Entre o significante e o significado, o escritor estupefato
Autor: valdoresende
As formas de expressão dominam minha vida. E aqui, neste blog, pretendo escrever sobre elas, sobre meu cotidiano, as coisas e pessoas que curto. Sou professor, escritor, diretor teatral, mestre em artes visuais pela UNESP e um pouco mais. Frutos de uma vida, graças a Deus, intensa.
Chico Rei, reza a tradição, veio do Congo para Ouro Preto, em Minas Gerais, por volta de 1740. Após muita luta conquistou a própria alforria e libertou outros escravizados.
Joyce Prado, nossa convidada do Trem das Lives do próximo domingo realizou o documentário , “Chico Rei entre Nós” explorando faces atuais de uma situação que vem de longe.
Há outros como Chico Rei, lutando e resistindo? A resposta primeira é sim, através de obras como esse documentário e outros trabalhos da diretora Joyce.
Diretora e roteirista à frente da Oxalá Produções, Joyce realiza filmes, lives e documentários voltados primordialmente às questões do negro.
Além do longa “Chico Rei entre Nós”, destacam-se também em sua filmografia “Fábula de Vó Ita”, “Okán Mimó: Olhares e Palavras de Afeto”, entre outras produções.
Joyce estará conosco para contar um pouco de sua carreira, bem como antecipar as previsões para o Oscar 2021. Tudo ao vivo, sem cortes.
Veja abaixo o trailer e, aos interessados, o filme pode ser visto via @todesplay.
Da janela da clausura dessa interminável quarentena vejo Rubão, na porta da doceria. Ele não leva jeito de quem gosta de doces, mas como a doceria vende outras coisas… Meu conhecido deve ter por volta de 40, 50 anos. Pode ser mais, ou menos. Ninguém mantém o frescor da pele morando na rua. E é na Avenida Brigadeiro e em outras calçadas de vias próximas onde ele reside.
Rubão está sempre alegre, trocando pouquíssimas palavras com os transeuntes, mas estabelecendo papos enormes com quem só ele vê. Tem um olhar arguto e uma percepção notável. Provavelmente foi o primeiro indivíduo a registrar que eu havia parado de fumar. Nunca mais pediu-me cigarro. Percebo, quando o encaro, um certo olhar de superioridade. Ele é livre, e eu sou preso a convenções, ao modo de me vestir, transitar, viver… Ele me olha com desdém de quem é livre e, da janela onde o vejo, sinto inveja.
Havia um outro conhecido cuja tristeza incomodava. Tinha um olhar desesperador e, me parece, já perdera a fala no silêncio imposto por todos os que o ignoravam, caminhando como se não o vissem. Diferente de Rubão, que é alegre e que se deita na calçada como quem toma sol em praia paradisíaca, esse outro vivia encolhido nos cantos e, inesquecível, durante chuvas permanecia agachado, como quem toma um banho restaurador, ou sofre um castigo. Era um homem triste e toda a tristeza ficava no olhar, quando entregávamos algo a ele. Também como Rubão recusava roupas limpas. Um dia cismei e teimei em levar calça e camisa para ele. Olhou-me silenciosamente, com expressão de não precisar daquilo e seguiu, lentamente, evitando me olhar por algumas semanas. Um dia desapareceu. Aliás, um dia percebi que não o via há algum tempo.
Observo a postura do Carlos, que guarda carros três vias acima da rua onde moro. – Com licença, senhor, vou trabalhar! É assim que ele se despede, após conversas rápidas enquanto compro frutas de um ambulante que mantém um carrinho na esquina da Artur Prado com a Rua Pio XII. Carlos tem uma subserviência latente, de quem descobriu na aparente mansidão um meio de sobreviver à violência urbana. Atento às vagas de ocasião, orienta motoristas que precisam estacionar. E lá vai ele, com leves mesuras, cabeça baixa, com os braços indicando à esquerda, à direita. E informa que guardará o carro enquanto o dono não estiver presente. Lembro a arrogância dos que nem um mero olhar dirigem à “essa gente”. Já vi em um e outro momento quando entregam uma moeda, com desprezo. Carlos ignora, e volta sorrindo, conversando com o vendedor, comigo. Sem nunca deixar a atenção ao trânsito. – Com licença, senhor, vou trabalhar!
Também na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, bem em frente ao início da Alameda Ribeirão Preto e rente à grade que cerca o supermercado, há uma cabaninha feita de material alternativo, encontrado certamente pela dona, uma moça tensa. Tenho medo de olhar para ela. Aos gritos e xingamentos para o ar, para os veículos que passam, para aqueles passantes que a incomodam, ela me lembra aquelas mulheres fortes, dispostas a tudo para defenderem seu espaço, suas crias. Descobri, com o tempo, que é o tipo e a forma de olhar que a incomoda. Percebi também que a luta é pelo que é dela, aquela cabana onde, durante algum tempo, ela dividiu com um namorado. As brigas eram notáveis. O dono da banca de jornais, bem próxima, já manifestou ódio pela moça. Um dia desapareceu a moça, a barraca. Pensei com meus botões: – conseguiram! E cogitei que pudessem ter arranjado algum pretexto para prendê-la, matá-la. Cheguei a vê-la em outra rua, me alegrando por sabê-la viva. E, mais algum tempo ela voltou e está lá, no mesmo lugar. O passeio é público, logo é dela. E ela mora onde bem quer.
Esses paulistanos certamente incomodam muita gente. É fácil dizer que eles são “sujos”, que são “vagabundos”, que “deveriam trabalhar”, que deixam a cidade “feia”. Lá atrás, em algum momento, essa gente foi para a rua. Sem possibilidade de uma outra vida, vivem como é possível. Alguns com serenidade, outros com tristeza, aqueles com raiva e outros, ainda, com a indisfarçável liberdade de padrões, de formas, maneiras.
Vejo o trabalho do Pe. Lancelotti e de outros grupos que apoiam esses paulistanos. Trazem comida, agasalhos no inverno, prestam socorro aos que ficam doentes, brigam por eles quando necessário. Pessoalmente vejo-os como pessoas corajosas por terem se apossado, insistido, resistido a tudo e todos. São sobreviventes! E ouso mesmo a dizer que há momentos felizes, quando por exemplo vejo Rubão brincando com o garçom do bar que fica na esquina. O rapaz trabalha para evitar que o outro perturbe os clientes. Às vezes grita, outras o pega pelo braço e indica direção oposta, mas também é quem o alimenta, brinca e, solícito, busca isqueiro para acender o cigarro do amigo.
Antes de terminar este volto à janela. Rubão está lá, firme e forte em frente à doceria. Parado de forma a observar a televisão acima dos freezers. Está lá, com a postura de dono da rua, peito aberto, corpo ereto, quase desafiador. Como se dissesse “a rua é minha, daqui não saio, ou saio quando quiser”. Está sem máscara, sorridente, falante, os braços dançando pelo ar em papo com interlocutor invisível. E constato o medo que sinto das ruas, da pandemia, do contágio. E torço, rezo, para que tudo corra bem para esses meus caros vizinhos.
Aumente o som da live porque o nosso trenzinho vai tremer.
Geraldo Guimarães Junior, mais conhecido como GG, cresceu na Pompeia, bairro paulistano em que floresceu o rock’n’roll brazuca. Bandas como Made in Brazil, Mutantes e Tutti Frutti, formadas por irmãos, vizinhos e amigos do bairro, tornaram-se ícones de gerações de fãs.
Berço do Rock, a Pompeia soube ir além. Nos anos 1970 e 1980, o Palmeiras recebia o Chic Show, bailes que reuniam centenas de fãs da Black Music. Jorge Ben Jor, Tim Maia e o lendário James Brown realizaram shows memoráveis nesses encontros.
O Punk Rock também deve muito ao bairro. Em novembro de 1982, o SESC Fábrica Pompeia foi palco do festival “O começo do fim do mundo”. Dois dias de som no talo e a energia de bandas entre Inocentes, Cólera, Olho Seco e Ratos de Porão.
O GG, Geraldo Guimarães, entrevistado desse domingo do Trem das Lives, é guitarrista de duas bandas, Santanás e Pompeia 72, além de ser colaborador assíduo da Feira de Artes da Pompeia. Uma estrada recheada de excelentes histórias, que ele dividirá conosco.
A Santanás é dedicada à obra de Carlos Santana. Já a Pompeia 72 cultua o som do Deep Purple, uma das principais influências de todo o rockeiro que se preze.
Plugue-se no nosso trenzinho. E curta as histórias de quem as vive e escreve.
O bom do Trem das Lives é nos possibilitar conhecer livros, autores e, via bate-papo, ir além, aprofundando nos temas e na obra de nossos convidados.
Thales Guaracy é jornalista, editor e escritor, tendo construído uma sólida carreira no jornalismo com passagens pela Gazeta Mercantil, Estadão, Exame e Veja, trajetória que lhe rendeu o Prêmio Esso de Jornalismo Político em 1989. Atualmente, mantém uma coluna no Poder 360º.
Como editor, criou o selo Benvirá da Editora Saraiva, além de dois selos próprios, o Copacabana, dedicado à ficção, e o País do Futuro, à não-ficção.
Com mais de 20 livros publicados, a obra de Guaracy é eclética, dividindo-se entre romances, biografias e história. Dos títulos publicados, destacam-se Filhos da Terra e Campo de Estrelas, ambos bem recebidos pelo público. Além desses, Guaracy assina biografia do comandante Rolim Amaro, fundador da TAM.
Ontem comentamos aqui sobre Anita, romance a respeito da revolucionária Anita Garibaldi. Hoje quero lembrar outros dois títulos de resgate histórico, A Conquista do Brasil (1500 – 1600) e A Criação do Brasil (1600 – 1700).
A Conquista do Brasil
O subtítulo do livro A Conquista do Brasil, 1500-1600, de Thales Guaracy, nos dá uma ideia concreta de que iremos ter informação e bom humor: “Como um caçador de homens, um padre gago e um exército exterminador transformaram a terra inóspita dos primeiros viajantes no maior país da América Latina”.
O intenso processo de expansão portuguesa, competindo com espanhóis e outros povos por novas terras culminou com o domínio do Brasil. Essa história escrita pelo próximo convidado do Trem das Lives, Thales Guaracy, foi muito bem recebida pelo público tendo continuidade no lançamento seguinte, A Criação do Brasil, 1600-1700.
Guaracy participará do Trem das Lives, falando da sua produção literária, bem como dos rumos do país, da situação em que vivemos e o que podemos esperar para um futuro próximo.
Anita Garibaldi está entre aquelas mulheres admiráveis, muito além do seu tempo. Revolucionária, não hesita em partir para a luta explícita e torna-se a heroína de dois mundos, lutando no Brasil e na Itália.
Quem se aproxima da história de Giuseppe Garibaldi, que liderou a unificação italiana no século XIX encontra a mulher, Anita.
A percepção da ligação visceral entre personagens e história levou Thales Guaracy, o próximo convidado do Trem das Lives a escrever ANITA, romance publicado pelo Grupo Editorial Record e disponível também em e-book.
O cérebro, que desconhece os limites do ir e vir, leva-nos para muito além do espaço e do tempo e, para isso, enche nossas noites de sonhos. Tempos de reclusão imposta ao corpo, dei de sonhar com gentes da minha infância, cenários já desfeitos por reformas e mudanças. É incrível a quantidade de imagens reservadas na tal massa cinzenta e que, imprevisíveis, brotam sabe-se lá por qual motivo nessas noites pandêmicas. Eu que não vou tirar emprego dos discípulos de Freud. Ocorre que, lembrando ao acordar de sonhos recentes, com esses emergem palavras lá das profundezas das memórias. Algumas, voltei a usar.
“Me lambrequei todo!” Disse irritado após um acidente na cozinha quando, tentando socorrer uma tampa que caia, deixei uma vasilha cheia de gororobas sujar minha barriga, minhas pernas, o chão. “O que aconteceu?” Acudiu-me o Flávio e eu, irritado: “Tô todo lambrecado!”. Ele riu, já meio que habituado às estranhas palavras que tenho usado. “Você inventou essa palavra”. Claro que não, lá em Minas, na infância, a gente usava direto. Lambreca, lambança, lambuzado… E a memória se fez presente.
Um dia deixaram Walcenis, minha irmã, tomando conta dos sobrinhos. Dois, três? Com certeza, dois sobrinhos e nosso irmão caçula. Logo, no mínimo três crianças. Lá pelas tantas, uma delas encheu as fraldas no que resulta na plenitude da palavra em questão: “Ela ficou toda lambrecada de merda”! Eram sobrinhos, minha irmã não tinha traquejo nem a sina das mães em resolver tal problema e o jeito foi apelar pedindo socorro à D. Doralva, nossa vizinha que, prontamente, deu banho na criança feliz e aliviada.
Antes de entrar na segunda palavra, ridico, cabe uma digressão. Eu já pesei 55kg! Em priscas eras, com 1,84m eu era muito magrelo. Foi marcante ligar para Uberaba e dizer para minha mãe: “- Estou pesando 56kg!” Ela festejou e o tempo passou. Corre por aí que, com a idade, a gente engorda um quilo por ano. Soma-se à idade comilanças durante a pandemia e… Me descubro com 96kg. E constato que lá se vão uns 41kg, ops, anos de quando liguei para Dona Laura.
96kg não seriam problemas se a distribuição desses não fosse cruel. Certamente, de todo o peso adquirido a maior parte está concentrada na pança (palavra adequada para a atual situação). A gente segue a vida, de bermuda e camiseta, até o momento em que se faz necessário usar uma calça comprida e… uma, duas, três, quatro calças destinadas para doação por excesso de cintura do dono. Bora retomar antigos hábitos e assumir um regime.
Hora da refeição peço ao Flávio (ele, de novo!) para abastecer meu prato. O dito cujo come feito um passarinho e eu, justificando meu apelido palmeirense, encho o prato feito um porco. Ao pedir ao jovem esguio e equilibrado para me servir sei, por experiência de vida, que ele naturalmente diminuirá as minhas porções de refeição. Entusiasmado com a função ele, ao invés de uma colher de arroz, por exemplo, passou a me servir meia colher. “Ridico!”
O embate estabelecido entre a gula e o comedimento resultou no conflito exposto com a palavra vinda lá da infância: Ridico. Ele riu e corrigiu: “- Ridículo?” “Não, ridico mesmo, você está ridicando comida!”. Nova acusação de estar inventando palavra e, confesso, a dúvida bateu. Será que existe “ridico” ou só a gente falava assim? Antes de ir ao dicionário apelei para o argumento de “autoridade”: nós mineiros falamos assim. E o cara me olhou com aquela expressão de “tá inventando coisa”. Pois bem, está lá, bem claro. Ridico: avaro, sovina, mesquinho. Ele sorriu com a definição e sentenciou: “Você que pediu!”.
E assim estou eu, tentando comer menos e evitando me lambrecar. Poderia terminar falando do incrível universo dos sonhos que, de quebra, levam-nos a lembrança de palavras e expressões tão antigas quanto nossa memória. Prefiro reclamar: Estou com saudade de um bom pedaço de pudim, mas o ridico – exímio chef de pudins – disse que engordarei quatro kg com a iguaria. Vida difícil!
Pasqualino Ostereistedt, um coelho alemão radicado no Brasil, comerciante informal de ovos de Páscoa e de similares, é o próximo convidado do Trem das Lives, neste domingo, 4 de abril. O simpático mamífero virá nos contar sua origem e outros costumes e histórias dessa data comemorada em todo o mundo. A live é parte alusiva às datas comemorativas, da série criada por Fernando Brengel e Valdo Resende
PASQUALINO OSTEREISTEDT, O SETE BELEZAS
Nascido na pequena cidade de Ostereistedt, no Norte da Alemanha, na Baixa Saxônia, único macho de uma prole de oito filhos, Pasqualino tem sete irmãs, daí o codinome Sete Belezas. Comerciante dos ovos produzidos pela esposa, o Coelho mais querido encarrega-se, junto aos filhos – ele tem dezenas – de entregar todo o chocolate produzido em casa.
Guardião dos costumes e lendas da sua terra, Pasqualino adora conversar e contar suas histórias, embora se meta em confusões frequentes, dado ao jeito rebuscado de resolver certas situações. Em crise quanto aos ovos tradicionais e a nascente produção de ovos veganos, Pasqualino está encrencado e busca refúgio, quando nos encontra para um bate-papo.
Dos costumes pascais ao universo pop dos coelhos, incluindo entre outros as coelhinhas da Playboy, o mega star Roger Rabbit e o temido Sansão da Mônica, o Trem das Lives vai brincar de teatro e de contação de histórias via live “tradicional”, ou seja, uma entrevista com direito a pitacos dos viajantes, seguidores do nosso Trem.
OUTRAS PERSONAGENS DO TREM DAS LIVES
Terceira personagem de uma série em andamento, Pasqualino Ostereistedt vem fazer companhia a Papai Noel, que encantou e alegrou o Natal do nosso público e, também, a Fernandito Bombonera, astrólogo argentino que, em janeiro passado fez humoradas previsões para os viajantes do Trem das Lives.
A ideia, segundo os criadores Fernando Brengel e Valdo Resende, é manter o formato live, ou seja, uma entrevista com possíveis interações com os internautas, mas contando e celebrando as festas comemorativas via personagens tradicionais do folclore mundial. Outros virão? Provavelmente! O formato se manterá? Nosso norteador é a criatividade e a vontade de estar em sintonia com nosso público.
Alternando criação e entrevistas com convidados reais, o Trem das Lives vem ampliando horizontes, apresentando escritores, músicos e profissionais de destaque que interessam para que tenhamos um painel da diversidade criativa do povo brasileiro.. As viagens desse trenzinho ocorrem aos domingos, no Instagram, às 18h00, com duração de 1h. A divulgação é feita pelos idealizadores e convidados via Facebook, Twitter e o próprio Instagram.
SERVIÇO:
Pasqualino Ostereistedt, o Coelho da Páscoa no Trem das Lives