Outros paulistanos

Da janela da clausura dessa interminável quarentena vejo Rubão, na porta da doceria. Ele não leva jeito de quem gosta de doces, mas como a doceria vende outras coisas… Meu conhecido deve ter por volta de 40, 50 anos. Pode ser mais, ou menos. Ninguém mantém o frescor da pele morando na rua. E é na Avenida Brigadeiro e em outras calçadas de vias próximas onde ele reside.

Rubão está sempre alegre, trocando pouquíssimas palavras com os transeuntes, mas estabelecendo papos enormes com quem só ele vê. Tem um olhar arguto e uma percepção notável. Provavelmente foi o primeiro indivíduo a registrar que eu havia parado de fumar. Nunca mais pediu-me cigarro. Percebo, quando o encaro, um certo olhar de superioridade. Ele é livre, e eu sou preso a convenções, ao modo de me vestir, transitar, viver… Ele me olha com desdém de quem é livre e, da janela onde o vejo, sinto inveja.

Havia um outro conhecido cuja tristeza incomodava. Tinha um olhar desesperador e, me parece, já perdera a fala no silêncio imposto por todos os que o ignoravam, caminhando como se não o vissem. Diferente de Rubão, que é alegre e que se deita na calçada como quem toma sol em praia paradisíaca, esse outro vivia encolhido nos cantos e, inesquecível, durante chuvas permanecia agachado, como quem toma um banho restaurador, ou sofre um castigo. Era um homem triste e toda a tristeza ficava no olhar, quando entregávamos algo a ele. Também como Rubão recusava roupas limpas. Um dia cismei e teimei em levar calça e camisa para ele. Olhou-me silenciosamente, com expressão de não precisar daquilo e seguiu, lentamente, evitando me olhar por algumas semanas. Um dia desapareceu. Aliás, um dia percebi que não o via há algum tempo.

Observo a postura do Carlos, que guarda carros três vias acima da rua onde moro. – Com licença, senhor, vou trabalhar! É assim que ele se despede, após conversas rápidas enquanto compro frutas de um ambulante que mantém um carrinho na esquina da Artur Prado com a Rua Pio XII. Carlos tem uma subserviência latente, de quem descobriu na aparente mansidão um meio de sobreviver à violência urbana. Atento às vagas de ocasião, orienta motoristas que precisam estacionar. E lá vai ele, com leves mesuras, cabeça baixa, com os braços indicando à esquerda, à direita. E informa que guardará o carro enquanto o dono não estiver presente. Lembro a arrogância dos que nem um mero olhar dirigem à “essa gente”. Já vi em um e outro momento quando entregam uma moeda, com desprezo. Carlos ignora, e volta sorrindo, conversando com o vendedor, comigo. Sem nunca deixar a atenção ao trânsito. – Com licença, senhor, vou trabalhar!

Também na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, bem em frente ao início da Alameda Ribeirão Preto e rente à grade que cerca o supermercado, há uma cabaninha feita de material alternativo, encontrado certamente pela dona, uma moça tensa. Tenho medo de olhar para ela. Aos gritos e xingamentos para o ar, para os veículos que passam, para aqueles passantes que a incomodam, ela me lembra aquelas mulheres fortes, dispostas a tudo para defenderem seu espaço, suas crias. Descobri, com o tempo, que é o tipo e a forma de olhar que a incomoda. Percebi também que a luta é pelo que é dela, aquela cabana onde, durante algum tempo, ela dividiu com um namorado. As brigas eram notáveis. O dono da banca de jornais, bem próxima, já manifestou ódio pela moça. Um dia desapareceu a moça, a barraca. Pensei com meus botões: – conseguiram! E cogitei que pudessem ter arranjado algum pretexto para prendê-la, matá-la. Cheguei a vê-la em outra rua, me alegrando por sabê-la viva. E, mais algum tempo ela voltou e está lá, no mesmo lugar. O passeio é público, logo é dela. E ela mora onde bem quer.

Esses paulistanos certamente incomodam muita gente. É fácil dizer que eles são “sujos”, que são “vagabundos”, que “deveriam trabalhar”, que deixam a cidade “feia”. Lá atrás, em algum momento, essa gente foi para a rua. Sem possibilidade de uma outra vida, vivem como é possível. Alguns com serenidade, outros com tristeza, aqueles com raiva e outros, ainda, com a indisfarçável liberdade de padrões, de formas, maneiras.

Vejo o trabalho do Pe. Lancelotti e de outros grupos que apoiam esses paulistanos. Trazem comida, agasalhos no inverno, prestam socorro aos que ficam doentes, brigam por eles quando necessário. Pessoalmente vejo-os como pessoas corajosas por terem se apossado, insistido, resistido a tudo e todos. São sobreviventes! E ouso mesmo a dizer que há momentos felizes, quando por exemplo vejo Rubão brincando com o garçom do bar que fica na esquina. O rapaz trabalha para evitar que o outro perturbe os clientes. Às vezes grita, outras o pega pelo braço e indica direção oposta, mas também é quem o alimenta, brinca e, solícito, busca isqueiro para acender o cigarro do amigo.

Antes de terminar este volto à janela. Rubão está lá, firme e forte em frente à doceria. Parado de forma a observar a televisão acima dos freezers. Está lá, com a postura de dono da rua, peito aberto, corpo ereto, quase desafiador. Como se dissesse “a rua é minha, daqui não saio, ou saio quando quiser”.  Está sem máscara, sorridente, falante, os braços dançando pelo ar em papo com interlocutor invisível. E constato o medo que sinto das ruas, da pandemia, do contágio. E torço, rezo, para que tudo corra bem para esses meus caros vizinhos.

Até mais!

O Ridico e o Lambrecado

Felicidade é não ser ridico e lambrecar o prato

O cérebro, que desconhece os limites do ir e vir, leva-nos para muito além do espaço e do tempo e, para isso, enche nossas noites de sonhos. Tempos de reclusão imposta ao corpo, dei de sonhar com gentes da minha infância, cenários já desfeitos por reformas e mudanças. É incrível a quantidade de imagens reservadas na tal massa cinzenta e que, imprevisíveis, brotam sabe-se lá por qual motivo nessas noites pandêmicas. Eu que não vou tirar emprego dos discípulos de Freud. Ocorre que, lembrando ao acordar de sonhos recentes, com esses emergem palavras lá das profundezas das memórias. Algumas, voltei a usar.

“Me lambrequei todo!” Disse irritado após um acidente na cozinha quando, tentando socorrer uma tampa que caia, deixei uma vasilha cheia de gororobas sujar minha barriga, minhas pernas, o chão. “O que aconteceu?” Acudiu-me o Flávio e eu, irritado: “Tô todo lambrecado!”. Ele riu, já meio que habituado às estranhas palavras que tenho usado. “Você inventou essa palavra”. Claro que não, lá em Minas, na infância, a gente usava direto. Lambreca, lambança, lambuzado… E a memória se fez presente.

Um dia deixaram Walcenis, minha irmã, tomando conta dos sobrinhos. Dois, três? Com certeza, dois sobrinhos e nosso irmão caçula. Logo, no mínimo três crianças. Lá pelas tantas, uma delas encheu as fraldas no que resulta na plenitude da palavra em questão: “Ela ficou toda lambrecada de merda”! Eram sobrinhos, minha irmã não tinha traquejo nem a sina das mães em resolver tal problema e o jeito foi apelar pedindo socorro à D. Doralva, nossa vizinha que, prontamente, deu banho na criança feliz e aliviada.

Antes de entrar na segunda palavra, ridico, cabe uma digressão. Eu já pesei 55kg! Em priscas eras, com 1,84m eu era muito magrelo. Foi marcante ligar para Uberaba e dizer para minha mãe: “- Estou pesando 56kg!” Ela festejou e o tempo passou. Corre por aí que, com a idade, a gente engorda um quilo por ano. Soma-se à idade comilanças durante a pandemia e… Me descubro com 96kg.  E constato que lá se vão  uns 41kg, ops,  anos de quando liguei para Dona Laura.

96kg não seriam problemas se a distribuição desses não fosse cruel. Certamente, de todo o peso adquirido a maior parte está concentrada na pança (palavra adequada para a atual situação). A gente segue a vida, de bermuda e camiseta, até o momento em que se faz necessário usar uma calça comprida e… uma, duas, três, quatro calças destinadas para doação por excesso de cintura do dono. Bora retomar antigos hábitos e assumir um regime.

Hora da refeição peço ao Flávio (ele, de novo!) para abastecer meu prato. O dito cujo come feito um passarinho e eu, justificando meu apelido palmeirense, encho o prato feito um porco. Ao pedir ao jovem esguio e equilibrado para me servir sei, por experiência de vida, que ele naturalmente diminuirá as minhas porções de refeição. Entusiasmado com a função ele, ao invés de uma colher de arroz, por exemplo, passou a me servir meia colher. “Ridico!”

O embate estabelecido entre a gula e o comedimento resultou no conflito exposto com a palavra vinda lá da infância: Ridico. Ele riu e corrigiu: “- Ridículo?” “Não, ridico mesmo, você está ridicando comida!”. Nova acusação de estar inventando palavra e, confesso, a dúvida bateu. Será que existe “ridico” ou só a gente falava assim? Antes de ir ao dicionário apelei para o argumento de “autoridade”: nós mineiros falamos assim. E o cara me olhou com aquela expressão de “tá inventando coisa”. Pois bem, está lá, bem claro. Ridico: avaro, sovina, mesquinho. Ele sorriu com a definição e sentenciou: “Você que pediu!”.

E assim estou eu, tentando comer menos e evitando me lambrecar. Poderia terminar falando do incrível universo dos sonhos que, de quebra, levam-nos a lembrança de palavras e expressões tão antigas quanto nossa memória. Prefiro reclamar: Estou com saudade de um bom pedaço de pudim, mas o ridico – exímio chef de pudins – disse que engordarei quatro kg com a iguaria. Vida difícil!

Tem Coelho no Trem!

Pasqualino Ostereistedt, um coelho alemão radicado no Brasil, comerciante informal de ovos de Páscoa e de similares, é o próximo convidado do Trem das Lives, neste domingo, 4 de abril. O simpático mamífero virá nos contar sua origem e outros costumes e histórias dessa data comemorada em todo o mundo. A live é parte alusiva às datas comemorativas, da série criada por Fernando Brengel e Valdo Resende

PASQUALINO OSTEREISTEDT, O SETE BELEZAS

Nascido na pequena cidade de Ostereistedt, no Norte da Alemanha, na Baixa Saxônia, único macho de uma prole de oito filhos, Pasqualino tem sete irmãs, daí o codinome Sete Belezas. Comerciante dos ovos produzidos pela esposa, o Coelho mais querido encarrega-se, junto aos filhos – ele tem dezenas – de entregar todo o chocolate produzido em casa.

Guardião dos costumes e lendas da sua terra, Pasqualino adora conversar e contar suas histórias, embora se meta em confusões frequentes, dado ao jeito rebuscado de resolver certas situações. Em crise quanto aos ovos tradicionais e a nascente produção de ovos veganos, Pasqualino está encrencado e busca refúgio, quando nos encontra para um bate-papo.

Dos costumes pascais ao universo pop dos coelhos, incluindo entre outros as coelhinhas da Playboy, o mega star Roger Rabbit e o temido Sansão da Mônica, o Trem das Lives vai brincar de teatro e de contação de histórias via live “tradicional”, ou seja, uma entrevista com direito a pitacos dos viajantes, seguidores do nosso Trem.

OUTRAS PERSONAGENS DO TREM DAS LIVES

Terceira personagem de uma série em andamento, Pasqualino Ostereistedt vem fazer companhia a Papai Noel, que encantou e alegrou o Natal do nosso público e, também, a Fernandito Bombonera, astrólogo argentino que, em janeiro passado fez humoradas previsões para os viajantes do Trem das Lives.

A ideia, segundo os criadores Fernando Brengel e Valdo Resende, é manter o formato live, ou seja, uma entrevista com possíveis interações com os internautas, mas contando e celebrando as festas comemorativas via personagens tradicionais do folclore mundial. Outros virão? Provavelmente! O formato se manterá? Nosso norteador é a criatividade e a vontade de estar em sintonia com nosso público.

Alternando criação e entrevistas com convidados reais, o Trem das Lives vem ampliando horizontes, apresentando escritores, músicos e profissionais de destaque que interessam para que tenhamos um painel da diversidade criativa do povo brasileiro.. As viagens desse trenzinho ocorrem aos domingos, no Instagram, às 18h00, com duração de 1h. A divulgação é feita pelos idealizadores e convidados via Facebook, Twitter e o próprio Instagram.

SERVIÇO:

Pasqualino Ostereistedt, o Coelho da Páscoa no Trem das Lives

Domingo, 4 de abril, 18h no https://www.instagram.com/tremdaslives/

Rafael Sena e as Paralímpiadas no Trem das Lives

Nós, professores, ficamos muito felizes quando nossos alunos conseguem êxito profissional. No próximo domingo, o Trem das Lives fará um encontro entre Fernando Brengel e Rafael Sena; este, foi nosso aluno (Meu, do Brengel, Claudia Bouman, Regina Cavalieri… ) no Campus Marquês. Veja abaixo as informações sobre a live e o texto de Brengel para a apresentação do nosso convidado.

Jovem, extremamente ativo, Rafael Sena conheceu muito cedo o sucesso profissional.

Após perambular por expressivas empresas de relações públicas e de conteúdo, o publicitário especialista em comunicação digital encarou um desafio monumental: coordenar as redes sociais da Olimpíada Rio 2016. Trabalho deliciosamente insano e motivador. Três anos divulgando aspectos do maior evento esportivo do mundo.

O imenso fôlego do Rafael cravaria, logo em seguida, outra marca importante. Após voltar do exterior de um misto de férias e estudos, assumiu o cargo de Supervisor de Marketing do Comitê Paralímpico Brasileiro.

No Trem das Lives desse domingo, o entrevistado mostrará o que pouca gente conhece, os bastidores daqueles que têm por missão informar o público a respeito de encontros esportivos do porte das Olimpíadas e Paralimpíadas. Histórias saborosas, emocionantes e, acima de tudo, reveladoras do nível de profissionalismo envolvido.

Um dos temas da entrevista centra-se nas questões afeitas às competições desse ano, a serem realizadas em um momento atípico da História devido à pandemia.

Embarque correndo.

Domingo, 28.03, 18h00

instagram.com/tremdaslives

Viagem Nº 2

Oh tristeza, me desculpe

Estou de malas prontas

Hoje a poesia veio ao meu encontro

Já raiou o dia, vamos viajar

               Estava aqui, com meus botões já gastos de tanto confinamento e, de repente, deixei a memória ir longe, onde tudo é possível. Com jeitinho, tudo é até melhor, mais bonito, mais saudável. Benditas lembranças que nos permitem ir para onde a gente bem quiser. E viajar está, desde sempre, entre as coisas que mais gosto. Pode ser para logo ali, ou lá, mais além-mar. No final da estrada, onde Judas perdeu as botas. Nos cafundós desse Brasil imenso…

Vamos indo de carona

Na garupa leve do vento macio

Que vem caminhando

Desde muito tempo, lá do fim do mar

               O vento me leva para a estrada, pela Via Bandeirantes, e só me sinto saindo de São Paulo quando passo pelo Pico do Jaraguá. Começam a surgir mesmices reflorestadas, mas verdes, plenas do verde e, em dias bons, do perfume de eucaliptos. Pensamento recorrente, ressinto-me da falta de verde e a memória me joga lá pra adolescência, em Uberaba, quando pegava a bicicleta e ia pra zona rural (Na época era zona rural). Passava o posto da Fepasa de Amoroso Costa e entrava no corredor de gado, passando por Rodolfo Paixão e sempre parando em encruzilhada, para onde era só mato, descansando e meditando sobre… nada.

Vamos visitar a estrela da manhã raiada

Que pensei perdida pela madrugada

Mas que vai escondida

Querendo brincar

               Minha estrela está além da Bandeirantes, entrando pela Via Anhanguera afora até atravessar o Rio Grande e entrar em terras de Minas. O percurso é longo e, sem pressa, vou degustando a viagem. Nem passei por Jundiaí! De um lado da estrada a cidade, e do outro, fazendo uma linha com o horizonte, um campo de aviação onde é possível ver aviões decolando ou pousando. Aviões ínfimos se comparados aos maiores que, daqui a pouco, serão vistos à esquerda de quem sai de Sampa. Descem e sobem no rumo de onde deve estar Viracopos, onde trabalhei e depois, muito tempo depois, voltei como passageiro.

               Escolho deixar a Bandeirantes e entrar no primeiro trevo da Anhanguera, em Campinas. Penso nos meus avós, nos meus tios e sigo em frente. Passo pelo que restou da Bendix, onde trabalhei e, no lado oposto ao da empresa, vejo ao longe o bairro onde morou minha prima Dalva. Há muito não vou por lá.

Senta nessa nuvem clara

Minha poesia, anda, se prepara

Traz uma cantiga

Vamos espalhando música no ar

               Antes que Campinas fique para trás vem forte a lembrança de meu irmão. A entrada da Via Dom Pedro (nunca sei se é primeiro ou segundo) sai em direção ao bairro onde Valdonei morou. Sinto saudade e vou rezar por ele quando passar em frente à Igreja de Nossa Senhora Aparecida, que lá atrás o Pe. Líbero não quis como paróquia por estar isolada, muito isolada. Ela está próxima de escombros do que um dia foi a fábrica de óleos Minasa, onde também trabalhei. Por seis meses! Esse pedaço da estrada pesa um pouco. Melhor tocar em frente.

Olha quantas aves brancas

Minha poesia, dançam nossa valsa

Pelo céu que um dia

Fez todo bordado de raios de sol

               Deixo a mente vagar e só vou atentar para outra fábrica, de cachaça, em Pirassununga. Meu padrinho Nino era chegado em pinga. “… Porque gosto dela, bebo da branca, bebo da amarela, com limão, cravo e canela…” Em Pirassununga ele cumpriu obrigação de jovem, no exército. Meu pai gostava de atirar, se destacou em tiro ao alvo, no exército. Eu gosto de exército circunscrito ao exército, se estou sendo bem claro.

Vai demorar um bocado pra chegar a Ribeirão Preto. O reflorestamento ainda aborrece, mas já consigo ver resquícios de mata ciliar, de montes cobertos por… quem sabe, mata original. Há um imenso aclive no que pessoalmente chamo de Serra de Santa Rita. São quatro quilômetros de subida que sempre, na volta, descíamos na banguela economizando gasolina. E nem estava no preço que está hoje! Logo passarei por Cravinhos e por Ribeirão Preto.

Oh poesia, me ajude

Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias

Pelos campos verdes

Que você batiza de jardins-do-céu

               A Via Anhanguera tornou-se uma longa marginal que atravessa Ribeirão Preto. Em direção a Minas fiz todo o trecho que vai do trevo principal, entrada para a cidade, até o viaduto da Fepasa, sobre a estrada que, quando eu era criança, ficava em pleno mato. Duas caminhadas memoráveis:

Com papai e mamãe saímos de trem de Uberaba para Ribeirão Preto. A estação de trens era bem nova, mas estava no meio do mato. Por indicação da minha tia Olinda, descemos do trem e caminhamos pelos trilhos (quem está na estação de Ribeirão Preto é sentido Campinas) até o tal viaduto, descendo deste até a estrada e, mais uma boa caminhada, até chegar à Vila Abranches.

Dessa mesma Vila, outra vez saí com meu primo, caminhando pela estrada em direção oposta, até o trevo (na época era o único) e, entrando para a cidade, passávamos por uma fábrica de bolachas, de onde sempre vinha um cheiro delicioso de coisas assadas. Uma caminhada tranquila, interrompida por um temporal de verão. Entramos ensopados pela cidade e, como dois bons adolescentes, tomamos rumo da Praça XV de Novembro onde não tomamos chopp do Pinguim, mas tomamos sorvete sentados nos bancos da praça.

Mas pode ficar tranquila, minha poesia

Pois nós voltaremos numa estrela-guia

Num clarão de lua quando serenar

               Nunca mais voltei. A cidade passou a ser um ponto por onde vou ou volto. Passando pela Vila Abranches recordo canções ouvidas na infância, leite tomado quentinho, ouvindo o barulho dos animais todos da chácara de D. Dina. A estrada pede caminho, ir em frente, vou passar pelo Rio Pardo e olhar em direção a Jardinópolis, por onde gostava de passar quando viajávamos de trem. Em Orlândia, inevitável, vou recordar uma viagem com Tia Amélia, para visitar meus padrinhos Toninho e Rosária, queridos, muito gentis. Em São Joaquim da Barra passo por uma placa que anuncia faltarem 100 quilômetros para Uberaba. Dependendo do motivo da viagem rola desespero ou alívio…

               Pioneiros é um local que um dia foi chamado de Bacuri. Fica logo após São Joaquim da Barra e é um lugar da maior importância. Lá nasceu minha mãe, Laura, batizada no município vizinho. Não é o momento de entrar e rever as velhas casas que restaram da extinta estrada de ferro que, atualmente, passa longe dali. Passando por Buritizal já me sinto próximo de coisas de Guimarães Rosa. Minas está perto.

Ou talvez até, quem sabe,

Nós só voltaremos no cavalo baio

O alazão da noite

Cujo o nome é raio, raio de luar.

               Já estou ansioso e não vejo a hora de atravessar o Rio Grande, quando nunca deixei de pensar: cheguei! Minas tem um cheiro, um ar… Minas tem as montanhas, e logo após o Rio começa um brincar de montanha russa, com um sobe e desce de responsa. A memória, bendita memória. Essas longas subidas e descidas me lembram Beto Rockfeller, o inesquecível personagem interpretado por Luís Gustavo. Pra fazer firulas com a namorada, o Beto apostou que chegaria de helicóptero em uma festa. Para conseguir a aeronave, alegou aos proprietários que precisava levar um doente para Uberaba. Aquele sobe e desce horrível da estrada tinha que ser evitado e, para isso, só voando. Conseguiu.

               São angustiantes os minutos que antecedem passar pelo Catetinho, um antigo restaurante atualmente em ruínas. Às vezes parecem eternos, o trecho longo demais, enlouquecedor de tão longe. E o pior é ter a certeza de que, quando na volta, passará rapidíssimo, aumentando o distanciamento da cidade amada. Mas passo pelo Catetinho, logo, logo, por uma ponte sobre a estrada de ferro, e aí não tem mais lero-lero. Estou em Uberaba.

Vamos visitar a estrela da manhã raiada

Que pensei perdida pela madrugada

Mas que vai escondida

Querendo brincar

Já sinto cheiro de café, pão de queijo, bolo… Sinto o calor de abraços, a ternura de beijos.

Estou com meus sobrinhos, meus irmãos, meus pais… Bendita memória! Benditas lembranças!

Com licença, tá na hora de curtir a família.

Até mais.

Notas:

Viagem (a número um, letra que me inspirou aqui) é canção de João de Aquino e Paulo César Pinheiro. Convido você, leitor, a ouvi-la na interpretação de Marisa, a Gata Mansa.

Trem das Lives no YouTube

Um canal com os registros dos vídeos realizados pelo Trem das lives já está disponível. Os interessados podem interagir e, inscrevendo-se, receber as novidades que estamos preparando para o canal. Logo teremos todos os registros das lives disponíveis para todos.

Inscreva-se aqui! E divirta-se!

Para Uberaba, aqui de longe

Sei que ainda vou voltar… onde hei de ouvi cantar uma sabiá (Chico Buarque, Tom Jobim)

Um ano sem ir a Uberaba (maldita pandemia!). Toca a viver de lembranças…

E eu sinto uma saudade insana da estrada, da sensação de voltar, chegar na cidade onde nasci.

As primeiras saídas, tentativas de mudança foram confusas. Era um querer vir, não querendo, diria a personagem popular. Era comum viajar chorando, o rosto escondido, olhando a noite pela janela do ônibus. A juventude garantia ânimo e força para voltar na semana seguinte. Era o ir e vir constante, gerando sextas-feiras de ansiedade, segundas-feiras de cansaço.

São Paulo e a vida, aos poucos, exigindo outras posturas. E de uma vez por semana, passei a visitar a cidade uma vez por mês. Não contabilizei o tempo. Mas o trabalho foi exigindo e, aos poucos, a vida mudando… Uberaba passou a tomar todos os feriados.

Tempo, tempo, tempo… E chegou o período de ir só nas férias, em aniversários especiais, visitas a doentes. Nunca mais que quatro meses sem visitar a cidade. Não pensava, nunca cogitei de ficar distante um ano inteirinho.

201 anos! O ano que não vi. Um ano!

Ano passado era pra ter sido uma festa enorme, a gente comemorando o bicentenário da cidade com lançamento do Uberaba 200 anos – No Coração do Brasil, “Euzinho” lá, entre os poetas da cidade no livro organizado por Martha Zednik de Casanova.

Foi o que tinha de ser.

Hoje acordei após sonhos. Nesses, estava lá, como em muitos outros. Esta quarentena infinda não manda nos meus sonhos. E o bom de sonhar é que o tempo não conta. Vejo meu quintal como há muito não é mais, com goiabeira, laranjeira, mamoeiro, jabuticabeira… Sonho com o quarto que dividi com meu irmão e que, após ele se mudar para Brasília, pintei todos os móveis de preto, para desalento da família (Eu era dark e não sabia!). Sonhos… Minha cidade dentro dos meus sonhos.

Uberaba! Tá na hora de pedir versos emprestados a Caetano Veloso:

“por mais distante, o errante navegante, quem jamais te esqueceria…”

A pandemia ainda está aqui, aí, em todo o Brasil. O que deveria ser festa pede apreensão, cuidado dobrado. Recebo notícias de minhas irmãs, trancadas sem que sejam Carmelitas, Concepcionistas. Não vão ao Carmelo, à Medalha Milagrosa. Não vão a lugar nenhum. E, daqui, reitero: Não saiam! Tomem cuidado! A vacina taí!

“por mais distante, o errante navegante, quem jamais te esqueceria…”

Por mais que vivamos tempos sombrios, ninguém vai nos tirar os sonhos, os desejos. Por isso lá vai meu desejo maior neste 02 de março:

Feliz aniversário, Uberaba! Que todos tenham saúde!

Que todos os doentes se curem! Que todos sejam vacinados.

Que possamos estar juntos novamente, presencialmente!

Feliz aniversário, Uberaba!