Contos de gente jovem

Quer saber o que pensam, como pensam, o que vai pela cabeça dos jovens? E, para isso, evitando os questionários frios, as manifestações forçadas por interrogatórios ou situações similares? Entre as possibilidades das respostas do que pensam, o que gostam, como se comunicam… Que tal um concurso de contos? O resultado é certeiro e pode ser comprovado no “V Concurso de Contos Meu Livro, Minha Arte” promovido pela Academia de Letras do Triângulo Mineiro!

Recebi uma caprichada publicação da ALTM: Antologia, com o registro do Concurso de Contos, Meu livro, Minha Arte. Além dos três primeiros lugares, há outras cinco menções honrosas e outros vinte trabalhos classificados pela comissão julgadora, formada por membros da Academia: Ani de Sousa Arantes Santos, Arahilda Gomes Alves, Gilberto de Andrade Rezende, João Eurípedes Sabino. Esta comissão presidida pelo Acadêmico Renato Muniz Barreto de Carvalho. O conteúdo vai muito além de um exercício formal de um gênero literário!

É ler os contos publicados e constatar um amplo painel humano. Há jovens sonhadores, inquietos investigadores… há os que deixam fluir a fantasia, e outros que revelam suas mazelas, suas inquietações, suas aspirações. Me vejo entre esses adolescentes e percebo neles meus conhecidos, meus sobrinhos, jovens amigos. Alguns já carregam profundas lembranças, futuros memorialistas, transmitindo faces de situações que mostram nossa cultura, nossos hábitos e tradições.

Também há romance, é claro! E investigação. E situações atávicas que revelam vidas vividas no serrado, no chapadão. Gostei de rever meus medos de infância, quando fantasmas brincalhões abriam e fechavam portas, ou quando objetos se transformavam em outros por artimanhas de sabe-se lá quem! Sobretudo, há contos que referem livros, o tema prioritário do concurso.

Espero que esses trabalhos de jovens escritores sejam lidos por muitos! Pelos pais, para que conheçam quais os caminhos percorridos pela verve criativa dos filhos; por professores, para que sintam orgulho do trabalho realizado – um leitor é aquele sujeito alfabetizado, em toda a acepção da palavra. Também espero que esses contos, material de reflexão, sejam lidos por irmãos, amigos, conhecidos dos autores que, via literatura, são vozes de todos os demais jovens com seus anseios, suas angústias, medos, desejos…

Parabenizo e agradeço ao João Eurípedes Sabino, o presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro que, em meio a essa triste pandemia, conseguiu aglutinar parcerias e colaborações, não medindo esforços para realizar o concurso. Temos na publicação mais que o registro de um evento: temos o pensamento dos nossos jovens de Uberaba que, em sua singular individualidade, expressam toda uma geração.

Parabéns aos envolvidos!

João Eurípedes Sabino, do Triângulo Mineiro para o Trem das Lives

Um encontro com o escritor João Eurípedes Sabino, Presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro acontecerá no próximo domingo, 23 de maio, 18h00, na página do Instagram do Trem das Lives. As principais obras, o lançamento da Revista Convergência e os próximos projetos literários do escritor serão abordados na live.

O CONVIDADO JOÃO EURÍPEDES SABINO

Engenheiro Civil e Engenheiro de Segurança, Perito Judicial, Professor Universitário, Auditor Fiscal do Trabalho aposentado, sobretudo João Eurípedes Sabino é um escritor. Nascido em Uberaba, Minas Gerais, onde reside e exerce a presidência da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, ocupando a cadeira n° 32, o escritor mantém uma agenda cheia, sendo articulista do Jornal da Manhã e cronista da Rádio Sete Colinas. É membro fundador e preside o Fórum Permanente dos Articulistas de Uberaba e Região.

Nascido em 1949, João Eurípedes publicou sua primeira obra em 1987: Da Pertinência e Objetividade dos Quesitos nas Ações Possessórias e de Retratação é uma importante contribuição na formulação de quesitos judiciais. Em seguida, João Eurípedes publicou uma série de livros destacando-se em poesia e prosa.

Aos 17 anos de idade descobriu que no mapa da cidade natal, algumas ruas e avenidas formam o desenho nítido de uma ave. Foi o mote para publicar, tempos depois, “A Pomba da Paz de Uberaba”. Anos de pesquisa em presídios, hospitais e institutos envolvendo andarilhos, familiares desses e encontros com alguns resultaram no livro “O Andarilho, quem é ele?”. Entre os demais livros publicados pelo autor está a biografia de José Formiga do Nascimento, o Zote, figura proeminente de Uberaba que foi descrita no livro “O Zote que eu Vi”.

Defensor ardoroso da cultura em todos os sentidos. A literatura, o meio ambiente e o patrimônio histórico, têm sido bandeiras prioritárias para ele.

Ex-membro da Sociedade dos Amigos da Biblioteca Municipal de Uberaba, João Eurípedes Sabino integrou o Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico da cidade e possui algumas condecorações, dentre elas: Diploma e medalha de honra ao mérito no Exército Brasileiro; Medalha Major Eustáquio, pela Câmara Municipal de Uberaba, em 1992 e a Medalha Comemorativa dos 150 Anos de Uberaba, pelo Poder Executivo Municipal, em 2006.

A Academia de Letras do Triângulo Mineiro e a Revista Convergência.

Fundada em 1962 por um grupo de intelectuais de Uberaba, tendo entre seus membros Mário Palmério, o imortal da ABL – Academia Brasileira de Letras, a Academia de Letras do Triângulo Mineiro vem, desde então, divulgando os escritores e obras regionais, cumprindo um papel importante e fundamental no Brasil Central.

Entre os trabalhos da ALTM destaca-se a Revista Convergência, uma das publicações oficiais mais antigas feitas pelas Academias de Letras em todo o Brasil. Nestes tempos pandêmicos teve uma edição virtual, mantendo o espírito de trabalho da entidade. A edição n° 31 será comentada por João Eurípedes durante a live.

O TREM DAS LIVES

O Trem das Lives surgiu em outubro de 2020 visando divulgar lançamentos de livros, peças de teatro e demais atividades artísticas e manifestações culturais. As lives são descontraídas, priorizando o tempo dado aos convidados, facilitando aos mesmos um espaço não comum nas mídias tradicionais. As viagens desse trenzinho ocorrem aos domingos, no Instagram, às 18h00, com duração de 1h. A divulgação é feita pelos idealizadores e convidados via Facebook, Twitter e o próprio Instagram. Os vídeos com registros das lives estão no Youtube.

SERVIÇO:

TREM DAS LIVES com JOÃO EURÍPEDES SABINO

Domingo, 23 de maio, 18h00 no https://www.instagram.com/tremdaslives/

Memorial de um irmão

Duas meninas e um menino. E mais uma menina! Dona Laura pensou que não seria bom que o garoto ficasse só. Tentou mais uma, duas vezes e as gestações não vingaram. Fez promessa. Não queria que o filho fosse só. Daria nome de Aparecido ao irmão para companheiro do primogênito. Deu certo. Penso em dois lados nessa questão… O lado preferido é o de ter sido desejado e, promessa cumprida, carrego Aparecido no nome. O outro lado… Nasci para ser irmão…

Passados tantos anos, tenho a certeza de ter nascido para ser protegido. E foi assim: ele me ensinou a jogar bola, a brincar no quintal. Ficava desolado por eu ser péssimo em futebol. E me deixava sentado à beira do campo, observando-o nas peladas de várzea de quase todas as tardes. Logo descobri que gostava de subir em árvores. Havia na extremidade oeste do campo de futebol um mangueiral, que denominávamos mangueirão. Eu gostava de subir até às “grimpas” e, na hora de descer… Tinha de aguardá-lo terminar o jogo. Não conseguia descer sozinho e ele vinha, com a paciência de Jó me trazer de volta ao chão.

Deve ter sido um saco ter tido um irmão como eu. Amanhecia e eu já saia atrás dele, querendo brincar, fazer tudo junto. De vez em quando ele se enchia e me dava uns cascudos. Mamãe resolveu a história ao modo dela. Fez com que nos abraçássemos sob cintadas – Pra vocês aprenderem a não brigar! Dali a pouco eu estava atrás dele, novamente. Outros cascudos. Minha mãe: – Você não tem vergonha. Fica andando atrás dele! Eu, não tinha. E da nossa infância ainda guardo um dia, ele exasperado por minha mãe demorar a servir o almoço e ela, sempre de maneira educativa, quebrou um prato na cabeça dele. Eu ri! E ela quebrou outro na minha, para não rir do meu irmão. Rimos os três.

Ele foi crescendo, menino bonito. Elogiado por todo o mundo. Eu era magrelo e desengonçado. Guardo comentários do tipo, “mas você é o irmão mais novo? Não parece de jeito nenhum”. Era a morte. Ele tinha cabelos negros e os meus eram castanhos, ele tinha nariz reto, o meu aquilino e os dentes! Ele tinha dentes alvos, certos, dando-lhe um sorriso encantador. Eu era e sou freguês de dentista. A pré-adolescência chegando para ele e eu ficando um pouco na infância, isolado de brincadeiras, saídas noturnas.

Com propensão à autossuficiência, bem pequeno eu o ajudava o “empresário” a coletar esterco nos campos próximos ao bairro, mas não o acompanhei quando ele foi engraxar sapatos e, em seguida, trabalhar como vendedor de uma loja. Uma briga árdua em casa com meus pais que desejavam que ele apenas estudasse, e ele querendo ser dono da própria vida, ter sua própria grana. Dona Laura querendo que ele estudasse. Meu pai Bino querendo uma vida melhor, longe do trabalho pesado. Meu irmão venceu o conflito e, resultado do acordo, foi estudar a noite.

Em casa era tudo dividido, tudo separado. Cada um com sua gaveta, sua parte no armário. Territórios a serem descobertos pelo irmão mais novo. Ele guardava revistinhas do Zéfiro no fundo da gaveta, embaixo de tudo. E eu, usufruía delas sob protestos por deixar sinais de ter mexido em coisas alheias. E houve pileques, primeiros namoros, primeiras transas que, na calada da noite, nossas camas no mesmo quarto, eram confiadas a mim. Solidificava ali uma confiança que levarei por todo o sempre, guardando aquelas e todas as outras confidências que mereci.

Além da bicicleta, dos livros, das revistinhas, eu gostava das roupas dele. Só me achava bem usando tal camisa ou camiseta. Mais conflitos! Não me recordo a briga, mas ela ocorreu e o resultado foram quase dois anos de silêncio. Eu já era adolescente! E como todo insuportável ser nessa idade decidi que não falaria mais com ele que, nesse ínterim, foi embora para a Aeronáutica, em Brasília. Guarda presidencial. Andando pra cima e pra baixo fazendo a segurança do sujeito da época. Tempos depois, sob muita conversa e mais conflitos, ele deixou a carreira. E contava, só em momentos ensimesmado, de ataques sofridos pelo quartel, os tiroteios noturnos enquanto ele, de uma guarita, atirava em alguém sem saber o porquê. Foi nesse período em que ele morava no Distrito Federal que voltamos a conversar. Uma visita aos familiares – era um mês de maio! – e ele veio passar o aniversário com uma família. Queria encontrar-se também com uma namorada de ocasião. A visita de um primo causou o impasse, já que esse viera para passear com meu irmão. Este me pediu para fazer companhia ao primo. Voltamos e nunca mais deixamos de nos falar.

Chegamos a momentos que são mais dele que meus. E guardarei discrição. Ele saiu de Brasília, ficou pouco tempo em Uberaba, um outro período em Ribeirão Preto e, por fim, se estabeleceu em Campinas. Em Ribeirão Preto conheceu a esposa, Mércia, casou-se e teve dois filhos, Ruchela e Rulian. E sem descuidar da família, continuou cuidando de mim.

Em São Paulo eu começava a vida artística. Era uma pauleira, mas meu irmão estava sempre do meu lado. Eu gostava de cantar e fui me apresentar em um festival. O Teatro Municipal de Santo André, no ABC, estava lotado e, sendo chamado, entrei no palco fingindo uma segurança que era pura fachada. Vi ao fundo, na plateia, meu irmão liderando uma torcida que era feita de amigos nossos, meus e dos compositores. E não pude conter o riso quando ele ouviu os acordes e calou a torcida no grito: – Calem a boca que ele vai cantar. Ganhei melhor intérprete!

Sempre morando em Campinas, ele vinha frequentemente a São Paulo. Chegava aonde eu morava e já descia com a caixa de ferramentas em mãos. Consertava fiação, encanamento, rebocava um buraco… Quando fui atropelado, em menos de uma hora ele estava ao meu lado. Quando me acompanhava em passeios noturnos, mantinha silêncio sobre os ambientes, o “povo doido” com quem eu andava. Era meu fiador e acompanhava as tretas para conseguir alugar um local para morar. Um dia decidiu: – Vou comprar um apartamento para você morar. Depois você me paga. E foi assim.

Depois do apartamento que comprei sem garagem, pois não gostava de carro e não queria dirigir, comprei um carro (geminiano!) e aos finais de semana ele vinha me ensinar a dirigir. E, também, cuidava do carro. Ficava atento para que eu pagasse impostos em dia, cuidasse dos freios, balanceamento de pneus… – Tá na hora de trocar esse carro! E eu, seguia o que ele determinava. Por conta do receio de minha mãe das enchentes frequentes em São Paulo e por eu não saber nadar, ele me deu uma boia. Eu andava por todo lado com a boia no banco traseiro e, era fatal, ao parar no semáforo vinha um garoto: – Moço, me dá essa boia!  E eu via o olhar incrédulo com minha resposta: – Não posso, não sei nadar!

Dessas linhas loucas traçadas pelo destino, eu precisaria do carro para conduzir meu irmão durante sua doença. Não sei por quantas vezes saí daqui de São Paulo para ir a Campinas e, de lá, rumar para Uberaba, onde meu irmão se tratou de um câncer e onde veio a falecer. Foram momentos difíceis, mas então já sabíamos estar em silêncio um ao lado do outro. Muito antes da doença eu já passara por longas horas silenciosas ao lado do meu irmão. Sabíamos pelo olhar ou pelo tom de voz quando estávamos tristes, alegres. Nas primeiras horas de toda e qualquer viagem tínhamos conversas acaloradas, colocando as coisas em dia. Quando tristes, nos calávamos, compreensivos e cúmplices.

Hoje meu telefone não toca quando o Corinthians ganha. Não tem mais aquela chamada sem fala, só com o hino do Timão para me fazer engolir a vitória do rival. Hoje, quando ouço Martinha, lembro da rivalidade que tínhamos, pois eu sempre gostei da Wanderleia. Me senti absolutamente desamparado quando ele faleceu. E fui aprender a fazer imposto de renda, a comprar e vender carro (um desastre!), a seguir minha vida com a presença da lembrança, cotidiana, às vezes suave, outras vezes intensa.

Eu tive um irmão mais velho. Valdonei. Ele teve uma vida diversa com cada uma das minhas irmãs e que, penso, sejam elas que devam contar, se quiserem, como foi. Sei que era um carinho especial pela Waldênia, um jeito de resolver coisas com a Walcenis, uma cumplicidade enorme com a Walderez e, com o Wander, ele foi pai, assim como foi comigo.

Eu tenho um irmão mais velho. Tão pai quanto meu próprio pai. E se recordo cada detalhe (tantos e tantos!) é por saber e constatar que tudo o que vivemos é maior que a tristeza, a saudade, a ausência, a morte. O que vivemos é lastro que me leva, fazendo com que eu encare a vida com serenidade e alegria. De vez em quando a tristeza bate pesado, mas é rebatida com lembranças como essas que, espero, sejam dignas dele, que faz aniversário neste 03 de maio, meu irmão, Valdonei Vinagreiro de Resende.

O Ridico e o Lambrecado

Felicidade é não ser ridico e lambrecar o prato

O cérebro, que desconhece os limites do ir e vir, leva-nos para muito além do espaço e do tempo e, para isso, enche nossas noites de sonhos. Tempos de reclusão imposta ao corpo, dei de sonhar com gentes da minha infância, cenários já desfeitos por reformas e mudanças. É incrível a quantidade de imagens reservadas na tal massa cinzenta e que, imprevisíveis, brotam sabe-se lá por qual motivo nessas noites pandêmicas. Eu que não vou tirar emprego dos discípulos de Freud. Ocorre que, lembrando ao acordar de sonhos recentes, com esses emergem palavras lá das profundezas das memórias. Algumas, voltei a usar.

“Me lambrequei todo!” Disse irritado após um acidente na cozinha quando, tentando socorrer uma tampa que caia, deixei uma vasilha cheia de gororobas sujar minha barriga, minhas pernas, o chão. “O que aconteceu?” Acudiu-me o Flávio e eu, irritado: “Tô todo lambrecado!”. Ele riu, já meio que habituado às estranhas palavras que tenho usado. “Você inventou essa palavra”. Claro que não, lá em Minas, na infância, a gente usava direto. Lambreca, lambança, lambuzado… E a memória se fez presente.

Um dia deixaram Walcenis, minha irmã, tomando conta dos sobrinhos. Dois, três? Com certeza, dois sobrinhos e nosso irmão caçula. Logo, no mínimo três crianças. Lá pelas tantas, uma delas encheu as fraldas no que resulta na plenitude da palavra em questão: “Ela ficou toda lambrecada de merda”! Eram sobrinhos, minha irmã não tinha traquejo nem a sina das mães em resolver tal problema e o jeito foi apelar pedindo socorro à D. Doralva, nossa vizinha que, prontamente, deu banho na criança feliz e aliviada.

Antes de entrar na segunda palavra, ridico, cabe uma digressão. Eu já pesei 55kg! Em priscas eras, com 1,84m eu era muito magrelo. Foi marcante ligar para Uberaba e dizer para minha mãe: “- Estou pesando 56kg!” Ela festejou e o tempo passou. Corre por aí que, com a idade, a gente engorda um quilo por ano. Soma-se à idade comilanças durante a pandemia e… Me descubro com 96kg.  E constato que lá se vão  uns 41kg, ops,  anos de quando liguei para Dona Laura.

96kg não seriam problemas se a distribuição desses não fosse cruel. Certamente, de todo o peso adquirido a maior parte está concentrada na pança (palavra adequada para a atual situação). A gente segue a vida, de bermuda e camiseta, até o momento em que se faz necessário usar uma calça comprida e… uma, duas, três, quatro calças destinadas para doação por excesso de cintura do dono. Bora retomar antigos hábitos e assumir um regime.

Hora da refeição peço ao Flávio (ele, de novo!) para abastecer meu prato. O dito cujo come feito um passarinho e eu, justificando meu apelido palmeirense, encho o prato feito um porco. Ao pedir ao jovem esguio e equilibrado para me servir sei, por experiência de vida, que ele naturalmente diminuirá as minhas porções de refeição. Entusiasmado com a função ele, ao invés de uma colher de arroz, por exemplo, passou a me servir meia colher. “Ridico!”

O embate estabelecido entre a gula e o comedimento resultou no conflito exposto com a palavra vinda lá da infância: Ridico. Ele riu e corrigiu: “- Ridículo?” “Não, ridico mesmo, você está ridicando comida!”. Nova acusação de estar inventando palavra e, confesso, a dúvida bateu. Será que existe “ridico” ou só a gente falava assim? Antes de ir ao dicionário apelei para o argumento de “autoridade”: nós mineiros falamos assim. E o cara me olhou com aquela expressão de “tá inventando coisa”. Pois bem, está lá, bem claro. Ridico: avaro, sovina, mesquinho. Ele sorriu com a definição e sentenciou: “Você que pediu!”.

E assim estou eu, tentando comer menos e evitando me lambrecar. Poderia terminar falando do incrível universo dos sonhos que, de quebra, levam-nos a lembrança de palavras e expressões tão antigas quanto nossa memória. Prefiro reclamar: Estou com saudade de um bom pedaço de pudim, mas o ridico – exímio chef de pudins – disse que engordarei quatro kg com a iguaria. Vida difícil!

Viagem Nº 2

Oh tristeza, me desculpe

Estou de malas prontas

Hoje a poesia veio ao meu encontro

Já raiou o dia, vamos viajar

               Estava aqui, com meus botões já gastos de tanto confinamento e, de repente, deixei a memória ir longe, onde tudo é possível. Com jeitinho, tudo é até melhor, mais bonito, mais saudável. Benditas lembranças que nos permitem ir para onde a gente bem quiser. E viajar está, desde sempre, entre as coisas que mais gosto. Pode ser para logo ali, ou lá, mais além-mar. No final da estrada, onde Judas perdeu as botas. Nos cafundós desse Brasil imenso…

Vamos indo de carona

Na garupa leve do vento macio

Que vem caminhando

Desde muito tempo, lá do fim do mar

               O vento me leva para a estrada, pela Via Bandeirantes, e só me sinto saindo de São Paulo quando passo pelo Pico do Jaraguá. Começam a surgir mesmices reflorestadas, mas verdes, plenas do verde e, em dias bons, do perfume de eucaliptos. Pensamento recorrente, ressinto-me da falta de verde e a memória me joga lá pra adolescência, em Uberaba, quando pegava a bicicleta e ia pra zona rural (Na época era zona rural). Passava o posto da Fepasa de Amoroso Costa e entrava no corredor de gado, passando por Rodolfo Paixão e sempre parando em encruzilhada, para onde era só mato, descansando e meditando sobre… nada.

Vamos visitar a estrela da manhã raiada

Que pensei perdida pela madrugada

Mas que vai escondida

Querendo brincar

               Minha estrela está além da Bandeirantes, entrando pela Via Anhanguera afora até atravessar o Rio Grande e entrar em terras de Minas. O percurso é longo e, sem pressa, vou degustando a viagem. Nem passei por Jundiaí! De um lado da estrada a cidade, e do outro, fazendo uma linha com o horizonte, um campo de aviação onde é possível ver aviões decolando ou pousando. Aviões ínfimos se comparados aos maiores que, daqui a pouco, serão vistos à esquerda de quem sai de Sampa. Descem e sobem no rumo de onde deve estar Viracopos, onde trabalhei e depois, muito tempo depois, voltei como passageiro.

               Escolho deixar a Bandeirantes e entrar no primeiro trevo da Anhanguera, em Campinas. Penso nos meus avós, nos meus tios e sigo em frente. Passo pelo que restou da Bendix, onde trabalhei e, no lado oposto ao da empresa, vejo ao longe o bairro onde morou minha prima Dalva. Há muito não vou por lá.

Senta nessa nuvem clara

Minha poesia, anda, se prepara

Traz uma cantiga

Vamos espalhando música no ar

               Antes que Campinas fique para trás vem forte a lembrança de meu irmão. A entrada da Via Dom Pedro (nunca sei se é primeiro ou segundo) sai em direção ao bairro onde Valdonei morou. Sinto saudade e vou rezar por ele quando passar em frente à Igreja de Nossa Senhora Aparecida, que lá atrás o Pe. Líbero não quis como paróquia por estar isolada, muito isolada. Ela está próxima de escombros do que um dia foi a fábrica de óleos Minasa, onde também trabalhei. Por seis meses! Esse pedaço da estrada pesa um pouco. Melhor tocar em frente.

Olha quantas aves brancas

Minha poesia, dançam nossa valsa

Pelo céu que um dia

Fez todo bordado de raios de sol

               Deixo a mente vagar e só vou atentar para outra fábrica, de cachaça, em Pirassununga. Meu padrinho Nino era chegado em pinga. “… Porque gosto dela, bebo da branca, bebo da amarela, com limão, cravo e canela…” Em Pirassununga ele cumpriu obrigação de jovem, no exército. Meu pai gostava de atirar, se destacou em tiro ao alvo, no exército. Eu gosto de exército circunscrito ao exército, se estou sendo bem claro.

Vai demorar um bocado pra chegar a Ribeirão Preto. O reflorestamento ainda aborrece, mas já consigo ver resquícios de mata ciliar, de montes cobertos por… quem sabe, mata original. Há um imenso aclive no que pessoalmente chamo de Serra de Santa Rita. São quatro quilômetros de subida que sempre, na volta, descíamos na banguela economizando gasolina. E nem estava no preço que está hoje! Logo passarei por Cravinhos e por Ribeirão Preto.

Oh poesia, me ajude

Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias

Pelos campos verdes

Que você batiza de jardins-do-céu

               A Via Anhanguera tornou-se uma longa marginal que atravessa Ribeirão Preto. Em direção a Minas fiz todo o trecho que vai do trevo principal, entrada para a cidade, até o viaduto da Fepasa, sobre a estrada que, quando eu era criança, ficava em pleno mato. Duas caminhadas memoráveis:

Com papai e mamãe saímos de trem de Uberaba para Ribeirão Preto. A estação de trens era bem nova, mas estava no meio do mato. Por indicação da minha tia Olinda, descemos do trem e caminhamos pelos trilhos (quem está na estação de Ribeirão Preto é sentido Campinas) até o tal viaduto, descendo deste até a estrada e, mais uma boa caminhada, até chegar à Vila Abranches.

Dessa mesma Vila, outra vez saí com meu primo, caminhando pela estrada em direção oposta, até o trevo (na época era o único) e, entrando para a cidade, passávamos por uma fábrica de bolachas, de onde sempre vinha um cheiro delicioso de coisas assadas. Uma caminhada tranquila, interrompida por um temporal de verão. Entramos ensopados pela cidade e, como dois bons adolescentes, tomamos rumo da Praça XV de Novembro onde não tomamos chopp do Pinguim, mas tomamos sorvete sentados nos bancos da praça.

Mas pode ficar tranquila, minha poesia

Pois nós voltaremos numa estrela-guia

Num clarão de lua quando serenar

               Nunca mais voltei. A cidade passou a ser um ponto por onde vou ou volto. Passando pela Vila Abranches recordo canções ouvidas na infância, leite tomado quentinho, ouvindo o barulho dos animais todos da chácara de D. Dina. A estrada pede caminho, ir em frente, vou passar pelo Rio Pardo e olhar em direção a Jardinópolis, por onde gostava de passar quando viajávamos de trem. Em Orlândia, inevitável, vou recordar uma viagem com Tia Amélia, para visitar meus padrinhos Toninho e Rosária, queridos, muito gentis. Em São Joaquim da Barra passo por uma placa que anuncia faltarem 100 quilômetros para Uberaba. Dependendo do motivo da viagem rola desespero ou alívio…

               Pioneiros é um local que um dia foi chamado de Bacuri. Fica logo após São Joaquim da Barra e é um lugar da maior importância. Lá nasceu minha mãe, Laura, batizada no município vizinho. Não é o momento de entrar e rever as velhas casas que restaram da extinta estrada de ferro que, atualmente, passa longe dali. Passando por Buritizal já me sinto próximo de coisas de Guimarães Rosa. Minas está perto.

Ou talvez até, quem sabe,

Nós só voltaremos no cavalo baio

O alazão da noite

Cujo o nome é raio, raio de luar.

               Já estou ansioso e não vejo a hora de atravessar o Rio Grande, quando nunca deixei de pensar: cheguei! Minas tem um cheiro, um ar… Minas tem as montanhas, e logo após o Rio começa um brincar de montanha russa, com um sobe e desce de responsa. A memória, bendita memória. Essas longas subidas e descidas me lembram Beto Rockfeller, o inesquecível personagem interpretado por Luís Gustavo. Pra fazer firulas com a namorada, o Beto apostou que chegaria de helicóptero em uma festa. Para conseguir a aeronave, alegou aos proprietários que precisava levar um doente para Uberaba. Aquele sobe e desce horrível da estrada tinha que ser evitado e, para isso, só voando. Conseguiu.

               São angustiantes os minutos que antecedem passar pelo Catetinho, um antigo restaurante atualmente em ruínas. Às vezes parecem eternos, o trecho longo demais, enlouquecedor de tão longe. E o pior é ter a certeza de que, quando na volta, passará rapidíssimo, aumentando o distanciamento da cidade amada. Mas passo pelo Catetinho, logo, logo, por uma ponte sobre a estrada de ferro, e aí não tem mais lero-lero. Estou em Uberaba.

Vamos visitar a estrela da manhã raiada

Que pensei perdida pela madrugada

Mas que vai escondida

Querendo brincar

Já sinto cheiro de café, pão de queijo, bolo… Sinto o calor de abraços, a ternura de beijos.

Estou com meus sobrinhos, meus irmãos, meus pais… Bendita memória! Benditas lembranças!

Com licença, tá na hora de curtir a família.

Até mais.

Notas:

Viagem (a número um, letra que me inspirou aqui) é canção de João de Aquino e Paulo César Pinheiro. Convido você, leitor, a ouvi-la na interpretação de Marisa, a Gata Mansa.

Para Uberaba, aqui de longe

Sei que ainda vou voltar… onde hei de ouvi cantar uma sabiá (Chico Buarque, Tom Jobim)

Um ano sem ir a Uberaba (maldita pandemia!). Toca a viver de lembranças…

E eu sinto uma saudade insana da estrada, da sensação de voltar, chegar na cidade onde nasci.

As primeiras saídas, tentativas de mudança foram confusas. Era um querer vir, não querendo, diria a personagem popular. Era comum viajar chorando, o rosto escondido, olhando a noite pela janela do ônibus. A juventude garantia ânimo e força para voltar na semana seguinte. Era o ir e vir constante, gerando sextas-feiras de ansiedade, segundas-feiras de cansaço.

São Paulo e a vida, aos poucos, exigindo outras posturas. E de uma vez por semana, passei a visitar a cidade uma vez por mês. Não contabilizei o tempo. Mas o trabalho foi exigindo e, aos poucos, a vida mudando… Uberaba passou a tomar todos os feriados.

Tempo, tempo, tempo… E chegou o período de ir só nas férias, em aniversários especiais, visitas a doentes. Nunca mais que quatro meses sem visitar a cidade. Não pensava, nunca cogitei de ficar distante um ano inteirinho.

201 anos! O ano que não vi. Um ano!

Ano passado era pra ter sido uma festa enorme, a gente comemorando o bicentenário da cidade com lançamento do Uberaba 200 anos – No Coração do Brasil, “Euzinho” lá, entre os poetas da cidade no livro organizado por Martha Zednik de Casanova.

Foi o que tinha de ser.

Hoje acordei após sonhos. Nesses, estava lá, como em muitos outros. Esta quarentena infinda não manda nos meus sonhos. E o bom de sonhar é que o tempo não conta. Vejo meu quintal como há muito não é mais, com goiabeira, laranjeira, mamoeiro, jabuticabeira… Sonho com o quarto que dividi com meu irmão e que, após ele se mudar para Brasília, pintei todos os móveis de preto, para desalento da família (Eu era dark e não sabia!). Sonhos… Minha cidade dentro dos meus sonhos.

Uberaba! Tá na hora de pedir versos emprestados a Caetano Veloso:

“por mais distante, o errante navegante, quem jamais te esqueceria…”

A pandemia ainda está aqui, aí, em todo o Brasil. O que deveria ser festa pede apreensão, cuidado dobrado. Recebo notícias de minhas irmãs, trancadas sem que sejam Carmelitas, Concepcionistas. Não vão ao Carmelo, à Medalha Milagrosa. Não vão a lugar nenhum. E, daqui, reitero: Não saiam! Tomem cuidado! A vacina taí!

“por mais distante, o errante navegante, quem jamais te esqueceria…”

Por mais que vivamos tempos sombrios, ninguém vai nos tirar os sonhos, os desejos. Por isso lá vai meu desejo maior neste 02 de março:

Feliz aniversário, Uberaba! Que todos tenham saúde!

Que todos os doentes se curem! Que todos sejam vacinados.

Que possamos estar juntos novamente, presencialmente!

Feliz aniversário, Uberaba!

Meu livro, minha arte: Os vencedores!

De Uberaba recebi, e divulgo com prazer, o resultado da quinta edição do Concurso de Contos “Meu livro, minha arte”, promovido pela Academia de Letras do Triangulo Mineiro.

Os vencedores em frente à sede da ALTM (Foto: divulgação)

Ato solene revestido de todos os cuidados e distanciamentos prescritos para a prevenção da COVID-19, a Academia de Letras do Triângulo Mineiro – ALTM – entregou, em sua sede, os prêmios aos vencedores do Concurso de Contos. Os três primeiros colocados receberam prêmios em dinheiro a saber: 1º lugar-Júlia Cardoso e Silva(R$ 2.000,00), 2º lugar- Raul Borges Puertas (R$ 1.500,00) e 3º lugar- Rebeca Nobre Torres Macena(R$ 1.000,00). Outros cinco participantes receberam Menções Honrosas por terem também apresentado trabalhos de excelente qualidade literária.

Ressalta João Eurípedes Sabino, Presidente da Academia que o nível do certame não ficou a dever a nenhum outro do gênero, uma vez que apresentaram 167 concorrentes, alunos do 8º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio das escolas públicas e particulares de Uberaba. Esse é um alto índice para a modalidade da escrita, qual seja, conto literário.

A sede da ALTM em foto de arquivo pessoal.

Para Gilberto de Andrade Rezende, tesoureiro, acadêmico e membro da Comissão Julgadora também presente, os jovens participantes do Concurso têm um futuro promissor diante do pendor literário demonstrado em todos os trabalhos.

A ALTM irá publicar uma coletânea dos contos vencedores e apoiará os jovens escritores na materialização de seus projetos literários.O ato solene foi revestido de todos os cuidados e distanciamentos prescritos para a prevenção da COVID-19.

Parabéns aos vencedores e aos organizadores.