Toda a pele da América em minha pele!

Para Fernando Brengel

É Copa. E vou torcer para a Argentina. Soy sudamericano!

A camisa de Pelé, no museu da Bombonera, de um jogo de 1963 pela Libertadores.

A unidade do nosso continente aprendi com Mercedes Sosa e por isso é a mais representativa de nossas cantoras. No palco, La Negra cantou pela união de todos nós, os hermanos. Impossível não se emocionar com as canções dos chilenos Victor Jara e Violeta Parra, dos argentinos Atahualpa Yupanqui e Charly Garcia, dos brasileiros Chico Buarque e Milton Nascimento… a lista de exemplos é bem mais extensa.

Essa atitude da cantora em unir a América do Sul não é isolada. Foi visitando diversos museus argentinos que tive a oportunidade de constatar a presença de artistas sul-americanos raramente vistos em museus brasileiros. Detalhe: em um dos principais museus de Buenos Aires, o MALBA, encontrei em destaque o Abaporu, de Tarsila do Amaral. Lá também estavam Hélio Oiticica, Di Cavalcanti, Lygia Clark. Uma sensação boa de orgulho do meu país. E dos mexicanos, cubanos! Da América Latina, da América Espanhola.

Em belíssima exposição no subsolo da Bombonera, o estádio do Boca Juniors, vi imensas fotos de Maradona e, destacada em uma vitrine, uma camisa de Pelé! O Brasil e a Argentina são países irmãos, a despeito da rivalidade incentivada por comentaristas de futebol.

Euzinho na Bombonera, deixando claro na pose e na fatiota que não jogo bola.

Em casa sempre tivemos ânimos alterados na hora do futebol. Meu pai, meus irmãos, minhas irmãs, os sobrinhos… Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Flamengo, Cruzeiro, Atlético, Santos! Fui habituado a receber um telefonema quando o Corinthians vencia. Sem palavras, ouvia-se o hino. Depois vinha acusações do tipo “foi roubo”, “juiz ladrão” e, logo depois, voltávamos ao normal. Somos irmãos. Somos uma família.

O futebol é uma metáfora de uma batalha pelo domínio do território inimigo, avançando sobre esse e deixando lá o gol, sinal inequívoco de superioridade. Vale repetir: é metáfora. No entanto é o momento em que ao mundo se impõe algumas verdades e, entre essas, uma incômoda aos ingleses “pais do futebol”: Criaram, mas o penta campeonato é do Brasil. Faz ou não um bem para a alma?

Escrevo este post sabendo que o Marrocos não está entre os três primeiros lugares. Uma pena! Seria ótimo que o mundo se voltasse para um time africano, campeão. Amanhã teremos a final da Copa do Mundo. Na ausência do Brasil escolho facilmente um lado. Escolho o nosso, de gente sudamericana! Assim mesmo, na língua dos hermanos. Soy sudamericano! Que vença a Argentina!

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PS 1: Este post é dedicado ao meu brother Fernando Brengel, a quem eu disse há vários dias que a Argentina venceria esta Copa. Gostaria que o Brasil fosse o vencedor, mas vendo o andar da carruagem já intuía que não venceríamos. Pode ser que eu esteja errado, mas continuarei torcendo pela América do Sul, parte que nos cabe nesse imenso planeta chamado Terra.

PS 2: Em campo é lindo ver quando Messi conclama à luta, tal qual Mercedes Sosa, no palco, nos conclamava à união.

PS 3: O título “Toda a pele da América em minha pele!” é verso da música “Canción con todos”, que deixarei abaixo, para que ouçam e recordem Mercedes Sosa.

Sobre ser Pentacampeão de fato e de memória

Copa do Mundo? Abaixo uma, entre milhões de outras histórias.

1955 – Nasci, um ano depois de a Alemanha ganhar sua primeira Copa do Mundo.

1958 – SUÉCIA – Havia o rádio. E alguém falava rápida e desesperadoramente. De vez em quando as pessoas gritavam, mas em algum momento meu pai saia para o quintal e soltava fogos. Os vizinhos soltavam fogos, o bairro, a cidade. Minha mãe ou uma das minhas três irmãs prendiam-me, já que aquilo era perigoso. Meu irmão podia acompanhar meu pai, segurando os canudos que faziam enorme barulho. Como o fato era comum, ou seja, ouvir um cara desesperado falando aos borbotões e ver meus familiares gritando ou não durante a coisa, aprendi meio que por osmose que aquilo era futebol. E nós, do Brasil, éramos Campeões Mundiais. E meu primo Poy, o Oswaldo, era goleiro do Uberaba Sport Club. E meu irmão Valdonei jogava no time do Hermes, o Estrelinha.

1962 – CHILE – Já foi bem mais interessante. Eu sabia o que era o futebol, embora não jogasse por jogar mal. Gostava de pegar a bola com a mão e, mesmo assim, não fui goleiro. Meu primeiro ídolo foi Gilmar, um goleiro sensacional. Ele pegava bolas nas partidas que ouvia no rádio e, no mesmo dia, à noite, pegava outras bolas no jogo que passava pela TV. Eu não tinha noção de a transmissão do rádio acontecer simultaneamente à partida e que, na televisão, era videoteipe. Diferença que me passava desapercebida: quando pelo rádio, meu pai mantinha o lance de soltar fogos.

Meu segundo ídolo foi Garrincha e, com ele, o substituto de Pelé, o Amarildo. Havia um Vavá, mas só vim a ser chamado assim bem depois. Muito depois dessa Copa conheci Djalma Santos. Estive no velório dele, em Uberaba, e fiquei decepcionado ao ver o “falatório” de matracas presentes. Falta de respeito com o grande jogador. Sorry, Pelé, mas na “minha” primeira Copa, com consciência de ser um evento de tal porte, Garrincha e Amarildo brilharam. E o Mané, com seus dribles engraçados, fazendo gringo de besta ganhou minha admiração e predileção para todo o sempre. Salve, Mané Garrincha!

1970 – MÉXICO – Ali já estava definida uma postura que assumo ainda hoje. Contra a toda poderosa Europa, colonialista cruel, cabe impor derrotas onde nos é possível.  Dessa feita foi a Itália “humilhada” pela seleção canarinho, o que já havia ocorrido com a Suécia em 58 e com a Tchecoslováquia em 62. E sem o Brasil no páreo, minha torcida vai para a América do Sul. E nesses tempos atuais, vai para a África, a Ásia. Europa, não! (antes de terminar este a Argentina mandou a Holanda polir seus tamancos em outra freguesia! Bravos!)

Em 1970 já tinha noção básica do uso que se faz do futebol em situações diversas. O lema “Brasil, ame-o ou deixe-o” era algo estranho, já que vizinhos haviam desaparecido em – soube depois – prisões militares, assim como a polícia política esteve na casa de outros vizinhos revirando tudo, rasgando livros, levando outros embora. Em 70 sentia também a diferença brutal de tratamento entre as diferentes modalidades esportivas. Não fui goleiro, mas pratiquei vôlei. Para quem viveu essa época sabe a merda que era. Primeiro, o futebol. O “resto” era resto mesmo.

Dane-se, o planeta e todos os problemas sociais: ter um time com Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Gerson, Carlos Alberto, Félix… Esses nomes estão na memória e ser Tricampeão Mundial é lembrança de sonho, de festa.

1994 – ESTADOS UNIDOS – Me parece que essa história de jogador de futebol acreditar que visual ganha partida começou mesmo foi com o Dunga, e seu cabelo esquisito nos EUA quando fomos Tetra. Bom, fez escola, é só ver os jogadores de hoje em altas transações visuais… E cada um sabe a dor e a delícia de um cabelo, uma roupa, um parangolé! Sejamos felizes!

Lembrança boa mesmo é do Branco chutando de longe e marcando um gol em cima da Holanda. Romário que era certeza de gol me faz, até hoje, repetir um “se fosse o Romário não perderia esse gol”. E tinha o Bebeto, que segue na vida com a dignidade e a postura que teve em campo. E o Taffarel!? Um amigo de infância, lá em Uberaba, homenageou o goleiro logo no nascimento do primogênito, um Taffarel mineirinho.

Aquele cara lá, da Itália, que errou o pênalti, não teve a benção do Papa? Baggio perdeu em um momento crucial. Eu tenho um pé atrás com o Zico, quando perdeu um pênalti em 1986 para a França. Faz muito tempo, mas magoou! Logo você, Zico?

2002 – COREIA DO SUL & JAPÃO – Todo palmeirense que se preza gostaria de canonizar Marcos, o São Marcos que foi goleiro do Pentacampeonato Brasileiro e megacampeão no Palmeiras. Vi o goleiro em campo e em pizzaria, lá em São Paulo. Cordial e educado, com a tranquilidade dos campeões e dos grandes atletas. Nunca me pagou uma pizza!

São lembranças pessoais e eu, que havia dormido na final da Copa anterior, 1998 na França, vencido pela cansaço e momentaneamente pela vida, durante a Copa, presenciei cenas absurdas, algumas registradas nas peripécias das personagens do meu primeiro romance “dois meninos”. A vida me fez ver tudo diferente e eu estava bem escaldado dessas coisas do esporte. Todavia…

Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo, Roberto Carlos, Roque Júnior… Um time de “erres” brilhantes e inesquecíveis. Guardei na memória as arrancadas de Ronaldo, a alegria, competência e o sorriso de Ronaldinho, a força do chute de Roberto Carlos. Sem desmerecer os demais, mas lembranças são assim mesmo.

Enfim, espero estar vivo quando chegar o hexa. Ele virá. Por enquanto vou homenageando todos os jogadores de todas as épocas da seleção, inclusive daquelas que não venceram uma Copa. Esses atletas nos dão alegrias de uma tal forma que, quando perdem, preferimos odiar os técnicos. Os mesmos técnicos que não citei por não citar mesmo. Não guardei os nomes, lamento. Estou supermegahyper odiando um técnico que, certamente, é motivo de outros ódios.

Técnicos e cartolas sobrevivem na história oficial, na cabeça dos “amantes do futebol”, daqueles que têm imensa e doentia paixão (Valeu, Neto! Adorei ver você sintetizando toda a nossa loucura por futebol! Que piti, meu irmão! Bom demais lavar a alma!).

Gente como eu guarda, na memória para esta e outras vidas, cinco figuras muito especiais, elegantes, heroicos. Aqueles que tomam a taça e a erguem para a nossa inenarrável alegria. Bellini (1958), Mauro (1962), Carlos Alberto (1970), Dunga (1994) e Cafu (2002). Quem nunca sonhou estar no lugar deles?

Acabando mesmo: Devemos agradecer aos deuses. E pedir perdão. Nunca deixar de pedir perdão. Como podemos merecer a vitória em uma Copa quando em nosso território foi roubada a Taça Jules Rimet? Os deuses são bons. Tanto que nos permitiram duas vitórias após esse triste fato que, registro, para deixar bem claro o lado nada bom que nós, brasileiros, temos. Mas, os deuses esquecem e, acreditem, o hexa virá.

Aguardemos.

Não é um textão! É uma crônica.

Foto: Flávio Monteiro

Parece loucura escrever longos textos em tempos de frases telegráficas e overdose de imagens, vídeos. E aqui vai, conforme expressão popular, mais um “textão”. Míseras laudas quando penso em calhamaços de Dostoievski ou James Joyce. Certamente há livros sendo publicados por aí. Aos montes! Parati recebe agora quantidade enorme de leitores, e não faz tanto tempo tivemos a Bienal do Livro em São Paulo.

Ontem ganhei do meu simpático porteiro uma revista Veja. Pensei em Crepúsculo dos Deuses*! Uma frágil publicação feita de textos para consumo rápido, reportagens tímidas, sem a exorbitância de páginas publicitárias dos tempos áureos. Evidência maior de mudança é constatar todos os conteúdos digitais da Abril por 1,00 por semana. Todos! De Placar a Claudia, passando por Super Interessante, Quatro-Rodas e por aí vai. Uma tentativa de ampliar público na tal Black Friday.  Mas, vamos voltar aos livros.

Estão lá, na revista, os mais vendidos em ficção, não-ficção, autoajuda e esoterismo, infantojuvenil. As maiores editoras presentes: Record, Rocco, Companhia das Letras, Sextante… A maioria dos livros que alcançam tais listas foram pensados para o grande público e um exemplo contundente, em ficção, é notar nos dois primeiros lugares um bem pensado produto para “vendas casadas”: em primeiro lugar está “É assim que começa” e o leitor precisará comprar o livro colocado em segundo lugar para descobrir que “É assim que acaba”.

Longe estou de criticar quem escreveu “Os segredos da mente milionária” ou “Mulheres que correm com os lobos”. Minha mente pode até ser milionária, mas o dinheiro que seria meu deve estar fugindo, escondido dos lobos. Faço parte daqueles escritores fora do tal mainstream (me sentindo chic em usar essa palavra!). Não por vontade própria, é bom registrar. As coisas vão devagar.

Tudo isso veio a propósito da comemoração de um ano da publicação de O vai e vem da memória. Meu livro tem feito modesta, mas digna carreira. Uma comparação se faz necessária para esclarecer a dimensão das coisas. Um megassucesso costuma começar com cerca de 100.000 volumes impressos e distribuidos amplamente. Imprimi 300 volumes. Sem pretender me equiparar ao Drummond de Andrade, quero lembrar que o poeta custeou a publicação de 500 volumes do seu primeiro trabalho.

Uma ilustração possível sobre a situação é comparativa: Um escritor como eu é como aquele vendedor ambulante de chocolate caseiro concorrendo com o Sonho de Valsa, o Diamante Negro e, como sou guloso, já penso logo em Amandita. A vida é bela! E eu gosto de escrever.

Lá atrás já pretendia ser escritor. Jamais cogitei um plano de negócios. Romântico, meu mote era cumprir uma vocação! Ou sina? Castigo? Karma? Gosto. “Mais vale um gosto que um caminhão de abóbora”, aprendi com minha mãe. Gosto de escrever! (coisas maravilhosas da língua que me encantam: O gosto e o gosto. O substantivo e o verbo). E assim vou eu, vivendo e escrevendo, sabendo que em algum momento serei lido, a maior recompensa. Se você chegou até aqui, obrigado. Escrever é tão bom quanto ser lido. Não importa quantos, mas por quem.

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* Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, de 1950). Dirigido por Billy Wilder, conta a história de uma estrela decadente, Norma Desmond (Glória Swanson), vivendo fora da realidade.

A pescaria, para não esquecer

Grande mesmo, ele só conhecia o rio, divisa de Minas Gerais com São Paulo. O trem de passageiros diminuía a velocidade para entrar na ponte que, em tal momento, era fechada ao tráfego de automóveis ou caminhões. O rio imenso, Rio Grande! O menino nunca viu peixes, nem mesmo quando atravessou a ponte caminhando com o pai. Não nadou nem pescou por lá!

Pescar mesmo foi na Lagoa do Taquaral. Em Campinas, no tempo em que só havia o bairro de mesmo nome. Do outro lado do lago era puro mato e muitos eucaliptos. A maior lagoa do mundo para quem não conhecia outras lagoas, o mar. Com a parentada ele aprendeu a colocar isca, jogar a linha e esperar, esperar, esperar…

“…Mas os peixes não querem cooperar

Se eu não pescar nenhum

Com que cara vou ficar…”

Essa prática acontecia nas férias e o menino precisava voltar para Uberaba, para o Alto do Boa Vista que, por tal nome, já se conclui a ausência de lagoas e rios. Lá no alto se ouvia muito rádio e entre tantas vozes havia uma, com história de pescador fajuto, que compra peixe no mercado para ficar bem na fita. As músicas ingênuas, contanto pequenas histórias… Com o pescador fajuto o menino aprendeu a escrever cartas, formato bem definido na canção:

“Escrevo-te estas mal traçadas linhas, meu amor

Porque veio a saudade visitar meu coração…”

Andando com primos e colegas de escola o menino conheceu o estúdio e o auditório da PRE-5, Rádio Sociedade do Triângulo Mineiro. Durante a semana entravam no estúdio e, caladinhos, viam e ouviam os locutores de então atuando nos programas vespertinos. Ficou a lembrança do Cirquinho do Xuxu (Edson Iglesias), Júlio César Jardim (Casquinha) que atuavam com Lídia Varanda. Aos domingos havia o programa com auditório e as crianças cantavam acompanhadas por um regional extraordinário, que acompanhava as crianças em qualquer canção, sem qualquer ensaio.

Xuxu e Lídia chamam o garoto inscrito. A plateia lotada e o menino, sem medo de ser feliz: O que você vai cantar? A Pescaria, responde o garoto.

“E mal o broto me vê passar ouço sempre ela falar

Se ele é um bom pescador, serve pra ser meu amor”.

E assim Erasmo entrou e permanece na minha memória, desde quando aos 10 anos cantei a singela canção em um programa infantil. Já se vão 57 anos!

Consta por aí que os encontros entre geminianos são para todo o sempre, mesmo quando distantes. Erasmo Carlos, Wanderléa, Maria Bethânia, Chico Buarque, Paul McCartney… Só para ficar no campo da música esses exemplos de uma mesma geração de artistas que entraram em minha vida. Todos são geminianos, como eu. Pretensão não custa nada… Sempre me senti feliz por estar na mesma casa astral desse povo e sonhar em ter um pouquinho do talento com o qual presentearam a vida de milhões de pessoas.

Lá longe, nos tempos de A Pescaria, Erasmo foi o cara da Festa de Arromba, registrando toda uma gama de artistas que amávamos e que não esqueceríamos, imortais na canção. Já se mostrava o amigo de Roberto Carlos e Wanderléa, tranquilo e sem qualquer tentativa de concorrência, dono de si e do seu lugar. Mereceu de Roberto uma declaração pública de amizade e fraternidade:

“…cabeça de homem, mas o coração de menino

Aquele que está do meu lado em qualquer caminhada”

Eu já não morava em Uberaba e, trabalhando na mesma Campinas das pescarias de infância, recebi um telefonema que recolocava Erasmo na minha história. Recebi um telefonema de Ronaldo Feliciano de Assis, “O meu amigo Ronaldo!”, me informando que “Roberto Carlos fez uma música sobre nossa amizade”. Amigo!

O Erasmo que eu mais gosto é o de Meu nome é Gal e Cachaça Mecânica. É maravilhoso ver Gal Costa mostrar a indiscutível superioridade vocal cantando uma música de Erasmo e duelando com uma guitarra na célebre interpretação. Em Cachaça Mecânica, Erasmo dialoga com Chico Buarque referenciando Construção, em letra precisa e criativa sobre nossa gente.

Há tantas canções de Erasmo! Sem contar as parcerias com Roberto! Muitas! Todavia, há aquelas que nos acompanham por toda a vida, nos levam ao puro deleite e, quando a vida nos machuca, acompanham nosso sofrimento. O Erasmo de “A pescaria” é doce, como são doces as lembranças de infância. Ronaldinho e meus melhores amigos estão em “Amigo”, como estão Erasmo, Gal Costa, Pablo Milanez, Rolando Boldrin, Lizette Negreiros, entre os seres queridos que acabam de partir. Para todos eles, peço perdão pelo egoísmo e insisto:

“…Onde você estiver, não se esqueça de mim
Quando você se lembrar, não se esqueça que eu
Que eu não consigo apagar você da minha vida
Onde você estiver, não se esqueça de mim”.

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Notas: As canções citadas acima estão nos vídeos, disponíveis abaixo.

A pescaria

A carta

Festa de Arromba

Amigo

Meu nome é Gal

Cachaça Mecânica

Não se esqueça de mim

60 anos da Academia de Letras do Triângulo Mineiro

Osmar Baroni, João Eurípedes e Olga Maria Frange de Oliveira. O presidente recebendo novos acadêmicos

Escritores e leitores em festa. A Academia de Letras do Triângulo Mineiro comemora seu 60º aniversário. Fundada em 15 de novembro de 1962 em Uberaba, Minas Gerais, a ALTM tem sido guardiã da memória literária local e regional, através de seus membros: patronos, fundadores e demais acadêmicos.

Instituições existem por haver quem nutre afeto por elas. Na medida em que não há desvelo, atenção, cuidado, instituições vão se esvaindo tornando-se pequenas chamas, apagando-se aos poucos até ao derradeiro lampejo de luz. Viva e atuante, a ALTM enfrentou com galhardia momentos difíceis nesses últimos anos e comemora o aniversário com cores vivas e a hospitalidade de sempre. Essa situação deve-se a quem ocupa a presidência, desde 2017, o escritor João Eurípedes Sabino.

Fonte da imagem: Jornal da Manhã

Sem a menor pretensão de diminuir a atuação de outros, quero nesse momento enfatizar o trabalho do atual presidente, seu cuidado e afeto para com a Academia, seu respeito e carinho pelos demais componentes, seus pares. Reitero que as instituições são o que são aqueles que a representam. João Eurípedes Sabino, sou testemunha, atende com presteza e cortesia toda e qualquer pessoa, seja membro, visitante ou mero curioso. Nos períodos mais difíceis, na triste pandemia da qual ainda temos sinais, o presidente manteve acesa a chama que norteia os trabalhos da ALTM: realizou publicações, concursos, reuniões virtuais, elegeu novos membros sem jamais deixar de prestar assistência aos demais.

Parabéns, João Eurípedes Sabino!

Parabéns, Academia de Letras do Triângulo Mineiro!

Acontece!

A dimensão de um artista pode ser medida pelo que é percebido pelo ser humano. Quanto maior e mais diversa essa percepção, maior é o artista. Gal Costa deve estar batendo recordes de adjetivos, de maneiras de percebê-la, frutos de uma carreira que a colocou entre maiores da música popular. E é assim, tentando driblar a tristeza, que teço loas para Gal. E, mal esboço esse parágrafo, chega a notícia de outra perda, Rolando Boldrin. Difícil!

Gal falava, raramente a percebi fazendo declarações. Não é sutil. É algo absolutamente claro e distinto da maioria entre artistas pares. Ao invés de colocar-se em um púlpito, palanque ou palco, Gal deixa registrado em vídeos sua fala aos entrevistadores, cheia de simplicidade, plena de clareza e decisão quanto a um modo de ser e estar na vida. Essa fala, com frequência, vinha carregada de alegria e tranquilidade.

Creio não haver dúvidas de que a cantora sabia sobre si própria: quem era, que posição ocupava no panteão das nossas cantoras. É dessa certeza que a percebo tranquila, cantando com quem quer que fosse: Elis, Bethânia, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Tom Jobim… Tranquila e serena, Gal aguardava cada entrada e, chegando o momento, mostrava quem era. Cantando!

Já escrevi em outros momentos que sinto necessidade de referir a obra, verdadeira forma de imortalizar um artista. Difícil optar por canções representativas do repertório de Gal Costa. Vou citar algumas, minha percepção do quanto Gal foi grande. E desencanada!

Eu te amo, do show e álbum Os Mais Doces Bárbaros. Foi quando percebi que aquela voz era única ao subir aos céus finalizando um “serei pra sempre o seu cantor…”

Mãe da Manhã, do disco O sorriso do gato de Alice, Gal fazendo de sua voz “meu amparo, aro de luz na gruta da dor”.

Estrela, estrela, do disco Fantasia foi, por muito tempo, minha preferida da cantora que brilhava “quase sem querer” por certamente ter aprendido a “Deixar, ser o que se é”.

Há muitas canções nessa vida para ouvir e ouvir e ouvir Gal. E minha geração teve a honra e a benção divina em contar com a voz doce e única que, sabendo-se assim, podia viver com segurança e leveza sobre os palcos. Há exemplos marcantes dessa leveza, lá atrás, quando éramos jovens e a menina Gal se apresentava em um programa da TV Record, cantando Trem das Onze. Tranquila e serena, canta com e para a plateia.

Em outro momento, Gal estava em um programa de tv e sobe arquibancadas, na plateia, cantando junto ao público. Ao descer, escorrega e cai. Levanta-se tranquilamente dizendo “Acontece!” e continua cantando, assim como já o tinha feito com um acidente no violão, registrado no Fa-tal. Simples, tranquila e serena, com uma segurança única que a fazia enfrentar milhares de pessoas munida de voz e violão (a lembrança mais forte na Avenida São João, em São Paulo, em memorável Virada Cultural). Sempre a comparei aos grandes artistas americanos com seus shows mega produzidos afirmando que para Gal, bastava só o microfone e o violão.

Deixei para concluir este texto a canção de Cazuza, Brasil, quando Gal revelou um país que sempre teimamos em ver. Esse Brasil que não mostra a sua cara e que esconde facetas, muitas delas constantemente lembradas por Rolando Boldrin. Com seus casos, suas prosas e canções, o ator e cantor Boldrin deixa uma obra em que o país caboclo, caipira, sertanejo está vivo e dentro de nós. Um país onde “a viola fala alto”, em todos nós, e “toda moda é um remédio para meus desenganos”.

Duas duras perdas. Descansem em paz, Gal Costa, Rolando Boldrin!

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As canções citadas neste post estão disponíveis abaixo.

Acontece:

Eu te amo

Mãe da manhã

Estrela, estrela

Brasil

Vide vida marvada

Trem das onze

É dureza, João!

Paulo Freire e Oswaldo Cruz, ministros de Lula…

O resultado das eleições está aí e, ainda hoje, ouvi dizer que o Lula deu a Amazônia de presente para a França e, por isso, deverá cair antes de assumir a presidência. Não sei se o indivíduo leu, ou ouviu dizer. A “informação” não tem respaldo na imprensa nacional e meu caro interlocutor não deve atinar para o significado de um pedido de cidadania feito por parte da prole do atual mandatário. Esse pedido sim, está no noticiário.

Pareceu papo de maluco: eu mandei uma das piadas do momento, a da nomeação de Paulo Freire para o ministério da Educação e, sem surpresa, notei que o jovem rapaz não tem noção de quem seja o ilustre finado. A maluquice continuou ao chegar em casa e lendo o relato de uma mineira (logo de Minas!) que planeja ir para Portugal por indignação pela eleição de Lula. A jornalista assinalou, em oito notas de rodapé, os equívocos e a informação falsa estacionada na cabeça da minha conterrânea.

Não consigo precisar o início exato da polarização já que, entre possíveis exemplos, a síndrome do medo do comunismo antecede ao PT. E nem é certo que ela irá terminar algum dia. O que é passível de punição legal será reprimido, mas alguns ódios deverão sobreviver no obscuro de alguns humanos. O que me aflige e, com certeza também a outros, é antever como sairemos dessa situação em que novas identidades vieram à tona, quando foram reveladas algumas características nada agradáveis de parte da nossa gente.

Legislar com dureza sobre problemas como xenofobia, misoginia ou homofobia, entre outros, não esconderá o fato de que há pessoas entre nós com um grau de preconceitos muito superiores ao que “tínhamos conhecimento”, nos fazendo questionar a lenda do brasileiro cordial.  Nada esconderá que há entre nós um grau de endurecimento tão grande que os 688 mil mortos pela COVID não pesaram no resultado das eleições, mesmo após a CPI que escancarou os problemas derivados da atual gestão em relação à pandemia.

No Brasil, a ciência é colocada em xeque, o que é mais um exemplo dos grandes problemas que temos: um país com cidadãos acima da ciência. Por outro viés, a religião majoritária atende aos dois lados da polarização, evidenciando-se um Deus brasileiríssimo que atende interesses conforme o intérprete, ou mandante! Sobre ciência e religião não cabe penalizar, mas educar. E assim, a gente chega em uma das ironias nacionais: a culpa é da educação. Sendo esta uma abstração humana, culpa-se quem nela atua: o educador!

Enquanto professor constatei uma batalha senão perdida, com certeza desigual. Para cinquenta minutos, no máximo duas horas de exposição e discussão de ideias, mesmo “ganhando” na argumentação, perdia no desiquilíbrio provocado pelo tempo. O raciocínio é matemático: uma semana tem 168 horas! Um ano, 8.760. No meio de todo esse tempo, em algum momento do curso, um exemplo, eu provava ao aluno a superioridade das letras de Chico Buarque de Holanda. Uma horinha, alguns versos logo esquecidos nas milhares de horas em que a indústria impunha ao mesmo aluno as cervejas e dores de corno ordinárias de certos setores da produção musical brasileira.

A solução de tudo estaria no tripé básico, ciência, religião e educação, que deveria somar-se à instituição que fundamenta nossa sociedade: a família. Sabendo que grande número de famílias estão divididas (isso até no alto escalão, se confirmado os tabefes na atual primeira-dama), como é que sairemos dessa? “É dureza, João!”

O telefonema de um velho amigo me tirou desse enrosco. Não que eu quisesse solucionar a coisa. O que não dá é ficar nessa agonia maluca, dessa gente que pensa que o Lula vai nomear Oswaldo Cruz para um ministério… E do amigo veio a “solução”, alertando-me que só nos resta apelar para a sabedoria popular:

“Se não tem conserto, consertado está”.

“Só a morte não tem solução”.

“No fim, dá tudo certo!”.

Quanto a mim, fico com Adoniran Barbosa no título e no final deste texto:

“Deus dá o frio conforme o cobertor”, portanto… “Paciência, Iracema. Paciência!”.

.,.,.,.,.,.,.,

“É dureza, João”, está na letra de Torresmo à milanesa. “Deus dá o frio…” é da Saudosa Maloca e “Iracema” é da própria, aquela que “travessou contramão”. Tudinho do Adoniran Barbosa.