Estamos longe de parar

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Após uma caminhada de mais de seis quilômetros eu gostaria de poder dizer que está tudo bem. Andei devagar (porque já tive pressa, diz a canção!) e falando muito pouco. Embora cada vez mais afeito ao silêncio, gostei do som de palavras de ordem, de apitos, do barulho de gente que acima de tudo celebra a liberdade de poder dizer o que pensa. Mesmo com dezenas de carros da polícia na retaguarda; e outro tanto de motocicletas da corporação nas beiras…

Antes, entrei na Avenida Paulista na mesma hora em que uma longa fila de viaturas policiais avançava lentamente, luzes vermelhas piscando e ocupantes ameaçadores que – no nosso país – continuam olhando a população como inimiga. (Chame o ladrão! Chame o ladrão! Diz outra velha canção!). Alguns transeuntes armados de celulares registravam o cortejo armado e na frente, bem na frente daqueles que não foram chamados alcancei milhares e milhares de pessoas.

Por vários instantes me perguntei sobre as reais intenções de cada caminhante, em nome de que, de quem, de qual partido gritavam pelas avenidas; em quem votariam nas possíveis “diretas já”? Quais, quantos nomes constariam para livre escolha? Naquele momento, me parece, o mais importante foi dizer ao “desafeto mor” que são mais, muito mais que quarenta os insatisfeitos com o rumo das coisas.

Na sexta-feira, dia 2, li que o Senado, após o impeachment, passou a considerar legítimo o que na semana passada era crime. Na quarta-feira anterior uma estudante, “atingida por estilhaços de bomba de efeito moral” perdeu o olho durante protesto contra o governo. Dois exemplos da situação em que estamos. Duas situações entre as tantas que merecem caminhadas, palavras de ordem e a luta por um país descente, civilizado.

“Vai caminhante, antes do dia nascer”, terceira canção (Os Mutantes, estão lembrados?)! E assim,  por ter saído antes da noite avançar não sofri o ataque violento da polícia. Antes de chegar ao Largo da Batata manifestei receio aos que estavam comigo. Trechos inteiros mal iluminados – apagaram as luzes públicas? – e no final da passeata, grande número já debandando, o que ocorreria? Noite de domingo:  A grande mídia ignorou ou deu sua “versão dos fatos”…

Segunda-feira, dia 5. “Tudo ainda é tal e qual e, no entanto, nada é igual”… Quarta canção.  Ontem, milhares de pessoas, em todo o nosso país, deixaram bem nítido que continuarão, que a luta segue, que estamos longe de parar. Por um país melhor caminharemos outros seis, dez quilômetros. Até que fiquemos minimamente bem.

Até mais!

Obs 1. As canções referenciadas neste texto são, respectivamente: Tocando em Frente – Almir Satter e Renato Teixeira ; Acorda amor – Leonel Paiva e Julinho da Adelaide {Chico Buarque}; Caminhante Noturno – Arnaldo Baptista e Rita Lee; Os Mais Doces Bárbaros – Caetano Veloso.

Obs 2.Para a foto acima, a legenda óbvia: E o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão. (Sonho Impossível – Versão de Chico Buarque).

Sabiá, um Sonho Impossível

sabia sonho impossível

Duas canções, um nome: Chico Buarque. Desde quando conheci “A Banda” que Chico passou a ser minha referência de letrista na música brasileira. Essas duas canções, Sabiá e Sonho Impossível, estão comigo dualisticamente. Tentarei voltar… nunca deixarei de sonhar.  Talvez eu volte, pode não ser um sonho impossível. Melhor que falar, ouvir.

Sabiá, na voz inesquecível de Clara Nunes!

Sonho Impossível, na primeira gravação de Maria Bethânia.

 

Até mais!

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Nota:

Ao longo do mês de março publicarei alguns textos ou parte de textos de poetas, escritores, compositores e dramaturgos que foram essenciais na minha formação. Quero dividir com os leitores deste blog trechos preciosos que, bom enfatizar, nunca é demais divulgar. As duas canções acima são: Sabiá (Chico Buarque e Tom Jobim) e Sonho Impossível (J. Darion – M. Leigh – Versão Chico Buarque e Ruy Guerra/1972)

 

Não chamem o síndico, o trabalho é para o político.

O trabalho neste momento, sobretudo, é COLETIVO.
O trabalho neste momento, sobretudo, é COLETIVO.

A maior tarefa da reconstrução deste país começa com a renovação ou mesmo a reconstrução partidária. Minha avó já faleceu e a síndica do meu prédio tem as limitações da função; as duas não poderão conduzir a nação. Dirigir um país é trabalho para especialistas e se há inúmeras forças ameaçando conflitos, a especialidade vital é a política. E política não se faz sozinho, daí a necessidade de uma política partidária. Se não há nada de bom entre os partidos, que tal criar um novo?

Hoje, sábado, 22, acabo de passar pela Avenida Paulista. As manifestações continuam e presenciei, infelizmente, a intolerância de um pequeno grupo para com um cidadão portando camisa e bandeira de um partido político. As pessoas exibindo cartazes, faixas, indo para o meio da avenida com o sinal fechado. Voltando, reiniciavam a discussão com o representante do “pcnãoseideque”. O irônico da situação é que as pessoas brigando, entre outras coisas, pelo direito de manifestar-se querem impedir outras de manifestarem-se também.

O que mais me incomoda nas pessoas que são contra manifestações partidárias é o fato de raramente ver, pelas ruas e avenidas, pessoas com camisas do PMDB ou do PSDB.  Penso que todos esses eleitores estejam por todos os lugares já que esses estão entre os maiores partidos do país. No entanto, omitindo a própria opção partidária, um número considerável de indivíduos quer impedir que outros exibam a filiação partidária. Ser membro de um partido é direito garantido pela Constituição.

Antes que me cobrem uma posição partidária devo dizer que fiz parte de um grupo que buscou angariar assinaturas para legalizar o surgimento do Partido dos Trabalhadores. Participei, junto com o grupo de teatro que dirigia, de várias ações em São Bernardo do Campo, Santo André, Diadema, Mauá e São Caetano do Sul buscando adesões para a formação do partido. Depois que o PT foi fundado reservei-me o direito de atuar como cidadão e votar em quem achava que devia. O PT é o projeto da minha geração e fico feliz em ter contribuído minimamente para que houvesse mudança na história política desse país. Ao longo de todos esses anos encontrei políticos admiráveis e afirmo que merecem todo o respeito e consideração.

Essa canção, sempre atual, diz muito do que são os anseios da minha geração.

Corre solta a falsa premissa de que todo político é corrupto. Esta funciona bem para eximir o indivíduo de sua responsabilidade perante a comunidade e deixa aberto o caminho para outros tornarem concretos os próprios interesses. Ou mudamos a premissa da corrupção de todo político ou entregamos a direção do país para nossas avós, ou para a síndica; bom notar que pastores e padres não podem assumir, pois nada mais político e tendencioso que instituição religiosa…  Então, sendo assim, para quem iremos delegar a direção do país?

As manifestações destes dias estão aí com várias lições para serem digeridas, aprendidas. A gota que faltava caiu e as pessoas estão nas ruas, reivindicando direitos. Algumas lideranças se sobressairão neste momento; gente de esquerda, de direita ou de centro, de diferentes partidos e agremiações. Que venham! Acima de tudo merecerão respeito, pois todo aquele que se dispõe a trabalhar pelo bem coletivo merece consideração.

Para os jovens esse é um momento de grande aprendizado. Alguns sairão como verdadeiros representantes de grupos, comunidades. Outra geração, seguindo em frente, aprimorando e corrigindo os trabalhos anteriores. Pode ser que ocorra algum retrocesso, mas o caminho é para frente. E se o individualismo é egoísta, resta o coletivo, o grupo, o Partido. E se as pessoas não acreditam em nenhum dos atuais partidos que criem outros. O que não dá é passar a vida fazendo passeatas sem que se tenha algo ou alguém para concretizar desejos e anseios de toda a nossa gente.

Até mais!