Em Santos, de Santos

Por vias estreitas, centenárias,

Seguem brasileiros e estrangeiros

Rumo ao futuro, cheios de fé.

No peito sonhos brejeiros

Na alma cheiro de café.

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São de Santos, vivem em Santos,

Cidade que celebrizou Pelé.

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Pelo imenso estuário da América do Sul

Desde os velhos vapores aos iates colossais

Chegam reis, príncipes, embaixadores,

Turistas enamorados de distantes capitais.

E marinheiros trafegam ao lado de estivadores,

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Estão em Santos, vivem em Santos

Cidade que é porto, é cais!

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Caminhei por todas as praias

Brinquei nos grandes cassinos

Vibrei com cada vitória

Nas igrejas toquei sinos

Hoje vivo sua história.

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Estou em Santos, sou de Santos

Cidade que escolhi como destino.

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Valdo Resende / 2015

Maria Amélia, da delicadeza e do sorriso incansável.

Maria Amélia, ao centro, no Auto da Esperança

Ao longo de toda a minha vida tenho trabalhado com grandes mulheres: Mara, Sonia, Regina, Claudia, Vânia… A primeira, aquela quem norteou meus caminhos futuros, foi Maria Amélia. Lá em Uberaba, quando fomos aprendizes de quase tudo.

Um grupo considerável de jovens da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, foi organizado em diferentes equipes pelos padres coordenadores Líbero e Américo. Participei de uma dessas equipes, denominada Integração, coordenando-a com Maria Amélia e Terezinha Benetolo. Como o próprio nome da equipe sugere, nosso trabalho consistia em dar continuidade a trabalho anterior, realizado pela Catequese. Crianças, após a primeira comunhão, aprofundavam conosco temas religiosos e pertinentes a pré-adolescentes.

Caçulas de famílias distintas, Terezinha e eu éramos tímidos aprendizes no que Maria Amélia transitava com inequívoca simpatia e tranquilidade. Os diversos temas tratados pela Equipe de Integração eram facilitados pela nossa amiga que, já naquele momento, tinha algo de arrimo de família, lutando por melhores condições de trabalho para o próprio pai. “Estou trabalhando para conseguir uma banca no Mercado Municipal para o meu pai” recordo a frase que logo se tornou realidade.

Dessa equipe quero frisar de Maria Amélia a maturidade, o imenso carinho fraternal, às vezes maternal com que conduzia tudo sem perder a alegria, sem esconder um sorriso franco, sempre aberto a cada encontro. Trabalhamos por um bom período sem nenhuma perturbação, sem rusgas, intrigas. Fomos irmãos!

Lá pelas tantas, preparando com Ronaldo Feliciano Assis um momento do encontro de final de ano do grupo jovem, escrevi e dirigi o que chamo minha primeira experiência teatral. Entre as atrizes, lá está Maria Amélia se fazendo presente em momento de carinhosa lembrança.

Da esquerda para a direita: Luis Albino segura os ombros de Maria Catarina. Walter, Maria Amélia Cruz, Valdo Resende, Marisa Helena Alves, Célio Heli Batista, Rubens, Maria Judite da Silveira. Embaixo: José Humberto Silveira, Marilene Justino, Daniel Lázaro das Neves, Marluce Justino e Ronaldo Feliciano de Assis.

Essas duas experiências, marcantes, nortearam minha vida pessoal e profissional. Aprendi a conhecer um pouco mais sobre crianças e adolescentes com a Equipe de Integração. Primeiros passos numa carreira de professor que ultrapassou três décadas de trabalho. Com o Auto da Esperança, iniciei uma carreira de teatro que, espero, ainda dê mais alguns frutos. Nas duas atividades trabalhei com mulheres, fui dirigido e coordenado por mulheres incríveis, sobretudo generosas, como foi Maria Amélia.

Cada um seguindo caminho distinto, nunca deixamos de lado os laços de amizade que nos uniram desde então. Ultimamente nos falávamos por WhatsApp e, não raro, ela deixava comentários delicados nas redes sociais como este, publicado abaixo que, infelizmente, veio a ser nossa despedida. Maria Amélia publicou a mensagem na sexta-feira, vindo a falecer no dia seguinte. A dona da delicadeza e do sorriso incansável fez sua passagem.

Registro aqui minhas sinceras homenagens, e certamente de todos os amigos de Maria Amélia Cruz Barbosa. Nossa tristeza infinita é somada a certeza de que pessoas como ela, só podem ter um destino de paz e harmonia ao lado do Criador. Registro também gratidão pelo carinho, pela amizade serena, pela simpatia nunca deixada de lado em todos os nossos encontros.

Mineiro encantado, João Justino

João Carlos Justino

Há um tipo muito peculiar de mineiro que, me parece, está difícil de encontrar. Chegado em uma boa e longa prosa, disposto a encontrar os amigos na própria cidade para um café, ou reforçar laços visitando-os quando de passagem por locais distantes. Sujeitos como João Carlos Justino! Educado, respeitoso, alegre, receptivo, sobretudo cordial. “— Vamos conversar, Valdo! Falar até do que a gente não entende! Aproveitar a vida!” Essa vida que o deixou nesse dia 15 de maio, entristecendo familiares e amigos que muito o amaram.

Éramos muitos! Em determinado momento é certo que sessenta ou mais jovens frequentavam o grupo da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, em Uberaba – MG. Havia amizade, um sentimento geral unindo todos que, não raro, se intensificava em grupos menores extrapolando as reuniões semanais. Num momento em que dois, três anos de diferença de idade separam pessoas, o que unia mesmo eram afinidades, incorporadas no relacionamento sem que possamos, hoje, precisar como foi que ocorreu. Ficamos amigos! Somos amigos irmãos. E assim permanecendo vida adiante, mundo afora.

Pelo lado materno, João Justino vinha de uma imensa família, quase todos de Ponte Alta que, aos poucos, chegaram ao Boa Vista. Os Silveira! Família que teve músicos talentosos como a dupla Silveira e Silveirinha, os demais membros participando ativamente da vida do bairro, da paróquia. Sr. Claudionor, Sr. Euclides, Judite, D. Maria, Sr. Antônio…

Há um tipo de mineiro que adora conversar! De fala fluente, sempre pronto a esticar a conversa quando boa até o amanhecer. João era assim, cheio de filosofias, de frases calorosas, de efeito e simpatia. Em minha casa, tanto conversava comigo quanto com meus pais, D. Laura, ou o Seo Bino! Não o fazia por deferimento ou gentileza, mas por prazer, por entender que a amizade que tínhamos era sentimento extensivo aos nossos familiares.

Mineiro raro! Essa formalidade no trato social o levava a estar sempre vestido com camisas de manga comprida, calças sociais. Meu amigo era o homenzinho da casa, amando e sobretudo respeitando as irmãs Marilene e Marluce, protegendo os mais novos, Júlio e Maristela. Essa postura, assumida com tranquilidade pela educação recebida de D. Lourdes e Seo Antônio, afastou-o de farras comuns a jovens e adolescentes. Em pouco, João estava casado com Angelina, formando com esta uma bela família. Então, já estávamos morando bem distantes.

Mineiros gostam de ganhar o mundo. Um dia nos encontramos, caminhando pela Avenida Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo. João e eu em direções opostas. Paramos tudo, para colocar a conversa em dia. Recordar viagens para Goiânia, Ribeirão Preto, Ponte Alta, Santa Rosa de Lima, o Rio Uberaba… João logo estaria rumo ao centro-oeste, trabalhando em Brasília e nos Estados de Mato Grosso, Tocantins, Goiás. Em cada lugar, buscava reencontrar os amigos, sonhava reencontro geral daquele grupo em que, um dia, todos se conheceram.

De todos os lugares em que estivemos tínhamos um, muito especial. O alto da torre da igreja, o campanário da Paróquia de Nossa Senhora das Graças. Ali, por especial deferência do pároco de então, vimos o sol poente em várias oportunidades e, em noites de vigília pascal, presenciamos o nascer do sol. Outros momentos foram divididos com Ronaldinho, Fátima, Keila, Kaká, Paulinho, Sônia, Maria Amélia, os Padres Líbero e Américo… Na casa de D. Eponina Borges jogávamos cartas. João e Ronaldo se inflamavam. Quando o barulho extrapolava, bastava mencionar o nome da querida D. Nina para que os ânimos fossem serenados. Puro respeito e carinho para com a dona da casa.

João Justino teve filhos, netos. Esses conheço pouco. A distância e o tempo cobram seus preços. Todavia sei do afeto que os unia e deles o patriarca falava com orgulho, com imensa satisfação, como quando do nosso último encontro, em dezembro passado. Estive em Uberaba e fui visitá-lo, ele em plena luta com a doença que, como diria outro João, o Guimarães Rosa, o encantou. E agora, aqui recordando tal momento, quero registrar a força, a esperança, o bom-humor: “— Agora, você sabe onde me encontrar, Valdo! Pelo menos enquanto tiver desse jeito vou ficar por aqui!”, disse-me rindo da situação, da doença.

Há mineiros que trabalham por toda uma vida! João trabalhou com remédios, dominando o setor farmacêutico, abrindo frentes de trabalho. Sabia das composições, dos efeitos colaterais, dos resultados. Sabia o que cada remédio faria em seu corpo, o que seria possível resolver… ou não resolver. Penso que que tal conhecimento ganha uma dimensão trágica e, ao mesmo tempo, um teste de fé perante a vida. Creio que a fé prevaleceu, pois as últimas notícias que tive vieram da esposa, Angelina: “— Ele tá aqui, lutando para não ir!”.

Mineiros são gente de fé. Como a que uniu um imenso grupo lá no Boa Vista, em torno e sob a proteção de Nossa Senhora das Graças. O tempo levou esse pessoal para locais muito distantes; as tarefas cotidianas, a luta pela vida separou muita gente. Alguns permaneceram unidos, em contato, em amizade fraterna, acreditando e sonhando, como sei que João Justino sonhou, que um dia estaremos todos juntos. Que Deus o ouça!

De tanto

Chicareli, o Carlinhos, é um grande poeta. Nos conhecemos lá atrás e nos distanciamos, cuidando da vida, das nossas carreiras. Há pouco nos reencontramos, virtualmente, e temos trocado nossos trabalhos, como o que publico abaixo, recebido hoje. Obrigado, Carlos! Feliz em poder compartilhar seu trabalho aqui, no blog.

DE TANTO

Carlos Alberto Chicareli


De tanto que é de todos
é chamada de Nossa
e eu, sozinho, preciso muito
de sua mão e seu colo.


De tanto que é sublime
é chamada de Ave
e, eu ave-menina, preciso…
preciso tanto da sua voz suave.


Preciso do seu manto para enxugar as lágrimas,
preciso de seus olhos para enxergar o caminho;
quero ser um bom menino, um bom menino
neste mundo meio e tão perdido…


Preciso do seu ombro para me apoiar;
quisera ter na mente e coração
a ligação com o seu pensar,
sem decepções seguir meu rumo
e neste caminho esquecido planar.


Virá, virá, eu sei que virá!!!
Este dia em que vai me agasalhar,
proteger a minh’alma para frio não passar…
proteger o meu peito para de tristeza
nunca mais chorar…


Nossa Senhora, Ave Maria,
Mãe Querida, Mãe Maria…
Eu só queria dizer estas palavras
para agradecer e voar!!!

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Contingências Antropofágicas – CCBB Brasília

Celebrando o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, o ciclo de três debates discute aspectos históricos, estéticos e humanos do movimento modernista e também questiona as influências dessa primeira etapa do modernismo na arte hoje, jogando luz sobre os significados de uma busca pela identidade brasileira através da arte. Como a questão da brasilidade toma corpo agora?

Os debates são presenciais, gratuitos, com tradução em libras e certificado digital para quem comparecer a pelo menos duas palestras!

Programação:

Quinta, 5 de maio, 19h30

Contingências sócio-históricas: O significado da semana

Maria Eugenia Boaventura – O Salão e a Selva

Regina Teixeira de Barros – Mulheres modernistas

Sexta, 6 de maio, 19h30

Contingências estéticas: A composição da sinfonia modernista de 22

Guilherme Wisnik – Só me interessa o que não é meu

Agnaldo Farias – O lastro modernista nas artes hoje

Sábado, 7 de maio, 19h30

Contingências humanas: O significado de ser moderno hoje

Fred Coelho – Invenções e Reinvenções do Modernismo

Luisa Duarte – Adriana Varejão: Só me interessa o que não é meu, uma atualização crítica.

🎟️ Os ingressos serão liberados no dia de cada debate, na bilheteria do CCBB Brasília. Acesse bb.com.br/cultura o

Programa BH Todo Dia

Elias Santos e Valdo Resende

Muito feliz em ter participado e poder compartilhar a gravação do Programa BH Todo Dia, do Canal TV Brasil, já publicada no YouTube. Apresentado por Elias Santos e exibido ao vivo no dia 31 de março, o tema do programa foi “Auto estima, comunicação não violenta, Semana de Arte Moderna e humor”.
Destaque do programa a recente apresentação do Oscar, quando a atitude de Will Smith chamou a atenção do planeta para a Alopecia. O tema foi aprofundado por André Gianini, cirurgião plástico e especialista em restauração capilar.

Vários convidados participaram do programa: a terapeuta familiar Cinara Cordeiro, a atriz e apresentadora Kayete, a cantora Carô Rennó e eu, Valdo Resende, divulgando o Seminário Contingências Antropofágicas, apresentado no CCBB Belo Horizonte, com curadoria de Katia Canton e produção da Kavantan & Associados, Projetos e Eventos Culturais. Deixo abaixo os registros dos três blocos do programa:
No primeiro bloco, Elias Santos nos convida a opinar sobre a cidade, Belo Horizonte e eu, mineiro, não pude deixar Uberaba de fora dos meus comentários. No encerramento do bloco o especialista convidado fala sobre o tema motivador, a Alopecia.


No segundo bloco, comentamos a Alopecia; pessoalmente destaco a participação da Carô Rennó, que está nesta condição, nos colocando em contato direto com as questões vivenciadas e com experiências contundentes.

No terceiro bloco desenvolvemos o tema central e cada convidado falou do motivo específico em estar presente. No meu caso, a divulgação do Contingências Antropofágicas, 100 anos depois de 22.


Deixo registrado meu prazer em ter participado e conhecido grandes profissionais da minha terra, aprendido sobre o tema e, sendo “novato” nesse tipo de situação, quero elucidar dois aspectos que, posteriormente, percebi e sobre os quais peço desculpas:
O quadro que está atrás, na minha parede, com o retrato em aquarela do Palhaço Arrelia, não é de minha autoria, mas de L. Victor, artista santista. A segunda correção é que em Peirópolis, no município de Uberaba, temos sítios Paleontológicos e não arqueológicos (estes, minhas paixões piauienses).
Assistam e deixem suas opiniões.


Muito obrigado.

Contingências sobre 22

Veja a apresentação do Seminário Contingências Antropofágicas em vídeo, com Katia Canton, Sonia Kavantan e eu, Valdo Resende.