Amigo de sempre, Pedro Bala

Conheci “Pedro Bala” em Uberaba. Desde então fiquei amigo do chefe dos “Capitães da Areia”. O romance de Jorge Amado não foi escrito para adolescentes. Mas qualquer jovem, uma vez em contato com o livro, encanta-se com as aventuras dos menores abandonados pelas ruas de Salvador; com o livro iniciei uma longa e já duradoura história de amor com a Bahia e, por conta do que li em Jorge Amado, sonho morar em Ilhéus.

O centenário de Jorge Amado já foi devidamente comemorado no carnaval paulistano. Agora a cidade abriga uma exposição no Museu da Língua Portuguesa enquanto aqui no Bixiga, no Teatro Sergio Cardoso, “Dona Flor e seus dois maridos” está em cartaz (também já rolou uma reprise da minissérie na tv) e a Globo ainda prepara uma nova versão de “Gabriela, cravo e canela” para breve. Pode vir mais, muito mais!

Imagem do filme Capitães da Areia, de Cecília Amado

Em “Capitães da Areia” conheci a dura realidade brasileira de uma época, os anos de 1930, que parece sonho; principalmente diante do pesadelo de centenas de menores viciados perambulando pelas ruas de São Paulo. “Pedro Bala” é um herói. Defende seus companheiros, lidera-os e sonha para eles um mundo justo. O personagem de Jorge Amado é pensado em moldes socialistas – não por acaso o “Bala” é filho de um líder sindical – e o menor criado pelo escritor tem companheiros distintos, que formam um amplo painel de tipos humanos, com suas qualidades e mazelas.

Como adolescente que era, quando li “Capitães da Areia” pela primeira vez, achava que levava jeito para “Gato”, conquistando toda a mulherada. Porém, pelo próprio hábito de gostar de ler, sabia que eu levava jeito mesmo era para “Professor”, com óculos para facilitar a leitura a luz de velas, em inúmeras noites “Sob a lua, num velho trapiche abandonado”. “Volta Seca”, “João Grande”, “Querido-de-Deus”, o “Padre José Pedro”; todos são amigos de “Pedro Bala”. A maior aventura para esses garotos é viver, sobreviver.

Em Salvador não há como esquecer as canções de Caymmi, Vinícius e Toquinho, Ari Barroso e as personagens de Jorge Amado. Ao ver a baiana com seu tabuleiro, a expressão “Minha Tia” vem rápido assim como ao passar pela menina morena é possível recordar Dora, não a “rainha do frevo e do maracatu”, mas “Dora”, a paixão de “Pedro Bala”. Ah, “Dora”! Irmã, mãe, namorada! Uma menina mulher para viver a “Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus olhos”. Jorge Amado escreve bem demais.

Os tempos são cada vez mais duros, mas por aí há muitos meninos com alma de herói. Bravos são, já que teimam em viver mesmo diante de tanta adversidade. Alguns perecerão como o “Sem-Pernas”. Outros farão justiça com as próprias mãos, como o “Volta Seca” ou serão malandros, como o “Gato”. E, sem dúvida, um ou outro irá estudar um pouco mais, lutar não só por si, mas pelos companheiros, tornando-se um grande líder, como “Pedro Bala”, escrevendo a “Canção da Bahia, Canção da liberdade”.

Gostaria muito de conseguir estimular para que leiam “Capitães de Areia”, que leiam toda a obra de Jorge Amado. Tive acesso muito cedo aos romances do escritor baiano graças à minha irmã Walcenis que adquiriu todos os romances publicados até então. Lendo, fui muito além de Salvador e Ilhéus. O mundo que conheci, através da obra de Jorge Amado, é mágico, misterioso, cheio de aventuras e paixão, de verdades e lorotas, de mar e terra, areia e sal. Um mundo de deuses e homens. Entre esses um amigo imaginário, Pedro Bala; alguém com quem aprendi valores e princípios reais; muito reais!

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Até mais!

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Lembre-se de visitar!  Exposição Jorge Amado até dia 22 de julho – de terça-feira a domingo, das 10h às 18h, no Museu da Língua Portuguesa – Praça da Luz, s/nº Centro – São Paulo. R$ 6 para o público em geral / R$ 3 para estudantes. Aos sábados os ingressos são gratuitos.

Teatros do Bexiga em uma caminhada

O Bexiga tem tanta história! Um levantamento afetivo, resultado de uma caminhada com objetivos. Não sei ir por aí, feito alma penada. Resolvi caminhar pelos teatros próximos da minha casa (Tenho sorte, graças a Deus!) e quem quiser o roteiro real, posso até fornecer. O roteiro afetivo começa pelo TBC, o primeiro que fotografei.

Resultado da legislação que limpou a cidade, proibindo os grandes e exagerados cartazes, outro dia percebi o quanto é bonita a arquitetura do Teatro Brasileiro de Comédia. Fundado em 1948 por Franco Zampari, foi templo de Cacilda Becker e Fernanda Montenegro. O contraste entre diferentes épocas é próprio do bairro; por isso escolhi o Teatro Ruth Escobar para figurar ao lado do TBC. A atriz e empresária Ruth Escobar levantou grana com seus patrícios portugueses para construir o local, que é um verdadeiro Centro Cultural.

Quando cheguei por aqui… bem, são os teatros da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio que marcam o período em que passei a morar em São Paulo. Era o final dos anos 70. O atual Teatro Bibi Ferreira tinha um outro nome; no jardim, recordo bem, dois cartazes enormes com fotos de Arlete Montenegro e Carlos Arena. Não vi o espetáculo. Era mais um migrante procurando emprego e tentando sobreviver na megalópole.

No Teatro Brigadeiro, que já foi Teatro Jardel Filho, no mesmo período, Paulo Autran estava em cartaz ao lado de Eva Wilma. A peça era “Pato com Laranja”. Também foi depois que vim a conhecer esses dois grandes atores. No Ágora, que já foi o Teatro do Bexiga, fiz uma entrevista com Caíque Ferreira, quando o falecido ator encenou Giovanni, um clássico de James Baldwin.

O Teatro Abril, que com o nome Paramount foi um marco da nossa televisão, especialmente os históricos programas da TV Record, conheci como cinema. Hoje, no Teatro Abril, são apresentados grandes musicais internacionais e é por esses e outros que chamam o Bexiga de Broadway brasileira.

A Broadway, ao que tudo indica, tem muito dinheiro. Por aqui, ele não sobra. Vide o Teatro Imprensa! E é a mesma crise que levou à escassez de espetáculos no Teatro Mars, onde Ulisses Cruz fez uma montagem genial de “Pantaleão e as visitadoras”. Nem tudo é crise; pelo menos houve dinheiro para reformar o Teatro Sergio Cardoso onde, atualmente, Glória Menezes está em cartaz com a peça “Ensina-me a viver”. Todavia quero registrar que foi neste teatro que vi, pela primeira vez, o Stuttgart Ballet. Inesquecível o som das sapatilhas dos bailarinos, em inusitada percussão paralela ao som vindo da orquestra.

Há outros teatros no Bairro, nas adjacências, na vizinhança. Os que estão por aqui foram registrados em uma caminhada. Sobe morro, desce morro, caminha, caminha, caminha… quem sabe o corpo entra em forma! Outras tardes de exercício físico virão e, maquininha em punho, farei outros registros. Quero finalizar este com o Teatro Oficina.

O Teatro Oficina está completando 50 anos. O diretor José Celso Martinez Corrêa é a grande figura do local. Atualmente os artistas do Oficina realizam uma “Macumba antropófaga”, continuando a histórica trajetória de resistência do Teatro. O atual trabalho é  homenagem a Oswald de Andrade e  comemora o aniversário do grupo Uzyna Uzona, responsável pelos trabalhos do Oficina.

Só para esclarecer, pois a história é longa, minha participação no teatro foi com uma peça que escrevi e dirigi, chamada “Os Pintores”, encenada por um grupo de operários de Santo André, no ABC Paulista. Foi uma única apresentação. Para nós, naquele momento, uma grande vitória. Fazendo o caminho inverso, sentimo-nos Bandeirantes invadindo a cidade.

Até sexta!

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