Joyce Prado, de amor e amizade

Aos 21 anos, Joyce Prado era uma menina e uma mulher. A menina que nunca deixaria de brincar, de ser doce, solidária, afetuosa e carinhosa. A mulher preta já conhecia o mundo e as batalhas todas a serem vencidas. O lugar, a redação do Papolog, era uma novidade a explorar as possibilidades da Internet.

Capitaneado por um visionário Rafael Mendes, em 2008, o Papolog possibilitava que cada artista tivesse um blog, conduzisse sua própria carreira, falasse diretamente com seu público. Cabia ao site criar um ambiente favorável com conteúdo pertinente ao universo musical. Os dois básicos, imagem e texto, eram responsabilidade nossa. Joyce Prado e eu.

Em comum tínhamos um jeito sério de levar a vida. Entrar, tomar posse do ambiente, fazer nosso trabalho da melhor maneira possível e ignorar, colocando em seu devido lugar, o que pudesse nos atrapalhar. Não sei onde e quando Rafael conheceu Joyce, jovem cineasta que dirigiria os clipes produzidos pelo site. Foi na universidade onde estudou que ele trouxe o professor para a direção de conteúdo.

Em pouco trocávamos figurinhas. O cara de 53 com a menina de 21, brincando de fazer fotos, de produzir imagens. Amigo da montadora Cris Amaral, foi normal trabalhar com Joyce Prado, deixar que ela me dirigisse nos primeiros vídeos que fizemos. Já então trocávamos confidências, de como os seres humanos tratam uns aos outros por questões de raça, gênero, idade. Um triste exemplo: com serenidade e firmeza, Joyce enfrentava vizinhos que chegaram a indicar a entrada de serviço informando que era a proprietária do apartamento tal.

Conheci e convivi com Joyce Prado transitando com coragem, cabeça erguida, tomando conta da parte desse mundo que lhe coube. No Papolog fez clipes, vinhetas, vídeos de média duração, reportagens. Tenho o orgulho de ter uma palestra sobre música, conteúdo básico do nosso trabalho, depois fixada no Youtube. Muito do que fizemos ficou lá, no tempo em que o site existiu antes de ser vendido para os espanhóis.

Permanecemos ao longo do tempo com uma parceria de socorros rápidos, como o telefone de uma celebridade que consegui com ela há cerca de duas semanas. Um objeto de cena, uma pessoa, um livro! Estranhei a ausência de Joyce no lançamento que fiz neste sábado, dia 6. Ela havia comparecido em todos os anteriores. Devia estar atarefada, pensei.

Um dos livros que escrevi, o primeiro romance, foi papo nosso lá, em 2014. Me disseram que era um texto cinematográfico e sentenciei. Se for para virar cinema, que seja pela direção da Joyce. Selamos o pacto em um almoço, lá na Pompeia. Ela atarefada com todo o trabalho que se desenhava e que tinha pela frente. “Na hora certa, faremos”, me disse. A hora chegou no começo deste ano. “Tem um edital de adaptação de livro pro cinema aberto. Anima?”.

Eu havia enviado um livro com uma série de poemas que abordam a questão negra. “Há um poema sobre o Xirê, belíssimo”. Ela gostou do livro, mas para o tal edital seria o “dois meninos – limbo”, o meu romance. Entre papos de sincronicidade mental e piadas quanto a quem penteia a peruca do ministro, fizemos o exaustivo trabalho que é cadastrar qualquer projeto para obtenção de recursos em nosso país.

Ontem, já altas horas, o Fernando Brengel me chamou para a notícia. Ele percebeu pela minha movimentação nas redes que eu não soubera da morte de Joyce Prado. Percorri toda a rede em busca de algo que dissesse “é mentira”, uma tenebrosa brincadeira de mal gosto. Não achei. Aos 70 anos perdi a amiga de 38 que, nossa intimidade permitia, era mais velha que eu, era da mesma idade, e era sobretudo a menina que falava comigo como sempre falaram minhas sobrinhas queridas.

Houve um momento, no fechamento do projeto da adaptação do romance, que Joyce me perguntou se eu queria participar da roteirização. “Quero acompanhar. Prometo ficar quieto”. Logo depois ela enviou imagens, “fiz esse doc extra pra trazer um clima”, confidenciou na mensagem que trouxe uma dezena de referências cinematográficas, norteadoras de encaminhamento em que se discutiria a adaptação. E eu tive a absoluta certeza de ter feito a escolha certa.

De tudo o que sonhei na vida e que não se realizou, nem se realizará, está um filme, baseado em livro meu, roteirizado e dirigido por Joyce Prado. Tudo bem! Certamente seria belo, sincero, honesto e sensível, como tudo o que ela fez. Nosso afeto atravessará tempos, vidas. Deveremos nos reencontrar e continuar, se não for um filme, que seja outra coisa desde que fale de amor e amizade.

SIGA EM PAZ, JOYCE PRADO!

Nota: Todas as fotos foram feitas por Joyce Prado, a gente brincando com a câmera de um computador, em 2008.

Semana Cultural Ars Viva – Veja programação

Com seis décadas, Ars Viva realiza semana gratuita de espetáculos a partir do dia 11

O prédio da Sociedade Humanitária de Santos, um dos locais do evento.

Concentrando apresentações musicais e oficinas gratuitas para toda a população, a Semana Cultural Ars Viva será celebrada entre os próximos dias 11 e 15 da Orla ao Centro Histórico. Fundada em 1961, a Sociedade Ars Viva é uma das instituições culturais mais longevas em atuação na Baixada Santista,com foco principalmente na música coral de concerto.

Ao todo, são 11 atividades descentralizadas em espaços que também compõem a história de Santos, reunindo diferentes gerações e segmentos artísticos. O evento promove o congraçamento de artistas, educadores e público por meio de criações coletivas que atravessam também a literatura, as artes cênicas e visuais.

“A Semana Cultural retoma um dos principais objetivos da Sociedade Ars Viva que é a promoção de diferentes linguagens artísticas, do mais tradicional ao contemporâneo, demonstrando que nossa instituição está em permanente reinvenção e por isso a gente segue até hoje”, destaca o maestro e diretor da Sociedade Ars Viva, Ricardo Cardim.

O concerto de abertura, com Madrigal Ars Viva, homenageando o compositor santista Gil Nuno Vaz será já na terça-feira (dia 11), às 19 horas, na Casa das Culturas de Santos. Situado na Rua Sete de Setembro, 49, Vila Nova, o casarão erguido no início do século 20 era então residência de trabalhadores portuários. A entrada é franca.

Detalhe da majestosa biblioteca da Sociedade Humanitária.

Também há programações previstas na sede do Instituto Histórico e Geográfico de Santos (Av. Cons. Nébias, 689, Boqueirão), erguido em 1887 como sede de uma grande chácara do bairro e fomentou o clubismo local. Outro palco será a Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio de Santos (Praça José Bonifácio, 59, Centro), onde desde 1931 já recebeu bailes, cerimônias e também abriga a biblioteca pública mais antiga da Cidade. Confira a programação:

Dia 11/nov | Terça-feira | Sociedade Humanitária de Santos

• 10h: Oficina de corpo de Contato Improvisação, com Bruno Garrote;

Dia 11/nov | Terça-feira | Casa das Culturas de Santos

• 19h: Concerto de Abertura, com Madrigal Ars Viva – Homenagem a Gil Nuno Vaz;

Dia 12/nov | Quarta-feira | Instituto Histórico Geográfico de Santos

• 15h: Oficina de Xilogravura, com Luciano Favaro

• 19h: Concerto Duo Landum, com Antônio Eduardo e José Simonian;

Palestra e encontro estão programados na biblioteca mais antiga da cidade.

Dia 13/nov | Quinta-feira | Sociedade Humanitária de Santos

• 15h: Palestra “O homoerotismo na literatura brasileira”, com Valdo Resende;

Dia 14/nov | Sexta-feira | Sociedade Humanitária de Santos

• 15h: Roda de Conversa-‘Caminhos da escrita: entre técnica e inspiração’, com os escritores Ricardo Rutigliano Roque, Carlos Alberto Chicarelli e Luis Gilberto Moreira Corrêa, mediação de Valdo Resende;

• 17h30: Palestra “A música coral na cidade de Santos”, com maestro Roberto Martins, mediação de Ricardo Cardim;

• 19h: Concerto Coro-Escola Experimental Ars Viva.

Dia 15/nov (Sábado) | Casa das Culturas de Santos

• 15h: Espetáculo Teatral “Calma e Constância”, com Coletivo Valsa pra Lua;

• 16h: Performance “Sem Título”, com Lípari;

• 17h: Concerto de música antiga, com Lunatus.

A Semana Cultural Ars Viva compõe o projeto o Circuito Ars Viva de Cultura – iniciativa realizada pela Sociedade Ars Viva em convênio com a Prefeitura de Santos através da Secretaria de Cultura. Outras informações em: https://madrigalarsviva.wordpress.com/

Padre Líbero Zappone, nosso “Coronel”

Pe. Líbero, em montagem com fotos obtidas nas redes sociais.

Éramos jovens e faltava experiência para uma melhor percepção da vida, das pessoas. Crescidos sob tutela de muitos padres, não era muito fácil distinguir com profundidade o que e quem era cada um dos sacerdotes. A simpatia de uns, as brincadeiras de outros, até a rabugice de poucos, o distanciamento, tudo era percebido de maneira um tanto emocional. Todavia, tivemos a argúcia mínima necessária para perceber que o Padre Líbero Zappone era especial. Um sujeito ímpar.

Em plena década de 70 apelidar alguém de “Coronel” não era propriamente um elogio. Provavelmente esse apelido foi dado por Fátima Borges. Sob a ditadura militar, apareceu-nos um padre que não pedia, mandava. E a gente obedecia, pois as ordens do Coronel eram muito claras e tinham como objetivo nos fazer crescer. Exemplo: Fátima e eu judiávamos de violões encontrados na sacristia, antes e após reuniões. Vem o Coronel e nos dá um mês para aprender a tocar e acompanhar os colegas durante a missa. Um mês! E lá fomos nós atrás de aulas, muito estudo, muito nervosismo e, obviamente não apresentamos um concerto. Chegou a tal missa e lá estávamos junto ao grupo, outros violões dando força. Fafá começaria ali uma linda trajetória musical.

Outras ordens dadas pelo Pe. Líbero colocaram o enorme grupo de jovens da paróquia em intensa atividade. “Na próxima quermesse, vocês serão os festeiros”. Para quem não sabe, ou não se lembra, festeiros são fieis encarregados da organização das quermesses. Pessoas experientes, negociantes, comerciantes capazes de administrar um evento que, durante nove dias, deve arrecadar dinheiro para as obras da paróquia. Encaramos a tarefa. O que a gente não sabia nos foi ensinado pelos pais, por amigos. Deu certo, tanto que depois ele nos levou a repetir a dose.

O Coronel priorizava o conhecimento. E a fé, com lucidez. Lembro-me dele conversando por diversas ocasiões com um “crente”, que hoje chamaríamos evangélico. Cada um munido de sua Bíblia, as conversas entre ambos eram acaloradas, intensas. Na minha estúpida postura de jovem argumentava com o Coronel: “Não é uma perda de tempo conversar com esse sujeito?”. O padre me deu uma lição que ainda hoje procuro seguir. “Eu aprendo com ele, reforço o que sei. Respeito o lado dele”. Recordo um dos temas, os dois citando versículos sobre os nomes de Deus, o que me leva agora a pensar que o outro deveria ser Testemunha de Jeová, pois era esse o nome pelo qual insistia. O Coronel, calmo, ensinava o outro a localizar Javé no livro santo.

Pessoalmente, o Padre Líbero provocou dois momentos que marcariam minha trajetória futura. Ele me mandou (de novo!) preparar uma homilia para a missa das nove, que era a “Missa dos Jovens”. Eu deveria comentar a Parábola do Semeador. “A missa não é só do padre! É de todos nós. Todos somos responsáveis”. E lá fui eu, jovenzinho, enfrentar a casa cheia, como eram todas as missas da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, lá em Uberaba. Recordo ter estudado muito. De ter redigido o texto, decorado, feito resumo, conferido em Mateus, Marcos e Lucas, e fiz. O Coronel…  pediu-me nova empreitada, mais aprofundada. Muniu-me de livros e um imenso dicionário de teologia para elaborar uma dissertação sobre Revelação. Eu saí das narrativas bíblicas para o exercício da exegese, um começo para futuras palestras, aulas, vida acadêmica.

Creio que cada um dos participantes do grupo de jovens da paróquia tem uma história para contar, uma experiência particular. O Padre Líbero nos dividiu em equipes, cada uma delas responsável por um trabalho de apoio às atividades de formação e aprofundamento cristão. Com Maria Amélia Cruz e Terezinha Benetolo desenvolvemos trabalhos e apresentamos para a paróquia o que foram as Cartas de Medellin, o Concílio Vaticano II, e outros temas em uma tal “Equipe de Integração”. Com Ronaldo Feliciano de Assis, encarregado de atividade teatral, colaborei na montagem do que veio a ser o meu primeiro trabalho cênico, norteando toda a minha vida a partir de então. Quais serão as lembranças do Paulinho Silveira, do Getúlio, de tantos outros que por lá passaram.

O Padre Líbero nos levava a sério. E conversava conosco de maneira adulta. Com ele aprendi a diferença entre Garrastazu Médici e Ernesto Geisel. E o papel que cada um estava tendo naquele momento da ditadura. Ele apontava o que pensava de cada um, qualidades, defeitos. Tempos depois, fui recebido por ele na Vila Luzita, em Santo André. Era 1977, creio eu, e o lugar era um bairro em formação. “É aqui, junto aos que necessitam que devemos estar”. Já então percebia as diferenças entre ele e os demais padres de nossa convivência. Pouco antes ele havia recusado uma paróquia prontinha, bonitinha, lá em Campinas, mas de difícil acesso ao povo. Optou pela vila em formação onde, literalmente, tudo estava por ser feito.

Anos depois, ele já atuando em Socorro, no interior de São Paulo, fomos, Fátima e eu, visitá-lo. Não nos surpreendemos em encontrar na paróquia um grupo de jovens cuidando de uma emissora de rádio criada pelo Coronel. “Eles que tomam conta”, nos disse, com inegável orgulho. Nem foi surpresa conhecer o conjunto residencial que ele, com recursos e trabalho dos grupos da paróquia, estava construindo e que se destinava aos mais necessitados. Durante o trajeto de volta comentamos sobre aquela grande figura. Uma coerência rara!  Um cristão digno da fé que professava. Um líder como poucos.

Hoje recebi a notícia do falecimento do Padre Líbero Zappone. Quem me participou desse triste acontecimento foi minha irmã Walderez. Ele foi o padre que celebrou o casamento dela. Nas fotos do álbum, os noivos e o celebrante, guardamos o registro da presença desse notável sacerdote em nossa família. Muitos paroquianos terão fotos de batismo, de primeira comunhão. Na cidade de Socorro, onde foi pároco por mais de três décadas, as redes sociais registram o afeto e o apreço pelo sacerdote.

Como última lembrança, quero guardar inúmeras caminhadas curtas, um vai e vem no pátio da paróquia (onde ainda não havia quadra, nem o salão construído sobre esta). Ele estava lá, nas tardes de todos os dias, indo e vindo com seu terço, ou o breviário, ou conversando com alguém. “Coronel, preciso falar com você”, e ele, “Venha, vamos caminhar. Pode falar”. E ali eu exercia o sacramento da confissão, sem fórmulas, sem madeira ou tecido me impedindo de perceber o olhar atento, a voz calma, mas decidida, opinando sobre o que ele achava melhor para minha situação. Às vezes, alguém nos interrompia. Continuaríamos depois. Ou então, ele encerrava o assunto com um “vamos rezar” e andávamos, em silêncio, sem penitências ou castigos. Que Deus o receba, Padre Líbero! Em minha lembrança, a figura de um sacerdote extraordinário que, com pulso firme e um especial carisma, conseguiu com que nós, jovens, o obedecêssemos.

Até mais, Coronel!

Sina de escritor

Como começou nem ele mesmo sabe. Pode ter surgido em distantes manhãs quando, ainda na cama, ouvia as novelas de rádio seguidas por sua mãe. Ou teria sido à noite, em cotidianas reuniões familiares quando as parentes contavam umas às outras tal filme, um capítulo não assistido, um livro lido. Essa mania de contar histórias teria surgido com os casos que, chegando da rua, eram narrados pelo pai para toda a família?

Havia uma vizinha que contava histórias da Espanha. E o avô, cheio de causos de assombrações. Também umas tias, fofoqueiras, detalhando histórias alheias com pitadas críticas, maledicências misturadas com anedotas. E os padres! Com fatos antigos, de antes do nada. “No princípio era o verbo!”.  E vieram as árvores, os territórios, os reis, as viagens.

Das primeiras narrativas compostas por ele, reconhece as decorrentes das necessidades domésticas. Como está sua avó? Me conta, como foi seu dia na escola? Quero saber direitinho o motivo da sua professora estar me chamando! E ai dele se não apresentasse boas razões para não ter feito as tarefas escolares, ou por ter conversado com os amigos durante a missa. O castigo vinha certo. Junto com as consequências desses corretivos foram engendradas, com certeza, vinganças espetaculares. Ele iria se matar e ela iria chorar no velório, e passaria a vida a levar flores no cemitério, soluçando, arrependida.

Do avô ganhou um bloco, lápis, exclusivamente para escrever histórias. E não terminou o primeiro romance, como não terminaria várias outras histórias ao longo da infância, adolescência, juventude. Começava a escrever e no meio do enredo perdia o interesse, achava tudo sem graça. Um dia ouviu que era coisa de gente do signo de gêmeos, deixar coisas pelo caminho. Bobagem! Eram histórias bobas, ruins. Tal qual o exercício que, não se completando, exige do atleta o frequente recomeçar.

A descoberta mais interessante daquelas fases iniciais veio com a decisão de escrever um diário. Espartano, ele obrigou-se a escrever todos os dias e isso gerava dificuldades imensas quando, o que era bem comum, não acontecia nada de relevante, emocionante, instigante. Os dias comuns são exercícios incríveis para um pretenso escritor. É fácil narrar o quebra-quebra do vizinho, a morte da bezerra, o assalto ao trem pagador. Exercício mesmo é escrever sobre o cotidiano medíocre onde nada de relevante, pitoresco ou dramático acontece. Ele viveu momentos de aprendizado ao ter que ir para além do aparente.

De certeza desses tempos de aprendizagem ele tem a escrita enquanto ato solitário. E mesmo quando dizem escrever em conjunto, o ato de elaborar qualquer enunciado antes de anunciá-lo é ato solitário. Alguns vícios também decorreram daqueles momentos iniciais como, por exemplo, escrever à noite. De preferência com mais ninguém acordado pela casa. Foi quando efetivamente criou os primeiros textos; alguns contos, crônicas, poemas, peças de teatro.

Redigir peças teatrais sob demanda foi eficaz pela imediata exposição dos resultados ao público. A resposta também imediata na reação da plateia, às vezes durante a apresentação. Com temas densos, dramáticos, ele tinha clareza do resultado nos aplausos finais, escassos ou fartos, tímidos ou efusivos. Se era comédia, a angústia era imediata, terminando com os primeiros risos e chegando ao êxtase quando esses se tornavam gargalhadas.

Escrever profissionalmente, para revistas, jornais, sites, foi percebido como ato fundamental para aprimorar o ofício, esquecer questões adolescentes tipo “só consigo escrever à noite”. Foi o tempo de diariamente entrar em uma redação, ocupar uma mesa e trabalhar, ou seja, escrever o que era preciso, o necessário, o que era esperado ou solicitado. Aprendeu a rir de coisas tipo inspiração. Guardou esta para as futuras tentativas de literatura.

Hoje, que o tempo passou, ele contabiliza um, dois, três… seis livros. Vendidos aqui, acolá, atingiram “Europa, França e Bahia”, é certeza. Ele está, comprovadamente, por aí. Há títulos esgotados!  Quer coisa melhor? No entanto, como se retornando aos primeiros momentos, vem a necessidade do interlocutor. Escrever sem ser lido é tipo sexo não consumado.  Meses e anos para construir um texto, elaborar uma narrativa, desenvolver uma história! Às vezes, ele sente vontade de escrever e mais nada. Todavia, só se reconhece escritor quando lido.

Terminado o texto, este mesmo se é que você chegou até aqui, ocorrerá ou não a magia entre emissor e receptor, autor e leitor. Não se trata da resposta mercadológica que se mensura por resultado de vendas. Nem da vaidade tola das críticas e dos elogios simples ou rebuscados. O esperado é que ocorra uma união íntima entre esses dois seres, o que escreve e o que lê. Serena se concordarem, ou cheias de pensamentos argumentativos para, oportunamente, expor as próprias ideias, outra conclusão ou ponto de vista.

E assim aguardarei, caro leitor, que tenhas algo a me dizer. Se assim for, até breve!

O sorriso do maestro

Detalhe da apresentação de ontem. Foto: Flávio Monteiro.

Das voltas que o mundo dá, voltamos a cantar na Pinacoteca Benedito Calixto, em Santos. O dia chuvoso não impediu que a casa ficasse lotada, gente assistindo e filmando até pelo lado de fora. Os madrigais escolhidos pelo diretor artístico do coro, nosso maestro Ricardo Cardim, combinaram perfeitamente com o local. Nos vídeos gravados, publicados nas redes sociais, há junto conosco o som de pássaros, dos muitos que perambulam pelos jardins do sobrado.

Somamos novas canções ao repertório apresentado em recente concerto. Então há o prazer em revisitar o que já conhecemos e a ansiedade em cantar o novo, cheio das nuances e dos detalhes trabalhados em meses de ensaio. A reunião de um grupo tão diverso em diferentes aspectos passa pela solução de conflitos velados, outros expressos, em que se evidencia no conjunto a complexidade humana.

Trabalhei muito com teatro onde, esquecendo o coro grego, acontece a somatória de solos dos atores em cena. Bem distinto, o canto coral é o resultado do trabalho conjunto das diferentes vozes buscando atingir a excelência necessária para interpretar uma canção. Atinge-se uma unidade raríssima nas relações humanas. Está nas atitudes do maestro, mais que o mero movimento dos braços, a condução do grupo. Maior ou menor intensidade, força ou suavidade, parar, continuar, calar. Quanto maior a precisão, melhor resultado.

Acostumado a estreias teatrais seguidas de longa temporada ainda não me habituei a ensaiar meses e realizar uma única apresentação com o coral. “Isso não dá dinheiro”, diria papai. E sendo informado de que fazemos esse trabalho sem remuneração nenhuma ele complementaria com um “você é doido, não toma jeito, meu filho!”. O argumento para responder ao meu pai seria o mesmo de outras atividades que tive ao longo dessa vida: “Eu gosto!” E se há uma coisa que aprendi com meu pai foi essa, fazer o que a gente gosta. A vida fica bonita, aguentamos os revezes com sorrisos nos lábios.

Sinto falta de conversar com minha mãe sobre o meu dia a dia. Nas vésperas de exames, nas tensões decorrentes das estreias teatrais, entre outros acontecimentos eram as mãos de minha mãe sobre minha testa a me acalmar e fazer diminuir a ansiedade. Eu detalhava confiantemente, pois a confiança era plena, embora mamãe não deixasse de me dizer o que pensava. Tendo a oportunidade de narrar o dia a dia do Madrigal é bem provável que, em algum momento dona Laura diria um “tenha paciência, meu filho!”.

Normalmente, eu a tranquilizaria enquanto desfilaria o rosário cotidiano: Sempre se começa com um certo atraso. Decorre da dificuldade de confundirmos hora de chegada com hora para começar. E há faltas! Por doença, por trabalho ou por outra razão justificada. Alguns estudam em casa, outros não. Uns já levam as partituras previamente impressas, outros esperam as cópias lá na hora mesmo. Há barulhos, “percussão involuntária”, e logo após o “tenha paciência” de minha mãe, eu continuaria em defesa própria e dos colegas. Amamos cantar! A vida com música é infinitamente melhor!

Estudando no Instituto de Artes da Unesp descobri a beleza de cantar em um coro. Tempos de estudante são complicados e ficaram lá no Ipiranga experiências com Samuel Kerr. Décadas depois venho a cantar em um coro onde o maestro, além de também ter sido aluno é fã do Samuel. Meu pai iria além de “doido” para adjetivar o maestro. Um cara que pesquisa, escolhe, estuda detalhadamente a partitura, opta por um andamento, uma dinâmica para, pacientemente, ensinar frase a frase todas as vozes exigidas pelo compositor. No caso, sem salário! Papai aumentaria para “doido varrido”!

Antes que todos nós, certamente é o maestro a vislumbrar o resultado que se deseja com um coro. Na grande Babel que é o mundo, feita não só de diferentes línguas, mas egos, a música coral é a experiência cotidiana em tentar concretizar a unidade humana. Um ideal que respeita as diferenças, aqui ditas vozes, para harmonizá-las. Cada qual no seu quadrado, no seu limite! Somando agudos, médios e graves para que, idealmente, perceba-se uma melodia. Com todas as nuances características das regiões vocais do ser humano e, não raro, permitindo que uma única voz se eleve exprimindo em solo. Trabalho árduo.

O ouvido de maestro é um detalhe à parte. À frente do coro ele percebe o que falta para que cada subgrupo chegue ao esperado. Após ler a canção, o que basicamente se trata de cantarolar a peça musical, começa o trabalho mais aprofundado, a interpretação. Onde suavizar, onde colocar força, exteriorizar o sentido da letra que se canta com graça e entre outras coisas, sobretudo com afinação. O tempo sempre curto, o calendário que não atrasa e nem espera, chega o dia da estreia. Tensão!

Na coxia as sensações afloram e se manifestam distintamente. Há os mudos, os falantes, os parados e os agitados. “Vaidade das vaidades, dizia o Eclesiastes, tudo é vaidade” em cabelos penteados, roupas ajustadas. A real e profunda face de cada integrante se manifesta em um “querer fazer direito” que facilita uma sintonia única, tanto no palco quanto nos altares das igrejas. Parece que o maestro carrega tudo, coloca tudo sobre si. E o grupo, confiante, vai com ele.

Ao longo de todo o tempo em que estou nessa experiência já passamos por situações distintas. Cantamos à capela, acompanhados por uma pianista, por um grupo de músicos, por uma Orquestra Sinfônica (Uau!). Nosso madrigal já subiu ao palco com outro grupo e, em outra oportunidade, com outros três coros. Momentos únicos! Há registros diversos em fotos e vídeos, nenhum com a totalidade do que se passa com todas as pessoas durante a apresentação.

Seria bom se repetíssemos nossas produções. Por experiência sei que iríamos muito além, pois trabalho de palco é coisa de artífice, melhorando a cada peça, a cada dia. Teríamos a chance de consertar aquela nota, a frase inteira. Poderíamos aperfeiçoar a interpretação, o que se consegue na repetição.

De uma geração que ouviu não sei quantas vezes o mero acerto como um “você não fez mais que a obrigação”, guardo daquele diretor alemão nos dizendo “vocês tem que ser os melhores! Bom é pouco!”. Cantando em coro a gente até que se ouve, ouve aqui, acolá. Ou não! Como ter certeza se fomos bem? O melhor termômetro que descobri é o sorriso do maestro.

Solene e compenetrado, como convêm ao cargo, nosso maestro nos encara com confiança durante toda a apresentação. Um alívio! A máxima do “roupa suja se lava em casa” assume total preponderância. Atento e catalisando a atenção do grupo ele conduz cada canção e é ao final, ainda de costas para o público, que penso já distinguir os sorrisos do maestro. Há aquele do dever cumprido, outro de alívio pela peça difícil executada com dignidade. Um bem especial é pela reação do público. Se aplaudem antes do final, há aquele sorriso tipo “somos fodas!”. O melhor de todos é um raro, bem mais raro do que eu gostaria, que se manifesta quando nós, o coro, fazemos tudo certo e bonito. Mais que eficientes, é aquele momento em que fazemos arte. Fica ali, sem que a plateia veja, um leve sorriso do maestro.

Por mais momentos de arte é o que nos leva a voltar aos ensaios, passar mais alguns meses preparando um novo trabalho. Cantar em coro é a insana tarefa de colocar todas as pessoas em sintonia, em harmonia. É bom ter remuneração por um trabalho e essa é uma grande luta nesse nosso país. Enquanto não vencemos tais batalhas vamos cantando. Com todas as dificuldades do cotidiano, mas com todo o amor pela atividade que nos faz seguir em frente.

Valdo Resende

P.S. – Esse texto é dedicado ao Madrigal Ars Viva e ao nosso regente, Maestro Ricardo Cardim.

“A Fera na Selva” no Cineclube ÁgoraECA

Veja o filme, leia o livro e o roteiro, e converse com Paulo Betti, que assina a direção de “A Fera na Selva” com Eliane Giardini e Lauro Escorel.

Será no próximo dia 26, terça-feira, às 19h, via Zoom: O Cineclube ÁgoraECA apresenta o filme “A Fera na Selva” seguido de bate-papo com o diretor e ator Paulo Betti sobre a obra de Henry James para o cinema.

Protagonizado por Eliane Giardini e Paulo Betti, A Fera na Selva, 2017, foi rodado no interior do estado de São Paulo. Baseado na obra homônima de 1903 do escritor norte-americano naturalizado britânico Henry James, o roteiro foi escrito pelo ator e diretor, baseado na adaptação teatral de Luis Arthur Nunes.

SINOPSE

João e Maria vivem uma vida inteira juntos. Ele é professor de português, ela de literatura inglesa. João é atormentado pela obsessão que uma coisa extraordinária vai acontecer em sua vida. Maria aceita esperar com ele A Fera na Selva, que um dia chegará avassaladora.

PACOTE COMPLETO

Atores formados pela Escola de Arte Dramática da ECA_USP, Betti e Giardini foram protagonistas da peça de teatro em 1992. Daí surgiu a ideia de fazer o filme, realizado em 2017.

Junto com o filme os interessados poderão ler o livro e o roteiro, em links disponibilizados gratuitamente (veja links abaixo). Uma rara oportunidade de conhecer o original, ler o roteiro e, após a exibição do filme, conversar com o realizador.

Veja o vídeo sobre os bastidores da filmagem e, abaixo, os links para o evento.

LINK DO LIVRO PARA BAIXAR: A FERA NA SELVA

LINK PARA O ROTEIRO: A FERA NA SELVA ROTEIRO

PARA VER O FILME NO DIA 26: A FERA NA SELVA ZOOM

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Ficha técnica

“A Fera na Selva”, 2017, adaptação da obra de Henry James, 87 minutos.

Direção: Eliane Giardini, Paulo Betti, Lauro Escorel
Coprodução: Prole de Adão Produções, Batuta Filmes, Canal Brasil, Globo Filme
Roteiro: Paulo Betti, Luís Artur Nunes, Eliane Giardini e Rafael Romão
Produção associada: Fernando Meirelles
Produção executiva: Gilberg Antunes
Produção de elenco: Juliana Betti
Narração: José Mayer
Direção de fotografia: Lauro Escorel, ABC
Fotografia: Fernanda Tanaka
Direção de arte: Ronald Teixeira
Direção de produção: Alexandre Miliani
Direção de platô: Ocimar Marques
Montagem: Eduardo Escorel
Trilha musical:
Felipe Lara
Som direto: Márcio Câmara
Desenho de som: Alexandre Griva, Gabriel Pinheiro
Figurino: Maribel Espinoza, Ronald Teixeira
Maquiagem e caracterização: Siva Rama Terra, Ebony
Produção de finalização: Marcelo Pedrazzi
Elenco: Eliane Giardini, Paulo Betti, Cristina Labronicci, Juliana Betti, Janice Vieira, Ademir Feliziani, Mário Pérsico, João Leopoldo, Clara Nolasco

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Notas: Fotos, divulgação. Texto elaborado sobre release assinado por Regina Thompson.

Caminhantes noturnos

foto: Valdo Resende

No início da madrugada, o carro deslizando com velocidade sobre o asfalto, as construções às margens da estrada tornaram-se o que, ultimamente, as pessoas chamam gatilho. Prefiro escrever que acionaram lembranças, despertaram memórias. Tentei em vão visualizar a escola onde lecionei, assim como a empresa em que trabalhou um grande amigo. Já haviam ficado para trás.

Entramos em um trecho em que, seguramente, eu não passava há oito, dez anos. Os versos da canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil tornados realidade: “Tudo ainda é tal e qual, e no entanto nada é igual”. A capital São Paulo, gigante que nunca dorme, é o cenário de milhões e milhões de histórias. Sou um cisco irrelevante, incapaz de acordar a cidade. Mas ali estão as minhas lembranças, testemunhas do que vivi.

Houve um dia em que, após passar em um concurso, saí de Santo André, no ABC, em direção à Rua Dr. Vila Nova, na Vila Buarque. Uma imensa chuva provocara enchente e o trânsito, parado, me impedia atravessar um trecho da Avenida do Estado. Eu não conhecia a cidade e, preocupado em chegar no horário a tempo de realizar a entrevista de admissão, resolvi contornar a enchente tendo como rumo os edifícios centrais, o norte correto dado pela torre do antigo Banespa, hoje sede e propriedade privada.

Próximos de entrar no elevado sobre o Rio Tamanduateí percebi, que a fábrica da Arno não está ali, onde sempre esteve. Quando será que fechou? Ainda existe tal marca? Também, há séculos não careço comprar eletrodomésticos. Ficou para trás a fábrica, também ficou no passado a gravadora de discos que me encantava por saber que Ângela Maria, Elza Soares e Miltinho gravaram discos ali, em qual prédio mesmo? O da esquina, próxima da igreja horrorosa e caça níquel do outro lado da avenida, tão cheia de luzes quanto uma padaria.

Senti vontade de voltar ao Ipiranga, passar pela Avenida Nazaré e chegar ao antigo Instituto de Artes, onde estudei. Mas já descemos do viaduto sobre o rio e evito olhar para o quartel, prestando atenção na Estação do Metrô Pedro II. Sinto-me a caminho de casa. Entramos no trecho da Radial Leste que ligará com o Elevado João Goulart, o Minhocão. Durante quarenta anos passei por essas avenidas e ruas, praças e parques. Estou a caminho de casa.

Meus companheiros de viagem ignoram meus pensamentos, conversam sobre os benefícios do alho, cru, em pedaços. O chá é bom, mas perde um pouco a potência e retarda o efeito curativo. Chá de alho! O motorista segue atento ao tráfego e ignora a entrada para meu antigo lar. É rápido e já passamos em frente ao Teatro Oficina. Meu destino deixa de ser minha casa para ser meu trabalho. O carro faz parte do trajeto que percorri nos últimos anos antes de me aposentar.

Sob o elevado, em um semáforo fechado da Avenida Amaral Gurgel, percebo ainda os resquícios de noites efervescentes da década de 80. Passava por ali em direção ao CPT de Antunes Filho, andava de um lado para o outro para cobrir eventos das boates da região para a revista em que escrevi, onde vi os primeiros shows de sexo explícito, presenciei uma briga tenebrosa no Bar Quadrado, em frente ao Bar Redondo em madrugada como esta, em que atravessamos a cidade rumo ao lar dos nossos hóspedes.

Nosso destino é a Avenida Barão de Limeira, que conheci em relações de trabalho com a Folha de São Paulo. Chegamos ao destino. Despedidas rápidas, pois é tarde e o domingo já está prestes a receber os primeiros raios de sol. O frio é intenso e eu quero voltar para casa, a de agora, no litoral onde a temperatura mesmo fria é sempre mais amena que na Capital.

Estou cansado. A noite foi intensa e todas as lembranças que vieram à tona misturaram-se a flashs de outras histórias, muitas pessoas, vários lugares. Se acionadas com tempo sei que estão todas dentro de mim. Alguns deslizes e falharão as datas corretas, os nomes completos. Um ou outro detalhe se perdeu, talvez com hipnose seja resgatado, mas se foi perdido que fique por lá. Importa o que emergiu, o que está quente, pleno de vida dentro de mim.

Ah, São Paulo! Só um momento, só pequenas lembranças de um ser comum. Quantas outras em seus milhões de habitantes? Outras tantas em viajantes, já distantes. Volto à Caetano para afirmar que o “errante navegante, quem jamais te esqueceria”. São Paulo não é a minha terra. É a maior parte da minha vida!  De tantos outros que, trafegando madrugada adentro por suas ruas e avenidas, se derretem de amor e gratidão, até mesmo pelo emprego perdido por não chegar à tempo por conta de uma enchente.

São Paulo, 09/08/2025. Para meus companheiros de viagem, Patrícia Remondini, André Manzoni e Flávio Monteiro. O título desta crônica refere música d’Os Mutantes (Arnaldo Batista e Rita Lee). Os alhos, ruinzinhos, estavam expostos no supermercado. Não comprei.