Um natalício 69!

Grandes prazeres: cantarolar Caymmi e caminhar pela orla, sentindo o mar acariciando os pés, ondas ligeiramente maiores roçando o calcanhar. Acompanhar com o olhar cada navio que parte, deixar o pensamento vagar enquanto o sol se põe. As nuvens nunca repetem o desenho e o mar varia de cores e formas, refletindo o céu. Os pássaros mergulham em busca de comida. Estou com 69 anos!

Devagar, tentando ouvir o que o mar tem pra dizer, sonho com Dona Yemanjá emergindo bela, doce e, do céu espero o disco voador que tarda em vir dar um oi. É só o que quero: um oi! Dela e dele. Não tenho paciência pra vagar de bolota em bolota por entre galáxias desconhecidas e ainda não sei nadar, quanto mais mergulhar. Será que farei 70?

Em devaneios de décadas passadas pensava que morreria aos 35 anos. Não tinha nenhuma marca externa, nenhum trauma desses que os anos nos presenteiam. Vivi além do limite pensado e carrego lembranças e dores. Essas últimas brincam, aqui e ali, doendo cada dia um pouco e em pontos distintos, fazendo-me ter certeza de estar vivo. O coração palpita, o fôlego está longe de suportar uma corrida. São 69 anos!

Outro dia uma amiga, aos 77, me disse, referindo-se também à irmã de 75: “Quando a gente ficar velha, a gente vê o que faz. Por enquanto vamos levando, né!”. Como ela, também não sinto o peso e o limite que a idade impõe. Em mim está um ser que não é aquele da adolescência, nem o mesmo da juventude, da idade adulta. São “eus” retidos em imagens. Eu, eu mesmo, abstração da linguagem, não tem idade e, óbvio, se penso no porvir espero que venha sem mais cicatrizes e nenhum parafuso pelo corpo – cinco me são suficientes. O pensamento, ágil, com pretensa lucidez e com a força dos sonhos não contabiliza nada, precisando de maquininha até pra somar boletos. Vai-se vivendo e deixo pra quem me lê as piadas com as possibilidades imaginadas para um 69.

Das habilidades adquiridas com o tempo ressalto o fato de recolher o que cai com a força do meu hálux. Uma folha de papel, um garfo, qualquer peça de roupa, tudo sai do chão suspenso pela precisão do Dedão. Ops, tamanha habilidade não carece de ser chamado de dedão, é Hálux. No cotidiano o hálux, junto ao segundo dedo, recolhe coisas de diferentes tipos e tamanhos que as mãos deixam cair. Nessa tarefa me autodenominei “Macaca da Bela Vista” e sigo feliz sem precisar abaixar a cabeça e cair de cara no chão. Já pensei em campeonato de catar coisas com os dedos do pé. Quem pegar mais objetos em um minuto ganha um café.

Estou mais rueiro que antes. É que o mundo é tão belo, Santos é tão bonita que não dá pra ficar dentro de casa sem ver os jardins floridos, os pássaros voando pelos canais, o sol coroando o céu azul, ou o horizonte pleno de nuvens carregadas, com vento ou calor intenso, ou chuva. Em casa, não perco a oportunidade de olhar para a Serra, os navios, as pombinhas nos telhados, as rolinhas buscando comida nos passeios públicos. É bom estar com 69 anos!

Continuo amando muito! E Deus me deu um grande amor na maturidade. Tenho muitos amigos e, vez ou outra, sempre chega mais gente. Tenho lembranças e saudade porque fui agraciado com memória e reconhecimento. Até aqui eu vivi um bocado! E danem-se as ideias de jerico de achar que morreria aos 35! Danem-se as dores e os incômodos, meros sinais de que, ainda vivo, devo aproveitar o tempo que me foi dado. Que venham outros dias, outros anos, vários natalícios. Afinal, o que são 69 comparados com a idade da terra?

Qual é o nome do “mercado”?

As “movimentações do mercado” de D. Lo Prete nunca são sobre o ir e vir dos vendedores de pipoca…

Quem mais se irrita quando apresentadores de telejornal dizem que “o mercado reagiu” a determinada situação? O mercado oscila, sobe, desce como ser vivo absolutamente dotado de vontade e determinação. O mesmo pode ser dito sobre a bolsa; não aquela da vovozinha querida que carrega doces e balas, mas uma outra, tenebrosa, que é domínio de investidores e economistas. O mercado, a bolsa, são expressões utilizadas pelo jornalismo que esconde os reais autores das altas da gasolina, do arroz, de tudo o mais.

Quis o destino que eu trabalhasse com um expoente do mercado e daí, toda vez que Dona Lo Prete me aparece com as condutas do “mercado”, recordo antigo patrão que tive lá pelos anos 80 do século passado. Era um sujeito interessantíssimo! Chegava bem cedo ao local de trabalho, munido de uma escova de dentes sem creme, sem nada. Passava uma hora ou mais escovando nervosamente os dentes, ritual repetido após o almoço. Era dono de dentes espetaculares e de uma garganta poderosa. Nunca usou interfone; gritava de sua sala para todo e qualquer setor da empresa.

O mercado, no caso: Uma imensa companhia, de uma única família que detinha uma das principais atacadistas brasileiras de tecidos, além de roupas e enxoval de cama, mesa e banho. Centrada em São Paulo, a empresa era dona de inúmeros prédios na região da Rua 25 de Março e possuía filiais em todas as regiões do país. Eu era funcionário do departamento de faturamento, um setor que, na real, controlava o sobe, nunca o desce, dos preços praticados pela empresa. O setor controlava é eufemismo, já que era o patrão quem cotidianamente subia os preços das mercadorias disponíveis.

Com mais três pessoas no setor tínhamos em arquivos uma quantidade imensa de fichas, cada uma destinada a um produto específico, com a quantidade disponível e o histórico dele dentro das lojas. Uma, às vezes duas vezes por semana, éramos chamados pelo patrão para remarcar os preços de uma categoria ou mais de produtos. Sempre para cima! Alterava-se dois, três centavos no metro do tecido ou da peça industrializada.  Um trabalho insano, pois os responsáveis pelas vendas e pela elaboração das notas fiscais careciam de atenção máxima o tempo todo.

Vai saber o motivo das altas determinadas pelo patrão! Poderia ser algo no Oriente Médio, por exemplo. Um fato hilário: De origem síria, houve lá para aquelas bandas um quiproquó que carecia de manifestação da raça. O patrão não titubeou em descer as portas das lojas da empresa POR UM MINUTO, em protesto pelo problema de lá. Demorou-se mais para o fechar e abrir que o protesto em si. Mas foi uma reação do mercado, concordam? Tanto é que nesse dia, alterado e tenso, o patrão tratou de remarcar os preços de todos os produtos da empresa.

Outra manifestação do “mercado” ocorreu em consequência de uma mudança no trânsito. Quem anda pela região da 25 de Março sabe que a grande maioria das lojas são de “porta na rua”, sem estacionamentos ou pátios para carga e descarga. Nas ruas paralelas à famosa via que nomina a região utiliza-se a própria rua como estacionamento para as manobras necessárias. Até que um dia, pela madrugada, vieram funcionários do departamento de trânsito mudando tudo. Inverteram o sentido da rua e colocaram placas proibindo o estacionamento. O “mercado” reagiria violentamente!

Enlouquecido, a escova de dentes largada sobre a mesa, o mercado, ops, o patrão gritava ao telefone feito possesso. Sem perder tempo com arraia miúda – leia-se diretoria de trânsito e prefeitura – a ligação foi direta para o governador do Estado: “Escuta aqui, seu moleque, vagabundo! Quem mandou você fazer isso? Quem você pensa que é para mudar a minha rua? Vagabundo, ordinário, quem foi que te colocou aí? Quem paga a tua campanha?” Lembro-me bem que o moleque vagabundo, caso não estivesse informado, não tinha chance de saber que a chamada ocorria por conta da mudança no trânsito da rua.

Foi divertido ouvir o achincalhamento do governador e tivemos a certeza do real poder na situação quando, menos de uma hora depois, placas eram retiradas e tudo o mais voltando ao que estava antes. Já desconfiávamos que o “mercado” fazia o que bem entendia em toda e qualquer situação. Por exemplo: evitando pagar modelos profissionais, eu e uma colega, Neusa, magros e altos, éramos chamados para vestir as roupas que tentavam colocar no catálogo da companhia. Nós, sem atentar para o desvio de função, achávamos ótimo brincar de modelo, vestindo e nos exibindo para o fulano decidir se comprava ou não.

Bom salientar que o mercado nunca está só. No nosso caso eram três irmãos. O mais velho, o dos dentes perfeitos, decidia compras, vendas, preços. O segundo cuidava do dinheiro. Certamente estava entre os que fazem a “bolsa” rebolar sem o som da bateria de uma escola de samba. O terceiro, caçula da família cujas irmãs não apareciam por lá, era responsável pelas ações sociais da empresa, no caso, alugando apartamentos para os funcionários por valores bem acima do que recebiam, mas com a certeza de ter o olho da rua como resultado de inadimplência.

Em um dia de 1982 morreu Elis Regina. Soubemos durante o horário de almoço e voltamos ao trabalho consternados e tristes. O patrão, sabe-se lá por qual motivo, terminou o dia com mais uma remarcação de preços. Naquela noite nossa imprensa se esbaldou nos prováveis motivos que causaram a morte de Elis. Uma profundidade que nunca chega perto da “instabilidade na Argentina” levando o “mercado” à uma alta dos preços.

Ah, para concluir, se Dona Lo Prete não dá nome ao “mercado”, por que eu diria o nome do meu patrão? Mas, saibam, tem nome e sobrenome aqueles que sobem os preços, os juros e o que mais ferra a vida do trabalhador.

Até mais!

A carretilha e os nossos quintais

Os quintais já foram lugares mágicos. Cheios de vida e movimento, ensaiando-nos para o que viria a ser a rua, o bairro, a cidade e o mundo todo. Uma colmeia aqui, uma casa de marimbondos ali, um formigueiro que teimava em aparecer acolá, a riqueza de acontecimentos de um quintal era imensa. Território de Shakespeare, nosso cãozinho vira-lata que defendia seu espaço dos gatos da vizinhança. Variados pássaros visitavam pés de frutas e canários e curiós eram tratados com desvelo pelo meu irmão.

Além do nosso quintal, outros também permanecem na memória. Na casa de uma tia, em Ribeirão Preto, havia um chiqueiro onde presenciamos o milagre da vida quando da chegada de vários porquinhos nascidos em uma única tarde. Em outro quintal, em Campinas, a magia era de frutas raras lá em Uberaba: maçã verde e romã. Uma pequena mostra se comparada com a imensa variedade de verduras e frutas da horta e do pomar de meu avô, ou do vizinho ao lado, com amoras, goiabeiras, mamoeiros.

Acima dos limites do quintal havia o céu. E a gente achava que estava nas alturas quando, escondidos dos adultos, brincávamos sobre os telhados. Dali se via longe, muito longe para nossos primeiros anos. Abaixo, sob nossos pés, tínhamos a certeza de mistérios. Até poderia ser algum tesouro, desses dos contos de fadas. Com certeza, a terra recebia nossas fezes e urinas, feitas em “casinha” separada do corpo da casa. E de outro lado do quintal retirávamos de um profundo poço água, ação facilitada com o uso de uma carretilha.

Puxar um balde cheio de água é tarefa árdua, facilitada por essa peça comum que, hoje, tornada peso de papel em minha mesa guarda histórias e a lembrança de meu pai. Nunca soube que a invenção da nossa carretilha foi de um tal Arquimedes, lá na Grécia. A nossa foi feita pelo meu pai, que era craque em pegar coisas e transformá-las, fazendo outras coisas. Quando necessário, ligava a forja e após aquecer o metal, dava-lhe a forma desejada com muitas marteladas e um esmeril.

Não tenho a noção da distância entre o poço de onde extraíamos nossa água  e a fossa onde fazíamos necessidades. Graças aos céus crescemos com saúde e, em pouco a água veio canalizada, assim como o sistema de esgotos chegou até o nosso bairro. Com essas novidades foram embora os medos de cair nos dois profundos buracos do nosso quintal. Cair em um deles era a sorte entre morrer afogado na água ou, literalmente, cair na merda.

Hoje entendo a diferença entre poço e cisterna, esta feita para reservar água da chuva. Chamávamos de cisterna, o buraco revestido com uma camada de tijolos, o que impedia deslizamento de terra tornando a água barrenta. Puxando água com apoio da carretilha vinha água para o banho de todos, para que nossas roupas fossem lavadas, e após fervida, ser utilizada para a comida, refrescada em filtro ou pote de barro para nosso consumo.

Depois foram sumindo as árvores frutíferas, os canteiros de verduras, os jardins. Tudo em favor de cimento e de uma duvidosa “limpeza”. É mais higiênico, dizem. O calor aumentou e sobra, para quase todo mundo, esconder-se dentro de casa e apelar para o ar-condicionado. Nos quintais, vasos tentam substituir a terra e só fazem mesmo é dar vida limitadas pelo espaço restrito, pela pouca e rasa terra.

Do quintal da minha antiga casa guardo uma carretilha. Pesada e, bem feita, ainda em perfeito funcionamento, embora eu não tenha nada a puxar, exceto as lembranças. Essas, não carecem de esforço nenhum para virem à tona. Fluem com um mero olhar, intensificam-se no tato, no cheiro característico do ferro, no peso do tempo incapaz de causar esquecimento.

Valdo Resende ( Este texto é da série “Cacarecos, badulaques e bugigangas”. )

Outras mães

Dessas coisas imprevisíveis e inexplicáveis, mesmo precavendo-se, poucos meses após o nascimento do primeiro filho a mãe engravidou novamente. Tempos depois enquanto se comemorava o aniversário do primogênito preparavam o batizado do segundo menino. Mesmo contando com a colaboração da família e de uma ajudante nos trabalhos domésticos, a mãe era puro cansaço. Uma noite, exausta, sentando-se por alguns segundos após o mais velho dormir, ouviu-se o choro do mais novo. Eu comentei: não sei como você aguenta. E ela respondeu: não aguento; é instinto.

A resposta nunca saiu do meu pensamento. São incontáveis as mulheres que vi ao longo de toda a minha vida conduzindo seus filhos. No próprio colo quando doentes, ou de braço dado, os filhos crescidos e com deficiência. São guias dos que não enxergam, são tutoras daqueles cuja dependência os impede a autonomia. Mães resolutas, às vezes sérias, outras sorridentes, mas sempre determinadas, volto a recordar minha amiga que não questiona o próprio cansaço, elas agem.

Mães são seres ímpares. Recentemente vimos pelo noticiário a mulher colocando palavras na boca do filho que, em alta velocidade, acabara de provocar um acidente com a morte de um infeliz motorista. Diante da policial o que se ouviu primeiro foi a voz da mãe: ele não lembra de nada, ele não lembra de nada. Obediente, o filho seguiu em frente com a ideia, o que não o salvou de estar, neste momento, no xilindró aguardando julgamento. A mãe fez o que fazem todas as mães, tentou salvar o filho. Quem julga? Afinal, mães negam a própria maternidade se for para salvar a vida do filho, ensina a Bíblia.

Há ressalvas quanto às mães incautas que se endividam por conta de festas, excessos de consumo. Talvez ocorra aí uma série de equívocos que envolvem formação, educação, valores humanos. Um garoto sobrevive sem videogame tanto quanto uma menina sobrevive sem a Barbie. E mãe, como todo e qualquer ser humano, deve entender que um não é tão importante quanto um sim para a educação das crianças. Essas questões ficam para depois. Há outras, sobre as quais devemos refletir.

Há muitas mães cujo sofrimento é imensurável. Aquelas que estão perdendo para as guerras seus filhos já homens feitos, ou tão difícil quanto, aquelas que carregam suas crianças mortas enquanto lançam gritos aos céus iluminados por mísseis. São mães russas, ucranianas, palestinas, entre outras, que perdem para a morte os filhos de uma guerra que não causaram, que não quiseram e que, provavelmente, dela não se beneficiarão. Muitas nem mesmo têm o consolo de enterrar suas crianças, corpos em valas, corpos dilacerados e dispersos em campos de luta.

Há outras mães perdendo filhos e filhas para o narcotráfico, para a prostituição. Perdem também para a ausência de vagas nas escolas, para a falta de emprego aos mais velhos. E lutam pelo resgate, pela recuperação, pela carteira escolar, pelo médico, pela alimentação. Certamente brigam, fazem dívidas, tornam-se inadimplentes, recuperam-se para o tudo de novo. E não desistem. E seguem amando o fruto de seus ventres.

Neste maio de 2024 há um contingente maior de mães desesperadas, suas casas alagadas, seus bens perdidos nas enchentes do Rio Grande do Sul. Perderam roupas, móveis, eletrodomésticos. Sobretudo perderam retratos, vídeos, pequenos testemunhos da história da própria maternidade. Estão sem cama para deitar os pequeninos, sem cobertores para aconchegá-los. Não sabem quando voltarão a ter despensas e pratos cheios, comida farta. Rezam para que não venham mais doenças e temem possíveis pestes advindas da tragédia. E com tudo isso não desistirão. Lutarão pela própria vida, pela vida de cada filho.

Feliz Dia das Mães! É certamente o que nós desejamos para todas aquelas que tiveram a graça da maternidade. E que não sejam desejos, palavras vazias. Que esse maio de 2024 seja carregado de fraternidade, sororidade, compaixão e, acima de tudo, responsabilidade por cada mãe sofredora. Aquelas da Ucrânia, da Rússia, Palestina, de todos os lugares. Sem esquecer das mães indígenas que lutam pela sobrevivência de seus filhos, e as outras, urbanas, que têm narcotraficantes como adversários, mães negras que têm a luta contra racistas. Vamos continuar nossa campanha para ajudar o Rio Grande do Sul nesse momento infeliz. Mas, mãe é mãe todo dia. Que não nos esqueçamos do que devemos fazer por elas, todas! Principalmente aquelas que estão infelizes.

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Nota: na foto ilustrativa, da esquerda pra direita, minha homenagem e lembrança para mães batalhadoras que foram Olinda, Laura e Isaura. Para registro, as crianças são: (no colo) Hugo Renan, Valdonei e Walcenis. De pé, Waldênia.

O tempo, o vento e a Terra

Porto Alegre alagada. Foto: reprodução.

Como não pensar em Porto Alegre neste momento? Esse país imenso, onde coisas tão díspares acontece, é lá para os pampas que o pensamento voa no tempo temendo ventos de tempestade. Seria melhor encontrar Bibiana, o Capitão Rodrigo. Na minha galeria de personagens apaixonantes coloco Ana Terra ao lado da Capitu, de Machado de Assis, e Rosalina, de Autran Dourado. Os tempos de agora são dos Terra, dos Cambará.

“O tempo e o vento” é um dos mais belos títulos da literatura brasileira. A trilogia de Érico Veríssimo me foi apresentada ainda no colégio e, curioso, fui atrás da obra. Uma senhora imersão no Rio Grande do Sul. Na mesma época apareceu um comercial da Varig, da série “Conheça o Brasil”, e um filme bem ruinzinho, baseado no livro: Um certo Capitão Rodrigo. Teve melhor sorte quem viu Tarcísio Meira, anos depois, na pele da personagem.

Nesta semana vi a longa entrevista que Hildegard Angel fez com Maria Tereza Goulart. Uma outra intensa história, essa de gente real, sobre um tempo em que Jango foi personagem central da vida brasileira. De quebra, o papo ainda trouxe Leonel Brizola e fatos dos grandes fazendeiros gaúchos. Um desses fazendeiros, na atualidade, elegeu um prefeito que relegou ao abandono o museu – Memorial Casa João Goulart, contou Maria Tereza.

Titubeante texto que, como o vento, me leva para um lado, para outro, com dificuldade em encarar a calamidade, a destruição. O que incomodou bastante nos jornais foi saber que os prefeitos pedem evacuação de áreas densamente povoadas. Como? A rodoviária alagada, o aeroporto fechado, as estradas submersas, as pontes destruídas. E volta outra literatura, a poesia de Castro Alves que me faz exclamar “Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?”

Um pix mais outros, tomara que sejam milhares, deve resultar em paliativos, socorro nessa hora trágica. E que todas as atenções sejam prioritárias aos que sofrem neste momento. E a palavra trágica veio conscientemente da lembrança de hamartia, para ressaltar que chuvas não são problemas. Problemas são as ações humanas que resultam em consequências terríveis. A natureza não grita mais pelo que fizemos e estamos fazendo; ela está respondendo.

Estamos vendo derreter o A68, esse que por algum tempo foi o maior iceberg do planeta. Sofremos um calor insano e temos sentido as altas temperaturas que nos colocam em antessalas do inferno. E continuamos produzindo lixo, aumentando pastos e para isso desmatando florestas. Assistimos guerras e genocídios que só fazem enriquecer os que produzem armas. E por aí vai.  São as ações humanas alterando a vida no planeta terra.

Que o tempo e o vento, guerras e distrações pop não nos façam esquecer da urgência de salvar nossa casa, a Terra. Antes de todo o planeta, nesses dias a urgência tem nome: Rio Grande do Sul!

Até mais!

Para contribuir:

*Passarim, da trilha de O tempo e o vento composta por Tom Jobim.

Neide Marcondes, que uniu arte e ensino

Neide Marcondes de Faria

“Estudem. Dominem o conhecimento e não abaixem a cabeça para ninguém!” Essa frase está entre as que guardei como norteadores para minha vida. O saber é forma eficaz de enfrentar o mundo e a autora da frase foi minha professora de História da Arte, Neide Antônia Marcondes de Faria. Livre docente da Unesp, professora doutora, autora, artista, Neide exerceu inúmeras atividades em que o conhecimento esteve à frente, base sólida.

No Instituto de Artes da Unesp, onde a conheci, tinha uma presença notável. Com delicadeza, sem nunca perder a determinação, transitou pela graduação e pós-graduação onde trabalhou para que seus alunos seguissem em frente, programando atividades dentro e fora da escola, indicando exposições, novos livros e cursos. Estabeleceu, com suas atividades, uma forma de atuação que tempos depois, percebi, passei a utilizar como professor.

Primeiro dia de aula, Neide apresentava a bibliografia, os motivos de utilizar um ou outro autor, os capítulos pertinentes a cada aula programada para cobrir o conteúdo da disciplina. Depois, reservava sempre um tempo para discutir os textos indicados e, perspicaz, não se deixava levar pela malandragem de alguns. “Por que você está dizendo isso? Não, você não leu o texto! Por favor, leia e depois volte a se pronunciar”. Recordo o vexame da pessoa, servindo de alerta para todos os demais. Os textos estavam lá, era só ler; esse é o trabalho do aluno.

Em um dado momento foi marcado um dia de estudos fora do campus. Os carros de quem os tinha, mais um fusca da professora, foram cheios de gente para a chácara onde mantinha seu ateliê, em Itapecerica da Serra. Mostrou-nos suas experiências plásticas, parte de sua biblioteca, as lembranças de viagem pertinentes ao nosso conteúdo. Egito, Grécia, Florença, Paris… Os principais sítios arqueológicos, museus e obras mais importantes deveriam ser visitados. Anos depois, no mestrado, quando me foi concedido bolsa ela não hesitou: Se você quiser ser mestre, vá estudar fora. Obediente, fui.

Ao relatar fatos pessoais busco ressaltar a professora que tive. Volto às primeiras aulas de História da Arte, quando ela nos deu aulas sobre a Grécia. Ela sempre dialogava com todos os alunos, e aquela aula foi pertinente para aplicar o método maiêutico, aquele do Sócrates, perguntando, perguntando, indo sempre mais a fundo no diálogo com o interlocutor. Quando o assunto chegou nos trágicos, procurei responder ao que ela perguntava.

Eu estudava teatro à fundo, estava naquele momento trabalhando com o diretor Antunes Filho, o assunto rendeu. Em um determinado momento ela deixou a lousa e caminhou até se sentar a meu lado, último da fila. Ao final do nosso longo diálogo, ela se dirigiu aos meus colegas: “Quando a gente encontra quem sabe mais, deve ceder o lugar, ouvir a pessoa.” Em seguida me convidou para falar sobre o Teatro Grego para as outras turmas, seus alunos. Assim me tornei seu monitor, tendo-a como orientadora em atividades da graduação e pós-graduação.

Outro momento marcante do nosso encontro, haveria um concurso para a cadeira de teatro no interior de Minas Gerais. “Quero que você faça. Mesmo que não passe, é para experiência. Você precisa saber como é que funciona”.  Indo além, me encaminhou para aulas particulares com o Professor Alexandre Luiz Mate. O docente avaliou, percebeu lacunas no meu conhecimento e fui beneficiado com as melhores aulas de teatro que tive até então. Fiquei empolgado, a professora sabia onde estava. Me pediu, antes que eu partisse para as provas, que ao chegar anotasse os nomes dos meus concorrentes e ligasse, passando-os para ela. No dia seguinte ao telefonema com minhas informações, ela retornou: “Esse concurso é para efetivação de fulano de tal. Mas, faça o que falta com o mesmo empenho. O que conta aqui é essa experiência”.

Neide Marcondes na Faculdade de Belas Artes de Lisboa.: Entre a Arte e o Ensino.

Na medida em que revolvo lembranças, a Professora Doutora Neide Antônia Marcondes de Faria ganha vulto. Através dela conheci e me tornei amigo do musicólogo Régis Duprat. Por indicação dela à Professora Dirce Ceribelli montei, de João Cabral de Melo Neto, o Auto do Frade. Dela recebi, e guardo com orgulho, uma carta de apresentação que me abriu portas profissionais.

Caminhamos por mundos distintos. Atuando em universidade privada fui professor de História da Arte. Em cada aula, em cada disciplina correlata, foram os autores e as aulas da minha professora a base que me permitiu, sem modéstia, o respeito e a admiração dos meus pares. Com tristeza recebi a notícia do falecimento de Neide, no dia 5 passado. Seu legado permanecerá nos livros publicados, nos trabalhos e artigos acadêmicos, mas sobretudo e principalmente nas ações de seus alunos, discípulos que levaram a outros e outros o conhecimento e a postura da grande mestra.

Aos familiares e amigos, meus sentimentos.

Notas:

1 – Entre os trabalhos de Neide Marcondes estão: (Des)Velar a Arte; O Partido Arquitetônico Rural no Século XIX; À Procura do Castelo dos Faria; Uma Guerrilheira (o)culta. Também participou das publicações: Cidades Histórias Mutações Desafios e Labirintos e Nós – Imagem Ibérica em Terras da América.

2 – As fotos acima foram copiadas da página do Instagram da professora.

Foi, não foi, segue a vida.

Toda segunda-feira é a mesma coisa. O cidadão que viu o jogo no domingo, assistiu aos “disse-me-disse” dos comentaristas, viu a repetição dos gols na tv e na internet, segue a vida. Ou seja, pega logo cedo o jornal, vai para o caderno de esportes, e conforme o resultado do time do coração envia provocações aos amigos, responde a outras. A hora do almoço será animada: foi pênalti, não foi, roubou, não roubou e, aos perdedores para o Palmeiras, resta a única e duvidosa réplica do populacho: não tem mundial!

Nelson Rodrigues, que em A Falecida faz um personagem alterar o enterro da esposa por conta do amor ao time, alardeava a paixão pelo futebol. E entre os apaixonados, como o corno da citada peça, há indivíduos com peculiaridades interessantes. Como aqueles caras obesos que invadem sedes dos próprios times exigindo dos esguios jogadores de futebol o que não são capazes de fazer em campo. Há outros, que vendem a própria casa para viajar em finais de campeonato, o que levou o sistema público de habitação a colocar a casa financiada no nome das esposas.

Nos tempos de faculdade constatei inúmeras ausências de alunos nas quartas-feiras. Os que vinham às aulas ficavam ansiosos, escondiam fones de ouvidos e não era raro um grito de gol em meio à explanação do professor. Havia entre os jovens aqueles que participavam das tais torcidas organizadas. Desde aquele cuja família vivia do negócio – alugar ônibus e levar torcedores às partidas – ao jovem que acreditava firmemente que gritar e pular durante 90 minutos era sua fundamental contribuição para a vitória do time. E por isso se julgava no direito de exigir o gol, o campeonato inteiro. E faltar às aulas, mesmo sendo reprovado por isso.

A família Rodrigues, do Nelson citado acima, foi dona de jornais. Ao perceber o quanto o esporte mexia com as pessoas tratou de criar os campeonatos que viraram febre no país. Para vender jornais e dar dinheiro aos cartolas há a repetição do que ocorre nas segundas, também nas quintas-feiras. E o excesso de campeonatos, aqui e no exterior, leva ao incauto torcedor o envolvimento constante e diário com o futebol. E toda uma imensa gama de negócios é movimentada.

Torcedor que se preza paga dez vezes mais o valor de uma caneca, “oficial”, assim também com uniformes e diversos outros cacarecos. As camisetas personalizadas com nomes de atletas são um caso à parte. O torcedor paga os olhos da cara para ter a camisa “oficial do craque da hora” e quando este passa a jogar para time rival recebe ódios mesclados com paixões recolhidas. No fundo de gavetas, em companhia das ridículas cartas citadas por Fernando Pessoa, estão as camisas nominadas com o craque um dia amado, idolatrado, salve, salve!

Faz pouco tempo, aqui em Santos, uma movimentação entre os banhistas chamou a atenção. Um atleta, morador do pedaço, dera pinta na praia e com simpatia e educação cumprimentou aos alvoroçados torcedores que pouco se importavam que, naquele momento, o indivíduo era um condenado na Itália aguardando a decisão que o levou a jogar no xilindró – notícias recentes dão conta que presidiários emprestaram chuteiras para o moço. Uma mudança notável! A nova postura quanto ao comportamento dos “heróis” está levando alguns a pagarem pelos seus crimes. Ao que uma observação apurada indica, continuarão sendo adorados e respeitados por um grupo restrito de gente que confunde esporte com vida.

Sinto-me ET quando exponho esse tipo de ideias, às vezes utilizando termos bem mais densos que esses acima. Atribuo minha postura ao antigo professor e diretor do colégio, um sujeito enorme, de origem alemã. Rígido em seus princípios, obrigava os alunos a praticarem todos os esportes. Todos! Cada modalidade contribuía na condição física e na educação moral dos alunos: o importante é competir! Completava e exclamava com frequência. E lá estávamos jogando vôlei, basquete, pulando na cama elástica, praticando as modalidades olímpicas e, é claro, o futebol. Em alguns momentos enfrentávamos adversários melhores, perdendo feio. Lá estava o diretor, no final, orgulhoso da nossa participação: Vocês jogaram com dignidade. Lutaram! O importante é competir.

A farra durante uma partida esportiva é sempre bem-vinda. E a tensão vale, pois a representação do embate está ali, “viver é lutar!”. E a comemoração, o sarro nos amigos é parte do combo. Vivi muitos anos atendendo telefonemas do meu irmão após cada jogo do Corinthians. Ele não falava nada. Colocava o hino para eu ouvir. Sempre respondi com palavrões adequados ao momento. Vários! E a rusga com o irmão terminava ali, já que é sabido que em dois, três dias haveria outro jogo. Ficar discutindo a morte da bezerra é muito chato. Uma briga só vale a pena quando é possível alterar o rumo das coisas. Se foi, se não foi, se teve, se não teve… A bola vai continuar rolando (Ops! Há um bafafá aí sobre a bola rolando!). Segue a vida.