Lusitânia no Bairro Latino

(Terra encantada… Sempre longe, nunca saí de lá.
Agora,novamente, navego na poesia alheia nesse
exercício para retornar).

igreja de santa rita

…Ó minha
Terra encantada, cheia de sol,
Ó campanário, ó Luas-cheias,
Lavadeira que lavas o lençol,
Ermidas, sinos das aldeias,
Ó ceifeira que segas cantando,
Ó moleiro das estradas,
Carros de bois, chiando…
Flores dos campos, beiços de fadas,
Poentes de julho,poentes minerais,
Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!

Que é feito de vocês? Onde estais, onde estais?

Antônio Nobre in ‘Poesia Simbolista / Literatura Portuguesa’

Uma Estreia em Sapopemba

 

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Neusa de Souza, Roberto Arduin, Conrado Sardinha, Rogério Barsan e Isadora Petrin. Foto: João Caldas

Dia 12 próximo vamos estrear UM PRESENTE PARA RAMIRO em Sapopemba. São Paulo é uma cidade imensa e, por exemplo, só estive uma única vez em Jaçanã, nunca estive no bairro Cangaíba e o Grajaú continua sendo, na minha cabeça, citação de canção interpretada por Carmen Miranda. Não conheço o Sapopemba e lá vou eu, certamente “com a roupa encharcada, a alma repleta de chão”.

Eu estava com 26 anos quando Milton Nascimento gravou Nos Bailes da Vida, a belíssima canção feita em parceria com Fernando Brant. Tateando profissionalmente eu tinha um imenso desejo: seguir firme no propósito de que “todo artista tem de ir aonde o povo está”.  Havia começado assim, lá em Uberaba, com o grupo da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, quando comecei a fazer teatro. Meu primeiro palco foram mesas encostadas umas nas outras e, tempos depois, percorríamos os bairros da cidade no Circo do Povo.  Depois vim para Santo André, no ABC, e o destino quis que meu primeiro trabalho fosse em palco e plateia improvisados na Vila Luzita.

Minha trajetória teatral tem estreias incomuns se considerarmos a carreira de autores e diretores nacionais. Sapopemba entra no capítulo em que já se encontram outras localidades.

Castanhal, no Pará, fica a 68 quilômetros da capital, Belém. E foi lá a estreia de VAI QUE É BOM, O CASAMENTO DO PARÁ COM O MARANHÃO, peça que fez extensa temporada em cidades dos dois estados do título.

Prata, no Pontal do Triângulo Mineiro, foi a cidade que recebeu a estreia de “O ATAQUE DOS TITANOSSAUROS”, abrindo a série de estreias do Arte Na Comunidade 2, com textos que escrevi, dirigindo montagens também em Canápolis, Ituiutaba e Monte Alegre de Minas.

Do litoral guardo com carinho um local aparentemente inusitado, a Casa de Frontaria Azulejada, onde estreamos “NENÊ CAMBUQUIRA, UM MINEIRO EM SANTOS” e depois fomos para praças públicas e escolas dos municípios de Praia Grande, Guarujá, São Vicente, Cubatão e, claro, a própria Santos. Em cada cidade uma estreia, um espetáculo diferente.

Pará, Maranhão, Minas Gerais, Baixada Santista, Vale do Paraíba… Sempre com Sonia Kavantan! Em projetos como o Arte na Comunidade há uma viagem preliminar, onde fazemos reconhecimento básico dos locais onde poderão ocorrer nossas apresentações. Com Sonia já estive em uma pequena cidade onde, sem restaurante, viajamos 50 quilômetros para um simples almoço. De outra feita, recordo a estradinha entre a linha de trem e o Rio Paraíba, uma ponte sobre o rio e, no outro lado, um salão onde encerraríamos o nosso trabalho na região. As estreias, no Vale do Paraíba, ocorreram em salas de aula das cidades de Cruzeiro, Lavrinhas e Queluz.

São muitos os teatros na região central da cidade e na Bela Vista, onde moro, há quantidade suficiente para que alguns entusiastas a chamem de Broadway Paulistana. Tendo já me apresentado na vizinhança, nunca estreei no Bixiga. Sabe-se lá o que nos reserva o futuro, por enquanto nosso destino é a Fábrica de Cultura de Sapopemba (R. Augustin Luberti, 300 – Fazenda da Juta, São Paulo – SP).

Sonia Kavantan, ao que tudo indica, não pensa em parar e muito menos eu. Para onde iremos da próxima vez? Deixa a resposta para depois. Toda nossa energia agora vai para Sapopemba! Para lá irão Rogério Barsan e Conrado Sardinha, com quem já dividimos outras praças e palcos e, também, Roberto Arduin, Neusa de Souza e Isadora Petrin, novos companheiros de jornada. Em Sapopemba cantaremos canções de Flávio Monteiro, que começou conosco trabalhando uma canção de Milton Nascimento, esse Milton que não me sai da cabeça à cada Sapopemba da minha vida: “Se foi assim, assim será, cantando me desfaço e não me canso de viver, nem de cantar”.

Até mais!

SERVIÇO:

“Um Presente Para Ramiro” será apresentado na Fábrica de Cultura  Sapopemba, dia 12 de outubro, às 16h30. ““Ramiro, ao completar 12 anos, aprende , com a ajuda da família, que para realizar os desejos e necessidades é necessário organização e planejamento. Com muito humor e com ajuda da imaginação e da tecnologia o garoto viaja no tempo e tem um aniversário bem diferente”. Classificação livre. Entrada Franca. 290 ingressos serão distribuidos gratuitamente uma hora antes do evento. Patrocinado pela Visa, “Um Presente Para Ramiro” é uma realização da Kavantan, Projetos e Eventos Culturais, Ministério da Cultura e Governo Federal.

 

UBERABA, DE CÓRREGOS E RIACHOS INDOMÁVEIS

Minha querida cidade carece de atentar para o próprio nome. “Água brilhante”, “água clara”, “águas cristalinas” Yberaba! Água! Isto é Uberaba. A história da cidade está ligada ao Córrego das Lages e a história registra, por entre suas colinas existiam várias nascentes. Os mais velhos recordam córregos pelas, hoje, principais avenidas da cidade.

Lá pelas tantas – eu era adolescente – resolveram cobrir os córregos da cidade. Tentaram domar os córregos em nome de um duvidoso progresso, garantindo privilégios para carros e outros veículos e…  Ganhamos enchentes de “brinde”. Passaram-se os anos e recordo histórias de minha irmã em cima de balcão de estabelecimento comercial aguardando final de enchente, as águas escorrendo via Leopoldino de Oliveira, retomando o caminho do córrego escondido.

Recentemente uma obra gigantesca tentou solucionar os problemas das obras anteriores e ainda alardeou novidades, aproveitamentos… Muito tempo em que a cidade ficou caótica, o trânsito todo modificado pelos canteiros de obras que, com certeza, custaram milhões, muitos milhões!

Nesse último final de semana, veio a chuva, a chuva de São José! As imagens são terríveis!

enchente em Uberaba

enchente em Uberaba 2

Ao longo de muitos anos vários uberabenses gostaram da ideia de cobrir córregos e cobriram seus quintais. Quantos quintais e jardins impermeabilizados? Sem ter como escoar, sem ter por onde correr receio que as catástrofes continuarão.

E os estragos são imensos. E fico me perguntando: quanto tempo vai levar para que os dirigentes da cidade aprendam que com água não se brinca. Seria bom que eles lembrassem a velha canção de Padre Zezinho, cheia de verdades perenes:

… Água pequena desceu, cantarolou

Rochedo a interrompeu, ela o cavou

Homem tentou impedir, ela cresceu

Homem temeu sucumbir, água venceu

Nuvem choveu lá no céu, água subiu

Desceu fazendo escarcéu, tornou-se um rio

Homem tentou impedir, ele cresceu

Homem deixou água ir, luz acendeu…

O ser humano gaba-se de domar a natureza. E os resultados estão aí. No entanto, uma certeza nós, uberabenses, temos. Nossos córregos são indomáveis. Eles até desaparecem sobre o asfalto e trafegamos feitos donos da geografia. Vez em quando a grande mãe resolve nos lembrar do nosso real tamanho, das nossas reais condições e… Seguem seu curso. Quem sabe, algum dia, aprendamos a lição.

Até mais!

Nota: O nome da canção do Padre Zezinho é “O riacho é como a gente” e pode ser ouvida abaixo:

Renato Teixeira e um “causo”

almir-sater-renato-teixeira-e-sergio-reis

Renato Teixeira esteve em Uberaba, dividindo o palco com Almir Sater e Sérgio Reis. Não pude deixar de lembrar esse causo, criado nos tempos do Papolog. Foi uma amiga quem contou; não presenciei a história… O causo é que o afeto de Edna pelo Renato Teixeira perdura, embora transformado, até a presente data. A mistura das personagens é interessante: Edna, que é de Minas, tem origem Síria; Renato é caiçara, nascido em Santos, mas virou caipira em Taubaté, interior de São Paulo, onde morou.

Renato Teixeira começou profissionalmente nos Festivais da Record. Autor da música “Dadá Maria”, defendida por Gal Costa, com quem gravou a música, naquele que ficou sendo seu primeiro disco. Naquela época, lá em Uberaba, Edna nem tomou conhecimento.

“Mas que alegria vê-la aqui, Dadá Maria
Faz um ano que a saudade vem chamando por você…”

Elis Regina gravou “Romaria” (1977) e o Brasil aprendeu a gostar de Renato Teixeira. Em Uberaba, Edna tomou-o por príncipe encantado. E passou a sonhar com o dia em que teria um primeiro contato com seu ídolo. Sonhava com a certeza do encontro; era ter paciência e esperar, pois o local ela tinha.

Quando o amor começa, nossa alegria chama,
E um violeiro toca em nossa cama…

Tudo é sertão, tudo é paixão, se o violeiro toca
A viola, o violeiro e o amor se tocam…

Um dia o compositor visitaria a cidade; para fazer show ou para visitar Chico Xavier. Com certeza, almoçaria no restaurante mais celebrado de Uberaba, de nome “AS TRÊS COROAS” e de propriedade dos familiares da jovem. Nunca houve, e não há mais na cidade, local público para se comer comida síria, como no restaurante das queridas senhoras Zaíra, Abadia e Síria.

Seria Renato Teixeira chegar e Edna faria com que a mãe a levasse ao restaurante das tias. Em Minas Gerais ninguém gosta de “entrão”, o sujeito inconveniente que entra em assuntos, invade a vida de pessoas sem ser chamado. Então, a jovem arquitetou um plano, com o apoio da irmã, Marisa, para aproximar-se do ídolo com a famosa hospitalidade mineira. O dia chegou!

A notícia correu rápido! O compositor estava em Uberaba. Edna não cabia em si de alegria. Renato Teixeira, por essa época, já estava totalmente identificado com a música caipira. O artista é um dos maiores divulgadores de um jeito de ser caipira, através de músicas que alcançam grande sucesso. Se ele gosta de caipira, pensou Edna, ela seria a caipirinha mais faceira de Uberaba.

“Sou caipira, Pirapora, Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida…”

Hora do almoço. As tias Zaíra, Abadia e Síria não se abalaram com o visitante. Afinal, quem tinha o melhor tabule, a berinjela curtida mais gostosa? E os charutos? As esfihas, as saladas de jiló, quiabo? Cada refeição era uma garantia de festa para o paladar naquele restaurante. O compositor chegou, discreto, com assessores, e foi prontamente servido. Edna,com a mãe e a irmã, almoçavam em uma mesa próxima.

“Como uma estrada que vai dar não sei aonde
Por meu destino o coração é quem responde
Braços abertos pra se ver a luz do peito
Com grande amor que seja puro amor refeito…”

De repente, um grito de dor! Com o dedo na boca, simulando um corte, Edna chamou a tia Síria: “- Tia, tem pó pa tapá táio?” Síria, olhou, sem entender lhufas, e a menina insistiu:“- pó pa tapá taio!” A irmã, cúmplice, adiantou-se: “- Pó pô açúca messsmo!”. Edna quase que engoliu o dedo quando o compositor perguntou: – Machucou?

Tinha dado certo! Conseguira chamar a atenção do artista sem ser “entrona”. Respondeu, toda sorrisos: “- Foi um cortizim; pititim; poca coisa!” E ele, todo atencioso: “- Tem certeza?” Ela, toda sorridente: “- Bissoluta!” As tias e a mãe, D. Benha, ficaram intrigadas com aquilo. A família investiu pesado em educação; as meninas estudavam nos melhores colégios. Que brincadeira era aquela?

“Parei em Minas pra tocar as cordas
E segui direto para o Ceará
E no caminho fui pensando é lindo
Essa grande aventura de poder cantar
Amanhaceu, peguei a viola…”

Quando percebeu que o compositor terminava o almoço, Edna, agora já sentindo-se amiga próxima, puxou assunto: “- Vai pro Ridijanero hoje, né meesssmo? Mas num vai sem tomá um cadiquim de café; eu messssma faço.” O rapaz aceitou. A tia, ainda sem entender direito o que ocorria, interviu: “- A água já está fervendo!” Edna não perdeu a deixa de mostrar mais um pouco de seu caipirês: “- Pó pô Pó?” A mãe já se preparava para um pito na menina quando Marisa, a irmã, salvou a situação: “- Pô pó? Pó pô, craro!”

Renato tomou o café e foi-se. Edna passou dias suspirando, lembrando-se das feições do moço, olhando-a quando reclamou do machucado. Ficava repetindo baixinho: “-Tem pó pa tapá táio?”.

E o tempo passou. Ela é, hoje, uma das pessoas mais simpáticas e queridas da cidade. O restaurante não existe mais. Para privar das famosas refeições da família, só sendo amigo.

“Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe,
Eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei,
Ou nada sei…

Sobre esse episódio, contado aqui sem autorização, tenho certeza que ela me dirá: “-Engraçadinho!” E dará boas risadas. Afinal, é apenas um “causo”, desses que se conta tomando café, ou bebendo uma boa cerveja e, com certeza, mentindo um pouco…

Minha amiga, Edna Idaló
Minha amiga, Edna Idaló.

“A amizade sincera é um santo remédio
É um abrigo seguro
É natural da amizade
O abraço, o aperto de mão, o sorriso
Por isso se for preciso
Conte comigo, amigo, disponha.”

O afeto por Renato Teixeira continua. Se ela chegar perto dele certamente fará brincadeiras, contará piadas. Em segundos, será grande amiga do cara. É delicioso e fácil gostar e ser amigo de EDNA MARIA IDALÓ. Um beijo!

Até!

Notas musicais:

Dadá Maria – Renato Teixeira
Um Violeiro Toca – Almir Sater/Renato Teixeira
Romaria– Renato Teixeira
Olhos Profundos – Renato Teixeira
Amanheceu, Peguei a Viola – Renato Teixeira
Tocando em Frente – Almir Sater/Renato Teixeira
Amizade Sincera – Renato Teixeira/Dominguinhos

Caipiras, caiçaras, piraquaras…

Sertanejo por herança paterna, caipira pelo lado de minha mãe, eu cresci como todo mundo e, enquanto criança, fui apenas um garoto mineiro nascido em Uberaba. Após muitas andanças comecei a descobrir o que era ser caipira através do teatro.

Atuando no CPT – o Centro de Pesquisa Teatral dirigido por Antunes Filho – estudamos o universo do caipira paulista através da obra Os Parceiros do Rio Bonito, do professor Antonio Cândido. O objetivo era fundamentar montagem baseada no livro “Alice”, de José Antonio da Silva que depois estreou como “Rosa de Cabriúna”. Muito do que conheci na convivência com meus familiares emergiu com força. Nossas festas, nossas rezas, uma infinidade de hábitos e costumes tornados fonte preciosa para o exercício teatral.

No CPT conheci e tornei-me amigo de Marlene Fortuna. A grande atriz que, então, interpretava magnificamente a “Senhorinha” de “Álbum  de Família” e a “Geni”, de “Toda Nudez Será Castigada”, peças de Nelson Rodrigues no espetáculo denominado Nelson2Rodrigues. Dentro do projeto de teatro de repertório, Marlene Fortuna também fazia uma “Ama” formidável em “Romeu e Julieta” e várias outras personagens dentro do monumental “Macunaíma”.  Todavia, não foi o teatro a nos aproximar. Marlene é filha de José Fortuna, um dos maiores autores da música caipira, famoso também pela dupla Zé Fortuna e Pitangueira e imortalizado nas diversas gravações de “Índia” e “Meu Primeiro Amor”.

Um dia, perdido no tempo, eu estava em um dos corredores do Sesc Vila Nova cantando “Lembrança” (conheça no vídeo acima),  música do José Fortuna, sem saber que Marlene era filha do compositor. Ela aproximou-se, emocionada, e nos tornamos amigos ali; pouco depois eu pude participar de uma festa entre os familiares do compositor com a presença de grandes duplas caipiras. Inesquecível.

De caiçaras sempre ouvi falar e pude me aprofundar um pouco mais nas pesquisas realizadas para o Arte na Comunidade 3, realizado em 2015 na Baixada Santista. No nosso litoral estão pescadores artesanais que desenvolveram técnicas ao longo do tempo e do contato entre grupos indígenas e os portugueses que por aqui aportaram.

Estudei mais do que escrevi a respeito nos textos para as montagens realizadas em Santos, São Vicente, Guarujá, Praia Grande e Cubatão. Peculiaridades do trabalho levaram-nos para outros aspectos da população pesquisada. Infelizmente, os grupos caiçaras que ainda sobrevivem no nosso litoral, sofrem constante violação dos direitos humanos.

Neste ano, para o Arte na Comunidade 4, chegou a vez de conhecer os piraquaras, nome dado aos habitantes ribeirinhos do Rio Paraíba do Sul. A vida de pescadores e camponeses do Vale do Paraíba é parte vital da pesquisa para o trabalho que estamos fazendo na região. Os problemas de poluição são grandes e mudaram hábitos e costumes locais. O progresso imenso transformou a paisagem e tanto o Vale quanto a Serra da Mantiqueira carecem de cuidados constantes garantindo a sobrevivência de todos os que vivem por lá.

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Conrado Sardinha, Luciana Fonseca e Rodolfo Oliveira estão em “Os Piraquaras do Vale do Paraíba”

“Os Piraquaras do Vale do Paraíba” é o nome da peça final que apresentaremos no final de agosto. Será o encerramento do Arte na Comunidade 4 nas cidades de Cruzeiro, Lavrinhas e Queluz. Tomara que os piraquaras voltem a pescar não só no Rio Paraíba do Sul, mas nos muitos rios da região (o município de Lavrinhas tem sete!). A região já produziu toneladas de peixes que abasteceram muito além do mercado local. Hoje, a pesca é cada vez mais rara e a limpeza dos rios é prioridade.

Caipiras, caiçaras, piraquaras… Peculiaridades da nossa gente que, somadas, formam a identidade do Brasileiro. Fico muito feliz em conhecer, em vivenciar e, mesmo que modestamente, lutar pela sobrevivência de tudo isso. Se o bom Deus me permitir, que venham os caboclos, os sertanejos, gaúchos, pantaneiros, candangos, seringueiros… Enfim, toda a gente do Brasil.

 

Até mais!

Um Momento Especial

Fotos menores, Arte 1,  no Pará. Sonia Kavantan produzindo e eu, conhecendo o tacacá. Na foto maior, em Prata, em Minas Gerais, no Arte na Comunidade 2.
Fotos menores, Arte 1, no Pará. Sonia Kavantan produzindo e eu, conhecendo o tacacá. Na foto maior, em Prata, Minas Gerais, no Arte na Comunidade 2. O Arte na Comunidade 3 está quase pronto.

Estou fazendo teatro na Baixada Santista. A terceira edição do Arte na Comunidade. Um orgulho e um privilégio em contar com uma produção extremamente cuidadosa (Obrigado, Sonia Kavantan!) e em atuar com atores da maior qualidade, todos das cidades da região.  Com Bruno Fracchia, Ernani Sequinel, Fabíola Moraes, Gigi Fernandes e Rogério Barsan  faremos seis trabalhos, cada um com tema e título distintos, em cada uma das cidades contempladas. Todas as montagens estão reunidas sob o nome BRINCANDO ENTRE A SERRA E O MAR.

Escrevo menos aqui porque estou redigindo o blog do projeto, onde esboçamos um diário da montagem. Quem puder, agradeço a leitura (basta clicar aqui);  lá estamos contando o dia a dia do nosso trabalho, ao mesmo tempo em que informamos todos os eventos que ofereceremos nas próximas semanas.

De repente dei-me conta de que a vida me propiciou, com o Arte na Comunidade 3, uma belíssima oportunidade para festejar um momento especial, ocorrido lá em Uberaba, em 1975. Sim, neste ano de 2015, especificamente no mês de dezembro, comemoro quarenta anos de teatro. A festa, pelo visto, será no litoral.

Sempre fico indeciso quando penso em comemorações.  Há muita coisa para considerar e renasce, por experiências passadas, o receio de que algo impeça o evento. Assim resolvi deixar que as coisas acontecessem por si e… Tem dado certo. A grandiosidade de uma comemoração não está no tamanho da festa, mas na intensidade do que é feito para festejar cada momento da vida.

Com as seis montagens que realizaremos na Baixada Santista, especificamente nas cidades de Cubatão, Guarujá, Praia Grande, Santos e São Vicente,  lembrarei que comecei a fazer teatro há 40 anos. Foi no distante dezembro de 1975, em um dos salões da sede da pastoral de Uberaba, juntamos várias mesas em um palco improvisado e estreamos nosso “Auto da Esperança” (escrevi sobre esse momento aqui). Sem pensar em grande festa particular, tenho este próximo momento como dádiva divina por todo o caminho percorrido.

Estamos em fase final de montagem. Para os leitores que me dão a honra lendo este blog peço que fiquem atentos. Aqui e no https://blogartenacomunidade.wordpress.com/  teremos todos os detalhes das nossas atividades litorâneas.

Até mais!

Um bonde de lembranças

Em Santos, o bonde que me trouxe lembranças.
Em Santos, o bonde que me trouxe lembranças.

A Rua Ari Barroso, no bairro Taquaral, em Campinas, me é bastante cara. Nela moravam meus avós. A casa ficava em esquina com a Rua Antonio Bonavita. A linha da Companhia Mogiana corria paralela à Rua Ari Barroso e do alpendre da minha avó avistávamos as pessoas chegando ou saindo da cidade. O trem passava sempre rápido, e a imagem da minha avó, de pé, acenando, continua presente. Era aceno feliz saudando os parentes que chegavam; era aceno triste, cheio de lágrimas quando as filhas e netos voltavam para Uberaba ou Ribeirão Preto.

Um pouco abaixo da linha de trem havia outra linha, do bonde que ia para o “furazóio”, na época, o fim da cidade. Ambas as linhas ficavam entre a Ari Barroso e o Ribeirão das Anhumas, que naqueles tempos era um triste córrego, esgoto a céu aberto. Quem estava no trem, de longe, sabia o ponto exato da casa de meus avós porque havia duas árvores, rentes à linha, quase em frente à Rua Antonio Bonavita. Às vezes, ficávamos aguardando o trem ao lado dessas árvores e era possível ouvir com clareza as palavras de despedidas ditas pelos passageiros. De lá, também, avistávamos o bonde, com o barulho do motor propulsor, mais a haste arrastando-se na rede elétrica, fazendo som peculiar. Eu adorava bondes.

Os bondes de Campinas tinham as laterais abertas e os bancos eram sem divisões, indo de uma lateral à outra. Sobre os estribos o trocador cobrava as passagens e o motorneiro seguia tranquilamente para seu destino. Quando muito frio, ou com chuva, havia uma espécie de cortinas que fechavam as laterais, protegendo as pessoas das intempéries do tempo.

José e Maria, meus inesquecíveis avós.
José e Maria, meus inesquecíveis avós.

Eram tempos felizes porque éramos dez netos aboletados na casa dos avós, brincando, lendo revistas, assistindo televisão que, pra nós, era grande novidade. Falava-se muito! Uma pequena pinimba entre meu padrinho Nino e meu tio Manoel questionava qual seria a maior cidade: Ribeirão Preto ou Campinas. Tio Manoel, de Ribeirão, afirmava ser esta maior que Campinas. Pra tirar a teima o tio Nino resolveu nos levar até ao mirante do castelo, para lá de cima constatar o quanto Campinas era maior que Ribeirão Preto. Hoje, infelizmente, o Google resolveria a questão em segundos; graças a Deus, sem a web, ganhamos um belo passeio no domingo seguinte, pela manhã. De bonde!

Dito e feito, no domingo seguinte dez netos saíram da cama e foram constatar o tamanho de Campinas nos anos de 1960. Voltando pra casa, era mês de janeiro, viemos em outro bonde, uma linha que terminava na Avenida Nossa Senhora de Fátima. Uma tempestade imensa caiu sobre a cidade e, já quase molhados no bonde, descemos sob a chuva para a casa da avó, ensopados e felizes. Não recordo nada ruim desse dia. Estávamos encharcados e famintos, doidos pra chegar e almoçar as delícias feitas por nossas mães, nossa avó.

Depois, já crescido, habituei-me com velha piada do mineiro que compra bondes. Eu compraria bondes; muitos! Em um país tropical, como o nosso, ter meios de transporte arejados seria sinal de inteligência. Evitaríamos todas as mazelas do ar condicionado, da lataria quente dos meios atuais. No final desta semana, em Santos, em frente ao hotel estava o bonde que me fez escrever esta história, lembrar o porquê de gostar tanto desse meio de transporte. Bonde me traz a Campinas dos meus avós, de toda a minha família, de reuniões de férias sempre alegres e cheias de brincadeiras.

Bendita internet. A rua, a esquina e o espaço onde estavam as linhas.
Bendita internet. A rua, a esquina e o espaço onde estavam as linhas.

Bendita internet. A casa ainda está lá. Vejo alterações, fico ressentido e não me permito divulgar imagem de uma casa que já não é mais nossa. Mas, o outro lado… Das linhas, raros sinais. Nem trem, nem bonde. Sem acenos, sem poesia.  Pelo menos há árvores e, me parece, pássaros, espaços para lazer. Todavia, eu adoraria ouvir aquele barulhinho do bonde, passando tranquilo, arejado, indo e vindo, incansável e, na minha lembrança, cheio de pessoas felizes.

Até mais.