Quer que eu leia? Prefiro Lear

Imagem ilustrativa criada com IA

Recebo de uma amiga um desses textos “deus nos acuda”, cuja origem também refere o criador: “sabe lá Deus de onde veio”. O dito cujo apregoa nova forma de se dirigir às pessoas “60+ ativas”, recusando o “rotulo de idoso”. Respiro fundo, seguro a irritação para em seguida responder, o que faço aqui, publicamente à tal mensagem.

Por favor, dirija-se a mim pelo meu nome. Não me rotule disso ou daquilo. E, não me conhecendo, use formas de tratamento coerentes com o que minha aparência denota. Sou um senhor! A relação começa mal quando o interlocutor, pensando me agradar, solta um “e aí, garoto!”. Devo ressaltar que garoto, embora me faça sentir retardado em relação ao tempo é melhor que garotão: Aqueles gordos, barrigudos como eu. O mesmo ocorre quando soltam um “fala, coroa!”.

Volto ao texto recebido, que segue a onda de que o que vem de fora é melhor, ou seja, está em inglês, o que deveria dar importância à coisa. Se a origem é a Grã-Bretanha, meu primeiro pensamento é “abaixo a monarquia!”, já se vem dos EUA, lanço automaticamente maldições ao fascista ocupante da Casa Branca. O tal texto propõe uma nova forma de se dirigir a “pessoas que seguem vivendo com propósito, curiosidade e vontade de evoluir”.

Excluindo doentes, físicos ou psicológicos, o propósito básico de todo ser humano continua sendo comer, beber e dormir. Quer propósito mais lindo que preparar e deglutir um café da manhã, tomar cerveja no boteco com os amigos e dormir bem acompanhado – antes de dormir, óbvio, brincar com quem estiver dividindo a cama. Propósito legal, procurar alguém, caso a cama se torne local de um indivíduo.

Outra “pérola” da proposta afirma que o novo idoso faz o tempo acontecer. Pra escrever tal sandice é provável que o autor jamais tenha lido Shakespeare, pois sendo da literatura e da arte, deixarei para outra oportunidade a filosofia e as ciências sociais. Das abstrações humanas, Deus e o Tempo, existem independendo de qualquer outra coisa exceto a crença, no primeiro, e a aceitação reguladora do outro.

O texto me provoca ímpetos assassinos quando conclui que “viver bem depois dos 60 não é exceção – é tendência”. Ou seja, todo velho ferrado o é por não seguir a nova onda!. É para afirmar que o autor de tal texto deveria ser devolvido “à escuridão do ventre de onde não deveria nunca ter saído” (Ave, Chico Buarque!).

Ao caríssimo leitor que tenha chegado até aqui, caso se pergunte o motivo de eu estar escrevendo sobre algo inútil e de péssima qualidade, explico: é um apelo! Um pedido aos amigos, conhecidos, leitores! NÃO MANDE TEXTOS IDIOTAS PARA OS AMIGOS! Mande Lear, do Shakespeare, caso queira propiciar reflexões sobre a velhice. Mande Hilda Hilst, caso perceba que falta ao amigo idoso aprender algumas coisinhas que, poeticamente pela Hilst, são bem mais interessantes.

As redes sociais, os aplicativos, são pródigos em textos que deveriam ir para o lixo. Então, caríssimos, enviem livros para seus “contatos”, enviem um jornal que tenha credibilidade, físico ou em versão virtual e, quando me conhecerem, por favor, meu nome é Valdo Resende, tenho 70 anos. Ah, e não me chamem menino! Tenho dias que acordo menina, menine e ou o escambau. Quanto ao termo que indica o “novo idoso”, nem sob tortura divulgo nome e autor da coisa.

Valdo Resende

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