D. Dirce, Mário de Andrade e a vida queer

Foto by Flávio Monteiro

Essa mania de classificar os seres vivos… É certo que D. Dirce, prima distante de minha mãe, não tinha a menor ideia do que seja a taxonomia. E se chegou a conhecer algum Aristóteles, provavelmente deve ter sido um vizinho de nome que não veio de nenhum santo. No entanto, D. Dirce era bamba em reconhecer uma imensa gama de seres animais e vegetais. Coisas que lhe foram úteis nessa vida.

Nascida na região do Bacuri, hoje Pioneiros, nas imediações de São Joaquim da Barra – SP, certamente aprendeu com a mãe, D. Palmira, a reconhecer todo e qualquer animal que transitava pelos campos. Reconhecia insetos malévolos como o barbeiro e distinguia aranhas peçonhentas de outras, inofensivas, por exemplo. Dentre a imensa gama de aves tinha a receita certa para cada uma e sabia realçar o sabor com temperos de próprio cultivo.

O conhecimento dos vegetais pode ter começado com as ervas aromáticas, ou com legumes e verduras cultivados na horta, onde se guardava espaço para plantas de uso medicinal. Boldo, erva cidreira, alecrim, carqueja, arruda… Havia em algumas dessas poderes místicos, que D. Palmira sempre usava em suas benzeções. Outras ervas, não cultiváveis facilmente, precisavam ser colhidas no mato.

Um dia cheguei arfando em Uberaba. O pulmão todo tomado por uma pneumonia. Sabendo da minha chegada, D. Dirce entrou em cena. “Vou no mato caçar assa-peixe. Ele vai ficar bom logo”. Contaminado pelo conhecimento escolar, não tinha ideia da planta anti-inflamatória e expectorante. Dia seguinte ela voltou com um imenso galho da planta, um tanto seca e judiada. “Tão acabando com tudo. Só tem lavoura, sem deixar que o mato cresça. Como vamos fazer pra ter remédio?” sentenciou a mulher.

Extrair o sumo de assa-peixe foi trabalho árduo e paciente da minha irmã, Walcenis. O gosto é insuportável e para disfarçar e fazer o doente engolir sem reclamar demais, misturou-se ao sumo o suco de beterraba e laranja. A beberagem pareceu magia: beber e voltar a respirar. Uma das amigas mais próximas de minha mãe – mantiveram amizade por décadas! –, D. Dirce faleceu alguns meses antes. E com ela, que não deixou livro escrito, foram-se os critérios para cultivar e reconhecer plantas, as melhores maneiras de tratar animais tornando esses o alimento necessário para a família.

Conhecer, distinguir, classificar… Muito, mas muito tempo depois de Aristóteles ter dividido os animais em “com sangue” e “sem sangue”, Lineu (Karl von Linné) elaborou um sistema baseado na estrutura. Nós, seres humanos, fomos classificados como Mammalia, do latim, significa que somos mamíferos: temos mamas! D. Dirce amamentou nove filhos. Hoje em dia mamas são aumentadas em academia ou com silicone, visando autoestima e sedução, atitude de classificação temporária, já que o tempo se encarregará de impor a força da gravidade para todos nós, com ou sem peitões.

Ocupada em cuidar da imensa família, D. Dirce não teve muito tempo para especular os porquês de certas coisas. Diante de situações de pessoas, por exemplo, com “sensibilidade queer”, ela fecharia o assunto com uma frase curta e certeira; “é da natureza delas!”. Acontece que o mundo não é simples assim, e tem mais tempo para se ocupar de certas coisas do que D. Dirce. Daí a gente contar com a exposição “Duas Vidas”, no MASP – SP, onde Mário de Andrade tem exposta essa questão.

Mário de Andrade, muita gente sabe, não classificou animais nem plantas. Mas o que ele distinguiu e classificou na cultura! O cara devia se alimentar de poesia, de romances, e para isso sacou que deveria entender de música, folclore, pintura, arquitetura. Num mundo interessado em lucro, ter um sujeito preocupado em preservar conhecimento e em criar e manter uma biblioteca que chegou aos 17 mil volumes é muito estranho! O cara não se casou, nem teve filhos. Estranhíssimo! Queer! Que vida é essa, particular? A pública era notória. “Duas vidas!”

O material de divulgação do evento justifica o nome da exposição, a partir de carta de Mário de Andrade escrita ao poeta Manoel Bandeira. Na carta, Mário escreve: “toda vida tem duas vidas, a social e a particular”. Os aspectos particulares da vida do poeta e escritor passaram para domínio público após 70 anos de sua morte. Creio que ele gostaria de ter sua correspondência analisada, estudada, do contrário teria queimado tudo. Pelas cartas sabemos o que pensou via diálogo com seus pares, com amigos, com autoridades. E deve ter sofrido por ser indivíduo de “outra natureza”, para manter neste texto a perspectiva de D. Dirce.

Por outro lado, especular e expor particularidades da pessoa Mario de Andrade é contribuir numa luta forte e constante, para que o ser humano seja o que sente que é. Que o homem “estranho” pode ser da envergadura, profundidade e importância irrefutável de um Mário de Andrade. Ninguém tem que ser e se identificar a partir da imposição de outro, da sociedade. Que venham mais exposições, e que tenhamos quantas classificações forem necessárias para nos aprofundarmos sobre o universo humano. O irônico é que quanto mais letras entrarem no sistema LGBTQIAPN+, mais claro ficara o quanto nos distinguimos dos outros animais: somos humanos!

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Flyer da exposição:

Os profissionais úteis

A manhã de segunda chama para as responsabilidades que temos para a semana. Além do trabalho cotidiano há que pagar contas, marcar médico e, necessário, dar uma paradinha para olhar o mundo. Pelo noticiário é o hábito costumeiro; há outras possibilidades simples como, por exemplo, abrir a janela e olhar a vida pulsando no céu, na rua, na vizinhança. O som familiar do caminhão vem junto com a voz dos coletores de resíduos e o ritual se repete.

Um rapaz vem à frente, facilitando o trabalho dos colegas que jogarão os sacos no interior da carroceria do caminhão. Acenam para moradores simpáticos, gritam entre si. O caminhão para em frente ao edifício vizinho. Entram rapidamente e tomam água, já à espera deles. Fresca e visivelmente gelada. O mínimo do tanto que devemos fazer por esses coletores dos resíduos que produzimos. Eles seguem com seu costumeiro alarido, falando coisas que não entendo, mas que percebo carregadas de bom humor.

Um adolescente bem vestido sai do sobrado em frente portando um saco bem cheio de sabe-se lá o que e entrega em mãos do coletor. Cumprimentam-se e o rapaz volta, abrindo a porta de um carro e toma seu rumo. Penso que nem tudo está perdido, já que há jovens percebendo nossa parceria fundamental com esses profissionais úteis, verdadeiramente necessários.

Certamente aguentaríamos algumas semanas sem o trabalho deles se produzíssemos apenas resíduos recicláveis. Mas, há os orgânicos, que em pouco tempo apodrecem e se indevidamente tratados resultam em doenças, pestes. E em seu árduo trabalho esses profissionais nos livram da proliferação de ratos, de baratas. O cheiro é péssimo. No entanto os rapazes coletores passam alegres, sem máscaras, expostos a coisas estragadas e podres que saem de nossas casas. Deveriam usar máscaras! Na real, deveríamos pensar e produzir algo que não os sufocasse e garantisse saúde enquanto correm pelas ruas limpando a cidade.

Coletores, varredores, hortelãos, lavradores, faxineiros, jardineiros, os seres úteis. Claro que médicos também são imprescindíveis, assim como engenheiros, dentistas, professores e outros profissionais. A questão é que há médicos, por exemplo, que só nos salvam se tivermos dinheiro para pagar a conta. E há os médicos dos postos públicos, essa maravilha brasileira que torna um médico o ser absolutamente útil. Assim como nossos coletores sofrem sem máscaras, o médico do “postinho” também sofre por não ter equipamentos necessários. Esse é o nosso mundo.

Sou interrompido pelo latido de dois cães que, devidamente amarrados pelos donos, se estranham no passeio público. Noto que os donos são obesos e lerdos, contrastando em muito com o corpo esguio e ágil dos coletores já próximos da esquina quando virarão e os perderei de vista. E penso em alguns desses profissionais que no exercício diário, correndo contra o tempo, e forçados pelo volume de trabalho acabam tornando-se campeões de corridas, fazendo valer o ditado que nos orienta a transformar limão em limonada.

Penso no sonho de cada coletor. Certamente, não foram crianças sonhadoras desejando correr pela cidade atrás de um caminhão fétido e sujo. São humanos, acreditam em um Deus, têm família, cuidam dos pais, dos filhos. Cuidam de nós, saneando nossas ruas, levando embora o que não queremos dentro de nossas casas. Não são estranhos, nem podem ser. São úteis. Merecem salário justo, digno. E sobretudo devemos à eles o respeito. Esse respeito que temos pela vida, pela nossa saúde, que depende do trabalho deles para que tudo caminhe da melhor maneira possível.

A mudança de Laura

Olhando para o computador travado ela se sentiu mais uma vez refém de algo não solicitado, não desejado. Não era a primeira vez que Laura se sentia assim, impotente diante de forças que estão muito além do que minimamente ela poderia enfrentar. Menina, bem menina, saiu da roça onde os pais amealhavam um pedaço de terra e, chegando na casa da madrinha que oferecera cama e comida durante o período da escola, ela descobriu o rádio.

A Madrinha Elvira gostava de jornais e revistas, mas a menina ainda não sabia ler. Gostava das fotografias impressas, das capas ilustradas com desenhos coloridos de casais apaixonados. Nada se comparava ao rádio com programas musicais, noticiários, novelas. Foi uma mudança e tanto! Do som de pássaros, dos ventos balançando árvores, dos animais no curral e no chiqueiro, ela passou a ser acordada por vozes graves dizendo “bom dia!” seguidos da alegre resposta de Elvira: Bom dia!

Apesar do medo diante de tantas novidades ela se manteve forte. Era desejo dos pais que conseguiram fazê-la entender ser necessário aprender a ler, a fazer contas, a conhecer as ciências. Tudo isso poderia e deveria ser utilizado no próprio campo onde eles prometeram, e ela sonhava, um dia voltaria em definitivo. Laura só não conseguia perceber quando ocorreria tal retorno.

Viver com a madrinha era mudança “para mais de metro”, ditado que aprendeu na cidade. O leite era entregue na porta, bem cedinho e em seguida vinha o pão, quentinho. Em dias alternados passavam o verdureiro, um vendedor de doces e, vez em quando, o carteiro batia palmas no portão. Iam à igreja com frequência, à praça com coreto no final das tardes de domingo, alegradas por uma banda com muitas marchas e modinhas. Pelo menos uma vez por mês iam ao cinema e Laura jamais esqueceu a luz apagada, a tela imensa e o primeiro filme, um romance açucarado. A madrinha chorava com a história. Ela se encantava com as imagens.

Muitos anos depois, já adulta e casada, deu-se conta de que a televisão tinha provocado outros hábitos e também o telefone tivera, aos poucos, colocado o carteiro em segundo plano.  Laura alimentou dúvidas sobre o bem que a tv poderia proporcionar, pois percebera que a câmera mostrava o que os donos da emissora queriam, o ângulo que eles desejavam. Já o telefone facilitara a vida de quem tinha leitura fraca, de quem não gostava de escrever.

Por muito tempo ela permaneceu fiel ao costume de enviar cartões de aniversário, por ocasião da Páscoa e pelas festas de final de ano. Em menos de uma década novas atitudes, novos protocolos, as respostas foram escasseando e definitivamente cessando substituídas por cartões virtuais. Nem se achava cartões para comprar. Tudo estava sendo rápido demais. Tão rápido que se fazia difícil perceber o que estava sendo imposto, as necessidades que estavam sendo criadas por conta de novidades, algumas não solicitadas, como as atualizações do computador. Laura estava cansada de correr atrás das mudanças que vinham de fora.

Tudo acelerado, vertiginoso. Todo consumo vira lixo. Os diferentes discos, compactos, k-7 e cds. As fitas VHS e os dvs, tudo rapidamente transformado em material obsoleto, ocupando espaços dentro de imóveis cada vez menores e mais caros, por isso mesmo exigindo que discos, fitas, livros se tornassem arquivos invisíveis, virtuais, inúteis com o computador travado, com a ausência de energia elétrica e as baterias descarregadas.

Já quase aposentada ela resistiu bravamente às redes sociais. Assumiu a imagem de mulher fora do tempo, só usando o computador para ler, pesquisar, utilizar serviços bancários e, ao telefone, só atendendo parentes e amigos próximos. Essa postura não veio por acaso, mas em consequência de perda de documentos por ataque de vírus e outras ameaças de golpes por telefone e e-mail. E de uma ojeriza que impunha mais do que o necessário, ser preciso ter o objeto do ano. O carro novo, o último modelo de telefone. Ela via crescer uma indisposição, uma resistência ao não desejado.

Nos últimos tempos, longe do trabalho, limitou-se a um aparelho básico para o caso de receber ou fazer chamadas urgentes. Contatos restritos a parentes, amigos, um pronto-socorro e um médico de confiança. Recebendo notícias via computador, gostava de pesquisar o mesmo fato, tentando saber o que realmente acontecia e o que cada empresa de comunicação estava defendendo. A tv fechada utilizada apenas para filmes e documentários, abandonando definitivamente as novelas que a encantaram na infância.

Então já enfrentara as piores mudanças advindas da morte do marido e da única filha, vítima de uma “bala perdida”, esse eufemismo para a incapacidade humana de controle da criminalidade. Ficara sozinha, morando fora do país o único neto com quem só conversava raramente, o que ela preferia acreditar ser fruto da diferença de fusos horários. Foi quando irritada diante do computador travado que pensou no futuro, em outras possíveis e previsíveis mudanças. Decidiu ser ela a autora e protagonista da vida que sonhara; algo que poderia ser vivido no tempo que lhe restava.

Dias depois riu quando um técnico sugeriu mais memória, outro eufemismo absurdo. Resistiu à ideia de um novo computador. Utilizou a pequena capacidade que ainda restava do aparelho para pesquisar, durante algumas semanas, até encontrar algo que atendesse aos objetivos pensados e decididos. E Laura encontrou. Uma casa de repouso no campo para pessoas em idade avançada, mas ainda com capacidade e disposição para mexer com horta, jardim e, se com vontade, a possibilidade de cuidar de galinhas, patos, porcos e outros animais domésticos.

Foi em uma segunda-feira que carregadores encontraram Laura, de pé e decidida, ao lado de duas malas modestas, apenas com roupas, uma maleta com álbuns de retrato e um caderno de lembranças. Segurava uma pequena bolsa com documentos, e o fatídico, mas necessário telefone celular. Os homens vieram para levar tudo, móveis e utensílios para uma instituição que ela escolhera. Viu saírem das janelas as cortinas, das paredes os quadros com paisagens e retratos familiares. Despediu-se de pequenos bibelôs, vasos com flores, o pequeno santuário e cada uma das imagens que ele abrigara.

Antes que os carregadores terminassem todo o trabalho chegou um conhecido corretor, com quem ela deixou a chave para que o imóvel pudesse ser vendido. Saiu sem olhar para trás, um leve sorriso nos lábios. Essa mudança, a penúltima, desejada e sonhada desde menina, de volta ao campo,  só seria interrompida pela mudança definitiva, fim de caminho nesse mundo, o que, certamente, não dependeria dela o dia, a hora e a forma de acontecer.

Papai faz cem anos!

Mineiro daqueles que falam muito pouco, em seus últimos anos entre nós, em todo 20 de fevereiro papai permanecia ao lado do telefone. Valdonei ligava, eu também. Ele nos ouvia e passava o telefone adiante: Sua mãe quer falar com você. Ficava na dele, aguardando as filhas e os netos que no final da tarde estariam por lá, comemorando no “cantinho do fuxico”, conversando sem parar enquanto ele, já com o radinho de pilha em mãos, punha-se a ouvir modas caipiras.

Não fosse minha irmã Walcenis, eu não me daria conta dos cem anos que meu pai faria nesse recente 20 de fevereiro. Cem anos! Desses, papai viveu mais de oito décadas entre nós e certamente, se tivesse que destacar fatos marcantes ocorridos desde 1924, ele não se esqueceria do rádio. Papai cresceu junto com o rádio. Viu o apogeu da Rádio Nacional e acompanhou os fatos mais importantes durante sua juventude ouvindo as caixas enormes, depois, já adulto, os pequeninos radinhos a pilha.

Certamente vieram pelo rádio as notícias da Segunda Grande Guerra, iniciada quando meu pai estava com 15 anos. O que teria pensado o jovem sertanejo vivendo no pedaço de terra dos pais, lá em Araguari, nas Minas Gerais? Mais, ainda, por que deveria ele pegar em armas e ir para a Europa participar de uma contenda que, provavelmente, não tinha certeza nem mesmo de como começou?

Também foi pelo rádio que papai ouviu as vitórias da Seleção Brasileira. O Brasil campeão mundial de futebol em 1958, Bi em 1962. A televisão era uma geringonça cheia de chuviscos, muito distante do cinema. Então, o negócio era ouvir os jogos pelo rádio e, eventualmente, ver as imagens pelo cinema. Não que papai tivesse hábito de ir ao cinema; a única história que me ocorre era que, em tempos de quaresma, no parque de diversões onde trabalhava projetavam cotidianamente uma “fita”: A Paixão de Cristo. Minha irmã Waldênia, já em idade de ficar sentadinha vendo o filme, ficava indignada com aquele sujeito que vinha todo o dia para a cidade onde acabava apanhando muito.

Um Parque de Diversões entrou na nossa família em fatos que os detalhes se foram com os personagens, todos já falecidos. O certo é que um irmão mais velho de Papai, Tio João, se encantou com uma bela senhora e caiu no mundo com o Parque de Diversões onde a dita cuja trabalhava, deixando a tranquilidade da fazenda em Araguari para conhecer as praças do país. Lá pelas tantas, meu pai decidiu acompanhar o irmão.

Espírito livre, papai não devia curtir os limites da fazenda e da vida no campo. Não gostou também das imposições dos padres, tendo estudado em um seminário, coisa comum aos meninos de então. Em 1945 foi convocado para a II Grande Guerra. Estava com 21 anos e com boa sorte, já que aquele ano também foi o fim do conflito armado. Em seguida papai trabalhou por um tempo na Companhia Goiás de Estradas de Ferro e, até onde guardo as histórias todas, de lá saiu indo trabalhar com o irmão no parque de diversões.

Há notícias de Lorena, no Vale do Paraíba, onde minha mãe, Laura, foi aprender com o marido coisas que o pai não permitia. Subir em árvores, andar de bicicleta, atirar com arma de fogo. No tal parque papai cuidada de um stand de tiro ao alvo. Tiros de chumbo e de rolha, em busca do praticante contar vantagens e ganhar pequenos brindes. Houve uma passagem por Ribeirão Preto, já fora do parque e veio a decisão de morar em Uberaba.

Fiz as contas (nunca fui bom em matemática!): Papai chegou em Uberaba com 31 anos e cinco filhos. O quinto, euzinho, na barriga de minha mãe, nascendo em junho de 1955. O sexto, Wander, veio anos depois. Além da filharada, trouxe na bagagem uma barraca e as espingardas, desde então participando de festas e quermesses da cidade com a barraca de tiro ao alvo do Bino. Atividade insuficiente pra manter todo mundo, Papai montou uma oficina no quintal. Conhecimento adquirido na infância e nas oficinas da estrada de ferro, passou a fabricar ferraduras – colocando-as nos animais – portões, dobradiças e outras peças sob demanda.

Papai não gostava de patrões. Deu um duro danado para não se submeter a terceiros. Criativo, aproveitou o espaço do quintal e a oficina para criar seu próprio parque. Uma por uma foram criadas as barracas, a maioria delas pintadas pacientemente pela minha irmã caçula, Walderez. Na medida em que o quintal ficou pequeno com os brinquedos todos, papai utilizou o pátio da Paróquia de Nossa Senhora das Graças para a montagem final, em acordo com o vigário de então, Padre Nicola Ruggi. O homem já tinha pisado na lua quando o parque foi inaugurado em uma quermesse paroquial. De lá meu pai saiu para percorrer todos os bairros da cidade, todas as cidades da região.

O parquinho fez meu pai conhecido em Uberaba. Pessoalmente, já morando fora, eu adorava descer de um ônibus na rodoviária, entrar em um taxi e pedir: me leva pra casa do Bino! Todos conheciam meu pai e a maioria foi gente amiga. Isto não implica ter sido ele obrigado a defender seu negócio, muitas vezes com os próprios braços, de arruaceiros e ladrões. Invariavelmente, quando ocorria algo do gênero, ele chegava em casa e, mesmo sendo altas horas, chamava todos os filhos e contava detalhadamente o ocorrido. Se o caso fosse engraçado, via-se lágrimas, pois meu pai era daqueles que chorava de tanto rir.

A parte do século vivida por meu pai nesse plano terreno ocorreu muita coisa. E o menino que nasceu na pequena Estrela do Sul, no Triangulo Mineiro, certamente não pensava em coisas como televisão ou mudança de capital. Papai gostava de Juscelino Kubitschek. Quando estava bem vestido se comparava ao líder político. Quanto aos demais políticos, tratava-os como mineiro, raposa que sorria para todos e raramente revelava o próprio voto.

Aos poucos papai foi mudando. Os filhos crescendo, os primeiros netos aparecendo, ele deixou a oficina pelo parque. Do fundo do quintal só surgia, sem que jamais soubéssemos de onde, forquilhas, borrachas e elásticos para papai fazer e premiar crianças visitantes com estilingues. Quieto, silencioso, a certeza de que ele gostara da criança estava naquele ato: fazer e presentear o brinquedo. Aos mais velhos, amigos meus e de meus irmãos, aparentemente sisudo, em pouco atribuía um apelido. Em dado momento, quando minha irmã apresentou o namorado, papai indagou sério: outro? E saia rindo, deixando que explicassem o jeito de ele ser.

Outras mudanças no século, a televisão acabando com os pequenos circos e parques, e papai vendeu o Parque Boa Vista, ficando apenas a barraca em ponto fixo, no Bairro da Abadia, da santa predileta do meu pai. Quando a procissão da Abadia, vindo do município de Água Suja passava por nossa rua papai era um dos que enfeitavam com arcos de bambu e bandeirolas, além de soltar fogos durante a passagem da santa, protetora do seu trabalho. E foi perto dela que trabalhou, até se aposentar.

Uma cachaça com os amigos, muita música no radinho de pilha e silêncio. Papai observava o mundo aos setenta, oitenta anos. Via noticiários, assistia ao futebol, mas creio que era difícil para ele acompanhar todas as mudanças que a virada do século estava impondo aos mais velhos. Os filhos formados, indo mais longe do que ele fora, as mulheres mais livres, assumindo o mercado de trabalho, a internet chegando e tornando tudo mais rápido, mais urgente. Às vezes rugia, lembrando o homem que usava os próprios braços, sempre armados para defender a família. Na maioria do tempo ficava quieto, sem nunca deixar de fazer peraltices, como prender um chapéu de palha na ponta de um bambu para colher frutas do quintal do vizinho ou, quando a cozinha vazia, invadir a geladeira para obter generosas porções de doce de leite. Após ser pego, ria. E no dia seguinte, mesmo tendo tomado a sobremesa, dizia para a Walcenis com a maior cara de pau:  Sua mãe não me deu doce!

Papai lutou pela vida à maneira dele. Nos aniversários dizia sempre, consegui mais um ano! Quando a doença chegou, lutou bravamente, incluindo nessa uma fuga do hospital, pois queria ir para casa. Viu a morte de Chico Xavier, em 2002, junto com a festa brasileira por mais uma Copa do Mundo. Um médico amigo conversava regularmente com ele sobre a doutrina espírita, que ele vira crescer em Uberaba, desde os tempos de trabalho conjunto de Waldo Vieira e Chico Xavier. Provavelmente essas conversas ajudaram-no em sua passagem, deixando com minha mãe o desejo de ter o velório feito na varanda, onde a família gostava de se reunir, com os portões abertos, para um adeus aos amigos.

Papai faleceu em 2005. Faria 100 anos em 2024. Tanta coisa tem acontecido nesse mundo. Desses 19 anos passados de sua morte, papai esteve e se mantém presente em nossas vidas, em nossos corações. E na vida de outros, amigos, conhecidos e, provável, seu nome anda até na boca de quem não sabe quem ele foi. Papai é nome de rua! Saber haver uma Rua Felisbino Francisco de Resende, o Bino, deve tê-lo feito feliz, honrado com as homenagens. Um momento em que, com certeza, ele deve ter sorrido e estufado o peito para dizer com a maior tranquilidade: Que nem o Juscelino Kubitschek!

Feliz centenário, Papai!

O Oficina é meu!

A ação do Grupo Silvio Santos contra o Teatro Oficina – fechando um dos acessos com uma parede absurda – diz bem do tal grupo e do sujeito que lhe dá nome. Atrás de sorrisos profissionais e de ações para seduzir clientes, esses seres buscam avidamente o poder, perpetuar-se nele através do dinheiro. O cara está com 93 anos, mas tem ganância e herdeiros. E é para esses que ficarão os frutos dessa ação tenebrosa contra um bem cultural brasileiro.

Note-se que a concorrência está silenciosa, muda. A premissa dos grandes grupos de comunicação é a cumplicidade, o corporativismo descarado. As reações ficam por conta de pessoas e grupos de pessoas interessadas no Teatro Oficina, no Bixiga, em defesa do bem coletivo. Aqueles que lutam pelo Parque, com certeza um grande bem para o bairro e adjacências.

Um dos aprendizados mais difíceis, creio, é entender o bem cultural, o bem público como primeiramente propriedade INDIVIDUAL e, concomitante, COLETIVA. O teatro, a biblioteca, a praça, o bosque, o museu, as árvores nas ruas e avenidas, a escola, a universidade, o posto de saúde, o hospital… Tudo isso é primeiramente do indivíduo. MEU, para ser mais claro. E do outro, o tal próximo do amor dito pelo Cristo.

Detalhe do projeto do Parque, uma obra que favorecerá o bairro e toda a cidade.

Sou eu o principal beneficiado por me sentar à sombra de uma árvore de frente para o mar, e também o que aprende quando pega um livro na biblioteca, assiste um filme, vê uma peça. Tudo pertence a todos os seres humanos, iguais em deveres e direitos. Pode-se não utilizar um ou mais entre esses itens, mas é impossível viver sem todos eles.

É bom notar também que todas os bens citados acima são frutos de AÇÕES COLETIVAS, do TRABALHO COLETIVO. Faço questão de exemplificar usando a ESCOLA: Há um espaço que foi destinado para receber pedreiros, serventes, que usando materiais fabricados em olarias, metalúrgicas, marcenarias e mais uma infinidade de produtores dos materiais necessários para colocar um prédio escolar de pé. Na formação de cada profissional – professores, coordenadores, pedagogos, bibliotecários, faxineiros, jardineiros, entra outra imensa relação e, assim, liga-se o mundo no COLETIVO. A tinta que colore o cabelo do cidadão citado acima tem processo similar, fruto de uma imensa cadeia de trabalhadores que, juntos, produzem a coisa.

INDIVIDUAL no prisma dessa reflexão básica é a ideia de propriedade. Aquele que paga, que adquire, que toma posse de algo ignora a longa cadeia de trabalho e construção conjunta para cada produto manipulado pelo ser humano. O craque do futebol não deve esquecer o processo de obtenção do couro e da fabricação da bola e o nadador carece de quem constrói a piscina. O pintor não fabrica telas e tintas, nem cavaletes e o cantor nada sabe da construção de um microfone, uma caixa de som. Tudo é resultado da ação da coletividade. O respeito pelo trabalho humano vem daí.

Desconsiderar e desrespeitar a construção coletiva que leva a fatos como a agressão ao Teatro Oficina. Há anos, no distante e espaçoso palacete onde vive, que o cidadão de bem ignora a Bela Vista enquanto lugar de gente, querendo enfiar goela abaixo dos moradores mais um shopping. Durante um certo tempo o SS investiu no Teatro Imprensa, tendo a filha capitaneando produções infantis. Uma ninharia de resultado financeiro se comparado a um shopping, ou ao banco da família plantado no mesmo quarteirão do Imprensa.

Não basta o canal de tv, o banco e sabe-se lá quanto mais. O sujeito resolveu ganhar um pouco mais e o Teatro Oficina, em meio a terreno do cidadão, foi o entrave. Das longas brigas entre Silvio Santos e José Celso Martinez Corrêa, falecido criador do Oficina, constam registros do quanto é abjeta a postura do dono do SBT, que deixou em vídeo a ameaça de transferir a Cracolândia para as imediações do teatro. Ele tem dinheiro para fazer isso. E Zé Celso tinha a comunidade a seu lado, ou aqueles que têm noção do que seja bem coletivo. O Oficina é de cada cidadão que preza pela cultura, pela história do teatro brasileiro e pela cidade de São Paulo. O Oficina é meu!

O teatro Oficina é um bem coletivo.

Percebi através da obra de Domênico de Masi a importância da ideia de ser o dono do MASP, o proprietário da Avenida Paulista, da Biblioteca Mário de Andrade e por aí vai. Tudo é meu! Tudo é do Próximo. Tudo é nosso! E cito o nosso por último, pois careço da comoção geral ante uma perda, ante um fato desrespeitoso. Um cara não pode murar minha casa, destruir meu teatro! A cilada do “nosso” é deixar para o outro a luta, a briga, a palavra pesada contra esse cidadão que não respeita ninguém. E se não tenho o mesmo poder de briga, vou para a ação individual que é ignorar o SBT, Jamais adquirir qualquer coisa da Jequiti, assim como tudo o mais que se refere à Liderança e Capitalização. Essa ação, pequena, pode ser feita por você, se leu até aqui. Sendo pequena, não basta para resolver a questão. Por isso mesmo vamos ao coletivo, apoiando todas as ações do pessoal do Teatro Oficina Uzyna Uzona.

Bora lutar!

Obs. As duas primeiras imagens são do Instagram do Teatro Oficina. A terceira é do meu arquivo pessoal.

Vavá e o copo campeoníssimo

O que permanece na lembrança quando se tem três anos de idade? Será que a história fixada na nossa mente é real ou alimento oriundo de conversas alheias, registros diversos, ou de acontecimentos similares posteriores. O certo, certíssimo, é que em 1958 eu completei três anos.

Quando o Brasil começou a trajetória rumo à primeira Copa do Mundo, ganhando de 3 x 0 da Áustria no dia 08 de junho, ainda faltavam dez dias pra que eu completasse meus três aninhos. O fato é que essa data lembra um hábito lá em casa, meu pai indo para o quintal soltar fogos à cada gol brasileiro. Sem foguetório no dia 11/06, quando o Brasil empatou com a Inglaterra e duas sessões de estrondos no quintal pelos 2 x 0 contra a União Soviética no jogo seguinte, dia 15.

Para uma criança prestes a completar três anos deveria ser, no mínimo, uma situação intrigante. “Onde vim parar?”, pensaria o pequerrucho vendo um monte de gente aboletada em volta de uma caixa, de onde saia a voz de um sujeito falando “feito louco, alucinado e criança” e, num dado momento, todos berrando “gol” e o chefe da casa correndo para o quintal e, junto à vizinhança, enchendo o céu de estrondos festivos.

Será que festejaram meu aniversário em 18 de junho de 1958? Ou deixaram de lado, já que dia seguinte, o Brasil jogaria com o País de Gales? E ganhou, de 1 x 0 como ganhou em seguida os dois últimos jogos, fazendo 5 gols na França e outros 5 na Suécia. Que fartura! Bom lembrar que fazíamos 5 gols nos adversários.

Daquela Copa na minha vida permaneceu um copo! De todos os cacarecos de ocasião para consumo de torcedores, herdei um copo autêntico, virgem – relíquia que veio a ser – desde quando o Brasil se sagrou Campeão Mundial de Futebol. Não recordo bulhufas sobre quem adquiriu, quem era o verdadeiro dono, quanto custou, onde foi comprado. Estava entre os objetos pertencente aos meus avós, Maria e José, e tendo o Vavá no “plantel canarinho”, pedi e recebi como herança.

Provavelmente minhas recordações da Copa do Mundo sejam mais as de 1962, quando euzinho completei 7 anos e ganhei de véspera o Bicampeonato, no Chile. Véspera, pois o jogo final foi no dia 17 de Junho! (lembra, faço no dia 18!). O Brasil fez três gols na Tchecoslováquia. O primeiro gol do Amarildo, o segundo do Zito e o terceiro foi de quem? De quem? Do Vavá! Viva o Vavá!

Dessa segunda Copa guardei e alimento carinho por Garrincha, Amarildo, Vavá e o fabuloso Gilmar! Já escrevi por aí que foram os primeiros jogos que vi pela televisão. Um vizinho colocava um aparelho na porta do bar e no começo da noite a vizinhança corria para ver a exibição dos jogos. Na minha cabeça de menino, sem qualquer informação sobre os recursos de repetição, achava que o Brasil jogava duas vezes no mesmo dia. E, melhor, ganhava nos dois jogos! Naquela tela cheia de chuviscos, a figura de Gilmar se sobressaia e eu aprendi a amar os dribles de Garrincha.

Meu copo amarelinho guarda lembranças dos melhores anos da minha infância. Aos quinze anos, novamente na véspera do meu aniversário, vi com olhar adolescente o Brasil vencer a Itália obtendo o tricampeonato de 1970. Havia o burburinho de coisas acontecendo no país do “ame-o ou deixe-o” que não couberam no meu copo. Assim como foi com outro olhar, mesmo sem conter a alegria, que vi o país vencer em 1994 e em 2002. Outros tempos, outros esquemas muito distantes dos dois primeiros campeonatos.

Olhando para o copo, escolhendo melhores imagens para compartilhá-lo com quem me honra lendo esse blog, sinto-me obrigado a encarar o tempo, a vida: No quesito esporte sempre fui um perna de pau, como dizem daqueles que não jogam bem o futebol. E, para ser honesto, quando criança ninguém lá em casa me chamava por Vavá. Era Cido, Cidinho e, por ser um ranzinza precoce ganhei o apelido de Jiló.

Selma da Matta, uma querida amiga, foi a primeira a me fazer gostar de ser chamado de Vavá. Tinha resistência ao apelido, provavelmente por não me ver como o Vavá da nossa seleção. Fiz as pazes com o apelido já adulto. Já sabia então o motivo de, ao dizer meu nome, perguntarem se eu me chamava Edvaldo. Era por conta do Vavá, Edvaldo Izídio Neto. Marcou cinco gols em 1958 e mais quatro em 1962. Bicampeão! O Leão da Copa, como foi chamado, está entre poucos que marcaram gols em final de Copa do Mundo. Ah, e também jogou no Palmeiras, onde deixou a lembrança de 71 gols!  

Morando atualmente em Santos, estou bem perto do Canal 5 e volta e meia passo pela estátua em homenagem ao Pelé. Infelizmente, o primeiro grande evento que presenciei na cidade foi o cortejo para o enterro do Rei do Futebol.  Momento somado aos primeiros, simbolicamente registrados no interior do meu copo canarinho.  Um copo que, “sorry, brothers!”, cacareco, bugiganga ou relíquia histórica não vendo, não troco, não dou. É meu, bem guardadinho esperando ver, antes que a morte nos separe, o Brasil ser hexa, hepta, octo…

Até mais!

Obs. Este post é parte dois da série “Cacarecos, badulaques e bugigangas”, que teve início com o post “Pote de Lobisomem e um pouco mais”.

A panacota e a perereca

O que ele aprendeu desde muito cedo é que não é fácil entender algumas mulheres. Irmãs, primas, amigas, colegas, cada uma tinha um jeito de ser e, vez em quando, mudanças de humor que ele demorou para compreender. Nunca sabia ao certo o que elas queriam! O certo é que, tímido, buscou “ficar na sua”, como dizem por aí. Essa postura acabou por torná-lo um garoto solitário, adolescente taciturno e fechado. Sem turminha da rua, da escola, do trabalho.

Foi uma vizinha que descobriu o potencial do jovem sempre fechado, mas aberto ao amor e ao sexo, não necessariamente nessa ordem. Distante em reuniões, era após as refeições, ou durante festinhas que Afrânio se entusiasmava com doces e sobremesas. Numa dessas ocasiões, quando já adepto de natação e de longas corridas matinais, as coxas do rapaz chamaram a atenção da vizinha já adulta e fogosa. Entre as pernas grossas do moço havia sugestão de algo a mais e a vizinha, vendo o entusiasmo dele por doces durante um aniversário, se aproximou decidida: “Você gosta de panacota, Afrânio? Tenho uma deliciosa” E piscou apenas com o olhar esquerdo.

Falsa loira de cabeleira farta e seios volumosos, Afrânio não entendeu a busca de intimidade e isolamento contida no convite da vizinha Marlene que, rápida no gatilho, percebeu a virgindade do moço no olhar, no gaguejar e em uma inequívoca ereção quando sentiu o braço dela roçando-lhe as pernas. Ela resolveu insistir: Minha panacota é doce, suave, boa de ser comida va-ga-ro-sa-men-te! Antes da última sílaba piscou novamente o olho, abrindo um sorriso que mesmo o virgem Afrânio entendeu. Marlene marcou a tarde do dia seguinte para que ele experimentasse a iguaria.

Ao voltar desse primeiro encontro, já proprietário da panacota da vizinha, um alegre e viril Afrânio foi procurar em livros, revistas e dicionários o significado de panacota. Devia ser uma novidade no universo do sexo, já que não encontrou o doce entre as múltiplas denominações para a vagina. Ele, de cara, preferiu panacota à xoxota. Sem nenhum texto, nenhuma referência à iguaria que acabara de experimentar, entendeu o motivo de Marlene ter sido enfática ao murmurar em seu ouvido: “Minha panacota é única e você jamais irá esquecê-la”.

Décadas passadas, Afrânio já é homem solitário, divorciado e sem filhos. Mantém-se distante das redes sociais e só busca a internet quando muito necessário. Continua nadando, correndo nos finais de semana e, vez ou outra frequenta um conhecido bar onde, eventualmente, conhece mulheres como ele, dispostas à encontros intensos, mas sem maiores envolvimentos. O amante ideal para interessadas em momentos furtivos. Homens como ele não contam vantagens em grupos de amigos, tornando-se até mesmo indiscretos e, por isso, dispensáveis.

Analista de dados, sempre fechado às voltas com documentos, arquivos, contas, riscos, processos, foi durante um almoço comum de quarta-feira, na fila do caixa do restaurante que Afrânio ouviu uma confidência entre duas moças, uma morena espetacular, dizendo para a amiga: “Hoje vou experimentar minha perereca de dentes!”

Ele percebeu no primeiro minuto a semelhança entre a moça ali, bem perto de si, e Marlene, a antiga vizinha dona da inesquecível panacota. Afrânio sentiu-se novamente menino, sem conter a incômoda e inesperada ereção bem ali, na fila do caixa, imaginando como seria uma perereca de dentes. Consultou o próprio relógio e viu que ainda dava tempo para uma tentativa de aproximação. Pediu licença, se apresentou e convidou as duas para um café ali, agora. “Para que esperar?”. Sua postura evidenciou interesse inequívoco em Tereza. A amiga se foi deixando que os dois se conhecessem.

Afrânio foi direto. Estava diante de uma mulher bonita, interessante e, esperava, livre! Ela confirmou estar só. Ele continuou: Ela era por demais interessante, fizera-o voltar no tempo, nas primeiras paixões e gostaria muito de poder intensificar esse encontro e ir além. Tereza ficou assustada com a pressa, o repentino interesse de um cara que nunca havia visto. Refreou as intenções do homem com firmeza e foi direta ao ponto: “Somos adultos, Afrânio. Vá devagar e diga exatamente o que você quer de mim!” E ele, sem a menor possibilidade de conseguir se conter murmurou, cheio de tesão: “Eu quero a sua perereca de dentes!”.

O café parou para observar a gargalhada imensa da mulher. Quando conseguiu refrear o riso, Tereza desancou com Afrânio: “Já vi muita tara, por aí, meu caro! Como escreveu Caetano, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, mas tudo tem medida!”. O homem sabia que havia feito algo errado. Lembrou-se da infância, da dificuldade em entender algumas mulheres. Queria que ela falasse baixo, que parasse de rir, os presentes no café olhando, rindo e gargalhando ainda mais quando ela elevou a voz: “Porra, meu caro, o que você quer fazer com a minha perereca de dentes?”

Tereza saiu e deixou Afrânio só, enfrentando os olhares dos presentes. O garçom veio com a conta e, voz baixa, com cumplicidade duvidosa informou: “Eu também tenho perereca de dentes. Podemos combinar alguma coisa, se você quiser!” Afrânio deixou o dinheiro sobre a mesa e saiu, direto para o escritório onde poderia engolir a raiva e digerir a frustração. Abriu o computador, entrou na internet à procura de uma perereca dentada. Viu fotos precisas de próteses de resina, meias dentaduras a preços módicos. Desligou o aparelho e ficou sonhando com Marlene, com a doce e suave panacota e amaldiçoando todas as pererecas de dente do planeta.