As professoras lá de casa

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Waldênia, Walcenis e Walderêz

De repente me dei conta de ainda não ter escrito sobre as professoras lá de casa. Três! Cada uma com postura diferente, jeito de ser e agir, o que me faz pensar em esquerda, direita, centro… Certamente elas propiciam uma ideia do que seja ser professora em Uberaba, em Minas, no Brasil. Há uma que está sempre lendo jornais, a outra prefere livros, a outra parte fácil para as vias públicas nos atos políticos; uma mantém-se distanciada, postura exclusivamente profissional perante os alunos, a outra estende a maternidade pra sala de aula, pra escola e há aquela que administra, transitando fácil no universo burocrático que permeia secretarias e superintendências de ensino.

Waldênia, Walcenis e Walderêz são as professoras lá de casa. Carregam em si algo de minha mãe Laura, que sonhou ser professora. Todas foram alunas do Colégio Cristo Rei e as duas primeiras foram além, estudando na Faculdade de Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino, das Irmãs Dominicanas, hoje integrada à UNIUBE. Lá fizeram Letras, Ciências Sociais, Pedagogia, Administração Escolar…

Minhas irmãs estiveram na vida de centenas de uberabenses; não consigo nominar todas as escolas, mas guardo algumas na lembrança: Escola Estadual Professor Hildebrando Pontes, EE Professora Corina de Oliveira, EE Presidente João Pinheiro, EE Frei Leopoldo de Castelnuovo e uma delas, a Walcenis, trabalhou anos na Superintendência Regional de Ensino. Tudo começou no século passado (lamento, meninas!), em uma pequena escola, na Vila Dr. Arquelau.

Guardo recordação precisa de acompanhar minha irmã Waldênia, toda bonita e arrumada, com uma blusa vermelha de um tecido muito leve, pelas ruas poeirentas de então. Era a primeira a sair de casa para lecionar; foi na Escola Nossa Senhora Aparecida que, sem sede própria, funcionava na capela de mesmo nome na Vila Arquelau. Depois chegou a vez de Walcenis em outra escola, diariamente voltando para casa com flores, muitas flores, todo o dia cheia de flores, presentes dos alunos que certamente amavam a mestra que, pela cidade afora, não esconde fama de dura e rígida (e competente!) em se tratando da profissão. O pessoal da Superintendência que o diga… Depois Walderez, a caçula, começou a lecionar na mesma escola Nossa Senhora Aparecida já evidenciando características maternas no trato com os alunos.

Hoje minhas irmãs estão aposentadas. Volta e meia encontram adultos que se tornam crianças perante a professora. São acarinhadas, respeitadas. Um respeito imenso que, infelizmente, não é o mesmo das autoridades mineiras. E aqui este texto toma outro rumo, o da indignação. Salários dos professores de Minas Gerais são pagos com atraso e, pior, em parcelas, levando a classe à instabilidade e insegurança constantes. O governo estadual, desde a gestão anterior, não consegue regularizar a situação. Infelizmente, milhares de profissionais permanecem na incerteza de receber algo que a lei garante, o direito estabelece. E aí, em datas como o dia dos professores, aparece um monte de gente hipócrita desse mesmo governo com o discurso da importância dos profissionais, da escola, da educação…

O que pessoas na terceira idade podem fazer diante da incompetência administrativa dos responsáveis pelos seus salários? Sem perder o humor, penso que caminhadas podem ser evitadas; mas, sentar-se na avenida e lutar pacificamente pelos próprios direitos é uma possibilidade. Dá para aproveitar e bater um bom papo com os transeuntes sobre a situação. Também podem tomar celulares e computadores e encher as caixas de mensagens desses políticos que aparecem na época de pedir votos. Fundamental: Guardar nome e sobrenome de quem não se deve votar nas próximas eleições.

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Enfim, voltando ao motivo deste. Feliz dia dos Professores Eulália Cristina Afonso, Edna Idaló, Vanda Spínola Silva, Maria Abadia Prata Barsan, Célia Ferreira Peixoto, Marize Idaló. Em especial quero enviar um carinhoso abraço para Maria Helena Gabriel, incansável na luta pelos direitos de seus pares. E sem esquecer minhas primeiras e inesquecíveis professoras, minha gratidão eterna para com D. Zilda, D. Marília Fidalgo, D. Vânia Boaventura e Dona Maria Ignez Prata.

Feliz dia dos professores, minhas irmãs Waldênia, Walcenis, Walderêz! Como nossos antepassados diriam, tive a quem puxar, tenho a quem seguir. Um beijo carinhoso para todas as professoras e professores de Uberaba, de Minas, do Brasil.

Até mais.

Outubro e o que resta do que um dia fomos

acólito

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
(Fernando Pessoa in A criança que fui chora na estrada.)

O que é que ainda permanece desse menino? Foi a pergunta que ouvi enquanto mexia com minhas fotos de quando criança. Sobrou alguma coisa? E dei de pensar olhando algumas imagens, as personagens que nelas estão comigo, os momentos em que foram registradas. Todos nós, inevitável, passamos por grandes mudanças, mas o que se espera, ou o que me parece, o que gostaríamos é que tenha permanecido o que tivemos de melhor.

A princípio, penso, temos a sensação de que somos sempre os mesmos. Essa abstração que nos autodenomina, o Eu, não tem idade e por isso entramos em crise quando um olhar atento ao espelho nos revela uma ruga, a pele perdendo o viço, mais alguns fios de cabelos brancos, o corpo ficando em forma… de bola. E ficamos mais chocados quando é o outro que nos faz conscientes de que já não somos os mesmos: – Você mudou muito! Quanto tempo!

A rede social nos acostumou, nos últimos anos, a nos revermos crianças, expondo antigas fotos na web. Graças à isso descobrimos a suavidade que já existiu em alguns, o sorriso espontâneo de outros, a ingenuidade evidente que pouco se alterou, a pureza tão ilimitada quanto perdida e, sobretudo, vejo que em todas as fotos de velhas crianças desse mês de outubro transbordam sentimentos de esperança, sonhos de vir a ser e estar em um mundo digno.

Ah, eu gostaria de não ter algumas dúvidas que volta e meia me atormentam. Eu acreditava em Deus, sem questionar. Havia o pai no céu que minha mãe da terra me deu. E tinha também a mãe do céu, que a mesma mãe da terra me ensinou a amar e a confiar. O mundo de então, era mais preciso; havia pessoas más e pessoas boas. As más estavam longe, bem longe, e os entreveros familiares eram simples e corriqueiros distúrbios logo serenados. Sonhava mais acordado do que dormindo e para esses sonhos Pasárgada e Shangri-la perdiam feio. Tudo era possível, tudo aconteceria no seu devido tempo. Hoje… sobram incertezas.

O quinto de seis irmãos, cresci em um ambiente sempre cheio de gente, de vozes conversando, música no rádio, jogo na televisão. Na hora de dormir tinha medo por ser, talvez, a única hora em que ficava sozinho. Mamãe rezava seu terço diário a meu lado, dizendo-me rezar para eu dormir. Confiante, eu dormia e acordava no dia seguinte, tranquilo ante o barulho da casa. Não gosto de solidão e vou sentir sempre a falta de todos os que povoaram minha casa de infância.

A excitação antes de qualquer viagem permanece. Seja para o lugar novo, seja para mais uma entre as centenas de voltas à Uberaba. Quando a viagem não é física, continua sendo literária o que me leva a crer que não mudou o amor a Salvador d’Os Capitães da Areia, a Londres de Oliver Twist, o porto do Havre d’O diário de Dany. Outras viagens, cinematográficas, levam-me para mundos distantes, outros imaginários, em companhias que prezo e que fico feliz em rever, por exemplo como se dançasse na chuva com Gene Kelly, ou lutasse ao lado do Cid Campeador de Charlton Heston.

Penso que algumas lembranças dessa criança com o castiçal possam suscitar outras, de quem me dá a honra de ler este texto. Esse santinho da foto levava cascudos do Pe. Luigi Stella, por conversar durante a missa e aprendeu a gostar de música erudita, assim como de imagens barrocas e renascentistas com outro padre, Nicola Rudge. Por mais que eu possa caminhar e vivenciar outras religiões é essa, a primeira, que somo a todas as demais. Um terceiro padre, Líbero Zappone, ensinou-me a respeitar todas as manifestações, levando-me muito cedo a ver Deus em todos os tipos de crença.

Essa criança aí da foto ainda está por aqui. Guardada em diferentes escaninhos do cérebro, do coração. Reconheço-a quando brinco com meus amigos, na convivência com meus irmãos que às vezes dirigem-se a mim como o caçula que fui. Reencontro o menino quando cuido das plantas que, lá atrás, cresciam soltas no quintal. Convivo diariamente com o gosto por andar de trem, sentindo um prazer indescritível com o som de quando os vagões mudam de trilhos e voltarei sempre à Santos, pra rever e andar de bonde, como aquele menino feliz que transitava nos bondes de Campinas, lamentando a ausência desses em Uberaba.

O que é que ainda tem desse menino? Foi a pergunta… Quase tudo. Quase nada. As coisas foram se modificando, as pessoas tornaram-se outras mantendo algo que faz com que as veja como sempre vi, reconhecendo nelas os infinitos detalhes que nos ligam. Esse menino aí fui eu. Um dia. Hoje sigo em frente. Dou graças à Deus pelo esquecimento, por me permitir viver sem a tortura das más recordações, sem a dimensão de todas as perdas, como também por caminhar tranquilo sem o afogamento pelos momentos de êxtase, de felicidade. Agradeço por ser outro, ter experimentado, ter sobrevivido e sobretudo, por estar modificado o que, espero, tenha sido para me tornar um ser humano decente.

Até mais!

Obs.: A foto acima é do final de uma procissão na Igreja Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, em Uberaba, por volta de 1965.

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Quintais! Imbatíveis entre os espaços criativos na infância

Ah, os quintais de Uberaba! Ainda hoje minha cidade é bastante arborizada e, me parece, há mais árvores em quintais que nas vias públicas. Mangueiras, jabuticabeiras, laranjeiras, mamoeiros, tamarineiros… A cidade é um imenso e variado pomar. Sem contar a grande quantidade de árvores ornamentais que perfumam, embelezam e dão sombras aos meus conterrâneos.

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Meu pai no quintal com os netos, Andreia, Thiago, Alessandra e Luis Alexandre.

Da casa onde cresci guardo lembrança de laranjeira carregada, goiaba caindo de madura e das primeiras experiências de cultivo de flores e hortaliças. Ao lado da casa de meus pais moravam meus avós maternos, onde havia, entre muitas outras plantas, uma horta, um pinheiro, uma parreira com saborosas uvas verdes e, no jardim, entre folhagens e flores, dois pés de café. Plantas chamam pássaros, larvas que se transformam em borboletas, tanto quanto terra é abrigo de formigas e outros bichos. Um exemplo concreto de meio ambiente bastando para vivenciá-lo sair da cozinha para o quintal.

Um quintal de terra batida – o que se consegue aproveitando a água com sabão com que a roupa era lavada – é um espaço de sonho e liberdade. Com Valdonei, meu irmão mais velho, criava imensos roteiros de uma ferrovia feita com latas retangulares. As maiores, embalagem de óleo, eram locomotivas que puxavam inúmeros vagões de carga, feitos com latas de sardinha ligadas por engates de arame. O pé de goiaba era sempre vigiado, esperando que seus galhos formassem uma forquilha, ideal para estilingue. Nada mais resistente que um galho de goiaba, daí também o imenso medo de levar uma surra materna com tal madeira.

Escalar qualquer árvore é tarefa para experts. Buscar um mamão é tão difícil quanto um coco; se tiver úmido, o galho da goiabeira é escorregadio. Melhor exercício para subir em árvores é quando se tem uma mangueira no quintal. Havia uma mangueira, imensa, na casa da minha tia Aurora. Com meu primo Beto passávamos horas lá em cima, conversando, vendo o tempo passar e, na época propícia, “chupando manga no pé”. Aliás, quando assunto é subir, quintais oferecem várias possibilidades para que se possa atingir o telhado.

Uma imensa caixa d´água, suspensa sobre colunas em forma de cruz, ficava próxima ao telhado e era por ali que eu alcançava o telhado da nossa casa. Levava brinquedos, gibis ou simplesmente ficava lá, vendo o tempo passar. No tempo de chuvas meu pai ficava doido, pois além do perigo da escalada há o problema das telhas molhadas se quebrarem com facilidade: – Desce daí, moleque!

Com chuva, a gente brincava primeiro nas poças d’água, depois no barro. Só depois, fase seguinte ao quintal, é que fomos para a rua, chapinhar em poças e caminhar nas enxurradas. Enquanto essa fase não chegou, restava ver o céu escurecer e a chuva cair, em suas várias intensidades, formando pequenos rios que cortavam o quintal, deixando aqui e ali pequenos lagos, onde os pingos vindos do céu formavam efêmeros pirulitos. Era momento de meditar via janela, observando o céu, aprendendo a conviver com o tempo e suas transições.

daniel
Wander, meu irmão caçula, aproveitando o mesmo espaço onde brinquei 20 e alguns anos antes.

Chego até aqui percebendo que ficaria horas escrevendo, preenchendo páginas e páginas de lembranças. Todavia, o objetivo deste texto é alertar para a necessidade de um espaço de liberdade para toda e qualquer criança, para que ela possa aprender a conviver com o ambiente, entre plantas, pássaros, insetos e animais domésticos. Poder construir seus brinquedos, adquirir habilidades para reconhecer o ciclo das plantas ou para escalar árvores, entre outras possibilidades.

Terra não é sujeira. Sabe-se lá quem colocou tal pensamento que levou muita gente a impermeabilizar todo o quintal. Coberto com cerâmica ou cimento, um quintal propicia outros brinquedos, é certo, mas não dá para fazer buraco e ficar matutando quanto tempo levaria para chegar ao Japão. Nem dá para plantar uma semente qualquer, vigiando ansiosamente o momento em que, milagre, da sementinha surja uma plantinha que cuidaremos com carinho e dedicação.

Na falta de terra, fazer o que… Descobrir as vantagens do cimento e da cerâmica. Pior ainda é quando não se tem o quintal. As limitações de espaços coletivos – chamam de playground o quintal dos edifícios – são reais e os tais “chiqueirinhos” de apartamentos são viáveis só para os bem pequeninos. Impossível cogitar de impedir casais em apartamentos de serem pais, mas é vital alertar do quanto é necessário destinar um espaço para as crianças. Aquele local que a criança chamará de seu.

Quartos com cabanas, barracas, também podem conter balanços, escorregadores e um cantinho de terra, tipo caixa de areia mesmo, para a criança experimentar, entrar em contato com barro, terra seca. E mais, uma amiga, Vania Maria Lourenço Sanches destinou uma parede de sua casa para os meninos. Pintaram, rabiscaram muito, coloriram, pregaram coisas… João Luiz e Antônio Gabriel picharam, grafitaram tudo a que tinham direito. Talvez por isso não tenham tido a necessidade de sair por aí, pichando a cidade.

Outra amiga, moradora de apartamentos, Márcia Gomes Lorenzoni defendeu o espaço do filho Jonas e levava consigo o “quintal” do garoto. Visitando minha casa – também a de outros amigos – Márcia trazia uma imensa toalha e uma sacola cheia dos brinquedos do menino, entrando em acordo com ele ao montar o “quintal” na minha sala: “- Você brinca aqui enquanto a mamãe conversa com nosso amigo”. Um quintal itinerante, enriquecido pelas diferenças cenográficas da decoração de cada pessoa visitada.

Quintais, playgrounds, quartos de apartamentos… O fundamental é haver um espaço onde a criança possa exercitar a imaginação, testar habilidades manuais, descobrir coisas, remexer trecos e cacarecos. Se possível, facilitar espaços diferenciados tipo uma semana de quintal para quem vive em apartamento, um sítio para quem vive na cidade, uma praia para quem é do interior. Os primeiros espaços nos dão visões de mundo e nos propiciam experiências inesquecíveis e válidas por toda a vida e é assim que devem ser considerados. Estimulam nossa imaginação, levam-nos à experimentos diversos, alimentam nossa curiosidade e dão-nos alegrias em realizações diversas; enfim, colaboram profundamente para que venhamos a nos tornar pessoas saudáveis e criativas.

Até mais!

A reprodução de partes ou de todo o texto deve obrigatoriamente mencionar a fonte e o autor.

ATENÇÃO: O texto acima permeia o conteúdo do curso CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO NO AMBIENTE CORPORATIVO que será realizado no dia 19 de outubro de 2019 no Hotel Matsubara, em São Paulo. As inscrições estão abertas e os detalhes sobre o curso estão no site www.competency.com.br

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Proteção e segurança que vem do alto

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N. S. da Abadia sobre o andor,  em dia de festa. Foto: divulgação

Recebo, pelo Jornal da Manhã, a notícia de que Uberaba terá vias monitoradas por dezenas de câmeras, no que estão chamando de “Cidade Vigiada”. A segurança virou prioridade nas conversas dos meus conterrâneos, após dois tristes assaltos cuja dimensão resultou em manchetes nacionais. O sistema de câmeras, informa o jornal, permitirá a identificação de placas e, sofisticação maior, o software permitirá também identificar carros roubados.

No alto de prédios e postes, câmera não dá segurança; constitui-se em elemento inibidor, alerta para a Polícia Militar que, integrada à tecnologia, terá maior agilidade e rapidez nas suas ações. Maior alento tenho pela ideia de que a cidade é guardada por Nossa Senhora da Abadia, lá do alto do campanário do Santuário. Primeira quinzena de agosto e a cidade em festa, louvando e agradecendo à protetora. Hoje, dia 15, temos o grande evento de encerramento da novena com a tradicional procissão, coroação da Santa e a quermesse, parte profana da grande data.

Do Alto da Abadia, que já foi Colina da Misericórdia, a santa protege uberabenses, independendo da religião de cada um. Aprendi isto ainda menino, acompanhando minha mãe nas imensas procissões, muito diferentes das que ocorriam no meu bairro. No Alto da Boa Vista, de onde Nossa Senhora das Graças se vê no outro lado da cidade como Nossa Senhora da Abadia, as procissões eram modestas, os fiéis ordenadamente em filas, tendo ao centro grupos específicos carregando andores. A procissão da Abadia, imensa, impossibilita filas. Já na minha infância uma imensidão de pessoas tomava as ruas do bairro, carregando velas acesas, entoando hinos, rezando orações marianas.

Que venham as câmeras! “Quem pode mais é Deus no céu”, diz o folclore popular. E é a Mãe de Deus a intermediadora nos facilitando a proteção divina. A imagem da Santa, no alto de altares e torres, é contingência histórica, quando no país se privilegiou os templos católicos. E ela está lá, lembrando-nos que vela por nós. Que rogue a proteção divina; aquela que vem de todas as religiões, de todos os locais onde se cultua o divino com honestidade.

A pedir algo da Santa neste momento, para todos nós, primeiramente eu pediria tolerância. Respeito e tolerância entre todos os fiéis de todas as religiões, já que andam ocorrendo coisas estranhas em nosso país. Pediria, por isso, manutenção e aumento da harmonia entre uberabenses espíritas, católicos, fiéis das religiões de matrizes africanas, evangélicos, presbiterianos e, entre tantos outros, os ateus e agnósticos, que também são filhos de Deus. Só a ignorância e a imaturidade nos levam a descrer da religião alheia. Finalmente, para Nossa Senhora da Abadia eu pediria… não, peço proteção. Contínua e atualizada, tal qual a tecnologia dos nossos dias.

É bom receber notícias de que a cidade será monitorada por câmeras de vídeo. Mas, a gente sabe que notícias desse tipo também chegarão ao bandido. Este, por sua vez, buscará formas de burlar o novo sistema, vencê-lo; e, a experiência ensina, criminoso não precisa de licitação pra verba visando atualização. Daí, o bandido anda mais rápido e logo, logo, temo e lamento, as câmeras serão burladas por esquemas sofisticados de assaltos. Então, só mesmo contando com a Santa para garantir nossa segurança. Agora, e na hora da nossa morte… Amém!

Até mais!

PS: Dia 15 de Agosto é o dia da Assunção de Nossa Senhora. Nesse dia, Maria de Nazaré é lembrada também com o título de Nossa Senhora da Saúde.

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Os amigos do meu pai

 

papai e joão
Bino, o meu pai, e João Eurípedes Sabino

Recentemente conheci João Eurípedes Sabino, presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. A ideia do encontro partiu de Marta Zednik, quando em visita ao Arquivo Público de Uberaba. Um dia intenso. Depois de muitos anos estive na plataforma da antiga estação da Mogiana, hoje sede do Arquivo e, em seguida, fiquei frente a frente com o autor de uma bela homenagem ao meu saudoso pai, que publiquei aqui (clique para conhecer ou reler o texto).

Final de tarde. A sede da Academia está em um casarão na Rua Dr. Lauro Borges, de onde se vê os fundos e toda a lateral da majestosa Paróquia de São Domingos. O sol desce lentamente e inúmeras maritacas se acomodam em árvore no fundo da Igreja; o barulho é imenso, como se as pequenas aves comentassem o dia, ao mesmo tempo procurando aproximação de algum afeto, dando um “chega pra lá” em desafetos… Logo estarão silenciosas, mas enquanto executam a costumeira sinfonia somos recebidos pelo amigo do meu pai.

João Eurípedes Sabino, como autêntico mineiro, nos recebe cerimoniosamente. Com calma e delicadeza nos leva até uma pequena sala de estar, oferece-nos um confeito e, antes de qualquer coisa, silenciosamente me observa para, em seguida, dizer a frase que é sonho de todo e qualquer filho: “- Como você se parece com seu pai! É como se eu estivesse conversando com o Bino”. De leitor agradecido torno-me amigo e, posso afirmar, minha irmã Walcenis, acompanhando-me na visita, sentiu o mesmo.

Walcenis, eu e João
Um registro do nosso encontro.

Papai fez muitos amigos. Felisbino Francisco Rodrigues de Resende fez poucos conhecidos, mas o Bino… Com o apelido era identificado praticamente em todos os cantos da cidade. Eu gostava muito de desembarcar na rodoviária e, ao tomar taxi, dizia o endereço complementando “sou filho do Bino”; aí, não precisava dizer exatamente onde era minha casa. O motorista, como João Eurípedes Sabino, tinha praticado tiro ao alvo que tornou papai conhecido.

É o próprio João que recorda locais onde papai trabalhou. Durante uma fase da vida ele colocou a barraca de tiro em quermesses e praças da cidade. Depois, construiu um parque de diversões – sim, meu pai construiu um parque inteiro, brinquedo a brinquedo, no quintal da minha casa – com o qual percorreu todos os bairros de Uberaba e de algumas cidades da região. Depois, já próximo da aposentadoria, vendeu o parque e voltou a trabalhar só com a barraca de tiro, permanecendo vários anos instalado no bairro da Abadia.

João Eurípedes escreveu: “Bino, autêntico amigo das crianças”. Provavelmente João não sabe que meu pai presenteava toda criança que aparecia em casa com um estilingue. Tinha sempre o material necessário e, quando a visita chegava, papai ia até a oficina para fazer o brinquedo, quando não o tinha pronto. Mas penso que meu pai soube fazer e manter amigos, vide as homenagens recebidas pela comunidade do bairro Boa Vista (Veja a Turma do Campinho) ou por toda a cidade (Veja a Rua do Bino). A prova maior da longevidade das amizades do Bino esteve ali, em momento de rara emoção, no encontro que tivemos com o João, amigo de tantas décadas.

O dia dos pais próximo e eu pensando em meu pai. Antes de terminar a visita, João Eurípedes levou-nos a conhecer todas as dependências da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. Falou-nos do Padre Prata, que um dia chamei de Pratinha, conversamos sobre Décio Bragança, com quem aprendi a gostar de literatura, e lembramos momentos da vida de Mário Palmério, homenageado no busto defronte ao casarão. Trocamos lembranças, fizemos fotos e João me incumbiu de uma tarefa, referindo-se ao artigo publicado em 03 de Junho de 2005, no Jornal da Manhã, de Uberaba: – O que fazer com esses três amigos? Como dar continuidade a essa história?

Ah, meu caro João Eurípedes Sabino! Tarefa difícil, ao mesmo tempo adorável. Prometo buscar, cada vez mais, parecer-me com meu pai. Sobretudo quero fazer amigos, tantos quanto ele os fez. E quando eu tiver algum obstáculo nesse intento, se por acaso encontrar alguma dificuldade intransponível, voltarei à Uberaba e te pedirei socorro, pois em você vi muito do mineiro que meu pai foi e outro tanto dessa qualidade rara que é fazer amigos.

Feliz dia dos pais, meu pai!

Feliz dia dos pais, João Eurípedes Sabino!

Até mais.

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A mulher que eu amo

Trabalhar nos idos de 1981 na Rua Abdo SChain, paralela à Rua 25 de Março, deu-me nova visão de São Paulo. Eu dividia atividades entre um grupo de teatro em Santo André, no ABC Paulista, e durante o dia era auxiliar de auditoria em uma companhia têxtil. Gostava das lojas de decoração infantil, com vitrines que lembravam grandes cenários, seguia minha vida obedecendo aos sons do relógio do Mosteiro de São Bento e já então ficava meio aturdido com tanto cacareco oferecido para consumidores ávidos para vender para seus clientes.

Na calçada da Ladeira Porto Geral vi inúmeras pessoas escorregando e se estabacando na calçada. Além da descida, íngreme, os escorregões ocorriam na porta de uma lanchonete de pasteis duvidosos (um ano antes houve um surto de pasteis com recheio de comida para cachorro… uma outra história.). Todos os dias o piso da lanchonete era lavado e a água escorrida ladeira abaixo. Sabão e óleo, os vilões de transeuntes incautos.

Da Rua Constituição, uma ladeira similar à Porto Geral, guardo a imagem de alguns assaltantes descendo a passos brutalmente largos – tentem descer a ladeira fugindo de perseguidores e entenderão a expressão – enquanto lojistas gritavam um inevitável “- Pega ladrão!”. Da vizinha Rua Barão de Duprat vi relógios voadores, saindo de algum dos andares da galeria Pagé. Certamente um lojista preferiu jogar boa parte de seu estoque janela abaixo evitando o flagrante da fiscalização. O mais hilário foi ver o dono do carro sobre o qual caíram os relógios agir com a rapidez dos espertos: primeiro desceu do veículo com visível ódio; ao olhar para a mercadoria, pegou tudo o que pode, jogou dentro do carro e saiu em alta velocidade.

Uma colega de trabalho, Neusa, era leitora assídua da Revista Sétimo Céu, da extinta editora Bloch. A garota sabia que eu escrevia para teatro e, na cabeça dela, achava que escrever um conto para a tal revista seria a mesma coisa. Mostrou-me o anúncio da seção Conto Premiado que informava: “Escreva um conto usando, no máximo, cinco páginas com vinte e cinco linhas datilografadas. Se ele for premiado, você receberá Cr$ 2.000,00…”. Uma quantia legal quando me lembro das dificuldades de então.

revista setimo ceu

“A mulher que eu amo” surgiu em pensamento e o conto transcrito e reelaborado em horários de almoço. Com alguma noção de público-alvo e já com a mania de escrever na primeira pessoa, narro aventuras triviais com uma moça urbana, socióloga, em contraste com o eu do discurso, um rapaz vindo do interior de São Paulo.

Voltando de Uberaba logo após as festas de final de ano retomei meu trabalho, sem muito tempo para lembrar do concurso. Era ainda principiante na vida de cuidar de casa, ganhar salário como funcionário e, nas noites e finais de semana, batalhar no teatro, sonho que me trouxera para a capital. A moça que assinava a revista prolongou férias e quando voltou, recordo bem que ainda estávamos perplexos com a morte de Elis Regina. Minha colega deixou a revista sobre minha mesa, como quem não quer nada e só na hora do almoço soube que tinha meu primeiro conto publicado. Da praia, como era comum referir-se à Baixada Santista, dias depois recebi uma mensagem de Maria Elza Sigrist, a quem considero minha primeira leitora. Alguém que, sem que eu pedisse, dedicou alguns minutos de suas férias para ler o tal conto.

a mulher que eu amo

A sucursal da Bloch, em São Paulo, ficava em uma mansão, denominada Casa Manchete, construída pelo industrial Horácio Lafer, foi moradia da família proprietária da Bloch. Segundo consta por aí, atualmente a tal casa está avaliada em R$ 96 milhões.  Isto importa, pois na época o local era tão valorizado quanto hoje. Cheguei alegrinho ao local, ressabiado com toda a riqueza da Avenida Europa, mas cheio de planos para o dinheirinho que… ironia, veio com um considerável desconto destinado ao imposto de renda!

Irritado com o desfalque, não tenho a menor lembrança do destino do tal dinheiro. Guardei a revista que depois desapareceu em uma enchente. Dona Laura, minha querida mãe, guardou um exemplar e é este, aqui registrado, documento da primeira publicação de uma carreira que, sonho ainda, venha a ser exclusivamente literária.

Até mais!

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Poema

(Manhãs nubladas sob infinito céu azul. Irreversível,
inesquecível. Entre cimento e asfalto, mantenho a poesia
alheia nesse exercício para retornar).

ceu azul

Oh! aquele menininho que dizia
“Fessora, eu posso ir lá fora?”
Mas apenas ficava um momento
Bebendo o vento azul…
Agora não preciso pedir licença a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem lá fora:
Somente cimento.
O vento não mais me fareja a face como um cão amigo…
Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.

Mario Quintana in ‘Antologia Poética”.