Um glossário pra mineiro viajar

Veja abaixo o link para acessar os textos de Ivan Mariano Silva, no Jornal de MOnte

Nas poucas vezes que estive fora do país chegava um determinado momento em que me dava um faniquito doido! A única coisa que sentia era a vontade de pegar mala e cuia e voltar ligeiro pra casa. É claro que chegar em um aeroporto de São Paulo já dava um certo alívio, aqueles sons múltiplos da diversidade paulistana. A questão é que quando se fala em “casa”, “a minha casa”, a gente está querendo é a infância, pai, mãe, os irmãos e, no meu caso, a casa é lá em Uberaba, Minas Gerais.

Imagina ganhar um presente que te leva de volta para essa casa! De quando você é criança e vai crescendo, ouvindo e gravando na memória a voz de seus pais, seus irmãos, os parentes todos, os vizinhos e as palavras que eles usavam. Você abre o presente, um livro, e o que você lê e a memória te traz é o som da voz da sua mãe que criou eufemismos pra saber se você limpou o butico direito, ou as risadas do seu pai, quando sua mãe ameaçava te dar uma surra: chama nas tabinhas, bobo! E foi assim, lendo e lembrando que fiz uma viagem ao mais profundo daquilo que nos traduz para a história: a nossa língua.

A mágica do livro, o “Glossário Monte-Sionês da Língua Portuguesa”, é imensa! A gente lê um verbete e se lembra de muitos outros. Só para clarear, butico e tabinhas é coisa dos meus pais, lá em Uberaba. Já o glossário é claro e específico da comunidade de Monte Sião, no sul de Minas. O livro recebi de presente do amigo Luiz Antônio Genghini. Um baita trabalho com mineirices reunidas por Ivan Mariano Silva, falecido em 2020. Do autor também recebi e estou lendo “Crônicas da minha gente”.

Ivan, que é como o escritor assinava seus textos no jornal, elaborou o “Glossário Monte-Sionês da Língua Portuguesa”, com a familiaridade de quem viveu na e com a comunidade enriquecida por inúmeros descendentes de italiano que nos legaram palavras deliciosas como carcamano, maledeto, impiasto! Tudo muito bom de dizer, de usar.

Essas expressões oriundas do italiano não conheci na infância. Meu pessoal, lá em Uberaba, tinha proximidade com portugueses, árabes, alguns espanhóis e poucos italianos. O trabalho localizado do Ivan nos dá a importância da pesquisa do autor e, simultaneamente, nos abre coração e memória para as possíveis expressões de cada uma das diversas regiões das Gerais.

A viagem linguística do Glossário é imensa. Tanto nos remete à infância, quando batíamos bafo ou quando nossa mãe nos advertia: “Lave direito esse pé, moleque, tá cheio de macuco!”, quanto nos faz lembrar momentos muito específicos, já na adolescência, quando a necessidade nos fez chapear a mão na cara do desafeto. E assim vai; leio as expressões e percebo palavras que já não uso, outras que me lembram pessoas, momentos, lugares. Não é um simples glossário, é um baú de falas, da nossa fala. A língua, que é culta, só se enriquece quando um sabereta se põe a usá-la.

Todo aquele que escreve tem amor pela palavra. Não basta saber escrevê-la, seu significado, os diferentes contextos em que podemos usá-la. Há que se pensar também na composição textual, no local preciso onde iremos colocá-la no parágrafo e, assim, atingirmos o efeito desejado. Dicionários são fontes inesgotáveis de relações, pois lemos uma palavra e nos vem à mente as diversas possibilidades de seu significado. Um trabalho que busca especificações de um determinado grupo social enriquece a língua, caso do Glossário Monte-Sionês, leva-nos imediatamente ao nosso grupo, ficando difícil não ocorrer envolvimento emocional.

Deus me permitiu andar por aí e conhecer gente de cá e de lá, de cima e de baixo, do meio, dos cafundós e outros, mais de perto. Uma vez funcionário de aeroporto me deliciava com os sons do mundo. Não só identificar o que estava sendo comunicado, mas reconhecer a melodia do som de cada língua, dos gestos do falante. Morando e andando por toda a grande São Paulo aprendi a identificar sotaques de todas as regiões do nosso país. Aquelas peculiaridades que diferenciam pernambucanos, cearenses, paranaenses, goianos, baianos, capixabas… e toda essa imensa variedade da nossa fala, tanto em som quanto em significado, nos dá a exata dimensão da riqueza da nossa língua.

O presente de Genghini (Obrigado!) e o trabalho do Ivan (Obrigado!) me permitiu recuperar, recordar, reviver faces da minha origem. Somos mineiros, e porque amamos Minas sabemos a diferença do sertanejo com o caipira, dos sujeitos todos das demais regiões não porque exigimos identidade ou outro documento qualquer. A gente começa por um “Tá bão?”, continuamos com um “d’onde que ocê é”, e após um “Cê é fio de quem?” já nos sentimos em casa. E se o sujeito tiver dificuldade em nos entender, tai o Glossário Monte-Sionês! Um ótimo começo para trilhar as imensas veredas do linguajar mineiro.

Notas:

1 – Ivan Mariano Silva (*1935 / +2020) tem seus trabalhos publicados no Jornal de Monte Sião, cujos números podem ser lidos clicando aqui.

2 – Glossário Monte-Sionês da Língua Portuguesa, reunido por Ivan Mariano Silva, com ilustrações de José Carlos Grossi. A capa é de Felipe C.P. Grossi. Monte Sião: Acervo Edições, 2010.

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