Inhotim, arte e artistas

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“Celacanto Provoca Maremoto”. Detalhe. Adriana Varejão

Pensar sobre a função da arte tem sido uma preocupação desde os tempos de faculdade. Lá, a temperatura subia a extremos quando se acrescentava o “social” nas discussões. Qual a função social do artista e da arte? O mundo passou por imensas mudanças desde o final do século XIX e aspectos utilitários, didáticos, decorativos, entre outros, foram sobrepujados por uma estética filosófica colocando a própria arte como constante elemento a ser discutido tanto quanto o artista. Conversas, discussões e até bate-bocas em busca de um possível consenso.

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A Galeria de Doug Aitken em postal do próprio Instituto Inhotim

O tempo… As dificuldades cotidianas minimizam certas preocupações, burocratizando até mesmo aquelas que nos são caras. Algumas reflexões são mantidas, todavia perdem a força se não há elementos suficientes para reascender assuntos que, sem a devida manutenção, tornam-se temas mornos. Surgem faíscas quando uma obra ou um artista vêm à tona. Há empolgação quando lembramo-nos de fatos históricos, mas são fatos, lembranças que tocam quem viu; quem estudou; aqueles que nutrem interesse específico. Melhor quando somos colocados frente a frente com situações, instalações, obras instigantes que suscitam e, praticamente exigem do receptor uma resposta.

Em Inhotim senti essa necessidade de resposta, o que me tirou da mera posição de receptor para levar-me à condição de participante do ato ali, pronto para ser vivenciado. O Instituto Inhotim, em si, já leva à atitude diferenciada posto que em sendo um lugar distante, único, com seus jardins encantadores, arquitetura diferenciada ainda tem… Obras de arte. Longe de fazer, aqui, um inventário de todas as obras do local. Meu desejo é registrar um pouco do quanto Inhotim instiga em termos de pensar arte e artistas.
A galeria de número 10 (Sonic Pavilion – Doug Aitken) , por exemplo, nos propicia uma experiência inesquecível. Doug Aitken é um artista dos EUA e idealizou uma obra para captar o som da terra. Inhotim tornou a ideia realidade através de um pavilhão de vidro e aço, com um poço de 202 m de profundidade onde microfones e amplificadores foram instalados para a captação. Os ruídos gerados no interior da terra e a reverberação dos mesmos resultam em som equalizado que conduz o espectador ao silencio imediato. Isso mais o ambiente, todo o entorno de uma paisagem única, eu diria conduz à meditação. Entre tantas circunstâncias que abalam e colocam o planeta em risco há o momento em que paramos para ouvi-lo… A pergunta é inevitável: O que faremos com isso; o que faremos diante disto?

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Foto de Claudia Andujar em obra sobre os Yanomamis

Sempre gostei da ideia de que a arte deve olhar pelo e para aqueles que, por circunstâncias específicas vivenciam mazelas desse nosso mundo. Uns chamam de arte engajada. Eu reverencio aqueles que sensibilizam a partir da própria sensibilidade. A fotógrafa Claudia Andujar é parte dessa estirpe de artistas que revelam mundos dentro do nosso mundo. Na Galeria Claudia Andujar estão centenas de fotografias realizadas do povo Yanomami, na Amazônia Brasileira. A artista é de origem sueca e está no Brasil há muito tempo e seu trabalho foi utilizado para proteção dos índios, além de contribuir nas formas de tratamento e preservação dos Yanomamis. Construído especialmente para exibição da obra de Andujar, a galeria é uma obra arquitetônica ampla que exibe além das imagens, livros e um documentário sobre a artista.

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Poderia escrever, aqui, sobre a experiência de brincar na Galeria Cosmococa com os “quase-cinemas” idealizados por Helio Oiticica e Neville D’Almeida. Meus companheiros de viagem ficaram tão impressionados quanto eu diante das obras de Tunga. A obra Narcissus Garden, de Yayoi Kusama, é uma visão contemporânea do mito que leva-nos a brincar com as selfies cotidianas. Poderia escrever sobre Cildo Meireles, Doris Salcedo, John Ahearn e Rigoberto Torres… Escolhi, para concluir, registrar algumas impressões sobre a obra de Adriana Varejão.

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Dois detalhes do Narcissus garden – Yayoi Kusama

Se Yayoi Kusama faz emergir o narciso que há em cada um de nós é Adriana Varejão quem suscita velhas lembranças, indagações sobre identidade, memórias coloniais… O primeiro impacto vem com a obra “Celacanto Provoca Maremoto” com inequívocas referências ao barroco e aos azulejos portugueses. Em contraponto à referência história do grande painel ainda há outros cinco quadros, expostos no teto, com imagens de plantas carnívoras, ainda vistas do primeiro piso, antecedendo a visita – para quem faz o percurso sugerido pelo local – e “Linda do Rosário” – escultura que faz referência ao hotel de mesmo nome, no Rio de Janeiro, em 2002. Entre outras obras da galeria está “Passarinhos”, uma instalação que é pura delicadeza na lembrança de espécies de pássaros brasileiros.

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A obra de Adriana Varejão, bela e profunda por si, encontra-se em ambiente de inequívoca valorização: a galeria é obra arquitetônica impar, pois vai além do abrigar a obra para ser com ela. Um intenso diálogo entre dois criadores que estabelece e sugere um percurso onde arte e arquitetura são complementares. A sensação é de que o pavilhão de Rodrigo Cerviño Lopez, arquiteto paulista, desvela a obra de Adriana Varejão. O resultado é de puro encantamento. Uma entre muitas e intensas possibilidades de refletir sobre arte, artista e a função de ambos nesse nosso tempo.

Até mais.

Inhotim, Arte Contemporânea em Minas Gerais

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Inhotim reúne botânica, arquitetura e arte contemporânea

Quem primeiro me falou sobre Inhotim? Será que li em alguma revista, jornal? Fica lá em Minas Gerais; “um grande museu a céu aberto” foi a expressão mais frequente e, obviamente, gerando possibilidades visionárias partindo-se do que entendemos por museu, por obras expostas em espaços abertos, públicos ou privados. Depois vieram outras informações: o local, imenso, tem a arte contemporânea como prioridade e jardins inspirados em ideias de Burle Marx.

Inhotim está no município de Brumadinho, a sessenta quilômetros de Belo Horizonte. A cidade é banhada pelo Rio Paraopeba, cujo vale serpenteia pela Serra do Rola Moça. Sim, a mesma Rola Moça imortalizada no poema de Mário de Andrade. Serra e rio são responsáveis pela bruma que deu origem ao nome do local. Tanto a cidade quanto Inhotim, volta e meia, estão envoltas em neblina suave. No verão, constatado, chove muito.

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Detalhe da galeria Adriana Varejão

Ficou no tempo o motivo de não ter ido a Inhotim na primeira tentativa; na segunda, foram chuvas fortes por toda Minas Gerais, danificando as estradas e causando caos temporário. Neste janeiro foi possível visitar o Instituto Inhotim. Houve chuva no primeiro dia; um mero detalhe que contribuiu para deixar o local mais bonito.

Inhotim concretiza em um único espaço três áreas absolutamente distintas e totalmente entrelaçadas: Botânica (floresta e jardim), arquitetura e arte contemporânea ocupando uma área de 110 hectares. A beleza exuberante explode ao primeiro contato e a primeira constatação é que o tempo destinado à visitação do local deve ser grande.

Flores e folhagens, árvores de pequeno e grande porte, gramíneas e parasitas formam o entorno de obras, galerias e demais construções do Instituto. Brilhantes sob a chuva, as plantas exalam perfumes distintos, suaves e, sem chuva permitem a visão de pássaros, borboletas, entre outros, que colaboram para a beleza do lugar. Caminhando pelo meio da floresta ou percorrendo vias pavimentadas (a distância pode ser suavizada utilizando-se carros elétricos que transportam visitantes entre os principais pontos do local) chega-se a pavilhões cuja arquitetura harmoniza com o ambiente.

É possível caminhar livremente por todo o espaço ou, então, seguir o mapa fornecido pela instituição e percorrer, no mínimo, três eixos distintos: O eixo laranja é tão grande quanto o eixo rosa. No amarelo concentram-se serviços locais como restaurantes, lojas e outros. Tudo com uma atenciosa recepção dos funcionários que só faz valorizar a tradicional hospitalidade mineira.

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Da série Portret ale Medeii, 1979, de Geta Bratescu

Nos próximos posts volto ao tema. Para falar de Tunga, Adriana Varejão, Cildo Meireles, Doug Aitken, Hélio Oiticica… E até do significado da palavra Inhotim. Por enquanto, quero terminar este texto homenageando Bernardo de Mello Paz, o idealizador de Inhotim. Um mineiro nascido em Belo Horizonte que transformou o próprio sonho em realidade. Minas Gerais, já  reconhecida pela arte colonial de suas cidades históricas, pela literatura de Guimarães Rosa, a poesia de Drummond de Andrade ou pela música de Milton Nascimento, entrou, com Inhotim, para o seleto grupo dos grandes centros mundiais da arte contemporânea.

Obrigado, senhor Bernardo Paz!

Vincent Van Gogh, Cartas a Théo

Jo van Gogh-Bonger foi esposa de Théo van Gogh. Além de redigir uma biografia formidável de Vincent van Gogh, Jo também guardou as cartas do pintor ao irmão. Penso que a melhor maneira de conhecer Vincent van Gogh é através do que ele mesmo disse para quem ele muito amou. Abaixo estão algumas frases retiradas das “Cartas a Théo”, publicadas no Brasil pela L&PM POCKET, ilustradas com reproduções de imagens do pintor. Espero que sirvam de estímulo para conhecer melhor e mais fundo a vida de um dos artistas mais extraordinários de toda a história da arte.

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Boa semana para todos!

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Nota:

Ao longo do mês de março publicarei alguns textos ou parte de textos de poetas, escritores, compositores e dramaturgos que foram essenciais na minha formação. Quero dividir com os leitores deste blog trechos preciosos que, bom enfatizar, nunca é demais divulgar.

Claudio Barros expõe em Campinas

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Feliz e orgulhoso em poder divulgar o trabalho de Claudio Barros, artista cuja trajetória acompanho desde quando ele chegou de Ouro Preto, onde havia iniciado carreira profissional. Artista plástico carioca radicado em São Paulo, Claudio trabalha com xilogravuras, têmpera acrílica e desenhos à óleo sobre papel.

Começa hoje, 19 de março, a exposição CLAUDIO BARROS, PINTURAS, DESENHOS E GRAVURAS no Espaço Cultural do TRT, localizado na Rua Barão de Jaguara, 901, 1º andar, Campinas – SP.

O texto abaixo, sobre o artista e a exposição, foi escrito especialmente para a apresentação/divulgação do evento. Vale a pena conhecer.

A AMBIGUIDADE ENTRE O ESPAÇO E A MATÉRIA NA PINTURA DE CLÁUDIO BARROS

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Olhando lá para trás na carreira longa do pintor Claudio Barros, entrevemos um namoro inicial com Matisse, com o cubismo – na sua veia mais colorida – e com o Robert Delaunay pré-abstrato. A explosão de cores, a estrutura compositiva que desafia as leis da perspectiva em obras como “O sonho” e “Viaduto ”, ambas de 1989, são provas desse interesse inicial do artista. 

Se, ao contrário, observamos os seus ciclos de pinturas mais recentes, como as séries “Jardim e portão” (2006-2008) e “Plantas (coloquei esse nome, pois falta um título para a ‘série’)” (2010), vemos que as primeiras “paixões” foram aparentemente abandonadas, mas sem deixar de fornecer as sementes que brotariam numa obra original e autônoma. Vemos que as cores intensas – herança do fauvismo através dos mestres citados – deram lugar a cores tênues e em harmonia entre elas, ao invés dos fortes contrastes iniciais; e, ainda, que a fragmentação espacial foi substituída por planos mais amplos. Permanece, porém, do antigo “namoro”, a interpenetração dos vários planos espaciais – realizada, entre outros recursos, através da densidade da matéria pictórica. Por exemplo: as linhas, nas telas de “Jardim e portão”, sugerem a profundidade espacial, que, entretanto, é desmentida pela própria, densa matéria das tintas na superfície do quadro; e, em “Plantas”, ramos, folhas e flores parecem incrustados no muro que lhes serve de fundo, num inesperado efeito “marchetaria”. 

As obras de Claudio Barros são construídas a partir dessa ambiguidade; e, dessa forma, os mais simples e humildes temas figurativos – um canto de quintal, um portão de ferro, uma planta ao longo de um muro – transcendem o seu caráter casual para abraçar uma reflexão sobre a natureza da própria linguagem visual. São elevados de simples descrição a afirmação do artista às voltas com a sua linguagem, com uma expressão independente de qualquer referência temática externa.

Entre os diálogos iniciais com os mestres da arte moderna e esses ciclos mais recentes, flertando ocasionalmente com a pintura abstrata e matérica e sempre tendo como fio condutor a ambiguidade entre espaço e matéria, Claudio Barros dá provas de uma criatividade e de uma curiosidade inesgotáveis.

Roberto Carvalho de Magalhães
Prof. de História da Arte e Ciência dos Museus
Università Internazionale dell’Arte (Florença, Itália)

 

O cinema na sala de aula para escola que tem TV

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País que valoriza as artes é outra coisa! Vejam essa: entrou em vigor no final do mês de junho lei que determina a exibição nas escolas de um mínimo de duas horas de filmes produzidos no Brasil. Documentários, roteiros originais, adaptações… Tudo para contribuir na formação das nossas crianças. Detalhe interessantíssimo: 43.000 mil escolas não têm televisão! 48.000 escolas não têm DVD!

Nosso país nunca deixou de preocupar-se com o ensino das artes; o problema é que primeiro entram com o bolo, para depois pensar no que comemorar. Também é possível pensar que primeiro oferecem a casa, agora quanto ao terreno para a construção da mesma… Tudo parece um jogo político onde vale o que é dito; a realidade é outra coisa. É fácil arrotar grosso e afirmar que “garantimos duas horas mensais de exibição de filmes para nossos alunos”; omite-se a falta de aparelhos e tudo bem.

Que nenhum mal informado de plantão venha creditar tal postura ao PT. A história está aí, para lembrar, por exemplo, que em 1961, foi instituída a Educação Artística em nosso país. Nesse ano estava saindo Juscelino Kubitschek de Oliveira, entrando o Sr. Jânio da Silva Quadros que, renunciando, deu o lugar para João Belchior Marques Goulart. Na lei de então ficou determinado que um único professor entraria em sala de aula para ensinar música, teatro, artes plásticas, dança, enfim todas as modalidades artísticas. A Educação Artística, por decreto, criou o professor polivalente. O resultado pode ser comprovado por aí… Temos uma população que sabe tanto de arte quanto de física quântica.

A Lei de Diretrizes e Bases vigente para a educação nacional, de 1996 (Senhores, nesta data nosso presidente era Fernando Henrique Cardoso), acabou com a Educação Artística ao determinar a volta do professor especialista em determinada forma ou expressão artística. Lindo! Se antes não tínhamos professores com formação adequada para o ensino da Educação Artística, agora não temos professores suficientes para ensinar cada uma das formas artísticas. O cálculo é interessante: temos mais de 190 mil escolas no país. Não dá para afirmar que temos 190 mil professores de música, outro tanto de dança, mais outro tanto de teatro ou artes plásticas.

Tudo indica que há uma turma que se perpetua no alto escalão da educação nacional, determinando bobagens. Não temos quantidade suficiente de professores de arte, mas temos uma lei que determina o ensino por especialista de cada uma das formas artísticas. Não temos aparelhos de televisão (olha só que precariedade!), mas temos lei que obriga a exibição de filmes.

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Em passado recente diríamos: – É este o país que pretende sediar a Copa? Pois é; sediou com sucesso e, com certeza, fará uma belíssima Olimpíada. Então, enquanto aguardamos o próximo evento mundial fica determinado: Assistirão filmes na escola os alunos cuja escola tem TV. Os outros ficarão sem tal atividade. Simples assim. Afinal, é provável que esses mesmos alunos ainda não tenham tido um professor de história e cultura afro-brasileira. É! Não entendeu? Pois bem, a legislação vigente também determina um professor de história e cultura afro-brasileira nas salas de aula do país! Este é ou não é o país da Copa?

Até mais!

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“Portais”, de Antognioni e Cariello

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Evidência imediata em “Portais” é a profusão de lugares e personagens. Com texto de Octavio Cariello e desenho de Pietro Antognioni, “Portais” é história em quadrinhos, primeiro trabalho da dupla. Coerente com a proposta delineada pelo título, o texto ágil de Cariello vai de um lugar para outro, somado ao desenho preciso de Antognioni. Vilões e mocinhos atuam em tempo e locais específicos para, no momento seguinte, continuar a ação em outro local em dois mil anos antes ou nove mil anos depois.

Cariello exercita corajosamente a síntese construindo uma narrativa que lembra mosaicos, fractais na composição de uma extensa aventura. Um desafio à atenção do leitor facilitado pelo desenho de Antognioni. Este acompanha as mudanças abruptas do texto com farta utilização de cores e formas. Ficção para público adulto – informação constante já na capa – “Portais” é para quem foge de narrativas lineares, com ações tradicionalmente atreladas ao espaço e ao tempo. Estes estão multifacetados, mas construídos com o cuidado que permite ao leitor a visão geral tanto do tema quanto da história.

O álbum ainda conta com participações especiais em simpático anexo denominado “galeria de pinapes”. Nesta encontram-se as visões de grandes artistas sobre as personagens de “Portais”. Entre os vários participantes estão Roger Cruz, Leo Gibran, Alex Shibao e o próprio Cariello que, é bom lembrar, está entre os melhores desenhistas deste país. Também  em outro anexo há um passo-a-passo de como a obra foi feita. Um dado interessante para os interessados, principalmente estudantes, no processo de trabalho da dupla.

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Uma das peças de divulgação utilizadas na fase inicial do projeto

A publicação de “Portais” pela editora Terracota tornou-se possível via financiamento coletivo, também dito “crowdfunding”. Por isso já esta nas mãos daqueles que participaram na viabilização da obra. O lançamento oficial para todo o público será no próximo dia 26, 19h00, na Quanta Academia de Artes. (Endereços e telefones em http://www.quantaacademia.com). Imperdível para fãs do gênero, boa oportunidade para todos aqueles interessados em propostas que fogem ao óbvio.

Até mais.

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Obras de arte, vibradores e skank

Convite, por ocasião da entrega do quadro de Portinari ao MNBA
Convite, por ocasião da entrega do quadro de Portinari ao MNBA

 

O país segue em frente, mesmo em tempos de Copa do Mundo. Dois exemplos contundentes: as eleições, aonde o “café com leite” vem com tudo e algumas ações da Receita Federal garantindo tributos devidos aos cofres públicos. “Café com leite”, para os mais jovens, é quando os estados de São Paulo e Minas aliam-se em propósitos políticos. Aécio, de Minas, e Aloysio, paulista de São José do Rio Preto tentarão o lugar de Dilma. Já tributos, quando não pagos, é assunto para a Receita Federal.

A vida de um agente da Receita Federal fica distante do árido discurso político e, me parece, ser bem excitante. É bem verdade que sobram muambas paraguaias no cotidiano desses profissionais; a frequência é tanta que deve ser rotina apreender bebidas, roupas, perfumes e cacarecos para consumo ordinário. Já obras de arte…

O Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, receberá em doação várias obras de arte apreendidas pela Receita Federal. Avaliadas em R$ 10 milhões, as obras são de autoria de artistas nacionais (Cildo Meireles, Jorge Guinle, Daniel Senise, Beatriz Milhazes) e internacionais (Niki de Saint-Phalle e Michelangelo Pistoletto)e em breve estarão expostas para todo o público. Não é esta a primeira doação deste tipo que o museu recebe. Já tive a oportunidade de visitá-lo e conheci, lá, uma obra de Portinari, “Caçador de Passarinho” que foi apreendida e doada ao Belas Artes em 2006.

Ao ler a boa notícia – penso que grandes obras de arte devem permanecer em espaços públicos – deparei-me com outra; a inusitada apreensão de cem vibradores e outros duzentos massageadores eróticos em Foz do Iguaçu, no Paraná. O material estava com um cidadão que embarcava para Fortaleza. Fico imaginando a situação: o agente abre a mala, depara-se com dezenas de vibradores e encara o cearense, cabra macho, e indaga: – É para uso pessoal, senhor?

Animado pelo flagra erótico voltei para mais notícias do setor. Estão lá outras apreensões inusitadas: 160kg de cabelos, sete jatos de luxo, mil réplicas da Taça Fifa (Santo Deus, vários países brigando por uma quando há milhares por aí…) e, entre todas as apreensões, aquela que levou-me a abrir o link: “Receita apreende skank no aeroporto do Galeão”.

Será que a Receita Federal confundiu o grupo mineiro com droga? Pensaram que o vocalista Samuel tenha sido o responsável pelo tráfico dos 160 kg de cabelos? A banda também seria responsável pelas mil réplicas da taça, buscando lançar um novo hit tipo “É uma partida de futebol”?

O bom de certas notícias é não ir direto, desvendando o mistério. Há certo prazer em saborear possibilidades, buscando as causas para tal situação. Se a polícia confundiu a banda mineira Skank com droga, como deixaram de fora a Jota Quest? E seria um absurdo prender o Samuel e deixar o Dinho falando merda no programa dominical da Globo. Será que a manchete estaria errada?

A Skank apreendida pela Receita Federal é uma “supermaconha, cultivada em laboratório, também conhecida como skunk”… Hein? Ufa! Entendi. Então percebi nunca ter buscado a origem da Skank, nem ligado isso ao fato da banda tentar, como está no site oficial, “transportar o clima do dancehall jamaicano para a tradição pop brasileira”. Jamaica? Entendi. Acho…

Enfim, o país caminha com eleições e ações diversas de todos os setores. Mais que impostos retidos na fonte, mordidas do leão, na importante Secretaria há skank, obras de arte, jatos, cabelos, vibradores e, para quem tem, anualmente encontramos a notícia de restituição do IR. Bons e divertidos motivos para ficar atento às ações da Receita Federal.

Até mais!

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