A greve dos coletores e profissionais da limpeza urbana é um momento de consciência da importância desses prestadores de serviço. Aquele profissional que trabalha correndo pelas ruas da cidade recolhendo sacos pesados, muitos fedorentos, sob chuva ou sol, recebe salários irrisórios. A média é de R$ 1.560,93 por mês, conforme o Portal Salário.
Há um consórcio atuando na região que privatizou a coleta de lixo. Os efeitos da administração das empresas responsáveis estão sendo sentidos pelos santistas e moradores de outras cidades da Baixada. Os passeios estão cheios, algumas esquinas lotadas de sacos de lixo levando o transeunte a invadir a rua para poder caminhar.
A situação é perigosa. Os ratos e baratas já invadem as ruas a céu aberto e outros insetos já são percebidos sobrevoando os entulhos. O péssimo odor é o menor dos problemas da insalubridade que nos ronda. Corremos o risco de um surto de dengue, Chikungunya e leptospirose, entre outros males possíveis.
A solução é um salário justo. Os profissionais pedem 7% de reajuste nos salários, elevando a média salarial para R$ 1.670,19! Aqueles que julgam errada a greve dos coletores trabalhariam por tal salário? O que importa para a sobrevivência do ser humano? Nenhuma categoria profissional é melhor ou mais importante que a outra. No entanto, algumas são necessárias e fundamentais; dentre essas, os coletores.
Já escrevi sobre o trabalho desses profissionais na minha rua. Admiro o astral alegre, a educação ao cumprimentar e saudar os moradores. Há alguns pormenores como, por exemplo, pararem no prédio vizinho para se abastecerem de água potável para consumo próprio. Cabe então lembrar aos que criticam a greve de dentro de gabinetes com ar-condicionado, café e água à disposição, que há uma série de seres humanos correndo pelas ruas para recolher o que descartamos.
Espero que a situação termine com o atendimento às propostas da categoria. Pensando na minha saúde, no meu conforto e bem-estar, desejo que consigam e que, na próxima, peçam muito mais! Eu poderia fazer uma lista de prestadores desnecessários, mas deixo para que cada um pense na sua. Uma coisa é certa: sem nossos coletores, sem a cidade limpa, não sobreviveremos.
A foto de Nair Bueno, do Diário do Litoral, é triste:
Seria aquele que vi por aqui? O gavião apareceu morto no asfalto. Pode ser o que andava pelos telhados vizinhos, pode ser aquele que andou defendendo seu ninho à bicadas em distraídos transeuntes. Os ratos estão em festa. Menos um gavião para exterminá-los. Um elo da cadeia que se rompe e que nos leva ao desequilíbrio. Parece exagero, não é.
Por mais que se ame um lugar é questão de maturidade encarar questões que enfrentamos advindas das características locais. Arborizada e ensolarada, recortada por canais que drenam a cidade, o jardim da orla de Santos tem mais de 5.000m de cumprimento em área imensa, 218.800m²! Santos seria um imenso e belo jardim não fosse… a ação do homem.
O belo sistema de canais da cidade nos permite ver peixes, aves e, infelizmente, lixo. Quando a água está baixa fica mais evidente os sinais de esgoto e diferentes tipos de resíduos que deveriam ter outro destino. Somando restos de alimentos de barracas comerciais, de lixo mal condicionados para a coleta, às vezes expostos fora do dia quem que passam os coletores, o resultado é um número incalculável de ratos e baratas. Quem tem hábito de caminhar pela noite conhece essa realidade.
Ao longo do belíssimo jardim da orla há feiras semanais, barracas vendendo comida e bebida, restaurantes e ambulantes, além daquilo que vem com os próprios frequentadores. Há centenas de lixeiras ao longo das calçadas, frequentemente esvaziadas, o saco plástico recolhido por um exército de garis que também varrem a praia, recolhem o que foi deixado na areia por gente mal educada. Os funcionários públicos passam duas vezes ao dia no local. Para quem frequenta, é comum ver após a passagem do colorido grupo da limpeza a ação de gente que deixa restos de alimentos, favorecendo a alimentação dos ratos.
Uma das razões garantindo equilíbrio entre ratos, baratas e seres humanos são os pássaros. Gaviões e corujas comem ratos e pombinhas, assim como essas comem baratas. Não se trata aqui de fazer um extenso estudo demonstrativo do funcionamento do equilíbrio ambiental. O que importa é o recorte que nos leva a perceber que exterminar um ou vários animais é fato que nos levará ao caos ambiental.
Um gavião apareceu morto no asfalto. O finado comeria cerca de 1000 ratos em um ano. Mais aves mortas e o problema será alarmante. E a cidade, sempre linda, merece permanecer assim. Talvez o bichinho tenha morrido ao bater contra um vidro transparente, uma das consequências dos fortes ventos que tivemos por aqui. Pode ter sido abatido por um tiro de chumbo. Há gente besta e armada por aí! O certo é que precisa ser intensificado o cuidado para com aves e outros predadores de insetos e roedores. Esse cuidado deve ser acompanhado de comunicação, informação para evitar o fim que também pode ser o nosso.
O jardim da orla de Santos é um local mágico. Entre o mar e a cidade estão centenas de árvores, plantas ornamentais, floreiras, monumentos e conjuntos escultóricos por onde circulam 300 espécies de pássaros. Incalculável diversidade de insetos polinizam as plantas não só da orla, mas de todos os jardins e ruas da cidade. E são eles, os pássaros, que garantem equilíbrio para que tais insetos não se constituam em pragas.
Com tantos pássaros enfeitando e enchendo a paisagem com suas cores e trinados, não é incomum ver uma ou outra ave morta, caída no jardim. Às vezes ferida, sabe-se lá por qual inimigo. A morte do gavião nos chama atenção por a vítima ser adulta, estar em aparente vigor físico. Em meio à tanta violência entre os humanos é provável que não investigarão os motivos, os culpados. Sairemos todos perdedores.
Escrever é um barato (gíria dos anos 70, uma referência de idade). Às vezes, conforme o momento, pode ser um privilégio, sina, trunfo, maldição. Um exercício diário que busca a melhor maneira de manifestação através de um texto. Uma paixão que leva ao desejo de só fazer isso. Ninguém come letrinhas, papel impresso. A escrita literária pode ser um trabalho. Há os que tentam sobreviver da coisa. Um angu de caroço! Como muitas das habilidades humanas, a escrita foi dominada pelo capitalismo. Leia-se: explorar e ganhar ao máximo em cima do sujeito.
Explorar pessoas é um pequeno avanço se comparado ao trabalho escravo. No sistema capitalista o indivíduo pode se recusar a exercer seu ofício e morrer de fome. Ou fazer outra coisa. A isenção de responsabilidade tem frases do tipo “é assim que funciona”, ou “são as leis do mercado” e, a pior delas, “todo mundo faz assim, você acha que conseguirá fazer diferente?”.
Escrever, cantar, interpretar, compor, desenhar, pintar e, entre outros, tocar um instrumento, são atividades que demandam tempo enorme de formação, aprimoramento, pesquisa, criação e execução de algo que resulta fundamentalmente em expressão de um indivíduo, uma sociedade, uma época. O sistema capitalista, sempre alerta para novas oportunidades de ganho, trata de elaborar formas de lucrar com tais expressões. Os registros de cada ação são transformados em produtos, quando muda-se a escala de valores. Os que vendem mais estão acima dos que vendem pouco, normalmente com a expressão “não vende!”.
É comum encontrar o profissional que determina o “potencial de venda” de algo que tal sujeito é incapaz de concretizar. Pior quando ele não tem o conhecimento mínimo para estabelecer a distinção entre Escher e Nietzsche, mas tem poder sobre a verba necessária para montar um espetáculo, editar um livro. E toca você a ensinar ao sujeito um contexto que, às vezes, é base mínima para o que você pretende realizar como criador. “Mas, tem sexo, tem violência, é movimentado ou é aquela coisa parada?”. Sem a formação de um budista, resta cair fora antes de cometer um assassinato.
Conheci um editor que, literalmente, cheirava um maço do original apresentado e determinava: “Isso vende!”. Ou “não vende”, e ali na fungada estava definido o futuro de uma obra literária. Obviamente não se espera que um editor leia “tudo”. Na aceleração mercadológica, onde se faz necessário produzir quantidade, é romantismo bobo esperar ser lido por alguém que deve lançar dois ou mais livros mensalmente. O “Q.I”, leia-se “quem indica”, e a árvore genealógica do autor são facilitadores. Resenhas e resumos foram substituídos pelo atual “book proposal”, expressão que remete a quem domina o mercado livreiro.
Dia do escritor. Já andei me irritando ao receber a sugestão de usar inteligência artificial. Para alguma coisa tal artifício será útil. Jamais substituirá o PRAZER que sinto aqui, agora, em escolher a palavra, escrever e reescrever a frase, avaliar, julgar, rir ou chorar com o resultado que vem do que penso, do que sinto, do que gosto, do que creio. Usem, que eu continuarei a escrever, com a experiência da barra que vem ao terminar um texto. A primeira e grande barra, encontrar quem leia!
Gosto de ver pessoas cantando em ruas e praças. Também daquelas que ocupam os passeios públicos com telas e outros suportes para desenhos ou pinturas. Paro em feiras para observar, às vezes adquirir, pequenas esculturas e toda a sorte de artesanato. Cada vez mais raros, sempre dou atenção a repentistas e, quando acomodado, gosto da manifestação de poetas. Já os escritores… É complicado parar para ler uma orelha, uma contracapa, quiçá um capítulo. (Há séculos não utilizava a palavra quiçá!).
Em maio terminei de escrever um livro. Primeira crise veio quando me dei conta do tamanho do filho da puta. Mais de quatrocentas páginas! Em tempos de Twitter, que virou X, só loucos escrevem livros desse tamanho. Ou parentes do editor, ou o próprio editor. (O Luiz Schwarcz que tem domínio do mercado, escreveu 291 páginas no seu “O primeiro leitor”). A segunda crise é o processo de produção e lançamento do livro. Se a crise for ultrapassada e resolvida, meu caro leitor, então você saberá que livro é.
A palavra produção me incomoda. Significa transformar meu trabalho em produto. Algo a ser comercializado, vendido e se Deus descer do céu, lido. Sim, pois vender é uma coisa e ser lido outra. Reclama do preço do livro (Com razão! Nessas de cada um ganhar em cima do outro, há um abismo entre o custo do volume editado e o preço final). Há o “Será que vai virar filme? Vou esperar”, que já ouvi de gente prestes a ser estrangulada. Também há aquela que vem pedir um volume. E penso na frase atribuída à Cacilda Becker: “Não me peça para dar de graça a única coisa que tenho para vender”.
Dia do escritor. E estou com fome. Vou preparar o almoço. Quem mandou não me tornar pastor? Tivesse seguido o conselho de meu pai estaria apenas louco de raiva desses que teimam em cobrar mais impostos de quem explora e não produz absolutamente nada. Feliz dia!
Houve um tempo em que a ilha de São Vicente quase não tinha gente. Nem a serra era recortada por vias de ferro, por trilhas, por estradas de rodagem. Os primeiros habitantes daqui caçavam peixe, ou animais maiores para se defenderem da fome. Dos pássaros, de fato com pouca carne, preferiam as penas para cocares e pulseiras. Gaviões e povos originários viviam em relativa harmonia até que, por volta de 1500, os portugueses trouxeram as galinhas. Aí, gaviões incluíram pintinhos em suas dietas. A relação com os humanos azedou.
O bicho gavião não difere muito dos outros. Caça quando tem fome, não estocando absolutamente nada. Defende a si e as crias de predadores, o que os torna temporariamente territorialistas, tomando conta do entorno de seus ninhos quando os filhotes ainda não se viram sozinhos. Seus hábitos são diurnos, quando localizam e caçam suas presas.
Já contei em crônica* meu primeiro contato com a espécie, quando viajava de trem de passageiros da Mogiana. Os garçons colocavam nacos de carne espetados em um longo garfo, estendiam a oferta pela janela e o maquinista diminuía a velocidade. O gavião se aproximava, recebia a comida e tomava seu rumo, o trem seguindo viagem. Era lindo. Era poético. Está entre as melhores lembranças de minha infância.
Meses atrás ao acordar vi, pela janela da área de serviço, um gavião parado sobre o telhado do vizinho. Imponente, impávido e altaneiro, diria o poeta. Equidistantes dele, formando um triângulo, três pombinhas inquietas, nervosas, caminhando a passos curtos de um lado para outro. Eu já sabia por observações anteriores que as pombinhas tinham ninhos na cornija do telhado vizinho, no vão de uma chaminé pouco usada. Com a temperatura quase sempre elevada por aqui, certamente é parte inútil da construção. O gavião não atacava as aves menores. Elas se mantinham naquela situação tensa, nervosa.
Sem uma liderança que as unisse contra o predador, as pombinhas permaneciam ali, esperando que o altivo atacante iniciasse o movimento. Penso eu que ele queria atacar o ninho, devia haver ovos mais deliciosos que pombas cheias de penas e piolhos. Para se abaixar e tomar posse dos ovos ele abriria guarda para um ataque conjunto das andorinhas. Dizem os observadores que os bem-te-vis fazem isso para defenderem seus ninhos.
Sem saber diferenciar pombinhas de bem-te-vis, o gavião permanecia atento, já vítima do meu ódio, com pena dos ovinhos ou filhotes indefesos. A situação não se resolvia, eu não possuo nem mesmo um estilingue para espantar a ave de rapina quando fui distraído pelos sons do celular. Esse mesmo celular que hoje pela manhã trazia a notícia de uma senhora ter sofrido uma bicada de gavião no cocuruto enquanto trafegava por movimentada rua do Embaré, bairro santista.
O jornal, tentando um sensacionalismo barato, insinuava ataque à la filme de terror, um Hitchcock e seus pássaros assassinos tupiniquins. Nos comentários, um vizinho do local informava haver um ninho em árvore alta, próxima de onde a vítima passava quando foi atacada. Logo vieram comentários indagando se a moça era palmeirense, vestida de verde e sendo confundida com papagaio ou se, com vestes em preto e branco pudesse ter sido atacada por ser “peixe”, em referência explícita ao Santos FC. Um a zero para o gavião, escreveram.
Um dos imperadores entre as outras 300 espécies de pássaros que vivem aqui na cidade de Santos, os gaviões são importantes para o equilíbrio ambiental. Antes de chamarmos a cidade de nossa, a ilha já era deles. Somos nós os invasores. É bem verdade que eles poderiam construir seus ninhos lá na serra, mas aí teriam que voar muito para obter comida que, por aqui, é farta. Vivemos de forma a facilitar o aumento da população de ratos, entre outras pragas.
Que os gaviões sigam seu próprio destino que, como o de outro sem número de animais, já foi por demais alterado pela ação humana. Usando a própria força e habilidade em atacar de cima para baixo, que sigam naquela do parente Carcará e continuem no eterno e popular “pega, mata e come” da canção. Nós, humanos, identificando árvores com ninhos, podemos atravessar a rua, ir pelo passeio oposto. É só até os filhotes crescerem! Aos excessivamente assustados com o bichinho sugiro o uso de bonés, chapéus, boinas, perucas e guarda-chuvas, entre outras possibilidades de proteger a cachola. Quanto ao telhado vizinho, anda livre de pombas. Essa batalha o gavião também venceu.
*In “O vai e vem da memória” escrevi “O gavião do trem da Mogiana”, publicado pela Elipse, Artes e Afins.
Certamente não nasci por acaso. O Aparecido, que carrego no nome, comprova promessa materna para que eu nascesse. A mania de escrever, que trago da infância, é o que me leva a refletir e exercitar a memória.
Sempre fiquei irritado com a expressão “O Brasil não tem memória”. Até onde eu saiba o país é uma abstração social construída por um longo processo cultural. Sendo abstração, cabe a quem construiu e a quem nela vive registrar o que a faz ser, ou seja, lembranças e memórias. Em síntese: Não diga que o Brasil não tem memória se você não escreveu nem uma única linha sobre sua mãe. E, calminha, a mãe aqui não é apenas a genitora, mas a outra, a pátria, que pode ser mátria, aquela do poema do Vinícius de Moraes. A vida está cheia de mães: a dor, a rua, a necessidade, coisas que nos ensinam a sobreviver. Bom registrar que só a mãe mulher costuma dar a vida pelos filhos.
Uma distinção entre preservar a memória e ser conservador é necessária. Continuando na linha “mãe”, parece óbvio dizer que gostaria que mamãe tivesse uma vida melhor. Ela até que viu a reviravolta que a mulherada deu após o surgimento da pílula anticoncepcional, as ideias revolucionárias da década de 70 e pôde usar um monte de eletrodomésticos que tornaram menos pesadas as tarefas domésticas. Há uma imensa distinção entre conservar as mães dentro da cozinha, com tudo o que a tecnologia puder proporcionar, e lutar para que as tarefas – TODAS – do universo familiar sejam divididas, compartilhadas pelo casal.
Mamãe batalhou para que os filhos estudassem. Enquanto vivo serei grato; se escrevo foi por ter tido livros, revistas, gibis e uma mãe que insistiu para minha ida à escola. Ela queria para os filhos uma vida melhor. E o ideal é que esse melhor fosse planejado, ou seguisse uma onda que, lá em casa, vingou nas irmãs, todas professoras! Havia um papo que meninos deveriam ser engenheiros ou médicos, garantindo uma profissão sem patrão e com possibilidade de ganhar grana. Não rolou!
Por acaso, no Piauí, lá no Parque Nacional da Serra da Capivara (Foto: Cris Buco)
Meu irmão Valdonei tinha vocação para atividades autônomas. Foi o primeiro, talvez o único, a entrar em conflito com meus pais por preferir o trabalho ao estudo. Eu cresci em um momento em que a televisão se popularizava e, junto com o cinema, tive outros fascínios, outros desejos. Lá pelos cinco, seis anos de vida quis ser bailarino como os que via na tv. Não sendo russo, fui bastante criticado pela família. A primeira carga de preconceito das tantas que vieram pesar sobre o meu lombo. Carreira de bailarino ficou para uma próxima encarnação. Se reencarnar, escolherei nascer perto do Bolshoi.
No cinema conheci Joselito no primeiro filme que assisti, “O pequeno rouxinol”. Era um garoto espanhol com uma garganta privilegiada que fez sucesso lá e cá. A música entrou como perspectiva num dos “teatros da Belinha”, a moça que, na paróquia, fazia apresentações de pequenas peças, esquetes, números musicais para angariar fundos para as ações sociais. Eu devia cantar a “Canção do jornaleiro” e “O engraxate”. Músicas melosas de garotos de rua tentando sobreviver.
Eu cantava o dia inteiro. No telhado, em cima de árvores, no banheiro durante intermináveis banhos (para desespero do meu pai, preocupado com as contas de luz). Passei por programas infantis de rádio, cantei em serenatas com colegas do bairro, em missas, casamentos e botecos. Adulto, já dono de primeiras composições, gravei disco, fui cantar por aí até descobrir que odiava cantar profissionalmente. Em bares, era começar a cantar, sem aquele tradicional “silêncio que vai se ouvir o fado” dos portugueses, e já vinha o burburinho da plateia. Pior o bêbado chato, pedindo para você, que é barítono, cantar música de soprano. Ainda hoje não consigo acreditar que Roberto Carlos goste de cantar Emoções e não é à toa que Maria Bethânia canta Carcará com arranjos diferenciados.
Por acaso, via Pri Cirino, fui juiz de carnaval.
Os acontecimentos se entrelaçam, a vida segue. Até pensaram que eu faria engenharia e tive alguns problemas por querer estudar filosofia. “Não dá dinheiro!” era a frase para o cara que sonhava com uma vida franciscana. Mas veio o primeiro “por acaso” de alguns que norteariam minha vida.
Por acaso comecei a atuar em teatro, quando meu amigo Ronaldo precisou de alguém que escrevesse e dirigisse uma peça para encerrar um encontro de jovens. Começava ali uma trajetória de infinitos detalhes e quero ressaltar aqui o que me pega de jeito: redigi 48 peças. Dessas, 14 continuam inéditas. Caso você queira montar alguma, pagando direitos autorais, entre em contato pelo meu e-mail. Também escrevo sob demanda respeitando valores éticos. Sou de esquerda.
Também foi por acaso que um sujeito abriu um jornal em Santo André, no ABC. Entre os patrocinadores, uma agência de viagens. Maria da Penha, minha amiga, escreveria sobre os destinos oferecidos pela CVC e, percebendo a lacuna, informou ao proprietário que conhecia alguém que poderia escrever sobre teatro. Depois desse primeiro vieram outros três jornais, oito revistas, dois sites e alguns blogs. No mais longevo, este blog onde você lê este texto, contabilizo 1009 textos publicados desde 2011.
Por acaso, via Rafael Mendes, entrando no universo digital.
Lá pelas tantas já sabia das dificuldades de sobreviver trabalhando em teatro e, se sobrevivia com jornalismo, queria mais alguma coisa. Foi quando o Grupo Boi Voador foi fazer turnê em Portugal e um dos seus atores, Rossi, sendo professor, precisava de um substituto na escola. Domingos Quintiliano me indicou e lá começou uma atividade que mantive por 34 anos. Foram três colégios e duas universidades. Milhares de alunos, alguns grandes amigos.
Há diversos outros, no entanto desejo registrar o mais recente “por acaso”. A música que havia ficado em plano secundário voltou ao meu cotidiano. Sugestão e incentivo de Flávio Monteiro, fui parar no Madrigal Ars Viva. Estou lá, feliz da vida, estudando com afinco e aprendendo, aos 70, a cantar em latim, francês, italiano, alemão (alemão é foda!). E conhecendo pessoas incríveis, vivendo experiências especiais como cantar a Misa Creolla, primeiro com grupo de músicos e depois com a Orquestra Sinfônica de Santos.
Nas atividades principais desses anos todos é a escrita permeando tudo. A escrita não veio por acaso. Graças à minha mãe, às minhas professoras. De tudo o que faço – e fiz – na vida, a escrita permanece. Até onde vou, não sei. Segue a vida! O que virá? Certamente que, se lúcido, escreverei. Te convido a ler e, sobretudo, tento te estimular. Escreva sua história. Faça um vídeo, componha uma canção, um poema. Registre sua história e mande à merda essa falácia de o país não ter memória. O Brasil sou eu, somos nós (“Grande coisa”, “Bela bosta”, “Se achando”). Pois é, bom ou ruim, somos nós. Ah, e por escrever, me aguarde: novo romance vem por aí (aguarde o próximo post!).
Vista ali, maquiada, bem vestida, recostada no parapeito do Viaduto Jacareí, olhando embaixo para a Avenida 9 de Julho não dava para imaginar seus motivos. Parecia uma senhora comum, uma transeunte distraída com a movimentada avenida vista ali do alto, com seu eterno vai e vem de carros, ônibus e motos.
Postada na mureta do lado oposto ao centro da cidade, o olhar permanecia fixo, sendo difícil saber exatamente qual ponto era observado. Ela apontava, com voz lacrimosa, olhar marejado, dirigindo-se para quem lhe desse atenção: “- Olha ali, está assim, amarrado o tempo todo. Tadinho! Sem comida, sem água. Nem se mexe!” Enquanto o interlocutor tentava entender o que estava acontecendo ela esclarecia, apontando para a paisagem próxima: “- Moro ali naquele edifício da 9 de Julho. De lá vejo ele, pobrezinho, amarrado, sem água, sem comida”.
O ato de repetir a situação do amarrado sem água e comida visava despertar a piedade sobre… o que mesmo? E ela virava-se para o novo “amigo” mostrando-se por inteira. Os olhos bem pintados, um batom acentuando os lábios, a blusa de manga comprida tinha um decote generoso e, caso o gajo descesse o olhar veria uma cintura bem marcada, saia justa sobre pernas longas, salto alto.
Com voz triste, cheia de piedade, insistia na cantilena do pobre sem comida, sem água; um cachorro preso em uma coluna de madeira no quintal ou pátio de estabelecimento da rua paralela à avenida. O quadro era real, o que não se podia era afirmar a autenticidade dele. Estar sobre o viaduto Jacareí e descer à rua verificar a situação demanda uma caminhada que carece de um sujeito apaixonado pelo ato de proteger todo e qualquer animal.
“- Moro ali, fico olhando pela janela. De lá tenho uma ótima visão e esse pobre animal está lá desde sexta-feira, ficou a noite toda e, veja bem, são quase cinco horas da tarde. Olha, não tem água, não há comida. Ele está tão fraco que pousam pombos bem próximo e ele não se mexe!” Era fácil constatar que o cão, já habituado ao espaço e às próprias condições nem se mexia com os pássaros por não poder alcançá-los. Uma observação mais demorada e percebia-se o movimento do animal, acomodado ao cativeiro. “- Eu não aguento vê-lo assim; fico muito triste!”, ela insistia.
A obviedade da questão seria a distinta procurar as autoridades competentes, fazer uma denúncia, salvar o bichinho! “-Sou uma mulher sozinha, tenho receio, vai que sofra alguma retaliação! Se alguém me ajudasse…”
Nem sempre a conversa ia muito longe. Uns deixavam-na no vácuo, sem dar muita atenção. Um ou outro observava bem o local, indagava o nome da rua e prometia tomar uma atitude. Havia aqueles, mais raros, que observavam a maquiagem, o decote, a saia justa e, sondando possibilidades partiam para o apartamento da protetora dos animais buscando ter a mesma visão que ela. O encontro terminava em sexo e o cãozinho permanecia preso.
Uma solidão brutal. Juliana não nascera para viver assim. Fora moça linda e os traços estavam ali, bem marcantes, denunciando sobre a figura majestosa de uma idosa a mulher bonita de outros tempos. Casou-se uma vez, não deu certo. Os ciúmes do marido eram tóxicos. O divórcio foi inevitável. O segundo casamento terminou quinze anos depois em depressiva viuvez. A solidão não foi tão percebida enquanto o tempo foi tomado pelo trabalho. Veio a aposentadoria; os amigos tinham seus familiares, suas vidas. A dela era estar só.
Não se adaptou aos grupos de terceira idade. Eram frequentes as sensações de desespero, de um aproveitar a última oportunidade, de viver o que restava. Pintavam situações de permissividade, com argumentos do tipo “o que há para se perder”? A dignidade, respondia. E foi se afastando, abandonando reuniões, evitando encontros. Ficou só. Perdeu a noção de quanto tempo se passou até que se percebeu absolutamente isolada, olhando a vizinhança pela janela privilegiada do apartamento do sétimo andar.
Há poucos transeuntes pela Avenida 9 de Julho quase tomada exclusivamente por carros. Bem ali, ao lado do Viaduto Jacareí, o mais comum eram pessoas descendo ou subindo escadas rapidamente. Quando na Avenida iam para o ponto de ônibus, ou então, eram moradores, vizinhos. Os que subiam as escadas tinham a Câmara de Vereadores como destino, a Biblioteca Mário de Andrade, a Federação Espírita ou outro lugar qualquer.
Perdeu a conta dos assaltos vistos sobre o viaduto, os assaltantes fugindo calmos escada abaixo com a tranquilidade de quem sabe que não será seguido. Deixavam carteiras, bolsas vazias nos últimos degraus da escada. Em finais de semana, após finais de futebol ou em dias de carnaval, apreciava diferentes composições de seres humanos fazendo sexo na penumbra abaixo da rua. Não enxergava direito pelo movimento, a iluminação precária. Acabou comprando um potente binóculo.
Conheceu pela Internet as salas virtuais. Por pouco tempo, já certa de não ter nascido para tal tipo de faz de conta, trocou a sala por brinquedos eróticos que, para seu desespero, não incitaram sua imaginação, nem mesmo com o apoio de fotos, vídeos. Nascera para encontros reais, embora não tivesse coragem nem cara de pau para tomar iniciativas. Era necessário aguardar a sorte, o destino, o momento certo.
Lia muito. Leu e releu tudo o que havia acumulado ao longo de anos, comprou novos títulos, passou a frequentar as salas da Biblioteca Municipal. Um ou outro bar, jantar nas cantinas próximas, teatro, uma exposição. E ela sozinha, sem coragem de se aproximar, de tomar atitude e só muito raramente sendo abordada. Em sessões televisivas de autoajuda concluiu que precisava criar oportunidades, já que essas não apareciam.
Deve ter sido um gato, um rato, vai saber! Uma noite de sexta para sábado e ela teve o sono perturbado pelo latido distante, incessante do cachorro que, mal amanheceu o dia e ela conseguiu localizar o bichinho. Sol alto, visão boa, lá estava o cachorro no distante vizinho, amarrado e, como ela, solitário. Era um estacionamento, também lava rápido, sempre cheio de carros. Não era difícil concluir que o bichinho permanecia amarrado para não machucar nenhum freguês. Só a noite, estabelecimento fechado, o cachorro ficava solto. Quem sabia disso? O cãozinho. O dono e ela.
Gostava de rir quando lembrava que a ideia veio de um velho e bom conto de fadas. Se ela precisava de um Joãozinho para se alimentar, o jeito era atraí-lo tal qual a historinha, fisgando-o e arrumando um jeito de levá-lo para casa. Melhor não aguardar a presa crescer, engordar. Era resolver a fome, saciar o desejo e seguir em frente, rumo a outro João sem Maria. Um plano canhestro, quase sempre fadado ao fracasso. A aventura, no entanto, era real e a adrenalina subia dando-lhe sensações há muito esquecidas. E ela passou a frequentar o viaduto à cata de possíveis presas.
Quando o interfone tocou anunciando a visita de um vizinho que não conhecia, ela desceu para atendê-lo na portaria, pois não iria abrir sua casa para gente enxerida. No pequeno hall o homem falou poucas e boas, identificando-se como o dono do estabelecimento onde o cachorro permanecia preso durante o dia. Ele contabilizou dezoito denúncias de diferentes homens e vários meses até descobrir de onde e como partiam tais acusações. Estava tendo um trabalhão para sair ileso de crime não cometido e exigia que ela parasse com aquilo. Enquanto ele falava ela o admirava.
Era um senhor bonito, forte, talvez um bom amante. Ela fingiu consertar um botão na blusa, abrindo essa com sutileza e olhar absolutamente cheio de intensões. “– Você, posso chamar o senhor de você, não é mesmo? Então, você precisa ver como eu vejo, da minha janela. Vai entender por que me vem a impressão de seu animalzinho ser mal tratado. Na verdade, eu gostaria de fazer algo por ele! Venha, vamos subir para que você veja. Como é mesmo seu nome?” João! Ela conteve o riso e, sem abrir totalmente a porta do elevador facilitou ao homem encostar-se em seu traseiro, arrebitado, para extinguir no outro qualquer dúvida sobre os motivos daquele convite.
O Jornal de Monte Sião presta homenagem aos habitantes pelo aniversário da cidade no próximo dia 29 de março. Todos os colunistas e colaboradores contam aspectos da vida e do povo mineiro, gente monte-sionense. Abaixo, imagens da abertura do Jornal e da minha participação neste número. Para ler todo o jornal entre NESTE LINK!