Os cartazes anunciavam liquidação total; tudo com 50% de desconto! A loja chamando a atenção de poucos consumidores e o fim, melancólico, provocou-me angústia, desalento. Na Avenida Paulista, quase esquina com a Avenida Brigadeiro Luis Antonio, ocorre os momentos finais de uma loja de discos. Não posso precisar a quanto tempo era a única, posto que os tais produtos, além da solitária portinhola, só são encontrados em seções também decadentes de grandes lojas.
Mudanças são inevitáveis. Sem que eu percebesse as máquinas de escrever desapareceram do mercado e, da mesma forma, os discos 78rpm foram embora, assim como os Compactos, os Compactos Duplos, os LPs… Todavia, a lojinha da Paulista estava ali, guerreira, enfrentando com galhardia as possibilidades do ciberespaço. Eu compro CDs como quem comprava, um dia, os discos de vinil. Tenho quase certeza que após “desaparecerem” das lojas voltarão como objetos Cult, caríssimos, como são agora os velhos conhecidos LPs. A constatação dos últimos dias da loja me deixou triste; mais uma perda entre as tantas deste ano e o medo de vir a me sentir mais deslocado, envelhecido… “- Meu tempo passou?”.
Final da tarde, a lembrança do fim da loja estava presente sobre a mesa, com a caixa de discos de Maysa adquirida no local. Fui em frente (isso significou ir ao “sacolão”, supermercado, açougue…) e eis que reencontro antigo porteiro que trabalhou durante muitos anos no condomínio em que moro. Aquele papo de final de ano, mais a soma de quem não se vê há tempos e constatamos que já se foram mais de dez anos que ele foi trabalhar em outro lugar.
O rapaz (dou-me o direito de preservar a identidade) era curioso e vivia consertando coisas. Orgulhava-se de mexer em rádios, telefones, chuveiros e tudo quanto é coisa, sempre se apresentando como vitorioso ao mostrar o objeto funcionando por suas artimanhas artesanais. Um pai de família, aqui era porteiro no período noturno e, durante o dia, somava outro trabalho para garantir melhor vida para os filhos.
Nosso porteiro tinha umas coisas típicas das pessoas simples. Por exemplo, ele acreditava piamente que a ligação dele excluiria um desafeto BBB. Eu voltava da faculdade e ele, com a expressão mais séria do mundo me dizia: “- Sr. Valdo, hoje tiro o fulano. Ele vai ver se amanhã está ou não no olho da rua. Acabou!” No dia seguinte, antes de abrir a porta me dizia, por entre vidraças: “- Eu não disse! Botei ele pra fora.” Um dia retruquei: “- Não foi só você” E ele, com a alegria daqueles que descobrem pontos comuns em amigos: “- Então o senhor também votou?”.
No açougue ele foi atendido antes, comprando dois tipos de carne, visivelmente feliz. Continuando o papo perguntei das crianças; dez anos passados, seriam dois jovens. “- Pois então, Sr. Valdo, meu menino tá chegando de Campinas. Estuda na Unicamp. Está fazendo engenharia. Uma dessas engenharias em que ele poderá trabalhar em quase tudo!” As carnes eram pra comemorar a chegada do moço, com um jantar mais caprichado. “– Que maravilha, meu amigo, na Unicamp!” E ele, orgulhoso: “-Pois então! Não teve pra playboy. Meu menino foi lá e conseguiu. A gente dá um duro lascado pra manter ele longe, mas vai valer a pena”.
Mudanças no mundo tais como o desaparecimento das lojas de CDs. Mudanças no nosso país onde, por múltiplas razões, o garoto humilde consegue vaga em uma universidade de ponta, entre as melhores do país. Eu poderia continuar o papo e ir além, assinalando mudanças políticas e sociais que permitiram tal fato. Bobagem. Seria invadir a vida de alguém que só estava interessado em comemorar a volta do filho com um jantarzinho caprichado.
Adeus loja de CD da Paulista. Boa sorte, futuro engenheiro, filho do meu amigo! A vida segue. Cacarecos vão e voltam, ou são definitivamente substituídos. O melhor de tudo, em um país tão desigual quanto o nosso, é ver que devagar e sempre haverá alguém subvertendo o destino – ou o sistema – para trilhar oportunidades de melhores chances.
As eleições na metrópole elegeram o atual “homem mais poderoso do mundo”. Trump e Putin são citados em listas frequentes e, entre muitos outros “mais poderosos do mundo” não há um único capaz de fazer chover ou, como ao que tudo indica para o próximo feriado, parar a chuva para que possamos passear no parque, caminhar na avenida, manter os pés secos.
Mais rico, mais poderoso, mais forte… Em nenhuma categoria encontra-se um sujeito capaz de impedir a queda de um raio, evitar terremotos e, obviamente, é raro ver tais indivíduos derrubados por uma gripe, um “piriri” ou qualquer outro situação corriqueira entre humanos já que se escondem, pois não ficaria nada bem mostrar a impotência que todos temos perante uma dor de dentes.
Embora não faça mais do que repetir atos de seus antecessores, o sujeito que nos chamou de “Porcos Latinos” deve achar-se acima do bem, do mal e até da própria morte. Ok, ele está em situação vantajosa. Seria estúpido ignorar a possibilidade de tal sujeito iniciar uma pinimba aqui, uma rusga ali e por conta de supostos perigos para com seus compatriotas o digníssimo iniciar uma guerra, impor embargos, jogar mísseis sobre cabeças inocentes; sendo assim, há que se tomar cuidado e, se possível, providências singelas, dado à pequenez de todos nós perante o “homem todo poderoso”.
Nesta semana, no Facebook, compartilhei um texto que vi na página de uma ex-aluna, Amanda Oliveira Jacon, e o lance viralizou com centenas de curtidas e dezenas de compartilhamentos. O texto que repliquei diz:
“Para quem vai comprar seus presentes de Natal, vai aqui uma sugestão: comprem os presentes de pequenas empresas. Da vizinha que vende por catálogo ou trabalha com pronta entrega, das mulheres e mães empreendedoras, de artesãos, das lojas do bairro, da doceira que faz doces artesanais, do rapaz que tem uma banca no mercado… Façamos o dinheiro chegar às pessoas comuns que também trabalham duro. Assim haverá mais gente a ter um melhor Natal. Apoiemos! Se acha que é uma boa proposta, copie e cole no seu mural”.
A ideia é ótima. Comprar dos pequenos. Sendo ou não de Amanda, é algo que pode ir além e – sonho? – fazer tremer até a “maior potência capitalista do planeta”. Imaginem se conseguíssemos a adesão de milhões para boicotar os produtos e serviços da metrópole? Xenofobia não é atitude boa para ninguém, mas deixar de consumir as quinquilharias da metrópole poderia dar ao “homem mais poderoso do mundo” a medida do poder dos pequenos. Nossa força, minúscula, tem o preço de um refrigerante, um par de sapatos ou qualquer outro bem de consumo; somando ações… É quase utopia pensar em um imenso boicote à metrópole; com certeza, ingenuidade; todavia, comprar de pequenos neste natal já pode ser um bom começo para olhar o mundo sob outro prisma.
Após levar montagens com textos que abordam a história e as características de cada cidade o Projeto Arte na Comunidade volta aos mesmos locais com um segundo texto. “Cantos e contos do Rio Paraíba do Sul” é a montagem, como o próprio título indica, sobre a região visitada e o mesmo texto foi apresentado nas cidades contempladas pelo projeto.
Conrado Sardinha, Luciana Fonseca e Rodolfo Oliveira voltaram a Cruzeiro, Lavrinhas e Queluz, onde verificaram os resultados da primeira visita (Quando solicitaram dos alunos narrativas próprias sobre as cidades) e também convidaram os mesmos para o encerramento, ocorrido em locais públicos de cada município.
“Cantos e Contos do Rio Paraíba do Sul” resgata lendas, fatos históricos e culturais da região, além de alertar para a necessidade da preservação ambiental. Escrito e dirigido por Valdo Resende, a direção musical é de Flávio Monteiro e os figurinos de Carol Badra.
Idealizado por Sonia Kavantan, o Arte na Comunidade 4 foi patrocinado pela Alupar, Taesa e apoiado pelas Usinas Queluz e Lavrinhas. Uma realização da Kavantan & Associados, Ministério da Cultura e Governo Federal.
Havendo interesse em reproduzir o texto ou interpretá-lo, é necessária a citação do motivo pelo qual o texto foi escrito e a autoria do mesmo.
CANTOS E CONTOS DO RIO PARAÍBA DO SUL
Original de Valdo Resende
Luciana Fonseca e, acima, Rodolfo Oliveira e Conrado Sardinha. Foto: Atelier da Fotografia
(CARACTERIZADO BASICAMENTE TAL QUAL NA APRESENTAÇÃO ANTERIOR O ATOR ENTRA CANTANDO A MÚSICA DE ABERTURA; CAMINHANDO POR ENTRE O PÚBLICO DEVERÁ SEMPRE QUE POSSÍVEL RESGATAR ELEMENTOS DA PRIMEIRA APRESENTAÇÃO).
Vamos brincar de teatro…
Luciana Fonseca e a letra da música de abertura. Foto: Atelier da Fotografia
Meus amigos: Voltei! Que bom estar novamente com vocês. Fazer teatro na própria cidade para os parentes, os amigos, os conhecidos é muito bom. Eu andei por toda a cidade, em várias escolas. Vou repetir meu nome; gosto que guardem o meu nome. Sou… (ADRIANO, CHICO ou PEDRO) e desta vez estou de volta para contar outros fatos, outros contos e cantos, agora da nossa região. Vamos brincar de teatro e o tema da nossa apresentação é o Vale do Paraíba, a Serra da Mantiqueira, as outras cidades do Vale. Vai ser muito legal. Vamos nessa? Quem já aprendeu a canção pode cantar comigo:
(CANTA APENAS O REFRÃO)
Vamos brincar de teatro…
Eu já andei muito por aí, nesse mundão de Deus. Fazendo peças de teatro, escrevendo e recitando meus versos. Vi muitos lugares bonitos, cidades encantadoras, regiões inteiras de uma beleza intensa, exuberante. Viajei pelo planalto, pela caatinga, pelo serrado, por florestas fechadas… Conheci as chapadas de Minas Gerais, o pantanal de Mato Grosso, nossas praias de norte a sul! Mas, nada supera o meu vale. O nosso Vale do Paraíba! É bem verdade que minha opinião é tendenciosa; como dizem por aí, cada um puxa a sardinha para a sua lata, não é mesmo? Mas, como não gostar daqui?
Eu sempre gostei de contar as histórias da nossa cidade e da nossa terra. Sempre que me perguntavam: – Onde fica a sua cidade? E pra fazer mistério, para acentuar a magia da nossa região eu respondia: – Sou das terras da A-man-ti-kir! Ninguém entendia nada e eu completava: A-man-ti-kir, a serra que chora. E escolhi contar tudo através do teatro. Em teatro, já sabem, não é, a gente pode ser tudo o que quiser!
(VINHETA. O ATOR CONTARÁ A LENDA DA MANTIQUEIRA INTERPRETANDO VOCALMENTE TODAS AS PERSONAGENS. CHAMARÁ QUATRO CRIANÇAS E ENTREGARÁ, A CADA UMA, ADEREÇOS MÍNIMOS PARA CARACTERIZAR AS PERSONAGENS. O ATOR DISTRIBUIRÁ AS QUATRO CRIANÇAS PELO PALCO, FACILITANDO O ENTENDIMENTO DO PÚBLICO).
Para contar a história da A-man-ti-kir, vou precisar de quatro crianças. Dois meninos e duas meninas. Quem quer brincar comigo? (APÓS ESCOLHER AS CRIANÇAS). Bom, fiquem atentos, cada um aqui é um personagem e eu vou contar a história e vocês ilustrarão, com o corpo e as expressões de vocês. Vamos começar.
(ENTREGANDO ADEREÇOS PARA CADA CRIANÇA)
Conrado Sardinha prepara criança para brincar de teatro. Foto: Atelier da Fotografia
(UM PEQUENO COCAR PARA UMA MENINA) – Você é uma indiazinha. (PARA A PLATEIA). Guardaram? Ela é uma índia da tribo tupi.
(UMA TESTEIRA DOURADA PARA UM GAROTO) – Você será o sol. O nosso rei dos astros. Um sol brilhante e forte!
(UMA TESTEIRA BRANCA PARA UMA MENINA) – Você será a Lua! Nosso satélite que enfeita o céu deixando-o claro, bonito.
(UM PEQUENO COCAR VERMELHO PARA UM MENINO) – E você, com esse cocar vermelho, será Tupã, o Deus poderoso dos índios. Deus tupã!
“O sol” observa “Tupã” sob o comando de Rodolfo Oliveira. Foto: Atelier da Fotografia
Agora, vamos começar a história. (APROXIMA-SE DE CADA CRIANÇA, NA MEDIDA EM QUE CRIA AS VOZES DE CADA PERSONAGEM. O TOM DA CENA DEVE SER FARSESCO, ACENTUANDO A BRINCADEIRA DO FAZER TEATRAL. O ATOR, SEMPRE QUE POSSÍVEL, ORIENTARÁ AS REAÇÕES E EXPRESSÕES DE CADA CRIANÇA).
ÍNDIA – Olá! Eu sou uma indiazinha tupi. Sou muito linda e gosto de brincar com as flores e com os pássaros. Ultimamente tenho ficado um pouco triste. É que estou apaixonada. Muito apaixonada. Super apaixonada! #apaixonada!
(O ATOR VOLTA A SER ELE MESMO ENQUANTO CAMINHA PARA O SOL)
ATOR – #apaixonada! Será que essa indiazinha tem whatsApp? Eu, hein. Vai saber, não é? Vamos ao outro personagem, o sol!
SOL – Olhem para mim! Vejam como sou… Amarelo como o ouro, gostoso como o amarelo mel! Todos admiram minha grandeza e ficam amarelados perante minha força. Meus raios são amarelos fantásticos!
Conrado Sardinha orienta criança que faz “o sol”. Foto: Atelier da Fotografia.
ATOR – (VOLTANDO PARA A ÍNDIA) Esse sol é modesto como ele só!
INDIA – Oh, como sou infeliz! Oh, de que me adianta ter os cabelos negros lindos, boca carnuda linda se o sol, por quem estou apaixonada, nem me enxerga. Oh! Estou apaixonada pelo sol e ele nem me percebe, não sabe que eu existo. Oh, mundo cruel!
Conrado Sardinha observa menina que faz “a lua”. Foto: Atelier da Fotografia.
ATOR – Coitadinha! A menina passava horas e horas olhando para cima e nada de o sol percebê-la! Que bobo! Uma indiazinha tão linda! Acontece que, um dia – sempre tem um dia nessas histórias – o sol percebeu a menina e… Ficou ligado na garota! Enfeitiçado pela doce indiazinha. Ficou tão apaixonado que resolveu não sair mais do alto do céu, só pra permanecer olhando a menina. Imaginem! O sol, parado no centro do céu, lá de cima namorando a menina! Os outros índios da aldeia, os animais, os seres todos não entendiam a falta da noite? Onde a noite tinha ido parar? Acontece que mais alguém estava apaixonada pelo sol! A lua! (APROXIMA-SE DA CRIANÇA QUE FAZ A LUA).
LUA – Ai que ódio! Que ódio, que ódio, que ódio! Esse solzinho ousa me desprezar! E pior, me trocou por essa indiazinha borocoxô.
ATOR (QUEBRANDO A CENA). Borocoxô? Que palavra antiga, dona lua! Assim a senhora entrega a sua idade. Ninguém mais por aqui sabe o que é borocoxô (VOLTA RAPIDAMENTE PARA A MENINA QUE FAZ A LUA).
LUA – Indiazinha chata foi o que eu quis dizer. E agora tenho que ficar aqui, no canto, porque o sol bobão não sai do alto do céu. Vou reclamar para Tupã, eles vão ver o que é bom pra tosse! (APROXIMANDO-SE DO MENINO QUE FAZ TUPÃ). Tupã, vê se pode, ele fica lá no céu, aquela indiazinha na terra, um chove não molha, e acabaram-se as noites, todas as noites! Como os animais vão descansar? Como as pessoas poderão dormir? Está tudo secando. Esturricando de tanto sol! Ah, eu tentei falar com ele e ele disse que nem Tupã, nem você, Tupã, tira ele de lá!
ATOR – Luazinha ciumenta. Venenosa. Tupã não deixou por menos.
Um “tupã” feliz ao lado de Rodolfo Oliveira. Foto: Atelier da Fotografia
TUPÃ – Acordem nuvens negras! Acordem raios enraivecidos! Escureçam todo o céu. Tirem o sol para lá! Vou criar, com minhas mãos de Deus, a montanha mais alta que já existiu! Apareça! Grande montanha! Enorme, imensa!E vou colocar essa indiazinha lá dentro, longe dos olhos do sol. E resolvo essa situação.
ATOR – (REUNE AS QUATRO CRIANÇAS PERTO DE SI) Pobre indiazinha! O que poderia fazer contra Tupã, a Lua? Lá, dentro da imensa serra criada por Tupã só fazia chorar. Chorou tanto, mais tanto, que suas lágrimas alcançaram o topo da serra e desceram, formando rios e mais rios por todo o vale. Foi assim que surgiu A-man-ti-kir, a serra que chora. A-man-ti-kir, que todos chamamos Mantiqueira! E assim termina nossa história. Palmas para nossos atores! (AGRADECE AS CRIANÇAS, CONDUZINDO-AS DE VOLTA A SEUS LUGARES).
Linda a lenda de como surgiu a Serra da Mantiqueira, vocês não acham? Nas minhas apresentações teatrais essa lenda interessa a todos, pois todos ficam encantados com a grandiosidade e beleza da nossa Mantiqueira.
Vocês sabiam que a Mantiqueira tem 500 quilômetros de extensão? E que dos dez pontos mais altos do Brasil, quatro estão aqui, na nossa serra? Todavia, esses números todos que dizem respeito ao complexo imenso da Mantiqueira não são mais importantes que um único pôr de sol. Nós, que somos daqui, somos presenteados constantemente com imagens mágicas, fantásticas, o melhor show que a natureza pode oferecer.
Eu já estive lá em cima, à noite, acampando em noite de lua cheia. O nosso vale é tão lindo e as nossas cidades, iluminadas, parecem o céu na terra, cheio de estrelas reunidas em grupos, cada grupo indicando uma localidade. Cruzeiro, Lavrinhas, Queluz, Lorena, Aparecida, Taubaté…
Uma noite de lua muito clara, lá de cima, todos nós conseguíamos ver o Rio Paraíba, serpenteando pelo Vale. Nosso belo rio Paraíba do Sul não nasce na Serra da Mantiqueira; ele vem de outro lado, a Serra da Bocaina que, por sua vez, é parte da Serra do Mar. Para que os colonizadores chegassem até aqui tiveram que subir a Serra do Mar e para irem atrás do ouro, em Minas Gerais, tiveram que atravessar a Mantiqueira. Nosso Vale do Paraíba ali, entre duas serras.
A história do Vale do Paraíba ganha dimensão mundial, mundial mesmo, no período em que o Brasil não só exportava café para o mundo todo; nosso país era o maior produtor de café e as primeiras fazendas mais importantes estavam aqui, no Vale do Paraíba. O nosso ouro, a nossa riqueza veio primeiramente do café.
(CANTA A CANTIGA “O CAFÉ”)
Cantiga de roda e também de trabalho: “O Café” foi um dos resgates do Arte na Comunidade.
Uma reviravolta mundial ocorreu em 1929, quando a bolsa de valores de Nova York caiu, fazendo cair os preços das mercadorias em praticamente todo o mundo. O café, que valia ouro, passou a valer muito pouco e como tínhamos grandes estoques tivemos que queimar o café que não conseguimos vender. Muitos fazendeiros ficaram arruinados, mas logo em seguida se levantaram, extraindo madeira das encostas da serra, cultivando cana de açúcar e, depois, com o passar dos anos, valorizaram a pecuária leiteira, da qual fomos grandes produtores. Café, madeira, cana, leite! É muita riqueza!
Se a gente prestar atenção vai perceber que toda a riqueza da nossa região está ligada aos nossos rios. Todo o nosso vale é amplamente irrigado por água doce.
Podemos dizer que a vida das pessoas, habitantes do Vale do Paraíba, está intimamente ligada aos rios, cachoeiras, córregos; há histórias, muitas histórias envolvendo nossa gente e os rios. Há verdadeiras, aquelas que estão registradas nos livros e na lembrança das pessoas e há também outras, que aconteceram no imaginário de alguns criadores que, contando fábulas e lendas para os filhos, netos, amigos, enriqueceram a imaginação de todos.
É daqui, do Vale do Paraíba, que as histórias do Saci, do Caipora e da Cuca, entre muitos outros seres, saíram para ganhar páginas de livros, as telas do cinema e da televisão (PEGA O LIVRO CONTOS E LENDAS DE UM VALE ENCANTADO, DE RICARDO AZEVEDO). Algumas estão aqui, neste livro. Histórias contadas pelas avós, pelos tios, que foram recolhidas por um autor legal, o Ricardo Azevedo. Eu gosto muito da história que ele chama de Sopa de Malandro.
Conrado Sardinha exibe o livro de Ricardo Azevedo. Foto: Atelier da Fotografia
Essa história é do tempo quem que Pedro Malazarte, um caboclo esperto andava por todo lado. Ele gostava de correr mundo e um dia veio passear por aqui, no Vale do Paraíba. Subiu um pouco da serra, cansou, voltou, atravessou rios, córregos, boa parte do vale e, claro, teve uma hora que sentiu muita fome. Mas, muita fome mesmo! Sabe aquela fome que parece que está destruindo a barriga da gente? Pois então, quando Pedro passou por uma casa, em uma das tantas fazendas por aqui, sentiu cheiro de comida… Esperem! Vou interpretar os dois; o Pedro e a dona de casa. Foi mais ou menos assim:
(VINHETA. O ATOR PREPARA-SE PARA INTERPRETAR PEDRO MALAZARTE E UMA COZINHEIRA DO VALE. UM CHAPEU PARA PEDRO E UM LEQUE PARA A DONA DE CASA SÃO OS ELEMENTOS MÍNIMOS SUGERIDOS).
Duas personagens e um ator. O Projeto priorizou o jogo teatral. Foto: Atelier da Fotografia
PEDRO – Ai, que fome! Como é duro caminhar quando a gente tem fome. Esperem, mas que cheiro de comida é esse? Hum; que delícia! Não resisto, vou pedir um pouquinho dessa comida.
ATOR – Pedro bateu palmas (FAZ A AÇÃO) e apareceu uma mulher, com cara de poucos amigos. (FAZ UM PEQUENO JOGO, SIMULANDO OS DOIS PERSONAGENS)
MULHER – O que o senhor quer?
PEDRO – Boa tarde, Dona. Andei a manhã inteira, a tarde toda, venho de longe e não tenho nada para comer. Estou com tanta fome! A senhora poderia me arranjar um pouquinho de comida?
ATOR – E a mulher, com cara de deboche e de poucos amigos respondeu:
MULHER – Moço, não tenho comida. Aliás, eu nem vou jantar. Outro dia, quem sabe!
ATOR – O cheiro de comida que se espalhava pelo ar dizia que a mulher era mentirosa. Pedro fingiu acreditar e, de repente, teve uma ideia. Vejam o que ele fez!
PEDRO – Tudo bem, dona. Não faz mal. Eu dou um jeito. Já que a senhora não pode me dar comida eu vou preparar uma sopa de pedra.
MULHER – Sopa de quê?
PEDRO – Sopa de pedra! A senhora nunca experimentou? É uma das melhores sopas que tem. Aprendi com minha mãe. A mãe da senhora não ensinou como fazer sopa de Pedra? É melhor que sopa de batata, cenoura, sopa de feijão, de milho.
MULHER – Nunca ouvi falar.
PEDRO – Se a senhora me emprestar um tacho, eu faço a sopa pra matar a minha fome e, ao mesmo tempo ensino-a como fazer uma deliciosa sopa de pedra.
As versões de Luciana Fonseca e Rodolfo Oliveira para o Pedro Malazarte.
ATOR – Já ouviram dizer que a curiosidade matou um burro? Pois então; e não é que a mulher emprestou um tacho para o Pedro? Ele, espertíssimo, arrumou alguns gravetos, fez uma fogueira, encheu o tacho de água e colocou pra ferver, enquanto saiu por ali, bem em frente à mulher, escolhendo as pedras para a tal sopa.
PEDRO – (PEGANDO SUPOSTAS PEDRAS) Hum; essa pedra é boa. Substanciosa! Essa aqui também; essa, não. É dura demais. Nossa; essa é das mais gostosas que tem. E essa daqui? Delícia!
ATOR – A mulher olhando e Pedro catando pedras. Limpou todas e já foi jogando dentro do tacho. Quando a água começou a ferver ele, com a voz mais macia do mundo, pediu:
PEDRO – Não daria pra senhora me arrumar uma colher e um tantinho assim de manteiga? Por obséquio!
ATOR – A mulher atendeu arrumando a colher e a manteiga, curiosa para ver como era a tal sopa. Pedro começou a mexer a sopa e voltou a pedir, com a mesma voz macia.
PEDRO – E um tiquinho de sal, tem?
ATOR – A mulher atendeu e o Pedro emendou:
PEDRO – E um pouquinho de cheiro-verde? E uma rodelinha de cebola? Uma batatinha e um chuchu, tem? Essa sopa vai ficar muito boa!
ATOR – E a mulher, só indo buscar coisa por coisa que o Pedro pedia. O cheiro começou a ficar bom e foi então que Pedro fez o pedido final:
PEDRO – Por favor, a senhora não tem um pedacinho de linguiça e um punhadinho de arroz? É só pra dar gosto.
ATOR – A mulher voltou com a linguiça e o arroz. Pedro terminou de fazer a sopa e ainda pediu um prato e uma colher para a mulher que, ali, curiosa, viu ele tomar toda a sopa. E lá se foi o cheiro-verde, a cebola, a batata, o chuchu, a linguiça e o arroz. A mulher até sentiu vontade de tomar um pouco da sopa, mas Pedro tomou tudo, deixando as pedras no fundo da panela. Só as pedras. A mulher, olhando aquilo e já se sentindo otária perguntou:
MULHER – Mas… e as pedras?
ATOR – Pedro pegou as pedras, guardando-as no bolso e se despediu, rindo da cara da mulher.
PEDRO – Vou levar as pedrinhas comigo, para a próxima sopa! Tchau! (CORRE EM VOLTA DO PALCO, COMO SE FUGINDO DA MULHER)
ATOR – Não adiantou nada ser ruim e não dar comida para o Pedro. Ele, esperto, levou a melhor! Há muitas outras histórias aqui e em outros livros do Ricardo Azevedo. Este livro chama “Contos e Lendas de um Vale Encantado”, o nosso vale do Paraíba. A gente pode ler as histórias e contá-las para outros, brincando de fazer teatro, como fizemos agora. Mas, não são só lendas que tem aqui. Há ditados populares da região, quadrinhas, receitas, crendices e adivinhas. Quer saber, vamos brincar de adivinhas?
Vou convidar algumas crianças para brincar de adivinha!
(O ATOR CONVIDA CRIANÇAS, COLOCANDO-AS AOS PARES PARA TENTAR ADIVINHAR AS RESPOSTAS DAS PROPOSIÇÕES. UMA PRANCHETA E LÁPIS OU CANETA SERÃO OFERECIDOS PARA QUE AS CRIANÇAS REGISTREM AS RESPOSTAS. O ATOR DIRÁ A ADIVINHA, REPETIRÁ A MESMA E DARÁ TEMPO PARA AS RESPOSTAS).
ATOR – Prestem bastante atenção que esta é fácil. Vamos lá. Ninguém fala a resposta, anota no papel pra que a gente veja quem adivinhou. Não vale assoprar. Lá vai:
O que é; o que é?
Luiz tem na frente
Miguel tem atrás
Solteiro tem no meio
E casado não tem mais?
(O ATOR REPETE A ADIVINHA E ESTABELECE O TEMPO PARA A RESPOSTA. APÓS UM TEMPO MÍNIMO DÁ A RESPOSTA E INICIA A PRÓXIMA ADIVINHA).
A adivinha estimula a memória e a interpretação de texto. Foto: Atelier da Fotografia
ATOR – Muito bem, agora vamos para a segunda adivinha. Muita calma, atenção e vamos adivinhar. Não se esqueçam, não é pra falar, é para escrever a resposta.
O que é; o que é?
É verde, mas não é planta,
Não é bule, mas tem bico.
Conversa, mas não é gente,
Vergonha não tem um tico?
ATOR – Palmas para quem acertou! Agora, a última adivinha! Vamos ouvir, adivinhar e anotar a resposta. Atenção! Essa adivinha é das boas!
O que é; o que é?
É ave, mas não tem bico.
É ave, mas ninguém caça.
É ave sem asa e sem pena.
É ave cheia de graça.
(O ATOR DÁ A RESPOSTA, PEDE APLAUSOS PARA OS PARTICIPANTES, AGRADECE E CONDUZ AS CRIANÇAS A SEUS LUGARES).
ATOR – Ave-maria! Maria, a Aparecida. Nossa região ficou muito famosa por conta da aparição da imagem de Maria no Rio Paraíba. A mãe do Cristo não só teria aparecido, mas também feito vários milagres. O Vale do Paraíba abriga todas as religiões, mas é impossível negar a importância de Aparecida no cenário católico nacional.
Todo mundo sabe ou ouviu falar de como a imagem apareceu. Um fidalgo português com fome, exigindo comida e a saída foi pescar para atender o homem. Três pescadores encontraram a santa ao jogarem a rede para pescar. Acharam o corpo, sem cabeça, em seguida pescaram a cabeça da imagem e por fim, conseguiram pescar muitos peixes. Ok! Acharam a imagem dentro do rio. Mas, cá pra nós, quem foi que jogou a santa dentro do Paraíba?
Quem foi que jogou a santa dentro do Paraíba?
Diz a lenda, e aí, é lenda, que no tempo de antigamente apareceu uma gigantesca e monstruosa cobra no rio Paraíba. Era tão grande, mas tão grande, que quando a cabeça estava em Queluz, o rabo ainda estava em Cruzeiro! Dizem que ela devorou muitos pescadores e que fez buracos imensos, pra se esconder, em toda a extensão do rio. O povo tinha medo que as cidades despencassem, caindo nos buracos feitos pela cobra gigante e vivia assustado pelas constantes mortes de pescadores. O buraco feito pela cobra ia longe, tão fundo, que diziam que chegava até ao inferno. Um terror! Até que um dia, o povo resolveu pedir ajuda à santa:
Rodolfo Oliveira diz versos inspirados em Ariano Suassuna. Foto: Atelier da Fotografia.
Valei-nos, Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré!
Não há bode, não há cobra, ninguém que pode com a fé,
Afaste do rio essa cobra, mande-a pra onde puder,
Valei-nos, Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré.
E jogaram a imagem no rio, bem na frente da cara da cobra. É, foi isso sim. A imagem foi boiando rio abaixo e a cobra foi seguindo, seguindo, até desaparecer pra nunca mais voltar. O monstro foi embora e a imagem acabou se partindo nas pedras do Paraíba, indo para o fundo, só sendo encontrada muito tempo depois. Como diz Chicó, aquele amigo de João Grilo, que por sua vez é amigo da Compadecida, tudo gente do Ariano Suassuna: “- eu não sei, só sei que foi assim”!
Esse tempo de santos e lendas, de índios e colonizadores ficou na história, lá longe. O Vale do Paraíba, como todo bom lugar, foi se transformando com o crescimento do país, com a chegada das grandes empresas, grandes indústrias que favoreceram o crescimento das cidades mudando tudo por aqui. Só aqui, no Estado de São Paulo, são 39 municípios sediados no Vale do Paraíba. Alguns se tornaram grandes metrópoles, mudando totalmente a economia da região.
Outro dia estava olhando e descobri que temos, em todo o Vale, mais de dois milhões e duzentos mil habitantes! Mais de dois milhões! É gente demais, não é? Gente que precisa trabalhar, que precisa de energia elétrica pra manter usinas siderúrgicas, a indústria aeronáutica, indústria bélica além, é claro, da agropecuária. Uau! Muita coisa!
Quando há muita coisa os problemas aparecem. Por isso devemos estar sempre atentos para garantir a qualidade de vida do nosso vale. Quando visitei as escolas, quando estive aqui, ensinei origami para algumas crianças.
Luciana Fonseca com o origami, feito junto com os alunos de cada cidade.
Fizemos um peixe, lembram-se? Para quem não se lembra, ou para quem não sabe, a ideia é fazer um peixe com dobradura, a arte do origami e, com isso, alertar as pessoas para que não sujem nossos rios. Vamos fazer o peixe? Vou ensinar a vocês.
Momento de fazer origami para lembrar de preservar o rio.
(APÓS FAZER O PEIXE, PROSSEGUE) Desta vez, além de fazer o peixe – sim, porque essa é uma campanha que devemos manter, sempre! – vou cantar pra vocês uma música! Mas, eu gostaria de não cantar sozinho. Quero algumas crianças que façam o coro, cantando junto comigo. Quem gosta de cantar? Quem vem cantar comigo?
(O ATOR DEVE ESCOLHER UM MÍNIMO DE CINCO CRIANÇAS, NO MÁXIMO DEZ, EVITANDO ENCHER DEMAIS O ESPAÇO CÊNICO. DEVE ENSINAR O REFRÃO E, SEMPRE QUE POSSÍVEL, UMA COREOGRAFIA BÁSICA).
ATOR – Atenção que primeiro vamos aprender o refrão:
Limpe a água
Limpe o rio
Piraquara quer pescar!
ATOR – Piraquara é o pescador, o homem do campo que vive da pesca. Vamos lá, de novo, vamos aprender a cantar e a dançar, vamos fazer um som legal.
Limpe a água
Limpe o rio
Piraquara quer pescar!
ATOR – E agora que estamos com o refrão na ponta da língua vou fazer o meu som, que lembra muitos peixes de água doce e alguns dos principais rios do nosso país. Vamos lá!
(A MÚSICA DEVE SER ACOMPANHADA, NO MÍNIMO, POR PALMAS FAZENDO O RITMO E DANDO ANDAMENTO APROPRIADO. O REFRÃO É DITO PRIMEIRAMENTE PELO ATOR QUE, NO BIS, PEDE O ACOMPANHAMENTO DAS CRIANÇAS).
Cadê tilápia, traíra?
Onde tem tucunaré?
Piabuçu nunca vi!
Nem jundiá, nem mandi!
Limpe a água, limpe o rio
Piraquara quer pescar
Pra onde foi surubim?
Piau-palhaço vai voltar?
Não vejo mais lambari
Piabanha onde é que tá?
Limpe a água limpe o rio
Piraquara quer pescar
Bagre-guri tem ali?
Ximboré, curimbatá?
Corvina do outro lado?
Dourado veio pra ficar!?
Limpe a água limpe o rio
Piraquara quer pescar
Paraíba, Rio Doce,
Amazonas, Paraná
São Francisco, Beberibe,
Araguaia, Japurá,
Rio Madeira, Tietê,
Rio Purus, Juruá,
Tocantins, Solimões,
Brasileiro quer pescar!
Limpe a água limpe o rio
Brasileiro quer pescar (REPETE DUAS VEZES)
(O ATOR AGRADECE E CONDUZ AS CRIANÇAS A SEUS LUGARES, PREPARANDO-SE PARA ENCERRAR A APRESENTAÇÃO)
ATOR – Cantar é bom, porque dá um clima de festa. E essa festa é válida para que nós fiquemos atentos para as coisas do nosso Vale do Paraíba. Para os problemas, buscaremos soluções e para tudo o que há de bom por aqui vamos preservar e celebrar, meus amigos…
(CONFORME A CIDADE, O RESPECTIVO ATOR DIZ OS VERSOS ABAIXO)
Luciana Fonseca esteve em Queluz
Violeta é meu nome!
Sendo pobre nunca passei fome,
Pois nasci em belo vale
Onde aprendi a pescar,
A carpir, fabricar!
Senhores, sou de Queluz
Devo me despedir,
Agora vou terminar.
Além de Lavrinhas, Rodolfo Oliveira também foi Pedro Menestrel, em algumas escolas de Cruzeiro
Adriano, este é o meu nome,
Sendo pobre, nunca passei fome,
Pois nasci em belo vale
Onde aprendi a pescar
A carpir, fabricar!
Senhores, nascido em Lavrinhas!
Devo me despedir,
Agora vou terminar.
Conrado Sardinha apresentou-se em Cruzeiro.
Pedro Menestrel é meu nome
Sendo pobre, nunca passei fome,
Pois nasci em belo vale
Onde aprendi a pescar
A carpir, fabricar!
Senhores, nascido em Cruzeiro!
Devo me despedir,
Agora vou terminar.
(APÓS OS VERSOS O ATOR DESPEDE-SE CANTANDO)
E agora, quem se lembrar da canção que cante comigo:
Antes de qualquer coisa, eu vou bem, obrigado. O tempo em São Paulo é instável e meu pulmão me ajuda a crer que, realmente, sou geminiano. Por conta dos astros e de variações de temperatura, poluição e sabe lá o que mais, fui parar no hospital. Demorei pra tomar a decisão. Hospital tem um quê de cadafalso…
Macaco velho, eu antes tratei de passar em uma lanchonete garantindo estômago forrado. Barriga cheia deixa boa qualquer que seja o tipo de vida; além do mais, hospitais estão longe de lembrar casa de avó, onde a gente come até encher.
Segui o caminho indicado pela plaquinha de pronto atendimento e, salão lotado, me toquei da tal PEC que reduz gastos com serviços públicos. Bom, sou um sujeito com uma sorte razoável e o hospital me atende com uma rapidez digna do lendário Ayrton Senna. A enfermeira me coloca em uma cadeira e começa a medir pressão, febre e enquanto inquire sobre o que eu penso que tenho observo uma mensagem interna do setor: Tempo médio para atendimento imediato: 56 minutos. Meta estabelecida: 49 minutos. Mais para Barrichello que Senna… Agradeci aos deuses a boa sorte.
A dor no coração não era nada, descobriu-se com o exame seguinte, o eletrocardiograma. Pensei, sem revelar ao casal de enfermeiros, que a dor no peito estava mais para medo do que qualquer outra coisa. O lance mesmo é o pulmão, o sistema respiratório e como isso mata lentamente fui presenteado com uma pulseira verde e mandado de volta à sala de espera aguardando chamada do médico.
Uma enorme placa indica as cores e o tempo médio para atendimento. Não adianta o Verdão estar em primeiro lugar no campeonato. Pulseira verde indica duas horas de espera (tempo médio!). Optei pela calmaria e pelo otimismo da Pollyanna; afinal, há cores que indicam três, QUATRO horas de tempo de espera! O jeito é relaxar e, economizando bateria do celular, bisbilhotar a humanidade.
Primeira grande figura, uma senhorinha de olhar esperto, corpo esguio, falando animadamente ao telefone. “– Não decidi ainda! Estou decidindo se fico aqui, ou vou para o “Nove de Julho”. Quero falar com o médico! Depende do ele me disser e eu decido”. E repetiu várias vezes o delicioso exercício da autonomia. O interlocutor, parece, tinha pressa e pressionava para que a decisão viesse logo e a senhora, olhando-me com simpatia, reafirmava: – Não me decidi ainda!
No guichê um senhor de terno e gravata, também ao telefone, esbravejava com uma atendente distante, de um convênio, e com a recepcionista do hospital. “– Sou médico! Exijo uma solução! Quero que resolvam logo! Minha mãe tem 104 anos! Não pode esperar!”. Acredito que ele repetiu umas trinta vezes que era médico, querendo falar com a direção, com o médico de plantão, com o PROCON, a diretoria, enfim, o mundo! Sou médico! Repetia, vou processar vocês. E eu ali, pensando nas ironias da vida: um médico que não consegue cuidar da própria mãe, desesperado e impotente perante a burocracia que envolve hospitais e convênios.
Muda o ângulo. A televisão mostra o trânsito exacerbado do fim do dia. Um japonês entra com uma máscara dessas comuns, evitando a sujeira do ar. Tem passos firmes, decididos e evita ostensivamente sentar-se ao lado de uma senhora negra. Noto então que ela é a única paciente afrodescendente no local. Ela ignora o indivíduo e percebendo-me observar o momento sorriu e deu de ombros. O cidadão foi para o canto extremo da sala, permanecendo de pé.
Tempo, tempo, tempo… Um senhor, bem debilitado, está acompanhado por uma senhora e um rapaz. Quando chamado para ser atendido, precisa da ajuda do rapaz que, mantendo o olhar fixo no celular, levanta o outro segurando o mesmo duramente pelo braço. Foram em direção ao consultório, o doente guiando o viciado em telefones…
Entra uma segunda mulher afrodescendente no recinto. Menos favorecida, pois carrega uma mala grande, uma sacola enorme e, como se não bastasse, empurrando uma cadeira de rodas ocupada por um senhorzinho visivelmente doente. Atrás do casal “D.Sinhá” com uma carteira de mão, o fatídico celular e as ordens secas:” – Cuidado, vá por ali! Veja se ele não sente frio!”. Um enfermeiro rapidamente acudiu, empurrando a cadeira para a empregada, no que a patroa não titubeou:”- Segure minha bolsa!”.
Duas horas! Muitas pequenas cenas! O rapaz comendo sem parar (- Isso! Penso eu.). Um senhor roncando, boca aberta. Outro, acompanhando a mãe, fazendo-me recordar Flávio de Carvalho ao lado da mãe, na Série Trágica. E finalmente fui chamado. Novamente observam minha pressão, examinam a garganta, o pulmão, encaminham para radiografia e, tudo muito rápido, volto ao médico para receber uma série de remédios e indicações para o tratamento.
Gosto e agradeço o atendimento recebido no Hospital Oswaldo Cruz. Saí de lá altas horas, pensando em como seria sem o convênio, se tivesse ido para um posto público. De novo a PEC! Fui direto à farmácia e gastei uma bela grana em remédios. A PEC outra vez, com indícios de cortar a farmácia popular! Voltei para casa e tratei de tomar mais uma refeição. Não há doença que resista ao estômago cheio. E chocolate, muito chocolate para compensar as amarguras da vida.
Estou bem! Obrigado. Rezando por todos os que não têm tratamento digno nesse nosso complicado país.
Indivíduos da minha geração sabem o que é uma “tirada de blusa” de Sonia Braga. Furacão moreno que seduziu o mundo, a atriz, sempre coerente com suas personagens nunca nos privou da beleza exuberante, gostosa, sem artifícios. Depois de muito tempo voltei ao cinema para ver a atriz em Aquarius e, nos primeiros momentos de Sonia Braga em cena, reconheci os gestos da tigresa, movimentos felinos da mulher poderosa e, de repente, lá vai: Sonia vai tirar a blusa. Com absoluta segurança tira a peça de roupa. Um choque! E a cena informa com absoluta crueza: Senhores, senhoras, vejam Clara, a heroína deste filme!
Aquarius tem causado por aí. Musicalmente, por exemplo, o filme começa com Taiguara e, repito, os da minha geração se sentem privilegiados, agradecidos pela escolha do compositor e intérprete. Tem também Maria Bethânia (Intensa! A cena já virou meme!) assim como tem Altemar Dutra, entre canções muito próprias de Pernambuco e outras, que ultrapassam fronteiras e estabelecem relações com diferentes épocas, diferentes mundos. Um passeio de lembranças apresentadas com suavidade para o público.
Aquarius é um libelo contra gente que pensa que compra tudo, avassaladoramente, renegando valores, princípios, história. Gente que busca o lucro e ignora qualquer outra possibilidade que não seja o ganho financeiro. E Sonia constrói e dá legitimidade para a personagem, mulher independente, moradora solitária de um apartamento situado em região de grande especulação imobiliária. Com tranquilidade anuncia que dali não sairá.
As lembranças, os móveis, fotos e discos permeiam toda a história deixando claro do que é feita a vida de um indivíduo. Somos o que está em nosso cérebro e que foi construído ao longo do tempo. Objetos móveis e imóveis é parte das nossas vidas e somos donos desta, assim como cabe a nós o desapego do que consideramos desnecessário, supérfluo. Clara, a personagem de Sonia Braga luta com tranquilidade e, para brincar com um jargão comum poderia dizer que “sem perder a ternura”.
Diretor e roteirista, Kleber Mendonça Filho constrói um enredo que abre possibilidades diversas e, parece, sem saída. O final surpreende tanto quanto a entrada de Sonia Braga. Assisti Aquarius em um cinema da Avenida Paulista. Deixei a sala e já na avenida recordei quando, ainda estudante, eu vi inúmeros casarões sendo destruídos para que não fossem tombados como patrimônio histórico. Não houve uma Clara por aqui e, com certeza, gente assim é coisa rara. Todavia, essas pessoas nos propiciam alento e esperança. E a gente segue em frente com nossas pequenas lutas, nossas cotidianas batalhas para garantir a continuidade do que importa: nós mesmos.
Sonia Braga. Sempre bela. (foto divulgação)
Sonia Braga é uma mulher madura. Incorpora um novo paradigma de velhice que encontra eco em outras musas da mesma geração como Wanderléa, Gal Costa ou Bruna Lombardi. São Lindas, fortes, seguras e seguem a vida com trabalhos brilhantes, algumas lutas públicas e, certamente, batalhas particulares. Têm o tempo a seu lado; como Clara, a senhora que mora em Recife, em plena Boa Viagem, vivendo a vida, a terceira idade, sem receio de novas batalhas. A vida, afinal, é um seguir em frente.
Nicette Bruno e Eva Wilma. (Foto Daryan Dornelles – divulgação)
Sair de casa para ver Eva Wilma e Nicette Bruno dividindo o mesmo palco é garantia de teatro de boa qualidade. Mais! “O que terá acontecido a Baby Jane?” é o melhor do que o teatro pode propiciar. Baseado na peça e no romance de Henry Farrel, o espetáculo estreou em agosto, em São Paulo, no Teatro Porto Seguro, em tradução de Claudia Costa e Claudio Botelho, com direção de Charles Möeller.
Impossível não chegar ao teatro com a lembrança de Bette Davis e Joan Crowford, estrelas do filme “Whatever Happened to Baby Jane” (1962), de Robert Aldrich. As duas atrizes americanas tornam-se meras referências perante o talento e a personalidade de Eva Wilma e Nicette Bruno. Eva Wilma se joga de cabeça na Jane do título desnudando o ridículo de quem permanece preso ao tempo, assim como humaniza a personagem ante as perturbações de infância,as culpas da juventude. Nicette Bruno é a Blanche contida sobre uma cadeira de rodas, estabelecendo jogo dúbio enquanto sofre maldades infantis arquitetadas pela irmã.
Sophia Valverde interpreta Jane criança e Juliana Rolim, a Jane Jovem. Duda Matte e Rachel Renhack são Blanche na infância e juventude, respectivamente. Cenas se interpenetram e há vários momentos em que as seis atrizes estão no palco reforçando, com rara beleza, o fazer teatral. Feliz escolha da direção que leva a plateia a acompanhar as fases das personagens, as diferentes facetas do modo de ser de cada uma. Os papeis masculinos, interpretados por Licurgo, são um exercício para o ator e nos induz a crer que Jane vê o pai em todos os homens. Nedira Campos e Teca Pereira completam o elenco afinado, com belos figurinos de Carol Lobato, um destacado visagismo de Beto Carramanhos e eficiente cenário de Rogério Falcão.
Somando todos os elementos, os artistas e técnicos envolvidos, “O que terá acontecido a Baby Jane?” é um raro momento teatral, sobretudo pelas emocionantes interpretações de Eva Wilma e Nicette Bruno. Se as personagens são inimigas que não poupam crueldade, é visível o profissionalismo das duas grandes atrizes ao dividir a cena estabelecendo um jogo em que uma valoriza o trabalho da outra. A emoção é inevitável. O prazer estético é inegável. Imperdível!
O personagem Pedro Menestrel é lembrado no desfile
Acontecimento inusitado – e feliz! – para todos nós, do Arte na Comunidade nesse dia 7 de setembro. Creio que nenhum de nós tenha pensado algum dia em ver citações do nosso projeto em um desfile lembrando a Independência. Foi o que ocorreu em Cruzeiro, no Vale do Paraíba. Um grupo de alunos da Escola Professor Joaquim Rebouças de Carvalho Netto lembrou personagens apresentados nas montagens do Arte na Comunidade 4 e mais levaram para as ruas peixes feitos em origami, aprendidos durante o projeto, para lembrar a necessidade de limpar e preservar o Rio Paraíba do Sul.
Crianças recriam personagens da lenda da Amantikir, nossa Serra da Mantiqueira
Faz pouco tempo. Relatando as estreias do Projeto Arte na Comunidade 4 em Cruzeiro e Queluz, ressaltei o tipo de herança que nós, todos os envolvidos, queremos deixar. Nosso Projeto busca resgatar hábitos culturais, valorizar a história, preservar o ambiente. Fazemos isso contando e representando histórias, estimulando a criação dessas pelas crianças que, também, são convidadas a realizar atividades pertinentes aos temas abordados.
Peixes em origami, distribuidos durante o desfile
No dia 9 de maio, em Cruzeiro, vi uma das apresentações feitas por Rodolfo Oliveira na Escola Professor Joaquim Rebouças C. Netto interpretando “O Viajante do Embaú”. Tanto alunos quanto professores mostraram-se atentos e satisfeitos com a montagem e agora, temos certeza, gostaram o bastante para levar em frente, recriando momentos das peças para o desfile pelas ruas da cidade.
Quero registrar aqui, em nome de toda a equipe realizadora do Arte na Comunidade 4, o mais profundo agradecimento por essa carinhosa homenagem. O que nos move é, com certeza, o desejo por um mundo melhor e, para isso, a parceria com professores e educadores é fundamental. Também cabe lembrar o apoio das Secretarias de Educação, das autoridades de cada cidade e dos nossos patrocinadores. Todos sonhamos com um mundo melhor e todos nós buscamos semear, conforme nossas aptidões e possibilidades, ideias e ações para um futuro mais digno. O desfile da Escola Professor Joaquim Rebouças de Carvalho Netto foi um alentador sinal de que estamos no rumo certo.
Até mais!
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Nota: Idealizado por Sonia Kavantan, o Projeto Arte na Comunidade 4 é patrocinado pela Alupar e Taesa e apoiado pela Usinas Queluz e Lavrinhas; uma realização da Kavantan & Associados, Ministério da Cultura e Governo Federal.
As fotos deste post foram originalmente publicadas por Rodolfo Oliveira (Obrigado!)