O gavião no asfalto

A foto de Nair Bueno, do Diário do Litoral, é triste:

Seria aquele que vi por aqui? O gavião apareceu morto no asfalto. Pode ser o que andava pelos telhados vizinhos, pode ser aquele que andou defendendo seu ninho à bicadas em distraídos transeuntes. Os ratos estão em festa. Menos um gavião para exterminá-los. Um elo da cadeia que se rompe e que nos leva ao desequilíbrio. Parece exagero, não é.

Por mais que se ame um lugar é questão de maturidade encarar questões que enfrentamos advindas das características locais. Arborizada e ensolarada, recortada por canais que drenam a cidade, o jardim da orla de Santos tem mais de 5.000m de cumprimento em área imensa, 218.800m²! Santos seria um imenso e belo jardim não fosse… a ação do homem.

O belo sistema de canais da cidade nos permite ver peixes, aves e, infelizmente, lixo. Quando a água está baixa fica mais evidente os sinais de esgoto e diferentes tipos de resíduos que deveriam ter outro destino. Somando restos de alimentos de barracas comerciais, de lixo mal condicionados para a coleta, às vezes expostos fora do dia quem que passam os coletores, o resultado é um número incalculável de ratos e baratas. Quem tem hábito de caminhar pela noite conhece essa realidade.

Ao longo do belíssimo jardim da orla há feiras semanais, barracas vendendo comida e bebida, restaurantes e ambulantes, além daquilo que vem com os próprios frequentadores. Há centenas de lixeiras ao longo das calçadas, frequentemente esvaziadas, o saco plástico recolhido por um exército de garis que também varrem a praia, recolhem o que foi deixado na areia por gente mal educada. Os funcionários públicos passam duas vezes ao dia no local. Para quem frequenta, é comum ver após a passagem do colorido grupo da limpeza a ação de gente que deixa restos de alimentos, favorecendo a alimentação dos ratos.

Uma das razões garantindo equilíbrio entre ratos, baratas e seres humanos são os pássaros. Gaviões e corujas comem ratos e pombinhas, assim como essas comem baratas. Não se trata aqui de fazer um extenso estudo demonstrativo do funcionamento do equilíbrio ambiental. O que importa é o recorte que nos leva a perceber que exterminar um ou vários animais é fato que nos levará ao caos ambiental.

Um gavião apareceu morto no asfalto. O finado comeria cerca de 1000 ratos em um ano. Mais aves mortas e o problema será alarmante. E a cidade, sempre linda, merece permanecer assim. Talvez o bichinho tenha morrido ao bater contra um vidro transparente, uma das consequências dos fortes ventos que tivemos por aqui. Pode ter sido abatido por um tiro de chumbo. Há gente besta e armada por aí! O certo é que precisa ser intensificado o cuidado para com aves e outros predadores de insetos e roedores. Esse cuidado deve ser acompanhado de comunicação, informação para evitar o fim que também pode ser o nosso.

O jardim da orla de Santos é um local mágico. Entre o mar e a cidade estão centenas de árvores, plantas ornamentais, floreiras, monumentos e conjuntos escultóricos por onde circulam 300 espécies de pássaros. Incalculável diversidade de insetos polinizam as plantas não só da orla, mas de todos os jardins e ruas da cidade. E são eles, os pássaros, que garantem equilíbrio para que tais insetos não se constituam em pragas.

Com tantos pássaros enfeitando e enchendo a paisagem com suas cores e trinados, não é incomum ver uma ou outra ave morta, caída no jardim. Às vezes ferida, sabe-se lá por qual inimigo. A morte do gavião nos chama atenção por a vítima ser adulta, estar em aparente vigor físico. Em meio à tanta violência entre os humanos é provável que não investigarão os motivos, os culpados. Sairemos todos perdedores.

Estranho no mundo, o escritor

Do tempo do telefone fixo.

Escrever é um barato (gíria dos anos 70, uma referência de idade). Às vezes, conforme o momento, pode ser um privilégio, sina, trunfo, maldição. Um exercício diário que busca a melhor maneira de manifestação através de um texto. Uma paixão que leva ao desejo de só fazer isso. Ninguém come letrinhas, papel impresso. A escrita literária pode ser um trabalho. Há os que tentam sobreviver da coisa. Um angu de caroço! Como muitas das habilidades humanas, a escrita foi dominada pelo capitalismo. Leia-se: explorar e ganhar ao máximo em cima do sujeito.

Explorar pessoas é um pequeno avanço se comparado ao trabalho escravo. No sistema capitalista o indivíduo pode se recusar a exercer seu ofício e morrer de fome. Ou fazer outra coisa. A isenção de responsabilidade tem frases do tipo “é assim que funciona”, ou “são as leis do mercado” e, a pior delas, “todo mundo faz assim, você acha que conseguirá fazer diferente?”.

Escrever, cantar, interpretar, compor, desenhar, pintar e, entre outros, tocar um instrumento, são atividades que demandam tempo enorme de formação, aprimoramento, pesquisa, criação e execução de algo que resulta fundamentalmente em expressão de um indivíduo, uma sociedade, uma época. O sistema capitalista, sempre alerta para novas oportunidades de ganho, trata de elaborar formas de lucrar com tais expressões. Os registros de cada ação são transformados em produtos, quando muda-se a escala de valores. Os que vendem mais estão acima dos que vendem pouco, normalmente com a expressão “não vende!”.

É comum encontrar o profissional que determina o “potencial de venda” de algo que tal sujeito é incapaz de concretizar. Pior quando ele não tem o conhecimento mínimo para estabelecer a distinção entre Escher e Nietzsche, mas tem poder sobre a verba necessária para montar um espetáculo, editar um livro. E toca você a ensinar ao sujeito um contexto que, às vezes, é base mínima para o que você pretende realizar como criador. “Mas, tem sexo, tem violência, é movimentado ou é aquela coisa parada?”. Sem a formação de um budista, resta cair fora antes de cometer um assassinato.

Conheci um editor que, literalmente, cheirava um maço do original apresentado e determinava: “Isso vende!”. Ou “não vende”, e ali na fungada estava definido o futuro de uma obra literária. Obviamente não se espera que um editor leia “tudo”. Na aceleração mercadológica, onde se faz necessário produzir quantidade, é romantismo bobo esperar ser lido por alguém que deve lançar dois ou mais livros mensalmente. O “Q.I”, leia-se “quem indica”, e a árvore genealógica do autor são facilitadores. Resenhas e resumos foram substituídos pelo atual “book proposal”, expressão que remete a quem domina o mercado livreiro.

Dia do escritor. Já andei me irritando ao receber a sugestão de usar inteligência artificial. Para alguma coisa tal artifício será útil. Jamais substituirá o PRAZER que sinto aqui, agora, em escolher a palavra, escrever e reescrever a frase, avaliar, julgar, rir ou chorar com o resultado que vem do que penso, do que sinto, do que gosto, do que creio. Usem, que eu continuarei a escrever, com a experiência da barra que vem ao terminar um texto. A primeira e grande barra, encontrar quem leia!

Gosto de ver pessoas cantando em ruas e praças. Também daquelas que ocupam os passeios públicos com telas e outros suportes para desenhos ou pinturas. Paro em feiras para observar, às vezes adquirir, pequenas esculturas e toda a sorte de artesanato. Cada vez mais raros, sempre dou atenção a repentistas e, quando acomodado, gosto da manifestação de poetas. Já os escritores… É complicado parar para ler uma orelha, uma contracapa, quiçá um capítulo. (Há séculos não utilizava a palavra quiçá!).

Em maio terminei de escrever um livro. Primeira crise veio quando me dei conta do tamanho do filho da puta. Mais de quatrocentas páginas! Em tempos de Twitter, que virou X, só loucos escrevem livros desse tamanho. Ou parentes do editor, ou o próprio editor. (O Luiz Schwarcz que tem domínio do mercado, escreveu 291 páginas no seu “O primeiro leitor”). A segunda crise é o processo de produção e lançamento do livro. Se a crise for ultrapassada e resolvida, meu caro leitor, então você saberá que livro é.

A palavra produção me incomoda. Significa transformar meu trabalho em produto. Algo a ser comercializado, vendido e se Deus descer do céu, lido. Sim, pois vender é uma coisa e ser lido outra. Reclama do preço do livro (Com razão! Nessas de cada um ganhar em cima do outro, há um abismo entre o custo do volume editado e o preço final). Há o “Será que vai virar filme? Vou esperar”, que já ouvi de gente prestes a ser estrangulada. Também há aquela que vem pedir um volume. E penso na frase atribuída à Cacilda Becker: “Não me peça para dar de graça a única coisa que tenho para vender”.

Dia do escritor. E estou com fome. Vou preparar o almoço. Quem mandou não me tornar pastor? Tivesse seguido o conselho de meu pai estaria apenas louco de raiva desses que teimam em cobrar mais impostos de quem explora e não produz absolutamente nada. Feliz dia!

Gaviões urbanos

Houve um tempo em que a ilha de São Vicente quase não tinha gente. Nem a serra era recortada por vias de ferro, por trilhas, por estradas de rodagem. Os primeiros habitantes daqui caçavam peixe, ou animais maiores para se defenderem da fome. Dos pássaros, de fato com pouca carne, preferiam as penas para cocares e pulseiras. Gaviões e povos originários viviam em relativa harmonia até que, por volta de 1500, os portugueses trouxeram as galinhas. Aí, gaviões incluíram pintinhos em suas dietas. A relação com os humanos azedou.

O bicho gavião não difere muito dos outros. Caça quando tem fome, não estocando absolutamente nada. Defende a si e as crias de predadores, o que os torna temporariamente territorialistas, tomando conta do entorno de seus ninhos quando os filhotes ainda não se viram sozinhos. Seus hábitos são diurnos, quando localizam e caçam suas presas.

Já contei em crônica* meu primeiro contato com a espécie, quando viajava de trem de passageiros da Mogiana. Os garçons colocavam nacos de carne espetados em um longo garfo, estendiam a oferta pela janela e o maquinista diminuía a velocidade. O gavião se aproximava, recebia a comida e tomava seu rumo, o trem seguindo viagem. Era lindo. Era poético. Está entre as melhores lembranças de minha infância.

Meses atrás ao acordar vi, pela janela da área de serviço, um gavião parado sobre o telhado do vizinho. Imponente, impávido e altaneiro, diria o poeta. Equidistantes dele, formando um triângulo, três pombinhas inquietas, nervosas, caminhando a passos curtos de um lado para outro. Eu já sabia por observações anteriores que as pombinhas tinham ninhos na cornija do telhado vizinho, no vão de uma chaminé pouco usada. Com a temperatura quase sempre elevada por aqui, certamente é parte inútil da construção. O gavião não atacava as aves menores. Elas se mantinham naquela situação tensa, nervosa.

Sem uma liderança que as unisse contra o predador, as pombinhas permaneciam ali, esperando que o altivo atacante iniciasse o movimento. Penso eu que ele queria atacar o ninho, devia haver ovos mais deliciosos que pombas cheias de penas e piolhos. Para se abaixar e tomar posse dos ovos ele abriria guarda para um ataque conjunto das andorinhas. Dizem os observadores que os bem-te-vis fazem isso para defenderem seus ninhos.

Sem saber diferenciar pombinhas de bem-te-vis, o gavião permanecia atento, já vítima do meu ódio, com pena dos ovinhos ou filhotes indefesos. A situação não se resolvia, eu não possuo nem mesmo um estilingue para espantar a ave de rapina quando fui distraído pelos sons do celular. Esse mesmo celular que hoje pela manhã trazia a notícia de uma senhora ter sofrido uma bicada de gavião no cocuruto enquanto trafegava por movimentada rua do Embaré, bairro santista.

O jornal, tentando um sensacionalismo barato, insinuava ataque à la filme de terror, um Hitchcock e seus pássaros assassinos tupiniquins. Nos comentários, um vizinho do local informava haver um ninho em árvore alta, próxima de onde a vítima passava quando foi atacada. Logo vieram comentários indagando se a moça era palmeirense, vestida de verde e sendo confundida com papagaio ou se, com vestes em preto e branco pudesse ter sido atacada por ser “peixe”, em referência explícita ao Santos FC. Um a zero para o gavião, escreveram.

Um dos imperadores entre as outras 300 espécies de pássaros que vivem aqui na cidade de Santos, os gaviões são importantes para o equilíbrio ambiental. Antes de chamarmos a cidade de nossa, a ilha já era deles. Somos nós os invasores. É bem verdade que eles poderiam construir seus ninhos lá na serra, mas aí teriam que voar muito para obter comida que, por aqui, é farta. Vivemos de forma a facilitar o aumento da população de ratos, entre outras pragas.

Que os gaviões sigam seu próprio destino que, como o de outro sem número de animais, já foi por demais alterado pela ação humana. Usando a própria força e habilidade em atacar de cima para baixo, que sigam naquela do parente Carcará e continuem no eterno e popular “pega, mata e come” da canção. Nós, humanos, identificando árvores com ninhos, podemos atravessar a rua, ir pelo passeio oposto. É só até os filhotes crescerem!  Aos excessivamente assustados com o bichinho sugiro o uso de bonés, chapéus, boinas, perucas e guarda-chuvas, entre outras possibilidades de proteger a cachola. Quanto ao telhado vizinho, anda livre de pombas. Essa batalha o gavião também venceu.

*In “O vai e vem da memória” escrevi “O gavião do trem da Mogiana”, publicado pela Elipse, Artes e Afins.

Aos 70, pronto para outro “por acaso”

Por acaso, “papagaio de pirata” na Veja

Certamente não nasci por acaso. O Aparecido, que carrego no nome, comprova promessa materna para que eu nascesse. A mania de escrever, que trago da infância, é o que me leva a refletir e exercitar a memória.

Sempre fiquei irritado com a expressão “O Brasil não tem memória”. Até onde eu saiba o país é uma abstração social construída por um longo processo cultural. Sendo abstração, cabe a quem construiu e a quem nela vive registrar o que a faz ser, ou seja, lembranças e memórias. Em síntese: Não diga que o Brasil não tem memória se você não escreveu nem uma única linha sobre sua mãe. E, calminha, a mãe aqui não é apenas a genitora, mas a outra, a pátria, que pode ser mátria, aquela do poema do Vinícius de Moraes. A vida está cheia de mães: a dor, a rua, a necessidade, coisas que nos ensinam a sobreviver. Bom registrar que só a mãe mulher costuma dar a vida pelos filhos.

Uma distinção entre preservar a memória e ser conservador é necessária. Continuando na linha “mãe”, parece óbvio dizer que gostaria que mamãe tivesse uma vida melhor. Ela até que viu a reviravolta que a mulherada deu após o surgimento da pílula anticoncepcional, as ideias revolucionárias da década de 70 e pôde usar um monte de eletrodomésticos que tornaram menos pesadas as tarefas domésticas. Há uma imensa distinção entre conservar as mães dentro da cozinha, com tudo o que a tecnologia puder proporcionar, e lutar para que as tarefas – TODAS – do universo familiar sejam divididas, compartilhadas pelo casal.

Mamãe batalhou para que os filhos estudassem. Enquanto vivo serei grato; se escrevo foi por ter tido livros, revistas, gibis e uma mãe que insistiu para minha ida à escola. Ela queria para os filhos uma vida melhor. E o ideal é que esse melhor fosse planejado, ou seguisse uma onda que, lá em casa, vingou nas irmãs, todas professoras! Havia um papo que meninos deveriam ser engenheiros ou médicos, garantindo uma profissão sem patrão e com possibilidade de ganhar grana. Não rolou!

Por acaso, no Piauí, lá no Parque Nacional da Serra da Capivara (Foto: Cris Buco)

Meu irmão Valdonei tinha vocação para atividades autônomas. Foi o primeiro, talvez o único, a entrar em conflito com meus pais por preferir o trabalho ao estudo. Eu cresci em um momento em que a televisão se popularizava e, junto com o cinema, tive outros fascínios, outros desejos. Lá pelos cinco, seis anos de vida quis ser bailarino como os que via na tv. Não sendo russo, fui bastante criticado pela família. A primeira carga de preconceito das tantas que vieram pesar sobre o meu lombo. Carreira de bailarino ficou para uma próxima encarnação. Se reencarnar, escolherei nascer perto do Bolshoi.

No cinema conheci Joselito no primeiro filme que assisti, “O pequeno rouxinol”. Era um garoto espanhol com uma garganta privilegiada que fez sucesso lá e cá. A música entrou como perspectiva num dos “teatros da Belinha”, a moça que, na paróquia, fazia apresentações de pequenas peças, esquetes, números musicais para angariar fundos para as ações sociais. Eu devia cantar a “Canção do jornaleiro” e “O engraxate”. Músicas melosas de garotos de rua tentando sobreviver.

Eu cantava o dia inteiro. No telhado, em cima de árvores, no banheiro durante intermináveis banhos (para desespero do meu pai, preocupado com as contas de luz). Passei por programas infantis de rádio, cantei em serenatas com colegas do bairro, em missas, casamentos e botecos. Adulto, já dono de primeiras composições, gravei disco, fui cantar por aí até descobrir que odiava cantar profissionalmente. Em bares, era começar a cantar, sem aquele tradicional “silêncio que vai se ouvir o fado” dos portugueses, e já vinha o burburinho da plateia. Pior o bêbado chato, pedindo para você, que é barítono, cantar música de soprano. Ainda hoje não consigo acreditar que Roberto Carlos goste de cantar Emoções e não é à toa que Maria Bethânia canta Carcará com arranjos diferenciados.

Por acaso, via Pri Cirino, fui juiz de carnaval.

Os acontecimentos se entrelaçam, a vida segue. Até pensaram que eu faria engenharia e tive alguns problemas por querer estudar filosofia. “Não dá dinheiro!” era a frase para o cara que sonhava com uma vida franciscana. Mas veio o primeiro “por acaso” de alguns que norteariam minha vida.

Por acaso comecei a atuar em teatro, quando meu amigo Ronaldo precisou de alguém que escrevesse e dirigisse uma peça para encerrar um encontro de jovens. Começava ali uma trajetória de infinitos detalhes e quero ressaltar aqui o que me pega de jeito: redigi 48 peças. Dessas, 14 continuam inéditas. Caso você queira montar alguma, pagando direitos autorais, entre em contato pelo meu e-mail. Também escrevo sob demanda respeitando valores éticos. Sou de esquerda.

Também foi por acaso que um sujeito abriu um jornal em Santo André, no ABC. Entre os patrocinadores, uma agência de viagens. Maria da Penha, minha amiga, escreveria sobre os destinos oferecidos pela CVC e, percebendo a lacuna, informou ao proprietário que conhecia alguém que poderia escrever sobre teatro. Depois desse primeiro vieram outros três jornais, oito revistas, dois sites e alguns blogs. No mais longevo, este blog onde você lê este texto, contabilizo 1009 textos publicados desde 2011.

Por acaso, via Rafael Mendes, entrando no universo digital.

Lá pelas tantas já sabia das dificuldades de sobreviver trabalhando em teatro e, se sobrevivia com jornalismo, queria mais alguma coisa. Foi quando o Grupo Boi Voador foi fazer turnê em Portugal e um dos seus atores, Rossi, sendo professor, precisava de um substituto na escola. Domingos Quintiliano me indicou e lá começou uma atividade que mantive por 34 anos. Foram três colégios e duas universidades. Milhares de alunos, alguns grandes amigos.

Há diversos outros, no entanto desejo registrar o mais recente “por acaso”. A música que havia ficado em plano secundário voltou ao meu cotidiano. Sugestão e incentivo de Flávio Monteiro, fui parar no Madrigal Ars Viva. Estou lá, feliz da vida, estudando com afinco e aprendendo, aos 70, a cantar em latim, francês, italiano, alemão (alemão é foda!). E conhecendo pessoas incríveis, vivendo experiências especiais como cantar a Misa Creolla, primeiro com grupo de músicos e depois com a Orquestra Sinfônica de Santos.

Nas atividades principais desses anos todos é a escrita permeando tudo. A escrita não veio por acaso. Graças à minha mãe, às minhas professoras. De tudo o que faço – e fiz – na vida, a escrita permanece. Até onde vou, não sei. Segue a vida! O que virá? Certamente que, se lúcido, escreverei. Te convido a ler e, sobretudo, tento te estimular. Escreva sua história. Faça um vídeo, componha uma canção, um poema. Registre sua história e mande à merda essa falácia de o país não ter memória. O Brasil sou eu, somos nós (“Grande coisa”, “Bela bosta”, “Se achando”). Pois é, bom ou ruim, somos nós. Ah, e por escrever, me aguarde: novo romance vem por aí (aguarde o próximo post!).

Até!

Garimpo de causos e da história

Foi um final de semana reativando lembranças; uma série de reencontros propiciados por um escritor. Quando fui presenteado por Jennifer Monteiro com o livro “Princesinha da Farinha Podre: Aventureiros, bandidos, caubóis e sonhadores no velho oeste das Minas Gerais” soube de imediato tratar-se de Uberaba. Os que lá nasceram guardam expressões como Princesinha do Sertão, Arraial da Farinha Podre, Freguesia Santo Antônio e quantas mais a memória permite.

Ainda não conheci o autor, André Borges Lopes. Estou longe de Uberaba e há três anos não moro mais em São Paulo, onde ele reside. Virtualmente conheço um pouco do trabalho do site Uberaba em Fotos. Sem demora mergulhei no livro da maneira que mais gosto. Primeiro lendo as informações de capa, contracapa, sumário, olhando demoradamente as ilustrações e já me emocionando com fotos como a da Ponte do Rio Grande em construção (págs. 62/63), e entre outras, a do presidente Juscelino Kubitscheck caminhando pela Fábrica da Produtos Ceres, lá no Boa Vista, onde nasci. Depois fui para os causos.

Tenho apreço pela memória e pelo registro de lembranças via exercício da oralidade e da escrita*. De imediato salta à percepção uma grande qualidade do autor de Princesinha do Sertão: o rigor da pesquisa. Historiador, André Borges Lopes deixa evidente o aproveitamento do que aprendeu. Não apenas cita o fato e as fontes, mas vai além, publicando documentos que comprovam por onde pesquisou e a veracidade do que nos conta. E o faz enquanto jornalista, garimpando história que embasa o que poderia ser apenas causo.

O livro propicia a uberabenses encontros com gente quase esquecida, como Dona Chiquinha, sempre lembrada por agradinhos duvidosos. Para pessoas de outros lugares há notícias de, por exemplo, Ataliba Nogueira, até então um nome de escola em Campinas, onde meus primos estudaram. Os mais velhos se lembrarão de Calafate, no caminho de ferro para atravessar o Rio Grande em direção ao estado de São Paulo.

Tive lembranças muito fortes por ter atravessado com meu pai, à pé, por várias vezes a ponte do Rio Grande. E, caríssimo André Borges, nunca me esqueci dos sinais de bala nas estruturas da ponte. Atente! Sinais, não perfurações, mostrados por meu pai. Óbvio que, menino, acreditei. E meu avô materno, mestre de linhas da Mogiana, nos deixou relatos de como os funcionários da ferrovia tiveram de se submeter aos combatentes em 1930, em 1932.

Tão fortes quanto, mas bem amenas, são as lembranças que guardo da gameleira quando, passando por lá com minha mãe, parávamos na Padaria Espéria de sucrilhos cheirosos e inesquecíveis. E as doze horas de trem de Uberaba até Campinas não pesavam para crianças em férias. Pesa hoje o tempo absurdo entre Santos e Uberaba, o monopólio antes da companhia férrea agora é de empresa de ônibus.

As crônicas reunidas no livro lembram e suscitam recordações. Informam com clareza e honestidade. As sutilezas interpretativas já no título e subtítulo do livro nos remetem à realidade. A terrinha que amamos tem lá suas histórias que, não bastasse a virulência de quem praticou atrocidades, há o acréscimo da criatividade do ser comum. O exemplo mais notável são as atribuições dadas pela população ao “monstro de Capinópolis”. Eita, povo criativo!

Foi um final de semana em Uberaba sem sair da sala do meu apartamento. Uma viagem que me levou até a Guerra do Paraguai, me trouxe de volta os patuás com lascas de madeira da cruz de Cristo, quando me vi demarcando o Distrito Federal e, entre um tempo e outro, me escondendo dos tiroteios que de vez em quando rolam pela cidade.

Meu obrigado a Jennifer Monteiro e Fernando Brengel pelo livro. Parabéns ao autor André Borges Lopes pelo trabalho. Espero que esse seja lido por muitos outros, de Uberaba e de todo o Brasil. Indicado aos que gostam de boas histórias, fundamentadas na História e registradas com talento e competência.

Até mais!

*No livro O vai e vem da memória, que vou pedir a Jennifer encaminhar um exemplar ao André Borges Lopes, exercitei e registrei lembranças desse mesma Uberaba que, sem dúvida, merece livros e mais livros sobre sua gente, seus bairros, toda a cidade.

Nana, da delicadeza da paixão

Acorda, meu amor

É hora de trabalhar

O dia já raiou

É hora de trabalhar!

Quando ela cantou “Bom dia!” a gente sabia que ela era filha de Dorival Caymmi e, que naquele momento, estava casada com Gilberto Gil. A voz, poderosa e inesquecível. Foi em um daqueles incríveis festivais da TV Record. Era Nana, que de repente sumiu. Parece que foi para fora do país, viver um tempo por lá. 

Tempos depois, na TV bandeirantes. Eu desempregado, via gravações de programas do Chacrinha, da Hebe Camargo. E entra a moça de “tomara que cai” para cantar a convite da Hebe. Foi a primeira vez que tive a certeza de que é possível cantar com o corpo inteiro. “Com o útero”, ela teria dito. Ali, eu com meus vinte e poucos anos vendo uma cantora única, incrível. Uma paixão para todo o sempre.

Já contei de quando no palco do Sesc Vila Mariana acabou a luz. E ela, acompanhada por um violonista se limitou a dizer. “Se vocês ficarem quietinhos eu continuo a cantar”. Quem iria desobedecer? E foi mágico, o show continuou e a luz, quando voltou, subiu suavemente iluminando Nana, da delicadeza rara na voz. Aliás, caracterizar a voz de Nana é complicado.

Nana da voz forte, poderosa, terna, delicada, suave, sussurrante. Nana da voz amorosa, da voz quente, da voz profunda, do timbre único e absolutamente inconfundível. Nana da técnica usada em prol da emoção, cantando com um fio de voz até acabar o ar, desmontado o ouvinte, fazendo-o chorar. Nana da delicadeza da paixão.

Nana gostava de beber, de ficar tranquila. “Estou aposentada!”.

Nada que me deixa engasgado, incapaz de continuar a escrever.

Tenho os discos

Agora tenho os discos e a saudade.

Até, Nana! Obrigado.

64 Anos do Madrigal Ars Viva

Na comemoração de aniversário a Sociedade Ars Viva anuncia novos projetos musicais para Santos e região.

Ars Viva com a Orquestra Sinfônica de Santos. Foto: JAS

Fundado em 29 de abril de 1961, o Madrigal Ars Viva colocou Santos na história da música e do canto coral através de concertos nacionais e no exterior. Intérprete de repertório de diversas épocas, o Ars Viva revelou musicistas e compositores e foi fundamental na criação e interpretação de peças do Música Nova, movimento que tem entre seus signatários o compositor santista Gilberto Mendes.

A Sociedade Ars Viva foi criada como mantenedora do Madrigal e administradora das atividades pertinentes à música de concerto. Nestes 64 anos tem se destacado na criação e apresentação de concertos, na formação de cantores e, entre outros, na produção de cursos e eventos culturais em toda a Baixada Santista.

Entidade privada, a Sociedade e o Madrigal Ars Viva estão entre poucas instituições que atravessam décadas se mantendo fiel aos princípios que colocam a qualidade musical como prioridade. Um trabalho que se renova ao longo dos anos, a Sociedade Ars Viva segue se renovando com novos projetos e, com o Madrigal a integração de novos integrantes e preparação de novos concertos.

O ano de 2024 foi de transição, quando a regência do Madrigal Ars Viva, que por mais de 50 anos foi do Maestro Roberto Martins, passou para o Maestro Ricardo Cardim. Uma transição movimentada. Após o evento de despedida de Martins, o novo regente criou e apresentou o concerto “Ars longa, Vita brevis”, a participação do coro nos Concertos Ibero-Americanos e, finalizando, o Madrigal cantou com o Coro Livre da Baixada, acompanhados pela Orquestra Sinfônica de Santos na Basílica do Embaré, e no 2º Encontro de Coros da AABB-SANTOS. Em dezembro também ocorreu o lançamento do livro Maestro Klaus-Dieter Wolff: o Coral, Sua Técnica e Organização, Volume 1, organizado por Luiz Celso Rizzo com a história de um dos fundadores e primeiro regente do Ars Viva.”

Projetos e Novidades do Ars Viva

Além do lançamento do Volume 2, contendo obras corais do Maestro Klaus-Dieter Wolff, a Sociedade Viva já prepara eventos culturais gratuitos para a cidade de Santos e demais localidades da Baixada, atingindo também interessados de todo o país. Entre as atividades previstas – todas já aprovadas e em fase de pré-produção – estão o Festival de Música Vocal, a Semana Cultural Ars Viva, e o Coro Escola Experimental Ars Viva, além de Concertos e Encontro de Coros.

Neste 29 de abril o Ars Viva lança seu site ( https://madrigalarsviva.wordpress.com/ ), onde estarão concentradas informações e história das atividades da sociedade e promove encontro comemorativo entre os membros do Madrigal que dão as boas-vindas à quatorze novos integrantes. “É fundamental a renovação para a continuidade do trabalho do Madrigal”, diz o Maestro Cardim.  Nessa renovação são fundamentais o trabalho de preparação de Denise Yamaoka e o acompanhamento da pianista Sônia Heloisa Domenighi.