Poema

(Manhãs nubladas sob infinito céu azul. Irreversível,
inesquecível. Entre cimento e asfalto, mantenho a poesia
alheia nesse exercício para retornar).

ceu azul

Oh! aquele menininho que dizia
“Fessora, eu posso ir lá fora?”
Mas apenas ficava um momento
Bebendo o vento azul…
Agora não preciso pedir licença a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem lá fora:
Somente cimento.
O vento não mais me fareja a face como um cão amigo…
Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.

Mario Quintana in ‘Antologia Poética”.

Lusitânia no Bairro Latino

(Terra encantada… Sempre longe, nunca saí de lá.
Agora,novamente, navego na poesia alheia nesse
exercício para retornar).

igreja de santa rita

…Ó minha
Terra encantada, cheia de sol,
Ó campanário, ó Luas-cheias,
Lavadeira que lavas o lençol,
Ermidas, sinos das aldeias,
Ó ceifeira que segas cantando,
Ó moleiro das estradas,
Carros de bois, chiando…
Flores dos campos, beiços de fadas,
Poentes de julho,poentes minerais,
Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!

Que é feito de vocês? Onde estais, onde estais?

Antônio Nobre in ‘Poesia Simbolista / Literatura Portuguesa’

A Aurora da Minha Vida

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Foi há tanto tempo! Aurora era uma matriarca grave, ciente de sua condição de condutora familiar. Esbanjava força, ternura e, sendo mulher, tinha lá suas artimanhas cotidianas.

Na aurora da minha vida, quando minha mãe, Laura, visitava constantemente a tia e madrinha, era no colo de Aurora que ouvi as primeiras radionovelas. Dessas não me recordo. Sei que o colo era bom e, para permanecer sob tal aconchego eu permanecia silencioso até adormecer, sendo levado de volta pra casa nos braços de minha mãe.

Um dia veio a sentença. Aurora, com seriedade e forte sotaque português anunciou: “- Cido, se não deixares esta chupeta não sentarás mais no meu colo!”. Apenas ela e mamãe chamaram-me assim: – Cido!

Na manhã seguinte, antes mesmo de tomar o café, ou comer qualquer coisa, o Cido saiu da cama direto para o quintal. Abriu uma pequena cova e enterrou a chupeta sob olhares preocupados e uma segunda sentença da mãe: “- Se você chorar por conta da chupeta, vai apanhar!” Não apanhei.

Ainda era pequeno, ainda não estava na escola quando fizemos uma viagem; Mamãe, Tia Aurora e eu. O trem da Mogiana levava doze horas de Uberaba a Campinas. O dinheiro não sobrava e era comum levar lanche para substituir refeições. Não me recordo da contribuição de minha mãe para o lanche coletivo. Entre vários tipos de sanduiches e bolos, a Tia Aurora levou pão com ovo frito, que eu abominava sem nunca ter comido. A Tia, firme e terna, colocou-me a seu lado dizendo à minha mãe: “- Está gostoso! Comigo ele vai comer”. Comi e esta é minha primeira lembrança quanto ao paladar. Estava muito gostoso.

Enquanto Tia Aurora residiu em Uberaba fiz visitas constantes. Ia todas as tardes e ficava lá, no meu canto, enquanto ela cuidava de seus afazeres. Depois mudou-se para Campinas, no interior de São Paulo, e aos vinte e poucos anos fui hóspede dela.

Tia Aurora gostava de contar histórias, de lembrar fatos. Eu gostava de ouvi-la. Ela cuidava de mim com desvelo e atenção incomuns. Trabalhando em uma companhia aérea eu cumpria um rodízio insano, raramente permanecendo mais que três dias no mesmo horário. Colava a tabela com os horários ao lado da cabeceira da cama e não sei quantas vezes despertei com a tia olhando atentamente, sem saber ler, quando deveria preparar minha refeição, invariavelmente acordando-me para não perder o café. Aos sábados, quando eu trabalhava durante a madrugada, ela não permitia barulhos em casa, para desespero dos primos que queriam ouvir música ou fazer faxina: “-O Cido está dormindo!”.

Ela voltou para Uberaba; eu me mudei para São Paulo. Foi morar com a filha caçula, Dulce, e quando esta anunciava minha chegada a Minas, Tia Aurora acordava cedo, arrumava-se e, toda bonita, ficava me esperando. Foram nossos últimos encontros neste plano. Desde então ela me visita em sonhos. E foi em um desses, há muito tempo, quando pensei em morrer que ela me apareceu, jovem como nunca a vi, com seu jeito grave e terno, sentenciando mais uma vez: “- Cido, ainda não é a sua hora.” E conduziu-me por um corredor imenso, onde se ouvia uma bela canção.

Hoje vivo tranquilo, carregando saudades da Aurora e da aurora da minha vida. Gosto de viver e procuro conviver serenamente com o ocaso; o fim que, espero, seja passagem. É esta fé que me garante momentos amenos para quando chegar minha hora pois, dizem, espíritos de luz e guias amigos vêm para nos conduzir durante a travessia. Entre esses, tenho certeza, estará Tia Aurora, sentenciando-me como sempre: “-Dê-me sua mão, Cido! Vamos para casa”.

Até mais.

 

 

Nota: A Aurora da minha vida é Aurora Domingues Feiteiro. A outra aurora é verso do poema “Meus oito anos” de Casimiro de Abreu.

 

Joubert, Maringá e Ramiro

Desconheço atualmente  o quanto Joubert de Carvalho é lembrado nas salas de aula uberabenses. Tive a sorte de ter Maria Ignez Prata como professora e foi ela que nos ensinou a cantar “Maringá”. Faço parte de uma geração que aprendeu também a respeitar e ter orgulho desse compositor que, nascido em Uberaba, imortalizou-se com uma obra plena de brasilidade.

Maringá lembra as secas terríveis que assolaram nosso país e que obrigaram milhões de brasileiros a abandonarem a própria terra, retirantes que deixaram família e amores em busca de melhores oportunidades. Com graça e leveza, Maringá sintetiza a história de muitos.

Extensa, a obra de Joubert de Carvalho aborda outros aspectos. Desde 1930 que não há carnaval sem “Pra Você Gostar de Mim”, a Taí de Joubert que tornou Carmen Miranda nacionalmente conhecida. O compositor teve parceria notável com o poeta Olegário Mariano em “Maringá!”. Também “Cai, cai, balão” e “Tutú Marambá” estão entre os poemas tornados música, estabelecendo a parceria que ainda fez outro marco na canção brasileira, o cateretê “De papo pro ar”, que aprendi a amar na voz de Inezita Barroso.

Não sei quando soube da existência da cidade, a Maringá do Paraná, que assim foi chamada por conta da música de Joubert de Carvalho. Está no dicionário Cravo Albin: “”Maringá”, era muito cantada  pelos caboclos que desbravavam a mata virgem para  construir uma nova cidade no  Paraná, e quando a Companhia de Melhoramentos do Norte reuniu-se para  definir o nome que seria dado à cidade, a Sra. Elisabeth Thomas, esposa do presidente Henry Thomas, sugeriu que a composição desse nome à cidade”.

Sempre pensei em conhecer Maringá. Entretanto, meu trabalho chegará primeiro. A peça “Um presente para Ramiro” fará temporada na cidade com doze apresentações (Ver abaixo os locais, datas e horários). Nossa produção está fazendo um trabalho primoroso e o trabalho já está sendo divulgado em jornais locais, emissoras de tv e, também, por personalidades da cidade via redes sociais.

UM PRESENTE PARA RAMIRO 2 - DNG
Conrado Sardinha (Ramiro) Roberto Arduim (Miguel) e Isadora Petrin (Valentina) em registro de João Caldas Filho.

Sendo uberabense, não tenho o talento de Joubert de Carvalho, mas garanto a qualidade de meus parceiros nas canções, nos figurinos, cenário e demais aspectos da montagem e produção da peça, assim como estou representado por uma trupe de atores formidáveis. É por isso que, acredito, algumas crianças maringaenses gostarão de Ramiro tanto quanto vários meninos mineiros se apaixonaram pela moça Maringá, tão bonita que virou cidade.

Até mais!

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Ao centro, Neusa de Souza e Rogério Barsan completam o elenco da peça. Foto: João Caldas Filho.

UM PRESENTE PARA RAMIRO

(Peça em um ato de Valdo Resende)

– PROGRAMAÇÃO EM MARINGÁ – PR

18/11 – Parque do Ingá – 10h30 e 15h

19/11 – Teatro Reviver – 10h e 15h

20/11 – Casa da Cultura Alcidio Regini – 10h e 15h

21/11 – CEU das Artes – 13h30 e 15h

22/11 – FLIM (FESTA LITERÁRIA DE MARINGÁ) – 9h30 e 14h

23/11 – FLIM – 9h30 E 14h

 

A entrada é franca. “Um presente para Ramiro” é uma realização da Kavantan & Associados – Projetos e Eventos Culturais, com patrocínio da Visa e da Lei Federal de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura e do Governo Federal e apoio da Secretaria Municipal de Cultura.

Uma Estreia em Sapopemba

 

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Neusa de Souza, Roberto Arduin, Conrado Sardinha, Rogério Barsan e Isadora Petrin. Foto: João Caldas

Dia 12 próximo vamos estrear UM PRESENTE PARA RAMIRO em Sapopemba. São Paulo é uma cidade imensa e, por exemplo, só estive uma única vez em Jaçanã, nunca estive no bairro Cangaíba e o Grajaú continua sendo, na minha cabeça, citação de canção interpretada por Carmen Miranda. Não conheço o Sapopemba e lá vou eu, certamente “com a roupa encharcada, a alma repleta de chão”.

Eu estava com 26 anos quando Milton Nascimento gravou Nos Bailes da Vida, a belíssima canção feita em parceria com Fernando Brant. Tateando profissionalmente eu tinha um imenso desejo: seguir firme no propósito de que “todo artista tem de ir aonde o povo está”.  Havia começado assim, lá em Uberaba, com o grupo da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, quando comecei a fazer teatro. Meu primeiro palco foram mesas encostadas umas nas outras e, tempos depois, percorríamos os bairros da cidade no Circo do Povo.  Depois vim para Santo André, no ABC, e o destino quis que meu primeiro trabalho fosse em palco e plateia improvisados na Vila Luzita.

Minha trajetória teatral tem estreias incomuns se considerarmos a carreira de autores e diretores nacionais. Sapopemba entra no capítulo em que já se encontram outras localidades.

Castanhal, no Pará, fica a 68 quilômetros da capital, Belém. E foi lá a estreia de VAI QUE É BOM, O CASAMENTO DO PARÁ COM O MARANHÃO, peça que fez extensa temporada em cidades dos dois estados do título.

Prata, no Pontal do Triângulo Mineiro, foi a cidade que recebeu a estreia de “O ATAQUE DOS TITANOSSAUROS”, abrindo a série de estreias do Arte Na Comunidade 2, com textos que escrevi, dirigindo montagens também em Canápolis, Ituiutaba e Monte Alegre de Minas.

Do litoral guardo com carinho um local aparentemente inusitado, a Casa de Frontaria Azulejada, onde estreamos “NENÊ CAMBUQUIRA, UM MINEIRO EM SANTOS” e depois fomos para praças públicas e escolas dos municípios de Praia Grande, Guarujá, São Vicente, Cubatão e, claro, a própria Santos. Em cada cidade uma estreia, um espetáculo diferente.

Pará, Maranhão, Minas Gerais, Baixada Santista, Vale do Paraíba… Sempre com Sonia Kavantan! Em projetos como o Arte na Comunidade há uma viagem preliminar, onde fazemos reconhecimento básico dos locais onde poderão ocorrer nossas apresentações. Com Sonia já estive em uma pequena cidade onde, sem restaurante, viajamos 50 quilômetros para um simples almoço. De outra feita, recordo a estradinha entre a linha de trem e o Rio Paraíba, uma ponte sobre o rio e, no outro lado, um salão onde encerraríamos o nosso trabalho na região. As estreias, no Vale do Paraíba, ocorreram em salas de aula das cidades de Cruzeiro, Lavrinhas e Queluz.

São muitos os teatros na região central da cidade e na Bela Vista, onde moro, há quantidade suficiente para que alguns entusiastas a chamem de Broadway Paulistana. Tendo já me apresentado na vizinhança, nunca estreei no Bixiga. Sabe-se lá o que nos reserva o futuro, por enquanto nosso destino é a Fábrica de Cultura de Sapopemba (R. Augustin Luberti, 300 – Fazenda da Juta, São Paulo – SP).

Sonia Kavantan, ao que tudo indica, não pensa em parar e muito menos eu. Para onde iremos da próxima vez? Deixa a resposta para depois. Toda nossa energia agora vai para Sapopemba! Para lá irão Rogério Barsan e Conrado Sardinha, com quem já dividimos outras praças e palcos e, também, Roberto Arduin, Neusa de Souza e Isadora Petrin, novos companheiros de jornada. Em Sapopemba cantaremos canções de Flávio Monteiro, que começou conosco trabalhando uma canção de Milton Nascimento, esse Milton que não me sai da cabeça à cada Sapopemba da minha vida: “Se foi assim, assim será, cantando me desfaço e não me canso de viver, nem de cantar”.

Até mais!

SERVIÇO:

“Um Presente Para Ramiro” será apresentado na Fábrica de Cultura  Sapopemba, dia 12 de outubro, às 16h30. ““Ramiro, ao completar 12 anos, aprende , com a ajuda da família, que para realizar os desejos e necessidades é necessário organização e planejamento. Com muito humor e com ajuda da imaginação e da tecnologia o garoto viaja no tempo e tem um aniversário bem diferente”. Classificação livre. Entrada Franca. 290 ingressos serão distribuidos gratuitamente uma hora antes do evento. Patrocinado pela Visa, “Um Presente Para Ramiro” é uma realização da Kavantan, Projetos e Eventos Culturais, Ministério da Cultura e Governo Federal.

 

O casamento dos sonhos

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Nesse dia, Walderes lembrou-se de D. Emília?

Tanto estardalhaço pelo casamento inglês! Brigas familiares do lado da noiva, a famosa discrição da família real britânica e muito, muito fru-fru; com que roupa comparecer, como se comportar, quem vai, quem fica, pode usar joias, quem entra com a noiva e… até uma família quase esquecida, a Imperial aqui da terrinha, manifestou-se contra a união do  nobre com a plebeia.

Um mundo parado em plena manhã de sábado em terras tupiniquins e outras, além mar, para ver o enlace; aquele mundinho que adora reis e rainhas do maracatu, da primavera, do samba, da jovem guarda, da televisão, do cinema e…  of course, da Inglaterra. E eu dei de lembrar dos casamentos de D. Emília! A noiva dos melhores casamentos que frequentei na infância.

Dessas coisas estranhas dos loteamentos urbanos, a Avenida Elias Cruvinel, lá em Uberaba, onde meus pais adquiriram uma casa e para lá se mudaram quando eu tinha cerca de seis meses de vida, era bem peculiar. Corredor de boiadeiros, estrada antiga que ligava a cidade à capital, Belo Horizonte, tinha duas pistas, divididas por uma elevação central, coberta de capim, por onde passavam os postes levando luz para o bairro. Papai, volta e meia, podava o imenso capinzal que crescia em meio à avenida, para que tivéssemos visão do outro lado, um imenso terreno cercado por uma tênue cerca de arame farpado e, até onde se sabe, pertencente à D. Emília.

Ocupando praticamente todo o quarteirão, o terreno em frente à nossa casa continha plantações de ocasião; milho verde era o mais constante e no extremo oeste do terreno ficava uma pequena casa, onde morava D. Emília. Criança, não guardei muito do que os adultos diziam sobre ela. Talvez viúva ou, quem sabe, abandonada pelo marido. Era mãe de dois filhos e, desses, um morava aqui em São Paulo. Até onde me recordo, ela estava sempre sozinha.

Certamente D. Emília foi a primeira mulher vestida de noiva que vi. Guardo na memória uma mulher morena, cabelos castanhos e compridos, um sorriso largo, lindo, cheio de dentes artificiais. Todavia era um sorriso bonito, sincero, um tanto ou quanto aéreo, como se a dona do sorriso estivesse longe, muito longe, quando então resolvia se casar. Sempre me lembro da querida senhora vestida de noiva.

Meus irmãos maiores já conheciam os sinais. De vez em quando era perceptível que D. Emília estava prestes a se casar. Preparava doces, bolos, essas coisas de festa e vestia minhas irmãs como damas de honra, meu irmão como pajem. Começo da tarde, já com um alvíssimo vestido branco, uma farta grinalda de tule e, nas mãos, um pequeno buquê de flores naturais a noiva sentava-se em um tosco banco de madeira, que ocupava a frente da casinha onde morava e, sentada, viajava nos sonhos e delírios de quem sabe onde fica Pasárgada, Shangrilá e outros paraísos da imaginação humana.

As crianças ficavam ao redor da noiva. Em um momento brincando, depois impacientes, querendo provar do banquete nupcial. Após o que se supõe ter sido a cerimônia a noiva, sorridente, servia os convidados. Nós e as crianças da vizinhança. Será que Waldênia e Walcenis, minhas irmãs mais velhas, perguntaram algum dia pelo noivo? Meu irmão Valdonei, certamente adorava bolos, roscas e, tanto Walderes quanto eu, éramos os apreciadores de doces. Tenho certeza de que não importávamos quanto ao noivo, sua ausência ou o dote e as demais implicações que, agora, percebo no casamento do príncipe com a plebeia americana.

Quantas vezes vimos tal cerimônia? Não sei. Na minha memória foram várias. E depois, quando apareceram outros donos dos terrenos e limitaram a residência de D. Emília, ela não durou muito. Faleceu, provavelmente, no final dos anos de 1960.

Guardo de D. Emília o casamento como algo descomplicado e feliz. Uma brincadeira com bolos e doces em uma bela tarde de sol. Talvez estivéssemos descalços, mas recordo guirlandas enfeitando os cabelos de minhas irmãs que, certamente, têm outras lembranças além dessas.

Que o jovem casal do momento possa sobreviver ao assédio da mídia, às fofocas quanto ao vestuário, ao disse-me-disse dos convidados. Tenho cá minhas dúvidas, mas acredito sinceramente que D. Emília, em seus delírios nupciais, foi mais feliz que o herdeiro da coroa inglesa. Como estou imbuído de bons sentimentos, só me resta desejar ao casal de agora a pureza e a felicidade de D. Emília que, para muitos alienada, experimentou mais casamentos felizes que todos os reis do planeta.

Até mais.

“O Tíutio”, o nosso jornal

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Basta olhar para a imagem e o tempo, já distante, reaviva o cheiro de álcool e tinta característicos da impressão via mimeografo. Mesmo com todas as andanças, mudanças daqui e dali, ainda tenho um exemplar. É “O Tíutio” de número quatro, o jornal do Movimento de Jovens da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, lá em Uberaba, MG.

Nosso grupo, lá no Bairro Boa Vista, começou com o trabalho de outros jovens, do então chamado Movimento Mundo Novo, cujos participantes eram de outras paróquias da cidade. Estimulados pelos Padres Somascos continuamos o trabalho. Esses já estavam na paróquia desde a década anterior e guardo, com muito carinho, muito do que aprendi com o Padre Nicola Rudge, a quem chamávamos Padre Nicolau ( Com ele descobri a arte do renascimento, aprendi xadrez enquanto ouvia música erudita, em especial, a ópera italiana).

A turma de acólitos (os populares coroinhas) criado pelo Pe. Nicolau caminhou naturalmente para o grupo de jovens, assim como as meninas do grupo que nas novenas, anualmente, coroava as imagens de Maria. Outros padres, Líbero Zappone e Américo Veccia, passaram a trabalhar conosco. Américo, o Tíutio que deu título ao jornal, tinha foco em ações da pastoral vocacional e Pe. Líbero, a quem chamávamos Coronel, era o Vigário de então.

O Coronel justificava o título com “ordens” variadas. “– Vocês irão tocar violão na missa daqui a um mês!” Fátima Borges e eu, obedientes, corremos para ter aulas e no tempo exigido estávamos, trêmulos, executando acordes para que nossos amigos cantassem.  Outra ordem, mexeu com todo o grupo, cerca de 50 pessoas: “- Na próxima quermesse vocês serão os festeiros!”.  Uma revolução. Em toda a história da paróquia as quermesses eram feitas por casais experientes do bairro, com domínio e prática daquele tipo de evento. O grupo topou o desafio e fez um belo trabalho.

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O jornal – faz tempo! – não sei como surgiu, mas está no exemplar que guardo menção à grande colaboração do “Coronel”. A redação está assim descrita: “Valdo, Inimar, Luiz Albino e Ronaldo. Os desenhos foram a cargo de: Gerson”. Os assuntos? Um texto reflexivo de abertura, algumas piadas e muita brincadeira com algumas pessoas participantes do grupo. O número, último do ano de 1975, registra nome e endereço de 46 integrantes.

Já tínhamos sinais de que as coisas mudariam. Fátima Borges, por exemplo, já havia ido de mudança com a família para Goiânia. Logo eu também viria embora. E dos que constam desse velho jornal mimeografado, lamento algumas erdas irreparáveis: Ronaldo Feliciano de Assis, meu querido amigo, faleceu. Também falecidos: João Cardoso Borges e Maria Catarina Souto. Talvez outros, não sei. Muitos integrantes permaneceram lá no bairro, formaram família, os filhos já crescidos, certamente há avós entre esses jovens do Tíutio. Outros foram pra outras cidades, outros estados. E o tempo passou.

Foi em uma dessas arrumações de final/começo de ano que mostrei ao Agostinho Hermes, meu irmão Gugu, o jornal de quando éramos jovens e ele, na época menino, era acólito cuja atuação está registrada nas fotos de casamento de minha irmã Walderez. Ele impediu-me de jogar fora o velho exemplar, assim como também o texto da primeira homilia que fiz, sob as ordens do Coronel, tendo como tema a Parábola do Semeador. – É história, Vavá! Tem que registrar no blog. E aqui está.

Nosso país anda feio! Os anos de 1970 também foram difíceis: estávamos lá! Semeando esperança e nos preparando para seguir em frente. Até onde percebo, via redes sociais, ou papos pessoais, continuamos na luta. A fé pode não ser a mesma, assim como os ideais foram mudando com o tempo, mas ouso afirmar: – Somos gente do bem. E aprendemos boa parte do que somos lá, ao lado dos padres.

Os Somascos ensinaram-nos a fazer reuniões, organizar eventos, discutir textos, planejar ações de integração, discussão. Entre muitas atividades, creio, que a principal foi a discussão e interpretação de textos. Da Bíblia, dos livros de formação e de letras de canções, notícias de jornal, poesias. Um aprendizado informal, mas que certamente norteia a vida de todos aqueles que viveram intensamente aqueles anos.

Meu carinho aos padres e para todos os meus companheiros de grupo, para quem vai este texto. Meus sentimentos aos familiares por aqueles que partiram.

Terminarei registrando todos os nomes citados no jornal; um encontro virtual para lembrar tempos em que sonhávamos grande e, quem sabe, não seja este um pequeno estímulo para continuar a sonhar. No mínimo, um bocado de histórias para lembrar.

Ajair dos Reis Farias Pinto, Alcides Delfino Camilo, Anivaldo Santana, Antonio Sebastião de Souza, Antonio Sergio Manzan, Ariadina Aparecida Borges, Célio Heli Batista, Daniel Lázaro das Neves, Delcio José Matos, Dulcelane dos Santos Loureiro, Eleusa de Fátima Ramos, Getúlio de Oliveira, Gilberto dos Reis Mota, Haidee Maria Fialho, Inimar Eurípedes Santana, João Cardoso Borges, José Geraldo de Oliveira, José Humberto da Silveira, Lúcia Helena Ribeiro, Luiz Albino Gonçalves, Marco Antonio Britto, Maria Amélia Cruz, Maria Aparecida Souto, Maria Bernadete Camilo, Maria Bernadete da Silveira, Maria Catarina Souto, Maria das Graças, Maria das Graças Silveira, Maria Lucia Souto, Maria Natividade Ramos, Marilene Alves, Marilene Justino, Marina Alves Rocha, Marisa Helena Alves, Marluce Aparecida Justino, Marluce Helena de Souza, Marta Aparecida Camilo, Paulo Roberto da Silveira, Pedro Bernardino da Silveira, Pedro Delfino Camilo Filho, Ronaldo Feliciano de Assis, Shirley de Matos, Silvia Gonçalves, Tania Cristina Melo Oliveira, Valdo Vinagreiro Resende, Vanildo Portela de Jesus.

Até mais!