
Aos 21 anos, Joyce Prado era uma menina e uma mulher. A menina que nunca deixaria de brincar, de ser doce, solidária, afetuosa e carinhosa. A mulher preta já conhecia o mundo e as batalhas todas a serem vencidas. O lugar, a redação do Papolog, era uma novidade a explorar as possibilidades da Internet.
Capitaneado por um visionário Rafael Mendes, em 2008, o Papolog possibilitava que cada artista tivesse um blog, conduzisse sua própria carreira, falasse diretamente com seu público. Cabia ao site criar um ambiente favorável com conteúdo pertinente ao universo musical. Os dois básicos, imagem e texto, eram responsabilidade nossa. Joyce Prado e eu.
Em comum tínhamos um jeito sério de levar a vida. Entrar, tomar posse do ambiente, fazer nosso trabalho da melhor maneira possível e ignorar, colocando em seu devido lugar, o que pudesse nos atrapalhar. Não sei onde e quando Rafael conheceu Joyce, jovem cineasta que dirigiria os clipes produzidos pelo site. Foi na universidade onde estudou que ele trouxe o professor para a direção de conteúdo.
Em pouco trocávamos figurinhas. O cara de 53 com a menina de 21, brincando de fazer fotos, de produzir imagens. Amigo da montadora Cris Amaral, foi normal trabalhar com Joyce Prado, deixar que ela me dirigisse nos primeiros vídeos que fizemos. Já então trocávamos confidências, de como os seres humanos tratam uns aos outros por questões de raça, gênero, idade. Um triste exemplo: com serenidade e firmeza, Joyce enfrentava vizinhos que chegaram a indicar a entrada de serviço informando que era a proprietária do apartamento tal.
Conheci e convivi com Joyce Prado transitando com coragem, cabeça erguida, tomando conta da parte desse mundo que lhe coube. No Papolog fez clipes, vinhetas, vídeos de média duração, reportagens. Tenho o orgulho de ter uma palestra sobre música, conteúdo básico do nosso trabalho, depois fixada no Youtube. Muito do que fizemos ficou lá, no tempo em que o site existiu antes de ser vendido para os espanhóis.
Permanecemos ao longo do tempo com uma parceria de socorros rápidos, como o telefone de uma celebridade que consegui com ela há cerca de duas semanas. Um objeto de cena, uma pessoa, um livro! Estranhei a ausência de Joyce no lançamento que fiz neste sábado, dia 6. Ela havia comparecido em todos os anteriores. Devia estar atarefada, pensei.
Um dos livros que escrevi, o primeiro romance, foi papo nosso lá, em 2014. Me disseram que era um texto cinematográfico e sentenciei. Se for para virar cinema, que seja pela direção da Joyce. Selamos o pacto em um almoço, lá na Pompeia. Ela atarefada com todo o trabalho que se desenhava e que tinha pela frente. “Na hora certa, faremos”, me disse. A hora chegou no começo deste ano. “Tem um edital de adaptação de livro pro cinema aberto. Anima?”.
Eu havia enviado um livro com uma série de poemas que abordam a questão negra. “Há um poema sobre o Xirê, belíssimo”. Ela gostou do livro, mas para o tal edital seria o “dois meninos – limbo”, o meu romance. Entre papos de sincronicidade mental e piadas quanto a quem penteia a peruca do ministro, fizemos o exaustivo trabalho que é cadastrar qualquer projeto para obtenção de recursos em nosso país.
Ontem, já altas horas, o Fernando Brengel me chamou para a notícia. Ele percebeu pela minha movimentação nas redes que eu não soubera da morte de Joyce Prado. Percorri toda a rede em busca de algo que dissesse “é mentira”, uma tenebrosa brincadeira de mal gosto. Não achei. Aos 70 anos perdi a amiga de 38 que, nossa intimidade permitia, era mais velha que eu, era da mesma idade, e era sobretudo a menina que falava comigo como sempre falaram minhas sobrinhas queridas.
Houve um momento, no fechamento do projeto da adaptação do romance, que Joyce me perguntou se eu queria participar da roteirização. “Quero acompanhar. Prometo ficar quieto”. Logo depois ela enviou imagens, “fiz esse doc extra pra trazer um clima”, confidenciou na mensagem que trouxe uma dezena de referências cinematográficas, norteadoras de encaminhamento em que se discutiria a adaptação. E eu tive a absoluta certeza de ter feito a escolha certa.
De tudo o que sonhei na vida e que não se realizou, nem se realizará, está um filme, baseado em livro meu, roteirizado e dirigido por Joyce Prado. Tudo bem! Certamente seria belo, sincero, honesto e sensível, como tudo o que ela fez. Nosso afeto atravessará tempos, vidas. Deveremos nos reencontrar e continuar, se não for um filme, que seja outra coisa desde que fale de amor e amizade.
SIGA EM PAZ, JOYCE PRADO!
Nota: Todas as fotos foram feitas por Joyce Prado, a gente brincando com a câmera de um computador, em 2008.













