Um casamento para celebrar a vida

Casamento do Robinho
Robson Germano e Flávia Paggioli – O casal!

Pausa para o casamento de Flávia e Robinho. Pausa para nós todos, mais para os dois, pois para eles foi consequência de um sem número de tarefas e procedimentos concretizando no papel uma bela união. Unidos já estão, o amor já é grande, mas a sociedade precisa de papeis e um casamento é sempre um bom momento para celebrar o amor e a vida.

A persistência está entre as melhores qualidades do ser humano. Que importam as pinimbas de governantes que ameaçam resolvê-las com bombas sobre o planeta? Deixa pra lá as inseguranças de quem não consegue encarar um nu com a tranquilidade de ver um reflexo de si ou, no máximo, do reconhecimento do sexo oposto. A vida segue e o lance é buscar a felicidade, a vida em comum, o compartilhamento de todas as coisas possíveis quando há o afeto. Fiquei pensando nessas bobagens humanas enquanto aguardava o momento da cerimônia, tendo a certeza de que o que realmente importa é celebrar os grandes afetos. É para amar que estamos no planeta.

Robinho é daquelas pessoas em que o adjetivo amável cai como luva. Amigo de muitos anos, Robinho tornou-se amigo e membro da minha família. Dono de uma alegria imensa, ele contagia e espalha alegria por onde passa. Quem o presencia brincando com crianças ou com animais tem a dimensão exata do ser humano que ele é. Acredita-se um ser de sorte e, certamente por ter esta é que encontrou a Flávia.

Flávia é batalhadora. Uma menina doce, suave, que trabalha o próprio corpo e o corpo de seus alunos – professora de educação física que é! – sem deixar de exercitar a sensibilidade, pesquisando e trabalhando com música eletrônica. Com Robinho forma um par inequívoco. Gostam de diversão, apreciam as boas coisas que há por aí sem deixar de lado as atitudes responsáveis para seguir em frente; com segurança, tranquilidade e muito afeto.

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Fiquei feliz em testemunhar o enlace. Padrinho! E insisto: É muito bom perceber que, embora tenhamos corrupção de sobra no país, ameaça de guerra atômica, indivíduos querendo destruir obras de arte e mais um monte de coisas ruins, há gente, muita gente, insistindo em investir no amor, nas relações familiares, na convivência com os amigos. Um casamento é o princípio de uma família e espero,com todo o coração, que tudo dê certo. Que sejam felizes, que permaneçam unidos, que tenham um ao outro para enfrentar todas as barras do cotidiano.

Meu amigo Robinho agora é um homem casado. Quem o conhece deve sorrir um pouco com essa frase, mas ao mesmo tempo sabe que ele será o melhor dos maridos. E eu, que conheço também a Flávia, afirmo a máxima que neste caso me deixa muito feliz: Deus fez, Deus uniu. Um belo casal. E que assim permaneçam.

Até mais.

O que é arte mesmo?

arte

Todo radicalismo é, no mínimo, chato. É tenebroso, doentio, prepotente, soberbo, orgulhoso e, a história registra, também é assassino. E burro! Irritantemente burro. Ultimamente temos presenciado radicalismos da direita – o que implica haver outro, o da esquerda. Ambos teimam em impor modo de ver, sentir e viver aos outros. Radicais são donos da verdade, embora nem sempre se saiba o que é a verdade.

Temos agora um imenso contingente de pessoas alçadas à categoria de críticos de arte, com posições assentadas em moral, bons costumes, religiões e ninguém, mas ninguém mesmo, citando Tatarkiewicz (A Grande Teoria) ou, então, Pareyson (A teoria da formatividade in Os Problemas da Estética). Isto pra citar dois, entre os grandes teóricos. Exposição, peça de teatro, um quadro, foram vítimas de uma censura ilícita (já que não há censura no país) e entre os argumentos vem o costumeiro atentado ao pudor assentado na conclusão de que “Isto não é arte”.

Seria pedir pouco ao receptor de denúncias que conceituasse a dita cuja, já que, acatando acusações e determinando a suspensão de eventos ou a retirada de objetos expostos, juízes e delegados devem, no mínimo, saber sobre o que estão agindo; portanto, sabem o que é arte e, assim sendo, quem poderá dizer que temos profissionais despreparados?

Venho lecionando há mais de duas décadas em universidades e nunca encontrei alunos que soubessem conceituar arte. Ok, lá é um lugar para se aprender. No entanto, é de se estranhar que o indivíduo passe por oito, dez anos de escola e entre na universidade sem a capacidade de conceituar sobre algo que está presente no cotidiano de todo mundo. Todos falam de arte, todos reconhecem produtos e manifestações artísticas, mas o que é arte mesmo?

Profissionais de medicina têm agido sobre o rosto de muitas pessoas, em procedimentos de estética duvidosa, mas ninguém questionou se isto é medicina ou não. E quando morre-se de calor em construções já condenadas à ação de aparelhos de ar condicionado não se questiona se tal local é ou não obra de engenharia. Outros exemplos são possíveis, mas creio que medicina e engenharia são um bom mote para indagar sobre motivos que levam indivíduos a discutir arte, principalmente aqueles que confundem arte com entretenimento.

Sobre a pecha de “arte” e “artistas” há muita coisa por aí, feita inclusive por gente que gaguejaria quando questionada sobre a imitação e a mimese em Platão e Aristóteles. O que diriam os moralistas de plantão sobre o paradigma formalista de Clive Bell ou com que prazer orientariam suas falas com base no que Collingwood escreveu (The Principles of Arts).

Creio que os radicalistas que andam se manifestando por aí não querem saber de Platão, Tatarkiewicz, Bell, Collingwood, Pareyson… Querem é impor sua ignorância e sua interpretação de mundo sobre os demais. Querem que todos vejam a lascívia que está na mente deles, a pornografia, a zoofilia; uma moral que é boa pra manchete de jornal e pra alardear uma preocupação com o que outro deve ver e fazer.

Tenho estudado arte ao longo de toda a minha vida. Não sou teórico, sou estudioso. Acredito profundamente a arte como elemento questionador que propõe reflexão e que, quando julga, deixa de ser arte. Não vou, neste post, publicar as definições de arte aceitas pela comunidade acadêmica e que têm norteado meu trabalho profissional. Vou sim, questionar os críticos de plantão, moralistas de ocasião, donos da verdade: O que é arte mesmo? Conceitue!

Até mais!

Entre Jeanne e Brigitte

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Jeanne Moreau e Brigitte Bardot em “Viva Maria!”

E lá se foi Jeanne Moreau. Com seu rosto doce, grandes e expressivos olhos. “Uma Mulher Para Dois”, “A Noite”, lembranças de filmes dos anos de 1960. Acompanhava minha irmã Waldenia em cineclubes e fiquei impressionado com a moça francesa, a atriz talentosa. Todavia, eu era criança. E havia Brigitte Bardot, com pseudo ingenuidade em corpo deslumbrante. Havia o sorriso de Brigitte, seus olhos brilhantes, os cabelos loiros…

Não havia grandes problemas, mas para os radicalismos da juventude, o incômodo era considerável. Em terras tupiniquins eu também me dividia entre Elis Regina e Wanderléa. Para algumas cabeças isso era quase impossível. Eu resolvera o impasse, temporariamente, via astrologia onde, dizem, os do signo de gêmeos gostam de “todo o mundo”. Não era bem assim; eu tinha meus desafetos e, hábito desde então nem vou citá-los, mantendo-os no devido limbo.

Mais que bonita, Jeanne Moreau foi uma mulher forte. Dessas atrizes marcantes ao darem vida a personagens que retratam uma época, refletem mudanças e transformações consideráveis como, por exemplo, nos filmes “Duas Almas em Suplício” ou então em “Jules e Jim”. Brigitte, por sua vez, foi um grande símbolo sexual, o que por si, para a época, já se constitui em marco considerável. Encantou meio mundo em “E Deus Criou a Mulher” e marcou, ao lado de Marcelo Mastroianni, em “Vidas Privadas”.

Um dia chegou a notícia de um filme com as duas francesas. Já chegou com o rótulo de golpe comercial, visando grandes bilheterias. O roteiro é uma brincadeira onde duas Marias tornam-se grande atração de um circo ao, “acidentalmente”, inventarem o strip-tease e, de sobra, tornando-se líderes revolucionárias… Um grande sucesso onde as moças esbanjam beleza, simpatia e talento, com ambas concorrendo a prêmios de melhor atriz pelo filme.

Nunca soube se foram amigas. Brigitte deixou de ser atriz e tornou-se ativista em prol dos animais. Jeanne, na década seguinte, veio ao Brasil para filmar com Cacá Diegues. Fez Joanna Francesa, cantando no filme a música de Chico Buarque. E pra continuar firme em meu coração compareceu, nos anos de 1980, em disco de Maria Bethânia declamando “Poema dos olhos da amada” (Vinicius de Moraes e Paulo Soledade).

E lá se foi Jeanne Moreau. Morte sentida como a de grandes amigos distanciados no tempo e na geografia, mas nem por isso menos considerados. Jeanne foi uma atriz; uma grande atriz! E gostando de Jeanne e Brigitte aprendi a distinguir atriz de estrela. Brigitte, mais que atriz, foi uma grande estrela. Daquele tipo de estrela que não precisa de filme pra ser lembrada. Jeanne, além da beleza, será lembrada também pelos filmes, pelas canções, pelo trabalho cuidadoso. Que descanse em paz!

Até mais!

Lá vamos nós… Outra vez.

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Das abstrações humanas penso que o tempo está entre o que há de mais incrível, uma criação ímpar, infinitamente superior a qualquer objeto, qualquer bugiganga; superior até mesmo à, por enquanto utópica, máquina do tempo.

Lá vamos nós, para mais um semestre. Derivado do tempo, o calendário nos informa que passamos a primeira metade de 2017 e vamos em frente, rumo ao futuro. Este futuro vai se fazendo a cada novo instante; por conta do tempo, colocamos o que virá lá pra onde não sabemos, onde seremos outros, faremos novas coisas, continuaremos até, lembrando Fernando Sabino, sermos interrompidos antes de terminar.

É difícil seguir sem pensar no que vai ficando, no tudo que já passou. Às vezes seguimos meio que instintivamente, respirando porque assim os pulmões exigem, buscando comida quando o estômago grita. Levamos perdas, e guardamos dia, mês e ano do tempo findado para aqueles muito amados. Respiramos fundo, dolorido, e de pé, seguimos.

Nas beiras vamos deixando o que não acrescenta; o que pouco vale. O tempo, quase sempre, é benção infinita pra quem não carrega o que merece ficar esquecido às margens: mágoas, raivas, desprezos, iras, contratempos menores. Os que são sábios deixam nas beiras ansiedade, o consumo idiota, a vaidade obsoleta, as mesquinharias todas da vida. Por aqui tenho muito que aprender!

O tempo! Difícil pensar a existência sem ele. Creditamos ao mesmo nossas rugas e o corpo deteriorado tanto quanto a experiência adquirida, os bens conquistados. Nele depositamos todas as esperanças de uma vida melhor, de um mundo mais justo. Tanto quanto qualquer filosofia ou religião é o tempo que nos permite pensar presente e passado, prospectar futuro e, se Deus permitir, sonhar melhores dias, outros tempos.

Lá vamos nós. Mais um semestre! Estamos cheios de receios nesses tempos que vivemos, tentando vislumbrar o que nos aguarda e o que nos reserva o futuro. Prosseguimos pensando no que passamos, em tudo o que ficou e que, bem ou mal, bom ou ruim, constituiu-se na experiência que, embora nem sempre de todo aproveitada, nos permite ter esperança de melhores dias.

Das abstrações humanas penso no tempo, tenho fé.  Talvez seja a fé o que há de mais incrível, o sentimento mais bonito…

Até mais!

 

O hábito

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Antonio Fagundes respondeu com tranquilidade quando Pedro Bial perguntou sobre sua formação literária, sobre suas primeiras leituras: – Gibi, respondeu Fagundes; tal expressão diz bem a idade do ator; hoje em dia falam HQ. Como ele, li Gibi. E fotonovelas, e fascículos de radioteatro, e tudo ao que tive acesso, incluindo as famosas revistinhas de Carlos Zéfiro, que meu irmão denominava “catecismo”.

A entrevista fez-me buscar na memória as primeiras leituras… Vamos lá! O que ficou:

Primeiro, os fascículos de O DIREITO DE NASCER. Não ouvi a novela transmitida pela Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, ou pela Rádio Tupi, de São Paulo. E pouco vi da primeira versão da novela para a televisão. Todavia, em um quartinho que havia nos fundos da oficina onde meu pai trabalhava, estavam lá vários fascículos de resumo da novela, com fotos nas capas dos artistas participantes.  Eram muitos fascículos e devo ter lido todos, embora guarde apenas os detalhes principais da novela cubana escrita por Félix Caigne.

Também li gibis. Os primeiros foram dos habitantes de Patópolis, a cidade criada por Walt Disney. Donald, Peninha, Tio Patinhas, Margarida… Todos os personagens de Disney me são familiares, mas nenhum deles supera “O Fantasma”, personagem criada por Lee Falk. É muito genial a ideia da personagem existindo eternamente, o filho tomando lugar do pai. E tinha todo o exotismo africano, dos pigmeus…

Foi a foto de um ator, vestido a James Dean, que me chamou a atenção para as fotonovelas. O ator era Raimondo Magni. Segundo um internauta, dono de uma página que sigo, a fotonovela é de 1962. O título é “Quando o amor chegar” e foi publicada pela revista Capricho. Não lembro nada da história… Nem sei se conseguirei ter acesso, mas foi bom saber que existe e que, por estar já no tal quartinho, isso deve ter ocorrido lá pelos idos de 1963 ou 1964…

Ainda criança, a Jovem Guarda imperando, li tudo o que saia nas revistas sobre Wanderléa. E ganhei de um amigo, alguns números da revista Intervalo, que guardo com o maior carinho. Pura paixão!

Para gostar de ler é preciso ter acesso ao que ler. É o que penso. Dos primeiros textos fui para os contos de fadas. As mais belas histórias, em versão escrita por Lúcia Casasanta foram lidas e relidas. E depois vieram os livros; como cheguei aos mesmos está aqui mesmo, em post anterior.

De todos os meus hábitos de infância é a leitura o que mais prezo. O que nunca deixei. Foi o que, sem planejar, preparou-me para o trabalho que mais gosto: Escrever. Funciona como companhia, como terapia… Portanto, reiterando Fagundes, coopere na formação do hábito da leitura em filhos, sobrinhos… Deixe que leiam gibis, ou HQs.

Até mais!

Sobre o 21 de Maio

O que dizer da ação conjunta do governo e da prefeitura de São Paulo, no último domingo, em ação devastadora na “cracolândia”? Balas, bombas, cassetetes e gritos, empurrões…

Sumiram as palavras e expressões adequadas perante tanta barbárie. E os versos do poeta, falando de escravos, para assinalar outra escravidão:

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Senhor Deus dos desgraçados!  
Dizei-me vós, Senhor Deus!  
Se é loucura… se é verdade  
Tanto horror perante os céus?…

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Quem são estes desgraçados  
Que não encontram em vós  
Mais que o rir calmo da turba  
Que excita a fúria do algoz?  
Quem são?…

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Existe um povo que a bandeira empresta  
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…  

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Prefeito e Governador alardeiam religião. Rezam pra outro Deus que não esse do verso, esse Deus dos desgraçados.

A TV comenta o fato como triste “lado” da situação. Os moradores da vizinhança reclamam de “zumbis” vagando e colocando-os em perigo. Poucos clamam soluções, poucos choram os infelizes sem teto, sem lar, sem espaço. Só posso entender tanta chuva enquanto lamento do céu.

Existe um povo que a bandeira empresta…

Antes te houvessem roto na batalha,  
Que servires a um povo de mortalha!…

Até mais!

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Os versos acima estão originalmente em O Navio Negreiro, de Castro Alves.