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Um jogo entre tantos que andam por aí pode dizer bastante sobre um hábito antigo potencializado nos últimos tempos: querer determinar as ações do outro. Não basta impor  o que o outro deve fazer; vai-se além desancando, destratando, diminuindo o indivíduo que, no frigir dos ovos, quer apenas alguns momentos de diversão.

Jogos sempre existiram. Quantos não perderam horas diante de uma mesa jogando truco, tentando pegar varetas sem mexer nas demais ou, solitariamente, manipulando cartas na antiga paciência… São tantos!

Os detratores do Pokémon Go alertam para alguns perigos: Um deles a “idiotice” do jogo. No entanto estamos mais do que habituados a observar inúmeros e variados grupos de pessoas catatonicamente torcendo para que marmanjos coloquem uma bola além de três pedaços de pau. Também há outras, hipnotizadas, torcendo para aquele final de novela que todo mundo já sabe: o mocinho, invariavelmente, vai beijar a mocinha e serão felizes para sempre. E quantos não seguem semanalmente rumo às lotéricas para uma fezinha no grande cassino que é a Caixa, matreiramente autointitulada “Nossa Caixa”?

Li sobre uma “ameaça terrível”. Através do jogo os donos do próprio saberão aonde vou, quais meus hábitos e sei lá mais o quê. Será? Pode ser. Não guardo o segredo da felicidade e muito menos conheço os mistérios da pedra filosofal. Sendo um cidadão comum, ninguém carece de Pokémon para saber quais minhas possibilidades de consumo e também não é difícil verificar o parco perigo que represento para as instituições.

Soma-se a essa indelicada ação de patrulhar jogadores de Pokémon a dose cavalar de intolerância desses últimos tempos, caracterizando boa parcela de brasileiros, quando inimigo é aquele que não comunga com a ideologia do outro, com a opção partidária, com o credo religioso, com o gênero. Certamente atitudes que propiciam perigo maior para a convivência entre todos nós.

Parece que cuidar da vida do outro dá menos trabalho. Encarar os próprios hábitos e extirpar os que nos são nocivos é tarefa árdua, mas deveria tornar-se ação rotineira: O que eu ando fazendo com minha própria vida? O quanto estou prejudicando a mim e aos demais? Quanto devo insistir naquilo que a medicina diz que não devo; o que a lei determina e que não faço? Qual o grau de coerência entre minhas atitudes, ações e a crença que professo? Busco o bem coletivo ou olho exclusivamente para meu umbigo ao discutir política? O que há no mais profundo do meu ser que me provoca tanto incômodo ante a prática sexual do outro? E, entre várias possíveis, a pergunta que julgo a mais difícil de todas: qual o sentido da vida e para o que estou neste planeta?

Quantas perguntas! Que texto longo! Talvez, pensem alguns, o melhor é deixar isso para lá por bons momentos de bisbilhotice e intromissão na vida alheia. Quem quiser que fique à vontade para desancar com este que vos escreve; mas, atenção, não por ser jogador de Pokémon Go. Sou mais lento. Ainda estou nas primeiras etapas do Candy Crush.

Até mais!