A barata, uma fábula

Uma noite tenebrosa, infindável. Nojenta cascuda, saída de conhecido esgoto e, por encantar quem a confundiu com sabe-se lá que coisa, uma barata entrou casas adentro, alojando-se na sala de muitos. Não veio só. Junto com ela toda uma praga de baratas e outros insetos peçonhentos. O acontecimento abriu portas para taturanas, formigas, vespas, além de parasitas da pior espécie.

A barata saíra de um suposto esgoto, foto mostrada anos a fio em telejornal, por onde saia dinheiro pelo ralo em volta de abundantes crimes de toda espécie. Foram tantos e tão bem engendradas histórias de corrupção, unindo diferentes setores e grupos de habitantes do lugar, que permitir a entrada de uma barata e dar a ela o poder pareceu o ideal para muitos.

Parecia brincadeira! Barata, a ciência sabe, contamina tudo por onde passa e transmite doenças cujos nomes assustam humanos: hepatite, lepra, pneumonia e um monte de outros males. A barata era cascuda, mas não burra, sabendo exatamente como encantar mais e mais parcelas da população, valendo-se de velhos preconceitos, ignorância e, sobretudo, boa-fé!

O primeiro encanto do inseto é que, embora com notória dificuldade, conseguia falar publicamente. Tratando por ladrões e corruptos aos rivais, defendia Deus, a família, a propriedade. Quem ousaria ir contra tais propostas? Mesmo sem saber direito o que seja, todo mundo tem um Deus; família, por pior que seja, a gente tende a lutar e a defender a nossa; e, propriedade, quem não tem, sonha com uma.

A outra parcela da população e boa parte do mundo assistiu a ascensão da barata. Ela recebeu grande ajuda quando aliados tiraram de campo o principal opositor. Os meios dessa batalha ficaram absolutamente claros terem sido absolutamente criminosos, mas, até aí a barata já estava no poder. Saíra da sala e tomou o palácio.

Já na meia idade, a barata não estava só. Andara colocando ovos em baratas que geraram filhos para a barata palaciana. Acostumada ao esgoto, a família confundiu o palácio com o regime e vivia na República como se fosse uma monarquia. Não usaram títulos, porque sendo iguais, baratas são mais bem identificadas por números. Barata um, barata dois, barata…

O país com as baratas no poder virou um lugar estranho! De repente começou a ser válida a ideia de que a terra era plana e que baratas sabiam mais que cientistas. Negar eficácia de remédios foi, entre todas, a pior ação das baratas: Mais de setecentas mil mortes – entre essas de algumas baratas e até seguidores delas. A barata valeu-se da vaidade do ignorante – sim, todo ignorante é vaidoso! – para proclamar absurdos de toda ordem, contar mentiras deslavadas e colocar-se acima de toda e qualquer outra autoridade que não a própria barata.

Pesquisadores descobriram que baratas, mesmo estúpidas, têm necessidades de companhia. Nada mais do que alguém com quem dividir bobagens – pode ser em um cercadinho qualquer – ou também em passeios de moto, sempre com uma barata roçando a bunda da condutora, o que é notório momento de felicidade. Desfilam sorriso escancarado, sem destino ou finalidade exceto de mostrarem o que são: nocivas baratas.

As baratas estão aí e não será fácil livrarmo-nos delas. São pragas! Estão se reproduzindo e mesmo que fosse possível realizar um envenenamento em massa teríamos que poluir todo o planeta! Incontáveis ovos estão por aí, além de filhotes, parentes e encantados por baratas que – somando a vaidade ao orgulho da ignorância – armarão formas de continuidade, alimentarão sentimento de vingança. Um velho e eficaz remédio raramente tem sido usado em plenitude, mas é consenso: apenas ele será capaz de resolver a questão.

Há muitos séculos a grande matriz da civilização criou a melhor forma de devolver baratas ao esgoto, um remédio chamado voto. Por tal circunstância escolhia-se quem ficaria no palácio governando os demais: Baratas, Abutres, Lobos, Carneiros, enfim, todo o espectro da fauna assumida por um ser humano poderia pleitear o poder. Cabia ao cidadão escolher o que e quem queria para si.

Reconhecidamente eficaz, essa forma de excluir baratas – mesmo que temporariamente – teve longa e difícil trajetória para ser implementada, alguns problemas presentes ainda em nossos dias. Lá atrás, só cidadãos homens podiam usar tal solução. Mulheres, estrangeiros, escravos ficavam de fora. Uma luta de séculos para que todos tivessem direito a escolher pelo voto. Algo que deveria ser a meta de todo e qualquer indivíduo, mas ainda hoje há os que se abstém, os que anulam… difícil!

Estamos em fase de limpeza. Fora, baratas! E sem lero-lero, quem quiser vestir carapuças que fique à vontade. Eu tenho a ombridade de afirmar que fiz a carapuça sob medida tendo nome e sobrenome da barata que me afeta. Talvez meu voto não seja suficiente para excluir a peçonhenta, mas ele é fundamental. Logo mais estarei lá, com maior prazer do mundo, cumprindo com meu dever de tirar a cascuda peçonhenta e seus pares que, temporariamente, tive de suportar.