A morte de Silvio Santos trouxe várias facetas e questões levantadas pela mídia. Pessoalmente recordei uma antiga aula que ministrei na universidade sobre jingles, quando usei como guia o trabalho do compositor Archimedes Messina, o criador da abertura do programa do comunicador.
Jingle, no idioma de origem tem o significado de tilintar. Como no despertador, a função é chamar a atenção, acordar, fixando o som de tal forma que, disparado, já sabemos que é hora de sair da cama. Na propaganda, a ideia é similar: uma música que fique na nossa cabeça, seja fácil e cativante. E um grande exemplo vem das criações de Archimedes Messina. Mesmo não o conhecendo, você conhece e canta uma música desse compositor:
Lá, lá, lá, lá
Lá, lá, lá, lá,
Lá, lá, lá, lá
Lá, lá, lá, lá, lá, lá
Agora é hora de alegria
Vamos sorrir e cantar
Do mundo não se leva nada
Vamos sorrir e cantar…
Archimedes Messina (1932-2017) criou o seu trabalho mais longevo em 1965 por encomenda do próprio Silvio Santos. Tecnicamente a “música do Silvio” é o que se denomina prefixo de um programa, algo surgido desde os primórdios do rádio e nem sempre uma criação específica. Às vezes usam outra canção, ou parte dela. O caso mais emblemático de prefixos que temos é o que usa os acordes da ópera O Guarani, de Carlos Gomes abrindo o programa A Hora do Brasil.
Archimedes Messina, nos conta Fábio Barbosa Dias, sonhava em trabalhar no rádio e chegou a ser radioator, também sendo locutor da Rádio São Paulo e da TV Record. Paralelamente, veio a criar marchinhas para o carnaval, quando atingiu o sucesso e chamou a atenção do publicitário Jorge Adib, da Multi Propaganda, que o chamou para criar os jingles. As criações de Messina entraram para a história e são sempre referência para historiadores da publicidade e criadores musicais.
Os Jingles da Varig
Quem foi criança e cresceu durante a década de 60 ouviu e se encantou com esse jingle, a partir do carnaval de 1967:
“Seu Cabral vinha navegando,
Quando alguém foi logo gritando
Foi descoberto o Brasil
A turma gritava: Bem-vindo seu Cabral!”
O sucesso foi imenso e o Seu Cabral foi parar no Carnaval. Em 1968, Messina popularizou entre nós a lenda japonesa de Urashima ( a tartaruga que premia seu Salvador), torna-se Urashima Taro, no Brasil:
Urashima Taro, um pobre pescador
Salvou uma tartaruga
E ela como prêmio, ao Brasil o levou
Pelo reino encantado
Ele se apaixonou, por aqui ficou
Passaram muitos, de repente
A saudade chegou…
Deu saudade, volta de Varig era a conclusão desses dois jingles.
Conheça o Brasil
O processo de criação de Archimedes Messina partia do leve batuque em uma caixinha de fósforos e contando história ou descrevendo situações, criava seus jingles geniais. Do extenso trabalho do compositor está a campanha Conheça o Brasil pela Varig. São 12 composições, cada uma sobre um estado brasileiro e, é lógico, o mineiro que vos escreve vai puxar a sardinha para Minas Gerais:
Que vida boa que a gente leva em Minas Gerais
Comendo o queijo e o doce de leite de Minas Gerais
Em Belo Horizonte, quanta atração
Pampulha, Maquiné e o Mineirão com “Seu Tostão”
Pra descansar tem Caxambu, Poços e Araxá
Um tutuzinho de feijão você vai saborear
Tem Ouro Preto, tem Sabará
A obra de Aleijadinho lá está
Berço de Tiradentes, Santos Dumont e tantos mais
É a querida Minas Gerais
(e todos os jingles terminavam com o objetivo fundamental da campanha)
Conheça o Brasil pela Varig.
De 1974 em diante, um jingle sobre o Café Seleto entrou na nossa memória. Segundo consta, o dono da empresa, Manoel da Silva fez a encomenda, mas sem nenhum “briefing”, o resumo da solicitação do que é para ser feito. Messina associa hábitos do brasileiro ao produto; uma obra-prima, com a abertura na voz de uma criança:
Depois de um sono bom
A gente levanta,
toma aquele banho
Escova os dentinhos
Na hora de tomar café
É o café Seleto
Que a mamãe prepara
Com todo carinho…
Ao longo de toda a sua vida, Archimedes Messina criou e deixou mais de duas mil músicas compostas. Nos últimos anos, já afastado do mercado publicitário, dedicou-se a colocar melodia em letras que havia deixado de lado por conta do trabalho publicitário. Faleceu em julho de 2017 e, certamente, “não levou nada”, mas nos deixou um trabalho primoroso que será sempre base para os atuais e futuros criadores em propaganda e publicidade.
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Ouça, abaixo, alguns vídeos com os jingles citados acima, todos de Archimedes Messina:

PARABÉNS VALEU DETALHES QUE ERA DESCONHECIDO. OBRIGADO
Como sempre arrasando, obrigada pelo lindo texto.