“A Fera na Selva” no Cineclube ÁgoraECA

Veja o filme, leia o livro e o roteiro, e converse com Paulo Betti, que assina a direção de “A Fera na Selva” com Eliane Giardini e Lauro Escorel.

Será no próximo dia 26, terça-feira, às 19h, via Zoom: O Cineclube ÁgoraECA apresenta o filme “A Fera na Selva” seguido de bate-papo com o diretor e ator Paulo Betti sobre a obra de Henry James para o cinema.

Protagonizado por Eliane Giardini e Paulo Betti, A Fera na Selva, 2017, foi rodado no interior do estado de São Paulo. Baseado na obra homônima de 1903 do escritor norte-americano naturalizado britânico Henry James, o roteiro foi escrito pelo ator e diretor, baseado na adaptação teatral de Luis Arthur Nunes.

SINOPSE

João e Maria vivem uma vida inteira juntos. Ele é professor de português, ela de literatura inglesa. João é atormentado pela obsessão que uma coisa extraordinária vai acontecer em sua vida. Maria aceita esperar com ele A Fera na Selva, que um dia chegará avassaladora.

PACOTE COMPLETO

Atores formados pela Escola de Arte Dramática da ECA_USP, Betti e Giardini foram protagonistas da peça de teatro em 1992. Daí surgiu a ideia de fazer o filme, realizado em 2017.

Junto com o filme os interessados poderão ler o livro e o roteiro, em links disponibilizados gratuitamente (veja links abaixo). Uma rara oportunidade de conhecer o original, ler o roteiro e, após a exibição do filme, conversar com o realizador.

Veja o vídeo sobre os bastidores da filmagem e, abaixo, os links para o evento.

LINK DO LIVRO PARA BAIXAR: A FERA NA SELVA

LINK PARA O ROTEIRO: A FERA NA SELVA ROTEIRO

PARA VER O FILME NO DIA 26: A FERA NA SELVA ZOOM

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Ficha técnica

“A Fera na Selva”, 2017, adaptação da obra de Henry James, 87 minutos.

Direção: Eliane Giardini, Paulo Betti, Lauro Escorel
Coprodução: Prole de Adão Produções, Batuta Filmes, Canal Brasil, Globo Filme
Roteiro: Paulo Betti, Luís Artur Nunes, Eliane Giardini e Rafael Romão
Produção associada: Fernando Meirelles
Produção executiva: Gilberg Antunes
Produção de elenco: Juliana Betti
Narração: José Mayer
Direção de fotografia: Lauro Escorel, ABC
Fotografia: Fernanda Tanaka
Direção de arte: Ronald Teixeira
Direção de produção: Alexandre Miliani
Direção de platô: Ocimar Marques
Montagem: Eduardo Escorel
Trilha musical:
Felipe Lara
Som direto: Márcio Câmara
Desenho de som: Alexandre Griva, Gabriel Pinheiro
Figurino: Maribel Espinoza, Ronald Teixeira
Maquiagem e caracterização: Siva Rama Terra, Ebony
Produção de finalização: Marcelo Pedrazzi
Elenco: Eliane Giardini, Paulo Betti, Cristina Labronicci, Juliana Betti, Janice Vieira, Ademir Feliziani, Mário Pérsico, João Leopoldo, Clara Nolasco

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Notas: Fotos, divulgação. Texto elaborado sobre release assinado por Regina Thompson.

A menina do vestido branco de listras verdes

Em tempos de consumo bobo, quando se usa uma roupa por festa, um par de sapatos por ocasião, onde repetir um vestido é motivo de notícia de jornal, o pensamento dele volta e meia recai na menina do vestido branco de listras verdes. A mais linda de todas, a que ele nunca esqueceu.

Havia terrenos baldios, campos de futebol de várzea, quadras de chão batido. E o pátio da escola, as crianças naturalmente divididas em grupos, por idade. As brincadeiras alucinantes com a duração do intervalo, que todos chamavam recreio, onde a imaginação superava a falta de brinquedos, de aparelhos de ginástica, de quadras poliesportivas. Outro pátio, da igreja, onde se alternavam folguedos entre uma e outra das quermesses anuais.

Mexericos paroquiais, ele não esquece que soube dela por um fiasco na folclórica coroação da santa no mês de maio. A competição corria solta entre as meninas nos meses de maio, Nossa Senhora das Graças, e no mês de outubro, Nossa Senhora Aparecida. As mães faziam sua parte, vestindo as garotas de anjo que, ensaiadas pacientemente por uma moça de nome Isabel, a Belinha, faziam o encerramento das manifestações religiosas de cada quermesse. Encerrando a novena havia a procissão pelas ruas do bairro, a missa e a coroação. Depois dessa, a festa era no pátio.

Onde ele ouviu a maledicência? Quem teria dito? “Que fiasco, na hora do solo, cadê a voz? A Belinha deve estar furiosa”. O nome da cantora joãogilbertiana ficou na memória, e tempos depois foi ligada a figura à fofoca. Ele, conheceu a indignação. Só podia ser inveja! Uma menina linda como aquela, com aqueles olhos negros, o cabelo ondulado encostando nos ombros! Bonita demais! Delicada, educada. Certamente a igreja inteira emudeceu quando ela cantou seu pequeno solo, oferecendo um lírio à santa.

E havia um vestido branco de listras verdes. Manga três quartos, gola canoa. Onde se aprende nome de mangas e golas? Foi depois, certamente. Quem vai querer saber o nome de detalhes de um vestido? O que importava era a menina dentro do vestido, cheia de graça, tímida e recatada, mas sempre sorridente, os olhos brilhantes. A roupa de anjo para coroar a santa deve ter sido outra, claro, e é fato, ela não foi mais vista entre o elenco de pequenas cantoras. Ele dando de ombros. Perderam uma voz linda! Um verdadeiro rosto angelical.

Foram as mesmas ou outras faladeiras que o fizeram perceber uma mudança de comportamento. Aquele vestido branco de listras verdes, que era roupa de domingo, agora estava sendo usado também nas reuniões que as meninas tinham às quartas-feiras, na paróquia. Verdade seja registrada, ninguém botou reparo no fato de a menina repetir roupa. A curiosidade é que cresceu entre as futuras alcoviteiras. Para quem a menina estaria se vestindo na quarta com as roupas domingueiras?

Eram tempos em que se brincava mais, sem pressões para namoros e pegações. Havia a percepção do interesse que, via de regra, não ficava em sigilo. Fulano gosta de fulana! Fulana quer namorar fulano! Foram tempos de alegrias singelas, contentamento imenso dele em saber-se correspondido pela menina suave que, grande vantagem, jamais se perdia no meio de tantas! De longe, ou no meio da gentarada da missa, entre as crianças todas era ela a única, a que se distinguia aos olhos e ao coração. O povo do branding aprendeu com ela e seu vestido branco listrado que fazia com que ela se tornasse única.

Outra menina, um divisor de águas. Uma vizinha que gostava de brincar e levar meninos para um canto. Beijo na boca cheio de gosto de saliva, mão sendo encaminhada para dentro do segredo protegido pela calcinha, mão avançando dentro do short, manuseando o que encontrava e provocando descobertas. Será que a primeira, a eleita do vestido branco de listra verdes, tinha algum amigo para descobrir coisas? O divisor de águas foi percebido depois, um divisor de meninas. As mais quietinhas e as mais afoitas. Quem faz o que, só na calada se sabe.

O tempo rodou num instante, cantava o Chico embalando a vida que corria, célere. O pequeno casal teve momentos pífios e acabou que ficaram em cidades distintas, voltaram para a mesma Uberaba, novamente se distanciaram e cada um tomou seu rumo, seguiu sua via. Foram diminuindo os fatos, cresceram os intervalos entre notícias e nem foi notado que possíveis sonhos e desejos não se realizariam. Foram engavetados e escapolem em datas imprevisíveis.

O nome ele não esqueceu. Décadas passadas, é construção do imaginário um rosto, um cabelo, os olhos. A voz, como afirmam por aí, foi a primeira a cair em completo esquecimento.  Às vezes ele pensa na menina do vestido branco de listras verdes. Favoreceu as lembranças à tona nesses últimos tempos conviver com uma moça de mesmo nome. Também gentil, linda, de maneiras afetuosas. Bem humorada. A moça de agora, cheia de características agradáveis, o levou a indagações sobre a outra, aquela de quando ele havia acabado de ser criança.

Onde foi parar a tal menina, mulher, agora uma senhora de setenta anos? A vida costuma ser generosa para pessoas bonitas e então, ele pensa, ela é feliz. Ou foi feliz! E um aperto no peito rejeita o fim, pois fim não teve. Foi afastamento, teve e tem distância. Não dá para ter certeza de distância física, pois ela pode morar na próxima esquina, sem que o acaso os coloque frente a frente. Seria surreal que ela morasse logo ali, perto da Igreja da Aparecida. É devaneio bobo para preencher vazios, o imenso vazio causado pelo tempo.

Nessas reviravoltas de roda mundo, roda gigante, roda moinho e pião, ele percebeu que algumas coisas se tornaram sonhos. Como é sonho a linda história do menino que se apaixonou por uma menina com seu vestido de gola canoa e mangas três quartos. Ela tinha um sorriso suave, uma voz mansa. Os olhos imensos, brilhantes, o rosto emoldurado pelo cabelo preto, ondulado.

Ele reconheceu ter na vida um vasto escaninho, cheio de sessões, de memórias de todas as categorias.  Quase tudo aparentemente esquecido, mas sempre prestes à vir à tona, registrado no cerne, na pele. A tal menina, na verdade, sempre deu as caras fora do escaninho, ele admite! Também reconhece que tal garota esteve entre os sonhos preferidos, as lembranças prediletas. Um sonho bom que, quando retorna, enche a vida de outros sonhos guardados, outras lembranças adjacentes. Ele mesmo tem colocado a memória de listras verdes de lado, puxando do nicho transversal do escaninho a afoita, a menina que se adivinhava mulher e o ensinou os primeiros passos das segredos do sexo.

Valdo Resende 16/08/2025

Notas: Imagem obtida com IA. Quando Chico Buarque gravou Roda-Viva, o casal de meninos do conto estava com 13 anos.

Caminhantes noturnos

foto: Valdo Resende

No início da madrugada, o carro deslizando com velocidade sobre o asfalto, as construções às margens da estrada tornaram-se o que, ultimamente, as pessoas chamam gatilho. Prefiro escrever que acionaram lembranças, despertaram memórias. Tentei em vão visualizar a escola onde lecionei, assim como a empresa em que trabalhou um grande amigo. Já haviam ficado para trás.

Entramos em um trecho em que, seguramente, eu não passava há oito, dez anos. Os versos da canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil tornados realidade: “Tudo ainda é tal e qual, e no entanto nada é igual”. A capital São Paulo, gigante que nunca dorme, é o cenário de milhões e milhões de histórias. Sou um cisco irrelevante, incapaz de acordar a cidade. Mas ali estão as minhas lembranças, testemunhas do que vivi.

Houve um dia em que, após passar em um concurso, saí de Santo André, no ABC, em direção à Rua Dr. Vila Nova, na Vila Buarque. Uma imensa chuva provocara enchente e o trânsito, parado, me impedia atravessar um trecho da Avenida do Estado. Eu não conhecia a cidade e, preocupado em chegar no horário a tempo de realizar a entrevista de admissão, resolvi contornar a enchente tendo como rumo os edifícios centrais, o norte correto dado pela torre do antigo Banespa, hoje sede e propriedade privada.

Próximos de entrar no elevado sobre o Rio Tamanduateí percebi, que a fábrica da Arno não está ali, onde sempre esteve. Quando será que fechou? Ainda existe tal marca? Também, há séculos não careço comprar eletrodomésticos. Ficou para trás a fábrica, também ficou no passado a gravadora de discos que me encantava por saber que Ângela Maria, Elza Soares e Miltinho gravaram discos ali, em qual prédio mesmo? O da esquina, próxima da igreja horrorosa e caça níquel do outro lado da avenida, tão cheia de luzes quanto uma padaria.

Senti vontade de voltar ao Ipiranga, passar pela Avenida Nazaré e chegar ao antigo Instituto de Artes, onde estudei. Mas já descemos do viaduto sobre o rio e evito olhar para o quartel, prestando atenção na Estação do Metrô Pedro II. Sinto-me a caminho de casa. Entramos no trecho da Radial Leste que ligará com o Elevado João Goulart, o Minhocão. Durante quarenta anos passei por essas avenidas e ruas, praças e parques. Estou a caminho de casa.

Meus companheiros de viagem ignoram meus pensamentos, conversam sobre os benefícios do alho, cru, em pedaços. O chá é bom, mas perde um pouco a potência e retarda o efeito curativo. Chá de alho! O motorista segue atento ao tráfego e ignora a entrada para meu antigo lar. É rápido e já passamos em frente ao Teatro Oficina. Meu destino deixa de ser minha casa para ser meu trabalho. O carro faz parte do trajeto que percorri nos últimos anos antes de me aposentar.

Sob o elevado, em um semáforo fechado da Avenida Amaral Gurgel, percebo ainda os resquícios de noites efervescentes da década de 80. Passava por ali em direção ao CPT de Antunes Filho, andava de um lado para o outro para cobrir eventos das boates da região para a revista em que escrevi, onde vi os primeiros shows de sexo explícito, presenciei uma briga tenebrosa no Bar Quadrado, em frente ao Bar Redondo em madrugada como esta, em que atravessamos a cidade rumo ao lar dos nossos hóspedes.

Nosso destino é a Avenida Barão de Limeira, que conheci em relações de trabalho com a Folha de São Paulo. Chegamos ao destino. Despedidas rápidas, pois é tarde e o domingo já está prestes a receber os primeiros raios de sol. O frio é intenso e eu quero voltar para casa, a de agora, no litoral onde a temperatura mesmo fria é sempre mais amena que na Capital.

Estou cansado. A noite foi intensa e todas as lembranças que vieram à tona misturaram-se a flashs de outras histórias, muitas pessoas, vários lugares. Se acionadas com tempo sei que estão todas dentro de mim. Alguns deslizes e falharão as datas corretas, os nomes completos. Um ou outro detalhe se perdeu, talvez com hipnose seja resgatado, mas se foi perdido que fique por lá. Importa o que emergiu, o que está quente, pleno de vida dentro de mim.

Ah, São Paulo! Só um momento, só pequenas lembranças de um ser comum. Quantas outras em seus milhões de habitantes? Outras tantas em viajantes, já distantes. Volto à Caetano para afirmar que o “errante navegante, quem jamais te esqueceria”. São Paulo não é a minha terra. É a maior parte da minha vida!  De tantos outros que, trafegando madrugada adentro por suas ruas e avenidas, se derretem de amor e gratidão, até mesmo pelo emprego perdido por não chegar à tempo por conta de uma enchente.

São Paulo, 09/08/2025. Para meus companheiros de viagem, Patrícia Remondini, André Manzoni e Flávio Monteiro. O título desta crônica refere música d’Os Mutantes (Arnaldo Batista e Rita Lee). Os alhos, ruinzinhos, estavam expostos no supermercado. Não comprei.

Não sobrevivemos sem eles

Foto: arquivo pessoal

A greve dos coletores e profissionais da limpeza urbana é um momento de consciência da importância desses prestadores de serviço. Aquele profissional que trabalha correndo pelas ruas da cidade recolhendo sacos pesados, muitos fedorentos, sob chuva ou sol, recebe salários irrisórios. A média é de R$ 1.560,93 por mês, conforme o Portal Salário.

Há um consórcio atuando na região que privatizou a coleta de lixo. Os efeitos da administração das empresas responsáveis estão sendo sentidos pelos santistas e moradores de outras cidades da Baixada. Os passeios estão cheios, algumas esquinas lotadas de sacos de lixo levando o transeunte a invadir a rua para poder caminhar.

A situação é perigosa. Os ratos e baratas já invadem as ruas a céu aberto e outros insetos já são percebidos sobrevoando os entulhos. O péssimo odor é o menor dos problemas da insalubridade que nos ronda. Corremos o risco de um surto de dengue, Chikungunya e leptospirose, entre outros males possíveis.

A solução é um salário justo. Os profissionais pedem 7% de reajuste nos salários, elevando a média salarial para R$ 1.670,19! Aqueles que julgam errada a greve dos coletores trabalhariam por tal salário? O que importa para a sobrevivência do ser humano? Nenhuma categoria profissional é melhor ou mais importante que a outra. No entanto, algumas são necessárias e fundamentais; dentre essas, os coletores.

Já escrevi sobre o trabalho desses profissionais na minha rua. Admiro o astral alegre, a educação ao cumprimentar e saudar os moradores. Há alguns pormenores como, por exemplo, pararem no prédio vizinho para se abastecerem de água potável para consumo próprio. Cabe então lembrar aos que criticam a greve de dentro de gabinetes com ar-condicionado, café e água à disposição, que há uma série de seres humanos correndo pelas ruas para recolher o que descartamos.

Espero que a situação termine com o atendimento às propostas da categoria. Pensando na minha saúde, no meu conforto e bem-estar, desejo que consigam e que, na próxima, peçam muito mais! Eu poderia fazer uma lista de prestadores desnecessários, mas deixo para que cada um pense na sua. Uma coisa é certa: sem nossos coletores, sem a cidade limpa, não sobreviveremos.

O gavião no asfalto

A foto de Nair Bueno, do Diário do Litoral, é triste:

Seria aquele que vi por aqui? O gavião apareceu morto no asfalto. Pode ser o que andava pelos telhados vizinhos, pode ser aquele que andou defendendo seu ninho à bicadas em distraídos transeuntes. Os ratos estão em festa. Menos um gavião para exterminá-los. Um elo da cadeia que se rompe e que nos leva ao desequilíbrio. Parece exagero, não é.

Por mais que se ame um lugar é questão de maturidade encarar questões que enfrentamos advindas das características locais. Arborizada e ensolarada, recortada por canais que drenam a cidade, o jardim da orla de Santos tem mais de 5.000m de cumprimento em área imensa, 218.800m²! Santos seria um imenso e belo jardim não fosse… a ação do homem.

O belo sistema de canais da cidade nos permite ver peixes, aves e, infelizmente, lixo. Quando a água está baixa fica mais evidente os sinais de esgoto e diferentes tipos de resíduos que deveriam ter outro destino. Somando restos de alimentos de barracas comerciais, de lixo mal condicionados para a coleta, às vezes expostos fora do dia quem que passam os coletores, o resultado é um número incalculável de ratos e baratas. Quem tem hábito de caminhar pela noite conhece essa realidade.

Ao longo do belíssimo jardim da orla há feiras semanais, barracas vendendo comida e bebida, restaurantes e ambulantes, além daquilo que vem com os próprios frequentadores. Há centenas de lixeiras ao longo das calçadas, frequentemente esvaziadas, o saco plástico recolhido por um exército de garis que também varrem a praia, recolhem o que foi deixado na areia por gente mal educada. Os funcionários públicos passam duas vezes ao dia no local. Para quem frequenta, é comum ver após a passagem do colorido grupo da limpeza a ação de gente que deixa restos de alimentos, favorecendo a alimentação dos ratos.

Uma das razões garantindo equilíbrio entre ratos, baratas e seres humanos são os pássaros. Gaviões e corujas comem ratos e pombinhas, assim como essas comem baratas. Não se trata aqui de fazer um extenso estudo demonstrativo do funcionamento do equilíbrio ambiental. O que importa é o recorte que nos leva a perceber que exterminar um ou vários animais é fato que nos levará ao caos ambiental.

Um gavião apareceu morto no asfalto. O finado comeria cerca de 1000 ratos em um ano. Mais aves mortas e o problema será alarmante. E a cidade, sempre linda, merece permanecer assim. Talvez o bichinho tenha morrido ao bater contra um vidro transparente, uma das consequências dos fortes ventos que tivemos por aqui. Pode ter sido abatido por um tiro de chumbo. Há gente besta e armada por aí! O certo é que precisa ser intensificado o cuidado para com aves e outros predadores de insetos e roedores. Esse cuidado deve ser acompanhado de comunicação, informação para evitar o fim que também pode ser o nosso.

O jardim da orla de Santos é um local mágico. Entre o mar e a cidade estão centenas de árvores, plantas ornamentais, floreiras, monumentos e conjuntos escultóricos por onde circulam 300 espécies de pássaros. Incalculável diversidade de insetos polinizam as plantas não só da orla, mas de todos os jardins e ruas da cidade. E são eles, os pássaros, que garantem equilíbrio para que tais insetos não se constituam em pragas.

Com tantos pássaros enfeitando e enchendo a paisagem com suas cores e trinados, não é incomum ver uma ou outra ave morta, caída no jardim. Às vezes ferida, sabe-se lá por qual inimigo. A morte do gavião nos chama atenção por a vítima ser adulta, estar em aparente vigor físico. Em meio à tanta violência entre os humanos é provável que não investigarão os motivos, os culpados. Sairemos todos perdedores.

Estranho no mundo, o escritor

Do tempo do telefone fixo.

Escrever é um barato (gíria dos anos 70, uma referência de idade). Às vezes, conforme o momento, pode ser um privilégio, sina, trunfo, maldição. Um exercício diário que busca a melhor maneira de manifestação através de um texto. Uma paixão que leva ao desejo de só fazer isso. Ninguém come letrinhas, papel impresso. A escrita literária pode ser um trabalho. Há os que tentam sobreviver da coisa. Um angu de caroço! Como muitas das habilidades humanas, a escrita foi dominada pelo capitalismo. Leia-se: explorar e ganhar ao máximo em cima do sujeito.

Explorar pessoas é um pequeno avanço se comparado ao trabalho escravo. No sistema capitalista o indivíduo pode se recusar a exercer seu ofício e morrer de fome. Ou fazer outra coisa. A isenção de responsabilidade tem frases do tipo “é assim que funciona”, ou “são as leis do mercado” e, a pior delas, “todo mundo faz assim, você acha que conseguirá fazer diferente?”.

Escrever, cantar, interpretar, compor, desenhar, pintar e, entre outros, tocar um instrumento, são atividades que demandam tempo enorme de formação, aprimoramento, pesquisa, criação e execução de algo que resulta fundamentalmente em expressão de um indivíduo, uma sociedade, uma época. O sistema capitalista, sempre alerta para novas oportunidades de ganho, trata de elaborar formas de lucrar com tais expressões. Os registros de cada ação são transformados em produtos, quando muda-se a escala de valores. Os que vendem mais estão acima dos que vendem pouco, normalmente com a expressão “não vende!”.

É comum encontrar o profissional que determina o “potencial de venda” de algo que tal sujeito é incapaz de concretizar. Pior quando ele não tem o conhecimento mínimo para estabelecer a distinção entre Escher e Nietzsche, mas tem poder sobre a verba necessária para montar um espetáculo, editar um livro. E toca você a ensinar ao sujeito um contexto que, às vezes, é base mínima para o que você pretende realizar como criador. “Mas, tem sexo, tem violência, é movimentado ou é aquela coisa parada?”. Sem a formação de um budista, resta cair fora antes de cometer um assassinato.

Conheci um editor que, literalmente, cheirava um maço do original apresentado e determinava: “Isso vende!”. Ou “não vende”, e ali na fungada estava definido o futuro de uma obra literária. Obviamente não se espera que um editor leia “tudo”. Na aceleração mercadológica, onde se faz necessário produzir quantidade, é romantismo bobo esperar ser lido por alguém que deve lançar dois ou mais livros mensalmente. O “Q.I”, leia-se “quem indica”, e a árvore genealógica do autor são facilitadores. Resenhas e resumos foram substituídos pelo atual “book proposal”, expressão que remete a quem domina o mercado livreiro.

Dia do escritor. Já andei me irritando ao receber a sugestão de usar inteligência artificial. Para alguma coisa tal artifício será útil. Jamais substituirá o PRAZER que sinto aqui, agora, em escolher a palavra, escrever e reescrever a frase, avaliar, julgar, rir ou chorar com o resultado que vem do que penso, do que sinto, do que gosto, do que creio. Usem, que eu continuarei a escrever, com a experiência da barra que vem ao terminar um texto. A primeira e grande barra, encontrar quem leia!

Gosto de ver pessoas cantando em ruas e praças. Também daquelas que ocupam os passeios públicos com telas e outros suportes para desenhos ou pinturas. Paro em feiras para observar, às vezes adquirir, pequenas esculturas e toda a sorte de artesanato. Cada vez mais raros, sempre dou atenção a repentistas e, quando acomodado, gosto da manifestação de poetas. Já os escritores… É complicado parar para ler uma orelha, uma contracapa, quiçá um capítulo. (Há séculos não utilizava a palavra quiçá!).

Em maio terminei de escrever um livro. Primeira crise veio quando me dei conta do tamanho do filho da puta. Mais de quatrocentas páginas! Em tempos de Twitter, que virou X, só loucos escrevem livros desse tamanho. Ou parentes do editor, ou o próprio editor. (O Luiz Schwarcz que tem domínio do mercado, escreveu 291 páginas no seu “O primeiro leitor”). A segunda crise é o processo de produção e lançamento do livro. Se a crise for ultrapassada e resolvida, meu caro leitor, então você saberá que livro é.

A palavra produção me incomoda. Significa transformar meu trabalho em produto. Algo a ser comercializado, vendido e se Deus descer do céu, lido. Sim, pois vender é uma coisa e ser lido outra. Reclama do preço do livro (Com razão! Nessas de cada um ganhar em cima do outro, há um abismo entre o custo do volume editado e o preço final). Há o “Será que vai virar filme? Vou esperar”, que já ouvi de gente prestes a ser estrangulada. Também há aquela que vem pedir um volume. E penso na frase atribuída à Cacilda Becker: “Não me peça para dar de graça a única coisa que tenho para vender”.

Dia do escritor. E estou com fome. Vou preparar o almoço. Quem mandou não me tornar pastor? Tivesse seguido o conselho de meu pai estaria apenas louco de raiva desses que teimam em cobrar mais impostos de quem explora e não produz absolutamente nada. Feliz dia!

Gaviões urbanos

Houve um tempo em que a ilha de São Vicente quase não tinha gente. Nem a serra era recortada por vias de ferro, por trilhas, por estradas de rodagem. Os primeiros habitantes daqui caçavam peixe, ou animais maiores para se defenderem da fome. Dos pássaros, de fato com pouca carne, preferiam as penas para cocares e pulseiras. Gaviões e povos originários viviam em relativa harmonia até que, por volta de 1500, os portugueses trouxeram as galinhas. Aí, gaviões incluíram pintinhos em suas dietas. A relação com os humanos azedou.

O bicho gavião não difere muito dos outros. Caça quando tem fome, não estocando absolutamente nada. Defende a si e as crias de predadores, o que os torna temporariamente territorialistas, tomando conta do entorno de seus ninhos quando os filhotes ainda não se viram sozinhos. Seus hábitos são diurnos, quando localizam e caçam suas presas.

Já contei em crônica* meu primeiro contato com a espécie, quando viajava de trem de passageiros da Mogiana. Os garçons colocavam nacos de carne espetados em um longo garfo, estendiam a oferta pela janela e o maquinista diminuía a velocidade. O gavião se aproximava, recebia a comida e tomava seu rumo, o trem seguindo viagem. Era lindo. Era poético. Está entre as melhores lembranças de minha infância.

Meses atrás ao acordar vi, pela janela da área de serviço, um gavião parado sobre o telhado do vizinho. Imponente, impávido e altaneiro, diria o poeta. Equidistantes dele, formando um triângulo, três pombinhas inquietas, nervosas, caminhando a passos curtos de um lado para outro. Eu já sabia por observações anteriores que as pombinhas tinham ninhos na cornija do telhado vizinho, no vão de uma chaminé pouco usada. Com a temperatura quase sempre elevada por aqui, certamente é parte inútil da construção. O gavião não atacava as aves menores. Elas se mantinham naquela situação tensa, nervosa.

Sem uma liderança que as unisse contra o predador, as pombinhas permaneciam ali, esperando que o altivo atacante iniciasse o movimento. Penso eu que ele queria atacar o ninho, devia haver ovos mais deliciosos que pombas cheias de penas e piolhos. Para se abaixar e tomar posse dos ovos ele abriria guarda para um ataque conjunto das andorinhas. Dizem os observadores que os bem-te-vis fazem isso para defenderem seus ninhos.

Sem saber diferenciar pombinhas de bem-te-vis, o gavião permanecia atento, já vítima do meu ódio, com pena dos ovinhos ou filhotes indefesos. A situação não se resolvia, eu não possuo nem mesmo um estilingue para espantar a ave de rapina quando fui distraído pelos sons do celular. Esse mesmo celular que hoje pela manhã trazia a notícia de uma senhora ter sofrido uma bicada de gavião no cocuruto enquanto trafegava por movimentada rua do Embaré, bairro santista.

O jornal, tentando um sensacionalismo barato, insinuava ataque à la filme de terror, um Hitchcock e seus pássaros assassinos tupiniquins. Nos comentários, um vizinho do local informava haver um ninho em árvore alta, próxima de onde a vítima passava quando foi atacada. Logo vieram comentários indagando se a moça era palmeirense, vestida de verde e sendo confundida com papagaio ou se, com vestes em preto e branco pudesse ter sido atacada por ser “peixe”, em referência explícita ao Santos FC. Um a zero para o gavião, escreveram.

Um dos imperadores entre as outras 300 espécies de pássaros que vivem aqui na cidade de Santos, os gaviões são importantes para o equilíbrio ambiental. Antes de chamarmos a cidade de nossa, a ilha já era deles. Somos nós os invasores. É bem verdade que eles poderiam construir seus ninhos lá na serra, mas aí teriam que voar muito para obter comida que, por aqui, é farta. Vivemos de forma a facilitar o aumento da população de ratos, entre outras pragas.

Que os gaviões sigam seu próprio destino que, como o de outro sem número de animais, já foi por demais alterado pela ação humana. Usando a própria força e habilidade em atacar de cima para baixo, que sigam naquela do parente Carcará e continuem no eterno e popular “pega, mata e come” da canção. Nós, humanos, identificando árvores com ninhos, podemos atravessar a rua, ir pelo passeio oposto. É só até os filhotes crescerem!  Aos excessivamente assustados com o bichinho sugiro o uso de bonés, chapéus, boinas, perucas e guarda-chuvas, entre outras possibilidades de proteger a cachola. Quanto ao telhado vizinho, anda livre de pombas. Essa batalha o gavião também venceu.

*In “O vai e vem da memória” escrevi “O gavião do trem da Mogiana”, publicado pela Elipse, Artes e Afins.