Nana, da delicadeza da paixão

Acorda, meu amor

É hora de trabalhar

O dia já raiou

É hora de trabalhar!

Quando ela cantou “Bom dia!” a gente sabia que ela era filha de Dorival Caymmi e, que naquele momento, estava casada com Gilberto Gil. A voz, poderosa e inesquecível. Foi em um daqueles incríveis festivais da TV Record. Era Nana, que de repente sumiu. Parece que foi para fora do país, viver um tempo por lá. 

Tempos depois, na TV bandeirantes. Eu desempregado, via gravações de programas do Chacrinha, da Hebe Camargo. E entra a moça de “tomara que cai” para cantar a convite da Hebe. Foi a primeira vez que tive a certeza de que é possível cantar com o corpo inteiro. “Com o útero”, ela teria dito. Ali, eu com meus vinte e poucos anos vendo uma cantora única, incrível. Uma paixão para todo o sempre.

Já contei de quando no palco do Sesc Vila Mariana acabou a luz. E ela, acompanhada por um violonista se limitou a dizer. “Se vocês ficarem quietinhos eu continuo a cantar”. Quem iria desobedecer? E foi mágico, o show continuou e a luz, quando voltou, subiu suavemente iluminando Nana, da delicadeza rara na voz. Aliás, caracterizar a voz de Nana é complicado.

Nana da voz forte, poderosa, terna, delicada, suave, sussurrante. Nana da voz amorosa, da voz quente, da voz profunda, do timbre único e absolutamente inconfundível. Nana da técnica usada em prol da emoção, cantando com um fio de voz até acabar o ar, desmontado o ouvinte, fazendo-o chorar. Nana da delicadeza da paixão.

Nana gostava de beber, de ficar tranquila. “Estou aposentada!”.

Nada que me deixa engasgado, incapaz de continuar a escrever.

Tenho os discos

Agora tenho os discos e a saudade.

Até, Nana! Obrigado.

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