capa do livro: Eu chovo, tu choves, ele chove! E eu, como chuveiro, era apaixonado por uma sereia! Incrível, não é? A Sylvia Orthof tem textos lindos pra gente brincar de teatro. Um texto é sempre um pretexto pra gente brincar de teatro. A gente escolhe um texto, chama os amigos… Quanto mais amigos melhor! E parte para a brincadeira. Uma brincadeira séria, pois cada um faz a sua parte, na hora que deve fazer. É a ação de todos, ou seja, a junção do trabalho de cada um que deixa tudo bonito, legal, da hora! Quando não tem texto, ou se a gente quiser dizer algo diferente, só nosso, o jeito é escrever! Sim, podemos escrever nossos próprios textos, nossas peças de teatro. É muito divertido escrever porque a gente pode criar as personagens mais incríveis.

Depois de interpretar um chuveiro, uma temporada de grande sucesso, vim passar uns dias aqui, na cidade. E seguindo os conselhos do meu professor, que agora era meu diretor de teatro, resolvi escrever meu primeiro personagem para mostrar pra minha família, para os meus amigos, que eu já era um ator. Vou mostrar pra vocês o primeiro personagem que escrevi. Prestem atenção!

(VINHETA. O ATOR TRANSFORMA-SE EM UM ANTIGO TELEGRAFISTA. NAS MÃOS UM SIMULACRO DE TELÉGRAFO).

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Rodolfo Oliveira em Os Sete Rios de Lavrinhas. Foto: Atelier da Fotografia

TELEGRAFISTA – Toc, toc, toc… Tem gente que acha que telegrafista faz toc, toc, toc. Telegrafista não faz toc, toc. Telegrafista faz dit, para sons curtos, e dah para sons longos. Dit, dah. Dit Dit Dit Dah Dah Dah. E vai formando letras, palavras, textos inteiros. Dit Dah Dah Dah Dit Dit Dit Dah. Isso se chama código Morse. Dit é curto, seco. Dit, dit! Já o dah deve ser longo. É um código ultrassecreto. Ideal para mensagens entre estações de trem. Eu sou um telegrafista! Dos bons, modéstia às favas. Eu estava aqui, em 1874 quando foi inaugurada a nossa estação. O primeiro trem veio puxado por uma locomotiva a vapor, o maquinista se achando o máximo. O chefe da estação bancando a autoridade, mas eu, fui eu, com meus Dit Dit Dah que informei: A linha está liberada! Podem vir com o trem!

Aqui, em volta da estação, era uma fazenda linda, enorme, dos irmãos João Emídio e Antônio Francisco Ribeiro. Eles cederam terreno da Fazenda Lavrinha e assim veio a estação. O objetivo dos fazendeiros era facilitar o comércio do café. Eles tinham cafezais imensos e despachavam a produção para São Paulo, de lá para Santos, para o porto de onde nosso café ia para todas as partes do mundo.

Hum! Não posso falar em café que me dá uma vontade! Ali, na estação, no meu Dit Dit Dah Dah de todo dia, um café ajudava a passar o tempo. E o tempo viu surgir o vilarejo no entorno da estação. Uma pequena vila, semente da nossa cidade. Vi centenas de vagões saindo cheios de café, depois de madeira e até vagões tanque, transportando o leite de nossa região. Fui telegrafista durante 40 anos! 40! Sabem o que é isso? Vocês têm ideia de quantos Dit Dah Dah Dit Dit dei nessa vida? A data da minha aposentadoria, 1914, nunca me saiu da memória. Foi um ano importante para o mundo, mas o que realmente guardei na lembrança foi a ida de meu netinho para a escola. Eu não queria que ele fosse embora. Já pensou? Meu único neto? Pois foi em 1914 que os padres Salesianos instalaram aqui, em Lavrinhas, o colégio São Manoel. Nossa vila, que já era distrito de Lavrinhas tinha seu colégio!

(VINHETA. VOLTA A SER ADRIANO).

ADRIANO – Eu gosto muito desse personagem. O telegrafista. Se ele visse a nossa Lavrinhas de hoje! Cresceu, tornou-se uma cidade adulta e com tanta beleza natural! Além das fazendas, das chácaras, temos balneários pras pessoas descansarem. Os turistas desfrutam da maravilhosa paisagem do vale, da serra; banham-se nas nossas cachoeiras, pescam em nossos rios…

Se nosso telegrafista visse! Quantas cidades! Milhares de pessoas. Centenas e centenas de grandes empresas. Por onde o ser humano passa as transformações são imensas. Nossas reservas florestais diminuíram demais e a extração da madeira ficou no passado; as grandes fazendas, históricas, bonitas, abrindo campos para o gado leiteiro também transformaram o ambiente. Lavrinhas, atenta às mudanças e certa da necessidade de cuidar e preservar o meio ambiente construiu uma estação de tratamento de esgotos. Fiquei tão contente! Podem acreditar; há no nosso país cidades inteiras sem redes de esgotos! Nossa maior riqueza é nossa terra, cheia de rios, de árvores, uma natureza exuberante! Em hipótese alguma devemos permitir que isso acabe. Sem sujeira! Sem Poluição!

(CANTA OS PRÓXIMOS VERSOS COM A MELODIA DA CANTIGA DE RODA “ANQUINHAS”)

Oh, cidade de Lavrinhas.

Tão bela, tão rica em águas

Preserve teus sete rios

Por toda a eternidade!

Sete rios! Quanta riqueza! Quanta vida! Vimos recentemente o país inteiro passar por uma crise com falta de água. E nós, aqui em Lavrinhas, temos sete rios! (PEGA PAPEL DE ORIGAMI E COMEÇA A DOBRÁ-LO, CRIANDO UM PEIXE) Se a gente quiser podemos destinar um rio para cada coisa. Assim: um rio para nadar, outro só para pescar. Daquele pegaremos água para beber e do outro, energia para nossas casas. Olhem que privilégio! Mas, para aproveitamos desses sete rios precisamos cuidar deles. Mantê-los limpos, preservá-los. Por isso criei esses versos pra gente não esquecer de que temos que cuidar direitinho dos nossos sete rios. Vamos aprender esses versos? Eu canto uma frase e vocês repetem; assim, a gente aprende e guarda na mente os novos versos, lembrando-nos do que devemos fazer.

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Rodolfo de Oliveira em Os Sete Rios de Lavrinhas. Foto: Atelier da Fotografia

Oh, cidade de Lavrinhas

Tão bela, tão rica em águas

Preserve teus sete rios

Por toda a eternidade!

(O ATOR OFERECE O PEIXE PARA ALGUMA CRIANÇA E, EM SEGUIDA, ENSINA A PLATEIA, CANTANDO UM VERSO, PEDINDO QUE A MESMA REPITA E APÓS FAZER OS QUATRO VERSOS, REPETIRÁ TODA A CANTIGA. ENQUANTO ISSO FARÁ OUTRO PEIXE COM O PAPEL DE DOBRADURA.).

(EXIBE O PEIXE PARA A PLATEIA) Vejam no que transformei esse papel. Um peixe! Eu disse que faríamos duas coisas, certo?  A primeira foi a música. Agora quero ensinar as crianças a fazerem esse peixe. A ideia é a seguinte: sempre que possível, a gente faz um peixe para lembrar que temos que cuidar dos nossos sete rios para mantê-los vivos. E quando a gente perceber alguém, seja quem for, sujando os nossos rios, nós não vamos brigar, vamos fazer um peixe como este e dar de presente à pessoa, para lembrá-la que rio sujo é rio sem vida. Vamos aprender a fazer esse peixe?

(O ATOR FARÁ O ORIGAMI. TODAS AS CRIANÇAS PODERÃO PARTICIPAR DA ATIVIDADE. EM SEGUIDA, AGRADECE AS CRIANÇAS E PROSSEGUE).

Dobrar papel é uma arte desenvolvida no Japão. Lá eles dizem origami e assim ficou conhecido no mundo inteiro. Origami. Arte de dobrar papel e transformá-lo em flores, animais e toda uma série de coisas. Aprendi a fazer origami por conta de uma peça que fiz, ambientada no Japão. Pesquisamos sobre a comida japonesa, as roupas, os hábitos… E aí, aprendi a fazer origami. Tudo isso lá, com meu grupo de teatro. Eu vivia contando histórias da minha terra. Tinha gente que duvidada que alguém pudesse construir um viaduto para uso particular. Ficavam me olhando, desconfiados, mas o fato aconteceu.

O coronel Manoel Pinto Horta mandou construir um viaduto sobre a estrada de ferro ligando a casa onde morava com o armazém, também propriedade dele. Que máximo! (IMITANDO O TAL CORONEL) “- Vê lá se irei dar voltas e mais voltas para ir ali, do outro lado da linha”!  Pois construíram o viaduto. Só para uso do coronel. Aí, a estrada de ferro comprou uma locomotiva, lá na Alemanha! Na primeira viagem na linha Rio – São Paulo, chegando a Lavrinhas a locomotiva parou. Sabem o motivo? A máquina tinha chaminé alta e não dava para passar sob o viaduto do coronel. O trem parado e o coronel tranquilo, olhando lá de cima (IMITANDO O CORONEL) “– Cortem a chaminé que a máquina passa”! E assim chamaram um técnico e assim foi feito.

Eu contava esses fatos na escola e um dia meu mestre me desafiou a escrever versos sobre a cidade. (IMITANDO O PROFESSOR) “- Adriano, você vive dizendo que admira o bardo, nosso grande bardo; seja como ele, faça poesias, sonetos, peças de teatro; conte a história de Lavrinhas em verso”!

Quem sou eu, pensava, para ser um bardo! Quem sou eu! Às escondidas eu rascunhava uns veros, tentava, jogava fora, até que mostrei ao professor. Ele corrigiu, criticou e mandou fazer outros, melhores. Foram esses, que vou dizer agora, os primeiros versos aprovados pelo meu professor:

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Rodolfo Oliveira em Os Sete Rios de Lavrinhas. Foto: Atelier da Fotografia

Lavrinhas, no Vale do Paraíba,

É a cidade onde nasci!

Entre belas cachoeiras,

Sob serra altaneira,

Nadando em teus rios cresci.

Cidade calma e tranquila

Trago-te em tudo o que faço.

Hoje e por todo o sempre

Recebas com carinho o meu abraço.

Desde então passei a me apresentar como Adriano, o Bardo. Cantando e inventando cantigas e brincando com as palavras. Gosto muito de tudo o que faço e teatro é a melhor coisa que aconteceu em minha vida. E poder escrever versos, então, nem digo! Que melhorar muito e, quem sabe, ser reconhecido por toda a gente como o bardo de Lavrinhas; já pensaram?

Lavrinhas, no Vale do Paraíba,

É a cidade onde nasci!

Entre belas cachoeiras,

Sob serra altaneira,

Nadando em teus rios cresci.

Bem, sou um bardo em formação. Vou trabalhar muito, para me aprimorar e agora estou aqui lembrando fatos da nossa cidade e brincando de teatro com todos vocês. Teatro é uma forma de contar histórias e os versos deixam essas histórias mais bonitas. Aqui brincamos de compor fisicamente personagens comuns em Lavrinhas e também brincamos de colocar som, interpretar coisas. Um passo importante para quem quer brincar de teatro é saber escrever diálogos, interpretando com outro ator. Quando não tem outro ator, a gente faz os dois. É o que eu farei agora com uma história que eu ouvi contarem, mas não tenho certeza se ocorreu ou não. Foi o encontro do Presidente Dutra com um camponês, criador de gado leiteiro aqui da nossa região.

Em 1951 foi a inauguração da Via Dutra. Da nova Via Dutra. A estrada já existia desde 1928, mas o Presidente da República, o General Eurico Gaspar Dutra, construiu e veio inaugurar a BR 116, Rodovia Rio de Janeiro – São Paulo. Foi uma grande comemoração e, conta um velho amigo da minha família, que o Presidente Dutra estava todo pimpão, vaidoso e orgulhoso de seu feito. Depois de descerrada a placa de inauguração teve um almoço, com toda a gente importante da cidade. Foi aí que se deu o encontro do Presidente com o camponês, criador de gado leiteiro aqui no nosso município. Vou interpretar os dois!

(VINHETA. O ATOR SEGURA UM LITRO DE LEITE EM UMA DAS MÃOS, QUANDO FOR O CAMPONÊS E, NA OUTRA, UMA FAIXA VERDE-AMARELA, REMETENDO À FAIXA DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. NAS PRIMEIRAS FRASES O ATOR NOMINA AS PERSONAGENS, AJUDANDO O PÚBLICO A IDENTIFICAR AS DUAS PERSONAGENS).

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Rodolfo Oliveira em Os Sete Rios de Lavrinhas. Foto: Atelier da Fotografia

DUTRA – Ora, então o senhor é criador de gado leiteiro! Muito prazer!

CAMPONÊS – É uma honra, Vossa Excelência!

DUTRA – O senhor deve saber que a nova estrada tem 111 quilômetros a menos do que a antiga?

CAMPONÊS – Sei, Vossa Excelência, senhor presidente.

DUTRA – E que reduzimos em 6 horas o tempo de viagem entre Rio de Janeiro e São Paulo?

CAMPONÊS – Sei, Vossa Excelência, senhor presidente.

DUTRA – O senhor sabe que usamos 1.300.000 sacos de cimento na construção.

CAMPONÊS – Não sei, Vossa Excelência, senhor presidente.

DUTRA – Mas, então, o senhor sabe que usamos 8.000 toneladas de asfalto?

CAMPONÊS – Não sei, Vossa Excelência, senhor presidente, me desculpe!

DUTRA – Ora, não se desculpe, o senhor é apenas um camponês!

CAMPONÊS – Criador de gado, Vossa Excelência!

DUTRA – Sei, criador de gado.

CAMPONÊS – Que sabe uma coisa que Vossa Excelência não sabe!

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Rodolfo Oliveira em Os Sete Rios de Lavrinhas. Foto: Atelier da Fotografia

(QUEBRA A CENA MOMENTANEAMENTE, VOLTANDO A SER ADRIANO)

ADRIANO – Foi um deus nos acuda. Um camponês dizendo ao presidente que ele não sabia algo. Como assim? E os assessores? Um presidente deve saber tudo! Mas, vamos voltar a cena.

DUTRA – Meu caro camponês (O CAMPONES ESBOÇA DESAGRADO E O PRESIDENTE CORRIGE) me desculpe; criador de gado! Quando eu não sei algo, meus assessores sabem.

CAMPONÊS – Só se o senhor tiver assessor aqui, de Lavrinhas, porque do Rio de Janeiro ou de São Paulo, “duvi-d-ó-dó”.

DUTRA – Pois me pergunte o que eu não sei, meu caro criador de gado leiteiro. E eu responderei.

CAMPONÊS – Lá vai! Segura aí, Vossa Excelência. Diga-me: Qual o nome dos sete rios de Lavrinhas?

DUTRA – Sete? Sete Rios?

CAMPONÊS – Diga lá, Vossa Excelência. Eu não tenho pressa. Pode ir aí, perguntar para os seus assessores.

(VOLTA A SER ADRIANO)

ADRIANO – Foi uma loucura. Um embaraço total. Dizem que o homem, todo engravatado, saiu perguntando aos outros engravatados da sua comitiva quais eram os nomes dos sete rios que banham o município de Lavrinhas. Paraíba é fácil. Paraíba do Sul! Os outros é que são elas. Vamos ajudar o presidente? Vamos levantar o nome dos sete rios da cidade? Quem sabe? Pode perguntar pra professora, consultar o Google, pode tudo! Vamos lá?

(O ATOR DEVE CONVERSAR E LEMBRAR O NOME DOS SETE RIOS QUE BANHAM O MUNICÍPIO)

Além do Paraíba do Sul, o mais famoso de todos, temos mais seis. Um deles é fácil de lembrar ou adivinhar; quando as mulheres têm muito, mas muita idade, elas são chamadas de? (RIO DAS VELHAS).

Viram como é fácil memorizar? Um rio tem nome de um dos membros do corpo humano. O corpo humano, a gente sabe, é composto de cabeça, tronco e membros. Os membros são pés e braços. O nome do Rio? (RIO DO BRAÇO)

Dois rios têm o mesmo nome; um normal e outro no diminutivo. Nome de ave! Quem sabe? (RIOS JACU E JACUZINHO)

Vamos contabilizar: Paraíba, Rio das Velhas, Rio do Braço, Rio Jacu, Rio Jacuzinho. Faltam dois! Um é o contrário de escuro; o outro é o contrário de curto. Qual o nome desses rios? (RIO CLARO E RIO COMPRIDO).

Pronto! Já temos o nome dos sete rios. Vamos ver como terminou a história. O Presidente Dutra, depois de muito perguntar para a gente de fora, entregou os pontos e foi muito honesto, pois evitou perguntar aos moradores da região. Foi assim!

(“REMONTA” OS DOIS PERSONAGENS)

DUTRA – Meu caro criador de gado, eu peço perdão. Diga-me, pois, quais são os sete rios de Lavrinhas?

CAMPONÊS – Anota aí, Vossa Excelência, para nunca mais esquecer. Lavrinhas, minha cidade, é banhada pelos seguintes rios. Rio Claro; Rio Comprido; Rio das Velhas; Rio do Braço; Rio Jacu; Rio Jacuzinho e, é claro, o grandioso, o sagrado Rio Paraíba do Sul.

(FAZ MESURAS, AGRADECENDO COMO SE FOSSE O CAMPONÊS. VOLTA A SER ADRIANO).

Muito obrigado a todos. Agora está na hora de ir embora.  Gostei muito de estar com vocês. Brincar de teatro é bom demais. E no meio da peça a gente canta, a gente declama poesia, faz origamis, cria personagens… Sempre é bom lembrar: Os livros são nossos grandes guias nessa viagem. Não se esqueçam do livro da Sylvia Orthof e, se quiserem ver outros livros, falem com seus professores! Há muitos livros com peças e histórias pra gente brincar.

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Rodolfo Oliveira em Os Sete Rios de Lavrinhas. Foto: Atelier da Fotografia

Agora preciso ir embora. Vou visitar muitas escolas, muitas salas e brincar de teatro com muito mais gente. Prestem atenção que tenho algo muito especial a solicitar de vocês: eu gostaria que cada um de vocês escrevesse uma história sobre nossa cidade. Pode ser em versos, uma redação, uma peça de teatro… Quando eu voltar, verei o que vocês fizeram; combinado? Pra vocês, que ficam por aqui, meu muito obrigado e quem já aprendeu a canção pode cantar comigo.

(canta a musica de despedida)

Vamos brincar de teatro

Vamos brincar de ser,

Viver muitos personagens

Nessa viagem e assim crescer.

O palco é a rua, a sala,

A praça ou o nosso quintal

A história a gente inventa

Ou conta aquela já bem contada

Que recontada, não tem igual!

(DÁ ADEUS AO PÚBLICO)

Tchau, pessoal! Adeus! Em breve estarei de volta. Até a próxima!

Valdo Resende,  concluído em Março/2016.

O VIAJANTE DO EMBAÚ

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Conrado Sardinha é O Viajante do Embaú. Foto divulgação/Atelier da Fotografia

“O Viajante do Embaú” é parte do Projeto Arte Na Comunidade 4 realizado em três cidades do Vale do Paraíba. O texto foi apresentado na cidade de Cruzeiro – SP, onde duas montagens foram levadas em dezenas de escolas do município: uma interpretada por Conrado Sardinha, que é o ator que ilustra as fotos deste post, e a outra montagem com Rodolfo Oliveira (que ilustrará a montagem apresentada em Lavrinhas).

Neste blog serão publicados todos os  textos das duas fases do Arte na Comunidade 4. Havendo interesse em reproduzir o texto ou interpretá-lo, pedimos a citação da origem.  “O Viajante do Embaú” foi escrito e dirigido por Valdo Resende. As músicas são de Flávio Monteiro. Idealizado por Sonia Kavantan o Arte na Comunidade 4 foi patrocinado pela Alupar e Taesa e também apoiado pelas Usinas Queluz e Lavrinhas. Uma realização da Kavantan & Associados, Ministério da Cultura e Governo Federal.

O VIAJANTE DO EMBAÚ

ORIGINAL DE VALDO RESENDE

(CARACTERIZADO COMO UM MENESTREL, O ATOR ENTRA CANTANDO A MÚSICA DE ABERTURA E, ANTES DE IR PARA O ESPAÇO CÊNICO PRINCIPAL – PALCO OU SALA DE AULA – BRINCA COM OS PRESENTES. ALÉM DAS CRIANÇAS, DEVE DAR ÊNFASE AO PROFESSOR EM SALA, CUMPRIMENTANDO-O E REVERENCIANDO-O).

Vamos brincar de teatro

Vamos brincar de ser,

Viver muitos personagens

Nessa viagem e assim crescer.

O palco é a rua, a sala,

A praça ou o nosso quintal

A história a gente inventa

Ou conta aquela já bem contada

Que recontada, não tem igual!

(termina de cantar e cumprimenta a plateia)

Meus amigos: Cheguei!

Saudações a todos! Sejam bem-vindos! Espero que estejam bem acomodados. Que lugar bonito esse aqui! Vindo para cá fiquei olhando o rio; imbatível, invencível! O rio corre! E também fiquei olhando a serra. Poderosa! Majestosa! Imponente! Observei as casas, algumas antigas; outras bem novinhas. Sempre que vou para alguma apresentação gosto de olhar bem o lugar, as pessoas… E chegando ao local, como estou chegando aqui, agora, gosto de ver se está tudo certinho, bonitinho e arrumadinho! Só assim posso começar!

(REPETE APENAS A PRIMEIRA PARTE DA MÚSICA)

Vamos brincar de teatro

Vamos brincar de ser,

Viver muitos personagens

Nessa viagem e assim crescer.

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Conrado Sardinha . Foto divulgação/Atelier da Fotografia

Sou daqui, de Cruzeiro. Nasci há bastante tempo em um pequeno sobradinho bem ali, na Rua Carlos Gomes. Meu quarto era no andar superior e da nossa janela eu avistava de um lado a estrada de ferro e do outro, o nosso Rio Paraíba do Sul. Dava para ouvir o barulho dos trens, indo e vindo, indo e vindo, noite e dia sem parar. Eu sabia para que direção o trem estava indo mesmo quando era noite e eu já estava deitado. (FINGE QUE OUVE) Hum, esse trem esta indo para o Rio de Janeiro! Opa, esse outro, vai na direção de São Paulo. Exatamente, para onde vai cada material dentro dos vagões? E os passageiros? Sim, havia trem de passageiros. Para onde iriam  esses viajantes?

A Rua Carlos Gomes termina no Rio Paraíba.  Naquele tempo dava pra nadar, pescar. Meu pai tinha uma pequena canoa e saia com meus tios para pescar. Eu ia com ele e só não gostava quando o barco parava. Eu queria saber onde o rio terminava, onde começava…

Cresci assim, vendo coisas indo e vindo e acho que é por isso que gosto de andar por aí. Gosto de ir pro norte, sul, leste… Todas as direções. Carlos Gomes, eu acho que todos sabem, mas é bom lembrar, foi um grande compositor. Criou óperas admiradas no mundo inteiro! Ópera é uma forma de teatro. Teatro cantado! E acredito mesmo que foi assim que me tornei ator, menestrel itinerante, viajando sempre pra lá e pra cá. Acho que vocês gostariam de saber quem sou, mas vou fazer isso em versos!

(MÚSICA DE FUNDO ENQUANTO O ATOR DECLAMA OS VERSOS APRESENTANDO-SE AO PÚBLICO)

Atenção, todos vocês,

Quem vos fala é um menestrel,

Aquele que trova, poeta,

Não faz versos só de fel.

Desde os tempos de outrora

Pela graça divina

No canto não desafina

Na dança não desatina

Do palco é dono e senhor!

Peço a todos, com respeito,

Prestem atenção: sou um ator!

Pedro Menestrel é meu nome

Sendo pobre, nunca passei fome,

Pois nasci em belo vale

Onde aprendi a pescar

A carpir, fabricar!

Senhores, nascido em Cruzeiro!

Vim aqui me apresentar.

(TERMINA FAZENDO MESURAS E VOLTA A FALAR NORMALMENTE)

Os menestréis surgiram na Idade Média. Menestrel era um músico que acompanhava os poetas, os trovadores, os jograis, os atores. Em alguns casos havia artistas completos que cantavam, compunham versos, tocavam instrumentos… Modéstia a parte, coloco-me entre esses artistas capazes de alegrar as pessoas em prosa e verso, declamando, cantando ou fazendo mímica.

Tive um professor que adorava literatura. Ele nos ensinou que através dos livros poderíamos ir para todos os lugares, perto ou distantes, neste ou em outro país. Eu era mais jovem e ainda não podia viajar sozinho, então resolvi viajar através dos livros. Foi assim que descobri os Menestréis caminhando pelas estradas medievais, apresentando-se em festas profanas, em festas religiosas, nas vilas mais simples e nos palácios mais suntuosos. Cantando e fazendo teatro.

Cresci, estudei teatro e saí pelo mundo e agora estou de volta para contar histórias e brincar com vocês. Fazer teatro é muito bom! É uma brincadeira divertida. Vou chamar algumas crianças para brincar de teatro comigo. Quem quer? (O ATOR CHAMA CRIANÇAS PARA UMA BRINCADEIRA. COM AS CRIANÇAS NO PALCO, DEVE PERGUNTAR NOME E CONVERSAR MINIMANENTE COM CADA CRIANÇA, ANTES DE COLOCÁ-LAS NO CANTO E EXPLICAR O JOGO).

Prestem atenção que, depois, vocês farão comigo. O teatro é algo mágico que nos transforma naquilo que temos vontade. Agora, por exemplo, vou brincar de ser um pequeno gato (CONFORME FALA, ILUSTRA COM GESTOS). Mas não vou ser um gato assim, sem mais nem menos. Para brincar de ser um animal tenho que pensar nesse animal, observar quando for possível para fazer a transformação aos poucos. Gato não tem pernas nem mãos, tem patas. Portanto, esqueço pés e mãos e vou pensando em como um gato anda, como senta, como se deita, como toma leite e assim por diante…  (VOLTA A AGIR COMO SER HUMANO) Gatos comem ratos e ratos vivem na sujeira. Onde tem sujeira, tem rato. Até nos rios, há ratos. Ratos de rio, que vivem no mato são fonte de alimentação para os pássaros? Mas, e se somem os pássaros? Nossos córregos, sujos, ficam cheios de ratos, essa água, contaminada, piora a situação dos nossos rios… (VOLTA A IMITAR UM GATO). Eu sou gato de madame. Não gosto de comer ratos, prefiro ração (FINGE TENSÃO), ai, ai,ai, vem chegando o cachorro da vizinha, eu não gosto de cachorros! Qual gato gosta de cachorros? (LEVANTA-SE IMEDIATAMENTE)

Melhor ser ator que gato enfrentando rato! Sabem de uma coisa, o que eu gosto de teatro é isso. A gente pensa, reflete, imagina e transforma em ação. Vamos brincar! (CHAMA AS CRIANÇAS PARA PERTO DE SI E FAZ AS AÇÕES JUNTO COM AS MESMAS). Vamos lá, façam comigo! Vamos fazer teatro com nossos corpos! Então vamos nos transformar em cachorrinhos. (AS PALAVRAS SÃO ILUSTRADAS PELAS AÇÕES DO ATOR E DAS CRIANÇAS). Vamos nessa? Nosso cachorrinho caminha para um lado, para o outro e, de repente, chega ao lugar onde escondeu um pequeno osso. E começa a escavar, recuperando o delicioso ossinho. Mas, atraído por um assobio, balança o rabo feliz, pois chegou o seu dono. E nosso cachorrinho ergue-se só com as patas traseiras para saudar o grande amigo que chegou e depois de muito brincar vai pro seu cantinho, deita-se e… Dorme! (PARA A PLATEIA) Palmas para nossos atores!

(AGRADECE AS CRIANÇAS CONDUZINDO-AS DE VOLTA A SEUS LUGARES)

Fazer teatro só com movimentos e gestos é o que chamamos de mímica! Dominar o corpo e os gestos é uma grande tarefa de todo ator. Todavia, de todos os elementos que compõem e caracterizam um ator, eu tenho especial amor pelas palavras. E é fácil entender o amor pelas palavras; é só imaginar a alegria que temos quando nossas mães nos chamam pelo nome, ou mesmo, quando necessitamos e chamamos: – pai! Essas palavras são bonitas, não é mesmo? Pai, mãe…

As palavras são fortes podendo começar uma guerra ou estabelecer a paz. Algumas palavras são tão ricas que não possuem um único significado! Manga, por exemplo, é aquela fruta deliciosa e é parte da nossa camisa. Vejam a nossa Cruzeiro, outro exemplo. Vocês já pensaram nos diferentes significados da palavra Cruzeiro?

Primeiro significado para todos nós é claro, pois trata-se do nome pelo qual identificamos nossa cidade: Cruzeiro! Mas cruzeiro também já foi dinheiro; esse dinheiro que hoje chamamos real, já foi cruzeiro.  Sabiam que há uma árvore chamada cruzeiro? Ela pode ser encontrada no Brasil e na Venezuela. Ah, e a palavra cruzeiro também indica outras coisas. Pois bem, agora eu tenho uma brincadeira, um desafio para algumas crianças. Venham brincar mais uma vez?

(O ATOR CHAMA ALGUMAS CRIANÇAS PARA BRINCAR DE ADIVINHA. FORNECERÁ PAPEL E LÁPIS PARA UM JOGO DE SIGNIFICADOS).

A brincadeira é muito simples; já vimos alguns significados da palavra “cruzeiro”, mas não vimos todos, certo. Vou dar um tempo para que vocês escrevam outros significados para cruzeiro. Quem sabe? Quem vai lembrar? Quem não souber, peça ajuda! Vamos lá? Tempo!

(SIGNIFICADOS ESPERADOS: CRUZ, CRUZEIRO DO SUL, CRUZEIRO/VIAGEM e TIME DE FUTEBOL. O ATOR DEVE AJUDAR AS CRIANÇAS NA OBTENÇÃO DAS RESPOSTAS, COMENTAR ESSAS E AGRADECER A PARTICIPAÇÃO NA BRINCADEIRA).

Há muitas outras palavras com significados distintos, diferentes. A palavra terra é uma delas. Pode ser o solo onde pisamos; o lugar onde a gente nasceu; um local para plantio e cultivo de lavouras e, entre várias outras possibilidades, o significado mais importante: Terra é o nosso planeta. A terra é azul, disse o primeiro cosmonauta que foi ao espaço. Doido, não é, porque a gente sabe que a terra é ocre, avermelhada e a água, nossa grande riqueza, refletindo o céu, faz com que nosso planeta fique todo azul quando visto lá de cima. O astronauta, lá de cima, viu a terra e o mar, refletindo o céu. Ah, que vontade de ser astronauta, um viajante espacial.

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Conrado Sardinha. Foto: Atelier da Fotografia

(MOSTRANDO O LIVRO) Este livro, da Ruth Rocha com desenhos de Otavio Roth fala de maneira linda sobre tudo o que temos de bom por aqui: “Azul e lindo planeta terra, nossa casa”. A gente olha pra cima e vislumbra a imensidão do céu e, quando é noite estrelada, temos a grandiosidade representada por milhares e milhares de estrelas. Todavia, conta a autora Ruth Rocha, nenhum planeta conhecido é igual ao nosso. Com ar, água, florestas que resultam em vida! Já imaginaram a terra sem ar? E quando sentimos sede? É horrível, não é? Já pensaram se a gente fica sem as árvores que purificam o ar, sem a água, nossa principal fonte de vida?

Ruth Rocha escreve para crianças, para todo mundo. Ela escreve histórias, peças de teatro. E gosta também de adaptar histórias para teatro. Adaptar é pegar uma história já contada em forma de romance, por exemplo, e transformá-la em peça de teatro. Se a gente pega um livro como esse, lê com atenção, vai perceber inúmeras possibilidades de contar histórias a partir de todas as coisas que envolvem nosso planeta.

Imaginem só: a água pode ser um personagem, a terra, as árvores, as flores… Tudo o que, junto, forma nosso planeta. Através desse livro a gente aprende o que deve fazer para que a vida não desapareça daqui, da terra. E podemos fazer isso, por exemplo, transformando a água em uma personagem. O que ela faria? O que a água nos diria? Vou brincar de ser água. (COMPÕE A PERSONAGEM COM UM ADEREÇO AZUL)

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Conrado Sardinha/ Atelier da Fotografia.

Escuta aqui, o Mané, vai me jogar sujeira até quando? Não vê que já to turva, lodosa?” (VOLTANDO A SER PEDRO) Eu faria uma água bem nervosa, tensa! Sabe como é, desculpem, mas minha paciência é pequena para quem não cuida do nosso planeta. Eu faria uma água que roda a baiana! (VOLTA A SER ÁGUA) “Veio pescar, é? Joga lixo e quer encontrar peixe? Os peixes foram embora, morreram! Quer pescar, limpe meus rios, meus córregos. E não jogue sujeira em mim, tá ouvindo?”

(VOLTANDO) Vocês acham que água não pode ficar nervosa? Quando vejo uma tempestade, penso em águas tensas, chateadas com o que fazemos com ela. E aí vêm os companheiros da tempestade, os raios e trovões, apavorando a gente. Mas, eu não estou aqui pra falar só de planeta, de água. Meu assunto também é a nossa cidade, Cruzeiro. Adoro brincar de teatro e de falar sobre nossa cidade. Uma vez me pediram pra falar sobre o Túnel da Mantiqueira, que todos aqui sabem onde é; a maioria já foi lá, não é mesmo? Todavia, quero mostrar pra vocês como gosto de falar pras pessoas sobre o nosso famoso túnel. Prestem atenção que deixarei de ser Pedro para ser outro personagem.

(COM ELEMENTOS MÍNIMOS O ATOR TRANSFORMA-SE EM UM EX – SOLDADO PAULISTA DA REVOLUÇÃO DE 1932. TEM UMA MATRACA E, SEGURANDO-A, INICIA SUA HISTÓRIA. OBS. NA ROUPA DO SOLDADO PODE ESTAR IMPRESSO UM CARTAZ DA REVOLUÇÃO DE 1932).

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Conrado Sardinha / Atelier da Fotografia

SOLDADO – Sou um soldado paulista. Já estou velho, cansado. Mas, se necessário sou capaz de lutar! Lutei aqui, bem na entrada desse túnel, em 1932! Ah, velho túnel da Serra da Mantiqueira… Se esse túnel pudesse falar! Mas eu falo por ele. Eu conto o que eu vivi aqui, quando nós, paulistas, lutávamos por uma nova constituição brasileira. De um lado os aliados de Getúlio Vargas e daqui, do nosso Estado, nós, os soldados paulistas. Queríamos uma nova Constituição, um conjunto de leis mais claras e precisas de como conduzir nosso país.

Vista de longe parece que foi pouco tempo de luta. Tudo começou em Nove de julho e terminou pouco depois, em dois de outubro, bem aqui, em Cruzeiro. Entrem numa briga e fiquem brigando durante mais de dois meses para que sintam como é! Não tivemos apoio de ninguém e, cercados, fomos ficando sem armas, sem comida, sem munição… Inventamos a matraca (EXIBE E MOVIMENTA O OBJETO) para fingir que tínhamos metralhadoras. Parecia teatro…

Um dia fui destacado para vir aqui, na Serra, pra defender os interesses paulistas contra os ataques que viriam do outro lado. Nossos inimigos viriam por Minas Gerais e, atravessando o Túnel, nos atingiriam fatalmente. Construímos valas para nossa defesa e, escondidos, esperávamos o inimigo. Eu ficava olhando, tenso, para esse velho túnel construído pelo Imperador Pedro II! O que diria o imperador ali, naquele momento?  Mesmo com seus 996 metros de comprimento nós ouvíamos assustados os barulhos vindos do outro lado. Eu sábia que aqui, que o nome do local era Garganta do Embaú; no entanto, naqueles momentos de luta com o som aterrador da batalha, as luzes da cidade longe, lá longe, faziam-me pensar em garganta de monstro, garganta do diabo.

Nossos inimigos avançaram e fomos militarmente derrotados. O final da revolução, bom lembrar, foi assinado na nossa Cruzeiro, na Escola Doutor Arnolfo de Azevedo. Depois, o mundo mudou muito! Mas, eu sempre venho aqui, visitar o velho túnel onde vivi momentos cruciais na minha vida. Mas, querem saber de uma coisa, o que mais gosto de imaginar, quando estou aqui, é de uma velha Maria Fumaça resfolegando serra acima, levando D. Pedro II, Dona Tereza Cristina, a Princesa Isabel, O Conde D’Eu… Na primeira viagem de trem, inaugurando o Túnel da Mantiqueira, a família do Imperador acompanhada de um homem muito especial! O Major Novais, Manoel de Freitas Novaes, o fundador de Cruzeiro, a nossa cidade.

(VOLTA A VINHETA E, ENQUANTO O ATOR TIRA OS ADEREÇOS DO SOLDADO, JÁ CONTINUA A HISTÓRIA)

PEDRO MENESTREL – Há muita história sobre a revolução de 1932. A luta dos paulistas foi fundamental para uma nova Constituição. Os brasileiros gostam de fazer Constituições. Há um monte delas. É só necessitar de botar ordem na casa que já realizam outra. Por exemplo, precisamos cuidar do planeta, logo, na Constituição mais recente foi dedicado vários itens à preservação do nosso ambiente, da nossa casa.

Somos todos responsáveis pela preservação do nosso ambiente. E aí, quando se tem um lugar bonito como a Serra da Mantiqueira, um lugar riquíssimo como o Vale do Paraíba, a nossa cidade, o que atrai muita gente, é lógico que cuidar do ambiente passa a ser fundamental. Vocês sabem que saí pelo mundo e quando voltei, a primeira coisa que fiz foi ir lá, ver a minha velha Rua Carlos Gomes, ouvir o trem e caminhar até o rio, ver de perto o meu Rio Paraíba. Fiquei preocupado! O que andaram fazendo com o meu rio?

(CANTA COM A MELODIA DA CANTIGA “SENHORA DONA SANCHA”)

Meu lindo Paraíba,

Quem não te respeitou?

Turvando sua água

Quem foi que te sujou?

(VOLTA A FALAR) Ah, não é nada fácil ver nosso rio correndo perigo. Meu avô já reclamava por não conseguir tomar água do rio; ele dizia que o avô dele tomava água direto do rio. Nossa! E hoje, não é recomendado nem nadar nele…  (PEGA UM PAPEL PARA DOBRADURA E COMEÇA A MANIPULÁ-LO, CRIANDO UM PEIXE).  Muitos peixes desapareceram e, embora algumas instituições estejam recuperando nossos cardumes muito ainda há por ser feito. Precisamos ver garças, muitas garças e outros pássaros nas margens do nosso rio. Precisamos voltar a nadar, a pescar sem medo de nada. Mas, pra isso, não podemos ficar parados. Vamos fazer duas coisas! Duas! A primeira é aprender essa nova letra da cantiga de roda que é pra gente não esquecer de que temos que cuidar do Paraíba. Vamos lá? Eu canto uma frase e vocês repetem; assim, a gente aprende os quatro versos.

Meu lindo Paraíba,

Quem não te respeitou?

Turvando sua água

Quem foi que te sujou?

(O ATOR ENSINA A PLATEIA, CANTANDO UM VERSO, PEDINDO QUE A MESMA REPITA E APÓS FAZER OS QUATRO VERSOS, REPETIRÁ TODA A CANTIGA. ENQUANTO ISSO FARÁ UM SEGUNDO PEIXE COM O PAPEL DE DOBRADURA)

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Conrado Sardinha / Atelier da Fotografia

(EXIBE OS PEIXES PARA A PLATEIA) Vejam no que transformei esses papéis. Um peixe! Eu disse que faríamos duas coisas, certo?  A primeira foi a música. Agora quero ensinar as crianças a fazerem esse peixe. A ideia é a seguinte: sempre que possível, a gente faz um peixe para lembrar que temos que cuidar do rio para que ele volte a nos dar muitos peixes pra pescar. E quando a gente ver alguém, seja quem for, sujando os nossos rios, nós não vamos brigar, vamos fazer um peixe como este e dar de presente à pessoa, para lembrá-la que rio sujo é rio sem vida. Vamos aprender a fazer esse peixe?

(O ATOR FARÁ O ORIGAMI E ENSINARÁ AOS ALUNOS DE CADA SALA. COM CALMA MOSTRARÁ CADA ETAPA DA ATIVIDADE, ORIENTANDO E PERMANECENDO ATENTO PARA QUE TODOS FAÇAM O ORIGAMI. EM SEGUIDA, AGRADECE AS CRIANÇAS E PROSSEGUE).

Dobrar papel é uma arte desenvolvida no Japão. Lá eles dizem origami e assim ficou conhecido no mundo inteiro. Origami. Arte de dobrar papel e transformá-lo em flores, animais e toda uma série de coisas. Quem me ensinou foi um velho ator japonês, radicado no Brasil. Fizemos amizade quando ele esteve aqui, na nossa cidade, fazendo uma apresentação de dança, no nosso Capitólio, nosso Teatro Municipal. Meu amigo japonês ficou encantado, pois ele já se apresentou no Teatro Scala, de Milão. Ele dizia “alla scala”! Eu, como ator, devo confessar que tinha inveja dele por ele ter se apresentado até no Scala. Mas, por outro lado, eu estreei profissionalmente no Teatro Capitólio! E todos os seus 450 lugares estavam ocupados! (BRINCA) Um sucesso!

Ah, eu ainda levei meu amigo japonês para conhecer toda a nossa cidade. Era engraçado quando ele dizia Casa de Nazaré!(REPETE A PALAVRA COM SOTAQUE JAPONÊS). Casa de Nazaré. Os japoneses têm um sotaque muito legal. E meu amigo perguntava por que vieram engenheiros ingleses para a construção da nossa ferrovia. A companhia era inglesa, eu respondia. E contei a ele que nossa cidade surgiu, efetivamente, junto com a estrada de ferro. O Major Manoel de Freitas Novaes queria que a estrada de ferro passasse nas terras dele. Isso deu origem à cidade de Cruzeiro. Eu insisti tanto para que meu amigo japonês  aprendesse a falar Cruzeiro, que achei que seria fácil ele falar Mirante do Cruzeiro. Ai, o problema foi… (COM SOTAQUE JAPONÊS) “mirante”! ele tentou, tentou e acabou aprendendo.

Andamos por toda a região. Ele gostava de andar a pé, como eu e, inclusive, adorava ficar contemplando nosso gigante.Qual cruzeirense não parou, pelo menos uma vez na vida, para contemplar o gigante formado pelas variações da mantiqueira? Formávamos uma bela dupla subindo a serra, caminhando pelo vale. Eu gosto muito de ir até ao pico do Focinho do Cão; lá, entre os turistas e visitantes fiz amigos, são pessoas que gostam de praticar voo livre. Eu prefiro ficar aqui no chão, contando minhas histórias, fazendo meus poemas. Quem gosta de palavras não gosta apenas de falar, gosta de escrever. E quem escreve, acaba escrevendo versos. É; eu, Pedro, adoro escrever versos. Meus primeiros foram sobre nossa cidade!

Cruzeiro, no Vale do Paraíba

Vale mais que um tal dinheiro

E para todos aqui nascidos

Muito mais que o time mineiro!

Há no céu um cruzeiro

Outros tantos por aí

Por estradas, igrejas, outros vales,

No entanto, nenhum vale

Como o Cruzeiro daqui.

E foi assim, cantando e inventando cantigas e brincando com as palavras que passaram a me chamar de Pedro Menestrel. E desde então, gosto de dizer: Sou Pedro Menestrel, cruzeirense! E vou logo emendando para não deixar dúvidas:

Cruzeiro, no Vale do Paraíba

Vale mais que um tal dinheiro

E para todos aqui nascidos

Muito mais que o time mineiro!

Depois, lá pelas tantas, quiseram conhecer um pouco mais sobre nossa cidade. No começo eu contava cada fato, como se fosse um contador de causos, um narrador de histórias. Mas, eu adoro as palavras e havia decidido ser ator. E foi assim, querendo melhorar a maneira de contar a história que fui pensando, pensando (ENTRA A VINHETA E O ATOR TRANSFORMA-SE NO VIAJANTE DO EMBAÚ), pensando bastante! E fui muito além do tempo, lá atrás, na época dos bandeirantes. E foi assim que me tornei (ESTA FALA DEVE COINCIDIR COM A COLOCAÇÃO DE UM ÚLTIMO ADEREÇO) o Viajante do Embaú!

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Conrado Sardinha / Atelier da Fotografia

(O VIAJANTE DO EMBAÚ É UMA LEMBRANÇA DAS PRIMEIRAS EXPEDIÇÕES NA REGIÃO ATRAVÉS DE UM PERSONAGEM QUE REMETE AO BANDEIRANTE, SEM SER ESTE, JÁ QUE SERÁ UM GUIA PARA OS BANDEIRANTES. ELEMENTOS DE COMPOSIÇÃO MÍNIMOS DEVEM ALTERAR O VISUAL DO ATOR, SEM TRANSFORMÁ-LO TOTALMENTE, JÁ QUE O DESEJO É MOSTRAR O ATO TEATRAL).

– Estou aqui há muito tempo. Cheguei primeiro quando um dia sai do Campo de Piratininga para buscar caminhos que me levassem ao ouro que, sabia, estava do lado de lá da serra. Meu nome é Antonio Manuel, mas todos me conhecem como O Viajante do Embaú. Logo que cheguei por aqui fiz amizade com alguns índios Puris, aqui da região, e depois me tornei amigo dos Cataguases. Muito antes de qualquer outro português eu andei por aqui e, com certeza, fui o primeiro cristão a tomar banho na Cachoeira das Três Quedas e naquela outra, hoje conhecida como Véu de Noiva. Falando em noiva, tive uma paixão fulminante que me levou ao casamento e ao desejo de ficar por aqui mesmo. Assim, casado e feliz, resolvi guiar outros que desejassem ir além. Pela Garganta do Embaú passou o grande Brás Cubas. Depois, Domingos Jorge, o Velho, e muitos outros bandeirantes. São vinte e cinco quilômetros serra acima! Esta é a rota do Embaú, caminho para Minas Gerais, para o sertão! Quanto ouro passou por aqui?

Na Garganta do Embaú encontramos a divisa de São Paulo com Minas Gerais. Uma passagem mais fácil, pois este é o trecho mais baixo da serra da Mantiqueira. Depois, muito depois, os homens utilizaram este caminho para a construção da via férrea, da estrada que agora é muito usada por outros viajantes que passam sem me ver; mas eu estou sempre por aqui, tomando água mineral fresquinha e comendo amoras silvestres.

(VOLTA A SER O MENESTREL) Um dia, um garoto interrompeu minha apresentação. (IMITA UM GAROTO) “Ué, esse viajante não morre nunca? Do tempo dos bandeirantes até hoje deveria estar mais velho! Ou é um fantasma”. (VOLTA A SER O MENESTREL) Ele não é um fantasma, é um personagem, meu garoto. “Ah, e personagem não tem idade nem morre?”. Não, voltei a responder. Personagens tem a idade que a gente quiser, podem morrer e ressuscitar, voar e mergulhar no mais profundo dos rios, sem perder a respiração. Essa é a magia do teatro.

(DECLAMA) O palco é a rua, a sala,

A praça ou o nosso quintal

A história a gente inventa

Ou conta aquela já bem contada

Que recontada, não tem igual!

(VOLTA A IMITAR O GAROTO) Se você é mesmo ator – disse o menino – mude o personagem. Ou vai ver, é daqueles que só sabem fazer um personagem. O viajante do embaú… Só esse?

O garoto me desafiando e eu me divertindo. É claro que posso fazer vários personagens. (O MENESTREL, ENQUANTO FALA, COLOCA NOVOS ADEREÇOS, TORNANDO-SE O MANOBRISTA DA ROTUNDA. UM BONÉ DESSES USADOS POR FERROVIÁRIOS É A SUGESTÃO MÍNIMA) Eu adoro desafios! E adoro brincar. Aliás, teatro é uma grande brincadeira. Vejam agora do que eu vou brincar. Vamos ver quem vai perceber primeiro o lugar e o personagem que vou fazer!

(ENTRA MÚSICA QUE REMETE AOS MOVIMENTOS DE UM TREM)

MANOBRISTA – Piuiiiiiii! (FINGE AS RODAS DE UM TREM) Tchak, Tchak, Tchak, Tchak, TchaK (FINGE BRECAR) Fshhhhhhhhhhh. (FINGE SAIR DE DENTRO DA MÁQUINA) Ah, guardei minha primeira máquina. Vamos guardar a próxima. Girando a plataforma! Vou guardar mais uma máquina. Vamos embora que logo termino o expediente. Não tem ninguém na linha? Nenhum animalzinho. Melhor apitar! Piuiiiiiii! (FINGE AS RODAS DE UM TREM) Tchak, Tchak, Tchak, Tchak, TchaK (FINGE BRECAR) Fshhhhhhhhhhh. (FINGE SAIR DE DENTRO DA MÁQUINA E FALA DIRETAMENTE COM O PÚBLICO). Estou aqui desde 1930, quando inauguraram a rotunda. Sou responsável por guardar todas as locomotivas, os vagões. Temos quinze galpões. Somos únicos em toda a região. Piuiiiiiii! (FINGE AS RODAS DE UM TREM) Tchak, Tchak, Tchak, Tchak, TchaK (FINGE BRECAR) Fshhhhhhhhhhh. (FINGE SAIR DE DENTRO DA MÁQUINA). Ah, meninos, que saudade da minha bela rotunda. (CHAMA UMA CRIANÇA) Venha, você, vem aqui, vamos brincar. Piuiiiiiii! (PARA O GAROTO) Agora vamos fazer as rodas do trem Tchak, Tchak, Tchak, Tchak, Tchak… E agora, vamos parar (FINGE BRECAR) Fshhhhhhhhhhh. Quero mais duas crianças, vamos lá! Piuiiiiiii! Tchak, Tchak, Tchak, Tchak, Tchak (FINGE BRECAR) Fshhhhhhhhhhh. Mais uma vez Piuiiiiiii! Tchak, Tchak, Tchak, Tchak, Tchak (FINGE BRECAR) Fshhhhhhhhhhh. De novo! Piuiiiiiii! Tchak, Tchak, Tchak, Tchak, TchaK (FINGE BRECAR) Fshhhhhhhhhhh. Parou! Chegou a hora de parar e descansar.

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Conrado Sardinha / Atelier da Fotografia

(O ATOR AGRADECE A PARTICIPAÇÃO DAS CRIANÇAS E CONDUZ AS MESMAS A SEUS LUGARES)

ATOR- A rotunda é o prédio que eu mais gosto aqui, na nossa cidade. E o maquinista que eu interpretei fez o som do apito, das rodas, do breque com onomatopeias. Já conheciam essa palavra? Onomatopeia? Onomatopeia é a forma como imitamos as coisas, os aves, os insetos, enfim, tudo o que há por aí e que possa ser imitado. Querem saber, vamos brincar de onomatopeia. Vou chamar algumas crianças para essa brincadeira.

(PARA ESTA BRINCADEIRA O ATOR DEVE CHAMAR CRIANÇAS, DIVIDINDO-AS EM GRUPOS DE TRÊS INTEGRANTES CADA).

A brincadeira é a seguinte; eu proponho uma onomatopeia e vocês finalizam adivinhando do que ou de quem estou falando, certo? Vai ser assim (DECLAMA):

O cachorro faz au! Au!

Meu relógio tic-tac

Balde d’água faz chuá

E o pato, como faz? (O ATOR AGUARDA QUE AS CRIANÇAS RESPONDAM, COMENTANDO EM SEGUIDA) quac-quac.

 Viram como é fácil? Vamos de novo, prestem atenção!

O cachorro faz au! Au!

Meu relógio tic-tac

Balde d’água faz chuá

E a vaca, como faz?

Mais uma! Atenção!

O cachorro faz au! Au!

Meu relógio tic-tac

Balde d’água faz chuá

Meu porquinho, como faz?

Agora, pra terminar, vamos fazer várias onomatopeias:

O cachorro faz au! Au!

Meu relógio tic-tac

Balde d’água faz chuá

Meu gatinho, como faz?

E o bode faz?

E o leão?

E a cobra?

E agora a última, atenção, e o carro como faz?

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Conrado Sardinha / Atelier da Fotografia

(AGRADECE AS CRIANÇAS, AOS PROFESSORES E PREPARA-SE PARA TERMINAR A APRESENTAÇÃO)

Muito obrigado a todos. Sabem por que o carro foi a última onomatopeia? Porque está na hora de ir embora, dar adeus, puxar o carro. Gostei muito de estar com vocês. Brincar de teatro é bom demais. E no meio da peça a gente canta, a gente declama poesia, faz origamis, brinca de onomatopeias… Os livros são nossos grandes guias nessa viagem. Não se esqueçam do livro da Ruth Rocha e, se quiserem ver outros livros, falem com seus professores! Há muitos livros com peças e histórias pra gente brincar.

Agora preciso ir embora. Vou visitar muitas escolas, muitas salas e brincar de teatro com muito mais gente. Prestem atenção que tenho algo muito especial a solicitar de vocês: eu gostaria que cada um de vocês escrevesse uma história sobre nossa cidade. Pode ser em versos, uma redação, uma peça de teatro… Professor, se algum aluno precisar, você pode ajudá-lo nesse trabalho? Muito obrigado! Quando eu voltar vou ver o que vocês fizeram; combinado? Pra vocês, que ficam por aqui, para você, querido professor (a) meu muito obrigado e quem já aprendeu a canção pode cantar comigo.

(canta a musica de despedida)

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Conrado Sardinha / Atelier da Fotografia

Vamos brincar de teatro

Vamos brincar de ser,

Viver muitos personagens

Nessa viagem e assim crescer.

O palco é a rua, a sala,

A praça ou o nosso quintal

A história a gente inventa

Ou conta aquela já bem contada

Que recontada, não tem igual!

Tchau, pessoal! Adeus! Em breve estarei de volta. Até a próxima!

(Valdo Resende – Concluído em Março/2016)

 

 

Teatro valoriza o Rio e os Piraquaras do Paraíba do Sul

 

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O Rio Paraíba e a estrada de ferro, no município de Lavrinhas – SP

A montagem “Os Piraquaras do Vale do Paraíba” está na Mostra Teatral que encerra a passagem do Projeto Arte na Comunidade 4 pela cidades de Lavrinhas, Cruzeiro e Queluz, no interior de São Paulo. Teatro dentro do teatro, as personagens são atores que nasceram na região e que também são poetas, menestréis, bardos, trovadores, contando fatos em prosa e verso, além de apresentar cenas valorizando aspectos históricos e culturais do Vale do Paraíba.

A Serra da Mantiqueira, a estrada de Ferro, a Revolução de 1932, a Via Dutra estão presentes em cenas onde os atores mudam de personagem durante a ação, agilizando a narrativa e evidenciando o jogo teatral, elemento que permeou todo o trabalho do Arte da Comunidade 4 na região. Personagens do folclore são citados assim como a importância dos acontecimentos religiosos que tornaram famoso o Rio Paraíba do Sul.

O progresso e o crescimento de todo o Vale do Paraíba teve consequências que vem de longe, como o desmatamento da Serra da Mantiqueira e, mais recente, a poluição dos rios. Somando história e cultura regional às questões ambientais, ganha destaque na peça o cuidado que se deve dispensar ao meio ambiente. Piraquaras são os habitantes ribeirinhos do Rio Paraíba do Sul. A peça resgata a expressão carinhosa que identifica pescadores, lavradores e demais ribeirinhos do Paraíba e pede cuidado para com os rios, fundamentais para a sobrevivência de todos nós.

Durante as primeiras fases do Projeto Arte na Comunidade 4, nas escolas das cidades participantes, nossos atores ensinaram aos alunos peixes confeccionados em origami, a técnica japonesa para dobradura. Durante a mostra intensificam a campanha iniciada nas escolas pedindo que cada criança faça um peixe com dobradura e dê de presente a quem sujar o rio. Um alerta para enfatizar a vida que se perde com a poluição.

Escrita e dirigida por Valdo Resende, Os Piraquaras do Paraíba conta com os atores Conrado Sardinha, Luciana Fonseca e Rodolfo Oliveira. Composição e direção musical é de Flávio Monteiro e os figurinos são de Carol Badra

Idealizado por Sonia Kavantan, o Projeto Arte na Comunidade é patrocinado pela Alupar e Taesa e apoiado pela Usinas Queluz e Lavrinhas; é uma realização da Kavantan & Associados, Ministério da Cultura e Governo Federal.

E a menina cantou nossa canção!

Últimos ensaios de “Os Piraquaras do Vale do Paraíba” na cidade de Cruzeiro. Tomo o ônibus de volta para São Paulo e divido o assento com uma garota morena, de onze, doze anos de idade. Os pais, nos bancos da frente, colocaram a menina sem dar muita atenção ao acompanhante. Quase que instintivamente pensei na possibilidade de perturbações, mas mudei de ideia quando a menina, percebendo que a mãe falava muito alto ao telefone pediu, educadamente, para a mulher falar mais baixo. Arrumou-se e ficou quietinha enquanto tentei me distrair com um livro.

A Via Dutra apresentando o rotineiro pôr de sol atrás da Mantiqueira enquanto, à nossa esquerda um garoto, com uma tosse forte, profunda, ininterrupta, fez-me lembrar de outras épocas quando tal situação culminava com estadias nos sanatórios de Campos do Jordão, ali mesmo, no meio da Serra. A garotinha puxou assunto: “- Minha mãe também tosse assim. Sempre!”. E emendou, olhando meu livro: “- Você vai ler tudo isso, página por página?” Acenei que sim e ela: “- Eu gostaria de ler. Um dia vou gostar”. Achei a resposta engraçada e resolvi conversar com a garota: – Sua professora não indica livros, não pede leituras? “- Que ano você acha que estou?”

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Conrado Sardinha na Dr. Arnolfo Azevedo; onde estará minha nova amiga?

Eu olhei e chutei. Terceira? Não, quinta série, ela respondeu e informou estudar na Doutor Arnolfo Azevedo, em Cruzeiro. A escola entrou para a história por ter sido o local onde assinaram documentos dando por fim a Revolução de 1932. Conrado Sardinha esteve lá apresentando as montagens do Arte na Comunidade 4. Resolvi perguntar se ela havia visto e o que se lembrava das peças. Para minha surpresa a menina começou a cantarolar:

Vamos brincar de teatro

Vamos brincar de ser

Viver muitos personagens

Nessa viagem e assim crescer…

Ela não tinha certeza da segunda parte e eu, já emocionado, cantei com ela:

O palco é a rua, a sala,

A praça ou o nosso quintal.

A história a gente inventa

Ou conta aquela, já bem contada,

Que recontada, não tem igual.

Sábado à tarde, pôr de sol na Via Dutra. Uma garotinha cantando a música que fiz em parceria com Flávio Monteiro. Ela, sem perceber minha emoção, disse adorar o nome Menestrel.  “– É muito bonita essa palavra, Menestrel! Como era o primeiro nome do moço?” Pedro, Pedro Menestrel, respondi. E abrindo o celular mostrei fotos dos nossos ensaios, do Flávio e do Pedro, que na escola dela foi interpretado por Conrado Sardinha. “– Como, Conrado Sardinha? Por que mudar o nome?” Pedro é a personagem; Conrado é o nosso ator. “- Ele é muito bom! Engraçado!” Tenho certeza de que Conrado irá gostar, informei.

Já íntimos, mostrei fotos também de Rodolfo Oliveira, em Lavrinhas, e da Luciana Fonseca, em Queluz. Convidei a garota para nossa apresentação, no próximo sábado, dia 20, em Cruzeiro, na Praça da Rua 7. – Pede para o teu pai te levar! Foi o único momento em que ela mudou o semblante. “- Ele não é meu pai, é padrasto.” Preferi não identificar o sentimento com que concluiu a informação, como se fosse uma pequena vingança: “- Ele é muito mais velho que a minha mãe”.

O garoto, do outro lado, não parava de tossir, encolhido na poltrona. E minha companheira de viagem, esquecendo o padrasto, perguntou por que ele não se deitava, já que estava sozinho em duas poltronas. E de novo mudou de assunto, perguntando como se escreve Resende. Eu informei e a pequena, ardilosa, fingiu não entender, pedindo-me para que mostrasse no Facebook. Em seguida, já na minha página, ela falou-me o próprio nome e pediu que eu pesquisasse, para vê-la. Obedeci; olhamos algumas fotos e ela, confirmando o ardil: “- Me adiciona! É ali, no canto. Clica ali”.

Sábado estaremos em Cruzeiro. Espero rever minha nova amiguinha. Cansados de fotos, peças, mesmo com as tossidas do garoto, tiramos um cochilo, acordando já em São Paulo, em plena Marginal. Logo ela se foi no burburinho da rodoviária, sem olhar para trás, e eu voltei para casa, feliz! Há uma garota que canta a letra que escrevi, musicada por Flávio Monteiro. Há uma criança que acha Menestrel um lindo nome e que dificilmente irá se esquecer de Conrado Sardinha. Esse é o nosso trabalho, no Arte na Comunidade. Povoar cabecinhas de histórias e de boas lembranças. É isso que faz com que nos sintamos realizados, felizes.

Até mais

Caipiras, caiçaras, piraquaras…

Sertanejo por herança paterna, caipira pelo lado de minha mãe, eu cresci como todo mundo e, enquanto criança, fui apenas um garoto mineiro nascido em Uberaba. Após muitas andanças comecei a descobrir o que era ser caipira através do teatro.

Atuando no CPT – o Centro de Pesquisa Teatral dirigido por Antunes Filho – estudamos o universo do caipira paulista através da obra Os Parceiros do Rio Bonito, do professor Antonio Cândido. O objetivo era fundamentar montagem baseada no livro “Alice”, de José Antonio da Silva que depois estreou como “Rosa de Cabriúna”. Muito do que conheci na convivência com meus familiares emergiu com força. Nossas festas, nossas rezas, uma infinidade de hábitos e costumes tornados fonte preciosa para o exercício teatral.

No CPT conheci e tornei-me amigo de Marlene Fortuna. A grande atriz que, então, interpretava magnificamente a “Senhorinha” de “Álbum  de Família” e a “Geni”, de “Toda Nudez Será Castigada”, peças de Nelson Rodrigues no espetáculo denominado Nelson2Rodrigues. Dentro do projeto de teatro de repertório, Marlene Fortuna também fazia uma “Ama” formidável em “Romeu e Julieta” e várias outras personagens dentro do monumental “Macunaíma”.  Todavia, não foi o teatro a nos aproximar. Marlene é filha de José Fortuna, um dos maiores autores da música caipira, famoso também pela dupla Zé Fortuna e Pitangueira e imortalizado nas diversas gravações de “Índia” e “Meu Primeiro Amor”.

Um dia, perdido no tempo, eu estava em um dos corredores do Sesc Vila Nova cantando “Lembrança” (conheça no vídeo acima),  música do José Fortuna, sem saber que Marlene era filha do compositor. Ela aproximou-se, emocionada, e nos tornamos amigos ali; pouco depois eu pude participar de uma festa entre os familiares do compositor com a presença de grandes duplas caipiras. Inesquecível.

De caiçaras sempre ouvi falar e pude me aprofundar um pouco mais nas pesquisas realizadas para o Arte na Comunidade 3, realizado em 2015 na Baixada Santista. No nosso litoral estão pescadores artesanais que desenvolveram técnicas ao longo do tempo e do contato entre grupos indígenas e os portugueses que por aqui aportaram.

Estudei mais do que escrevi a respeito nos textos para as montagens realizadas em Santos, São Vicente, Guarujá, Praia Grande e Cubatão. Peculiaridades do trabalho levaram-nos para outros aspectos da população pesquisada. Infelizmente, os grupos caiçaras que ainda sobrevivem no nosso litoral, sofrem constante violação dos direitos humanos.

Neste ano, para o Arte na Comunidade 4, chegou a vez de conhecer os piraquaras, nome dado aos habitantes ribeirinhos do Rio Paraíba do Sul. A vida de pescadores e camponeses do Vale do Paraíba é parte vital da pesquisa para o trabalho que estamos fazendo na região. Os problemas de poluição são grandes e mudaram hábitos e costumes locais. O progresso imenso transformou a paisagem e tanto o Vale quanto a Serra da Mantiqueira carecem de cuidados constantes garantindo a sobrevivência de todos os que vivem por lá.

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Conrado Sardinha, Luciana Fonseca e Rodolfo Oliveira estão em “Os Piraquaras do Vale do Paraíba”

“Os Piraquaras do Vale do Paraíba” é o nome da peça final que apresentaremos no final de agosto. Será o encerramento do Arte na Comunidade 4 nas cidades de Cruzeiro, Lavrinhas e Queluz. Tomara que os piraquaras voltem a pescar não só no Rio Paraíba do Sul, mas nos muitos rios da região (o município de Lavrinhas tem sete!). A região já produziu toneladas de peixes que abasteceram muito além do mercado local. Hoje, a pesca é cada vez mais rara e a limpeza dos rios é prioridade.

Caipiras, caiçaras, piraquaras… Peculiaridades da nossa gente que, somadas, formam a identidade do Brasileiro. Fico muito feliz em conhecer, em vivenciar e, mesmo que modestamente, lutar pela sobrevivência de tudo isso. Se o bom Deus me permitir, que venham os caboclos, os sertanejos, gaúchos, pantaneiros, candangos, seringueiros… Enfim, toda a gente do Brasil.

 

Até mais!

Arroz que une Uberaba, Cruzeiro, Goiás…

Cruzeiro para Blog
Cruzeiro, no Vale do Paraíba, protegida pela Serra da Mantiqueira

Em Cruzeiro, no Vale do Paraíba, a moça me diz que não posso deixar de experimentar arroz vermelho com suã. Surpreso revelei que era a primeira vez que, desde que saí de Minas Gerais, ouvia a palavra suã da boca de um paulista. A palavra suã trouxe de volta meus tempos de menino, em Uberaba, quando minha mãe fazia arroz com suã e meu pai comia com a melhor boca do mundo. Éramos felizes então, quando pegávamos um pedaço de suã e, literalmente, roíamos até o osso.

Quando afirmei só ter ouvido tal palavra suã em Minas a moça retrucou com um sorriso e um jeito quase à mineira: “- Minas é logo ali, depois da serra”. A serra é a Mantiqueira, altíssima! Imenso paredão aparentemente separando Minas Gerais de São Paulo. No município de Cruzeiro está um dos pontos onde se atravessa a Mantiqueira com maior facilidade. Lá está o famoso túnel construído nos tempos do império. De um lado, Cruzeiro, São Paulo; do outro, o município de Passa Quatro, em Minas Gerais. Foi inaugurado pelo Imperador D. Pedro II e também foi palco sangrento de alguns tristes episódios da Revolução de 1932.

Essa proximidade com Minas é, certamente, a razão da mineirice no falar dos habitantes da cidade; uma delícia! Fiquei me sentindo em casa e, ao mesmo tempo, pensando na bobagem que é dizer-se isso ou aquilo quando nos esquecemos de que somos todos irmãos, todos brasileiros. Meus novos amigos Cruzeirenses dizem ter  muito de mineiros; além do sotaque, com plurais particularíssimos e um erre acentuado, há uma delicadeza nas relações e inegável hospitalidade.

o túnel da mantiqueira e a revolução de 1932
O túnel separando São Paulo de Minas Gerais durante a Revolução de 1932

Dias de trabalho intenso suavizados pelo contato humano e, assim, vou somando outras histórias àquelas pesquisadas para o trabalho com o Arte na Comunidade 4. Arroz vermelho com suã! Prato típico de Cruzeiro! Que ótima descoberta!

Suã, para quem não sabe, é a parte da espinha dorsal do porco ainda com boa porção de carne entre os ossos. Minhas lembranças faziam-me a afirmar que arroz com suã é prato típico de Minas Gerais.  Já ouvi de outros, para além do Triangulo Mineiro, que o prato é goiano e outros ainda generalizam dizendo ser um prato caipira sem especificar a origem… Diante de um prato quentinho, cheiroso, suculento, penso que, mais que a origem, importa a boa companhia, os bons momentos que formarão boas lembranças.Daqui para a frente, saboreando um prato de arroz com suã, além das lembranças dos tempos de infância somarei outras da minha passagem pela aconchegante Cruzeiro.

Até mais!