Amor nas alturas

É certo que pouca gente da família sabia o que era pré-primário quando ele, arrumadinho no uniforme de calça azul e camisa branca, foi levado para a escola. No segundo dia de aula, outros tempos, já foi sozinho, o irmão mais velho indo até a esquina e apontando o rumo do Grupo Escolar. No terceiro dia nem isso, e ele encontrou Eliana, uma coleguinha linda, vestidinho verde e determinada: vamos ser namorados! E seguiram, mãozinhas dadas. Logo envolvidos na rígida divisão meninos e meninas se separaram.

Primeira paixão, de verdade, veio três anos depois. Já senhor de si, indo brincar em campos de várzea do bairro, em terrenos baldios. A turma da igreja era misturada e em um jogo de queimada ele acertou uma bola bem no rosto de Carolina. As lágrimas desceram de olhos negros, enormes, emoldurados por cabelo levemente ondulado, caindo suavemente sobre os ombros. Ele se apaixonou naquele momento e, culpa maior, ouviu de uma aprendiz de alcoviteira um “logo a Carolina, que gosta de você?”.

Seguiram-se dois, três anos de paquera, pequenas conversas, infinitos olhares. Ela era caçula de pais e irmãos rígidos, só iria namorar após os dezesseis anos. Flertavam de longe. Velhos tempos quando todos os estratagemas eram bem-vindos. De bicicleta ele corria da própria escola para a saída da outra, para ver Carolina. Nas missas chegava cedo para tentar sentar-se próximo, nunca um ao lado do outro. Durante quermesses trocavam correios-elegantes. Nas férias escolares, sem tolerar ficar tanto tempo sem ver a menina, ele “assentava praça” na esquina próxima de onde ela morava.

As coisas pioraram quando Carolina, aos quatorze, tornou-se babá de uma criança de gente rica, lá do centro da cidade. Vê-la passou a ser raridade, mas o afeto dele era alimentado em sonhos e devaneios de menino romântico, amores de outros aprendidos em novelas de rádio. Um dia ficariam juntos. Todavia, as coisas pioraram mais quando ele foi estudar em outra cidade, outro estado. O namoro, suspenso com o emprego da menina, tornou-se quimera, mera possibilidade futura.

Longe da família, dos amigos do bairro. cresceu taciturno, voltado para os estudos e nada mais. Um Werther tupiniquim, digno seguidor da personagem de Goethe, com o adendo da falta de contato e do total desconhecimento de como estava a vida de Carolina. Os ventos tomaram rumo de volta e ele retornou para a casa dos pais após dois transformadores anos. O final da adolescência fizera dele um rapaz esguio, um metro e sessenta de altura, os cabelos compridos e as roupas coloridas dos anos de 1970.

Foi a irmã que o atualizou: Carolina estava sozinha, de babá tornara-se dama de companhia da avó da criança, trabalhando e morando no mesmo endereço. Ele não previu que o reencontro seria em tão pouco tempo. O clube da cidade realizou uma reunião dançante, as baladas de então, e ao comparecer ele a viu de longe sentada junto a amigos. O coração acelerou, a boca ficou seca. Ele não era mais o menino que ficava distante. Tinha que mostrar maturidade, segurança. Precisava tirá-la para dançar, o que não foi possível momentaneamente, pois só se ouvia rock e um monte de gente fazendo a coreografia do momento.

Ele foi até ao bar. Um conhaque o ajudaria a conseguir falar, a língua presa na boca seca. Enquanto aguardava não tirava o olho de Carolina que decididamente o reconhecera, mas não apresentava o mesmo olhar de antigamente. Estaria com algum namorado? Teria se apaixonado por outro rapaz? Por que não sorria leve, como antes, indicando que ele poderia se aproximar, chegar até a ela?

Ah, aqueles bailes! Havia sempre momentos alternados em que o conjunto musical presente tocava ou música lenta, ou música dançante. Os apaixonados preferiam as seleções de músicas lentas, românticas, propícias para convidar uma garota e sentir a proximidade dos corpos, o perfume, a maciez do cabelo. E havia uma história, talvez lenda, que o casal precisa acertar sincronicamente os passos de dança, com naturalidade, sem atropelos. Se não dessem certo ao dançar, jamais dariam certo no amor. Ele matutava enquanto bebericava a bebida, a mão dentro do bolso segurando nervosamente uma bala de hortelã. Precisava de um hálito agradável ao se aproximar de Carolina. Quando essa música vai parar?

No intervalo o balcão do bar ficava lotado, os banheiros congestionados e o vozerio tomava conta do ambiente. Percebia-se uma rápida abertura do que poderia se chamar momento de caça. Os olhares buscando prováveis parceiros para a próxima seleção que, com certeza, seria de músicas lentas, românticas. Os mais ansiosos já se aproximavam de suas escolhidas, buscando manterem-se à frente de possíveis concorrentes. Ele, olhando Carolina lá de longe, preferiu esperar a música começar, ver o que aconteceria.

Quando o grupo musical atacou uma canção dos Bee Gees ele viu um sujeito aproximando-se, convidando e recebendo recusa de Carolina. Sentiu-se o mais feliz dos homens e tomou a direção da mesa onde estava aquela paixão de tantos anos. Chegou tímido, sem saber o que dizer e balbuciou: “Vamos dançar?” Ela sorriu com a suavidade dos primeiros tempos e respondeu: “Prefiro que você se sente aqui. Vamos conversar”.

Ele tremia ao tentar segurar a mão de Carolina que, com delicadeza e decisão o conteve. “Não vai dar certo, desculpe! Não posso aceitar. É impossível”. Ele olhou sem entender e aguardando ansiosamente uma explicação que veio sem rodeios. “Você não cresceu. Eu cresci demais! Vai ficar muito esquisito. Lamento. Se você me der licença, vou ao banheiro. Na volta, não gostaria de encontrá-lo aqui”. E ele, consciente de seus 1,60m de altura viu uma mulher enorme, elegante, que só então ele percebeu que ela se encolhera na cadeira. Atravessando o salão ia uma moça que poderia apoiar-se na cabeça dele para acertar o sapato, coçar o pé.

Naquela noite ele descobriu que Werther era só um personagem romântico. E que os amores distantes podem resultar em falsetas. Poderia beber, poderia chorar, poderia guardar aquela história e a lembrança do amor frustrado. Preferiu ir para o outro lado do salão. Encontrou e convidou uma garota para dançar. Para essa, ele até que era alto. Muito alto!

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Nota: imagem produzida com IA.

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