A situação do Brasil vai muito mal
Qualquer ladrão é patente nacional…
Porém, ladrão… isso tem pra todo o lado!
Caixinha, obrigado!(1)
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Política confusa, ninguém chega a conclusão
Um lado diz que sim, e o outro diz que não… (2)
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…Aqui não há problemas, pra que tanta confusão?
O povo passa fome, mas o Brasil é campeão! (Foi, Juca, foi!) (3)
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Enquanto a nossa imprensa decadente
Se ocupa com farrinhas de garoto
Deveria zelar por essa gente inocente
Que marcha cada vez mais para o esgoto
Deveria apontar os criminosos
Que arruinando a prole ta maltrapilha
Da massa arranca impostos clamorosos, tão custosos
Pra verba dos cartórios em Brasília, que maravilha! (4)
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Enquanto os empresários, operários da cobiça
Investem lá no norte, no norte da Suiça
Democracia é isto, é trabalhar contente
Pro caviar do nosso presidente… (5)
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(e como nem tudo é só tristeza, Juca também fala de amor)
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Eu quero uma mulher
Que seja diferente
De todas que eu já tive
De todas tão iguais
Que seja minha amiga,
Amante e confidente
A cúmplice de tudo
que eu fizer a mais… (
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Na alameda da poesia
Chora rimas o luar
Madrugada e Ana Maria
Sonha sonhos cor do mar
Por quem sonha Ana Maria
Nesta noite de luar? (7)
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(1) Caixinha, obrigado!; (2) e (3) A Situação; (4) Crítica das Críticas; (5) Honestidade; (6) A Cúmplice; (7) Por Quem Sonha Ana Maria; TODAS DE JUCA CHAVES.
Minha querida cidade carece de atentar para o próprio nome. “Água brilhante”, “água clara”, “águas cristalinas” Yberaba! Água! Isto é Uberaba. A história da cidade está ligada ao Córrego das Lages e a história registra, por entre suas colinas existiam várias nascentes. Os mais velhos recordam córregos pelas, hoje, principais avenidas da cidade.
Lá pelas tantas – eu era adolescente – resolveram cobrir os córregos da cidade. Tentaram domar os córregos em nome de um duvidoso progresso, garantindo privilégios para carros e outros veículos e… Ganhamos enchentes de “brinde”. Passaram-se os anos e recordo histórias de minha irmã em cima de balcão de estabelecimento comercial aguardando final de enchente, as águas escorrendo via Leopoldino de Oliveira, retomando o caminho do córrego escondido.
Recentemente uma obra gigantesca tentou solucionar os problemas das obras anteriores e ainda alardeou novidades, aproveitamentos… Muito tempo em que a cidade ficou caótica, o trânsito todo modificado pelos canteiros de obras que, com certeza, custaram milhões, muitos milhões!
Nesse último final de semana, veio a chuva, a chuva de São José! As imagens são terríveis!
Ao longo de muitos anos vários uberabenses gostaram da ideia de cobrir córregos e cobriram seus quintais. Quantos quintais e jardins impermeabilizados? Sem ter como escoar, sem ter por onde correr receio que as catástrofes continuarão.
E os estragos são imensos. E fico me perguntando: quanto tempo vai levar para que os dirigentes da cidade aprendam que com água não se brinca. Seria bom que eles lembrassem a velha canção de Padre Zezinho, cheia de verdades perenes:
… Água pequena desceu, cantarolou
Rochedo a interrompeu, ela o cavou
Homem tentou impedir, ela cresceu
Homem temeu sucumbir, água venceu
Nuvem choveu lá no céu, água subiu
Desceu fazendo escarcéu, tornou-se um rio
Homem tentou impedir, ele cresceu
Homem deixou água ir, luz acendeu…
O ser humano gaba-se de domar a natureza. E os resultados estão aí. No entanto, uma certeza nós, uberabenses, temos. Nossos córregos são indomáveis. Eles até desaparecem sobre o asfalto e trafegamos feitos donos da geografia. Vez em quando a grande mãe resolve nos lembrar do nosso real tamanho, das nossas reais condições e… Seguem seu curso. Quem sabe, algum dia, aprendamos a lição.
Até mais!
Nota: O nome da canção do Padre Zezinho é “O riacho é como a gente” e pode ser ouvida abaixo:
Jair Rodrigues, Nara Leão e Chico Buarque, em 1965
Nunca pensei em ver “A Banda” passar. Aquela mesma, “A Banda”, do Chico Buarque que prefiro na voz de Nara Leão e que, invadindo a infância, permaneceu no cantinho de meus grandes afetos. Há como não gostar de “A Banda”? E se de repente… E não é que a banda passou de novo! A história veio bonita e meio torta, bem torta mesmo; mas, quem tá preocupado com linha reta?
Eu não “estava à toa na vida” e sim, tomando banho. Aos poucos a música, de longe, foi se aproximando, se aproximando. Logo recordei ser o primeiro sábado após o carnaval, quando sai aqui pelas ruas do bairro um simpático bloco conhecido como “Enterro dos Ossos”, fechando as festas de Momo na Bela Vista. Meu amor, não me chamou! Mas me avisou que a banda subia a nossa rua vinda lá dos lados da Rua Martiniano de Carvalho em direção à Brigadeiro Luis Antonio.
“Despedi-me da dor” e ainda molhado, enrolado em toalha de banho, fui pra janela ver a banda passar. Estávamos todos lá: o “homem sério” abandonou o caixa e saiu para a rua e, nesta, “o faroleiro” empunhava copo de cerveja como troféu. Várias namoradas, de todas as formas, de todas as idades estavam acompanhando a banda ou paradas, no passeio, “para ver, ouvir e dar passagem”.
O bloco “Enterro dos Ossos” é cheio das manhas. Tem lá sua porta-estandarte, seu abre-alas – uma charanga toda colorida e enfeitada – e músicos que formam uma suave e deliciosa banda. Esta enche nossas ruas de velhas canções de outros carnavais. Pura nostalgia! Grandes marchinhas, marotas e sempre, sempre “cantando coisas de amor”.
Eu não estava pensando em Chico Buarque! Nem em Nara, nem na música que venceu o Festival de Música Popular Brasileira de 1965, empatando com “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, cantada por Jair Rodrigues. Nem mesmo pensava em fim de carnaval. Era apenas sábado e no domingo, dia 5, Daniela Mercury tomaria a cidade com seu Trio Elétrico e aí sim, eu iria fazer o meu “enterro dos ossos”. Foi então que…
Filmei a passagem do bloco pela minha rua para mostrar via redes sociais aos amigos e familiares. Quis registrar o contraste do “meu” quarteirão vazio e, a partir da esquina, a rua tomada pelo bloco. Lamento não ter o registro ideal, mas, caro leitor, observe no vídeo abaixo que há um pequeno edifício à esquerda em frente do qual o bloco está parado. E parou porque no segundo andar, no terraço, uma simpática velhinha dançava e acenava aos foliões. Como não lembrar que “O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço e dançou”?
Hoje é domingo; no outro, com Daniela Mercury, dancei pouco e tomei um banho de chuva de mais de duas horas. Esta noite está silenciosa e as ruas do Bexiga estão sossegadas. Essas mesmas ruas cheias de momentos como aquele em que, vendo a senhorinha dançando no terraço, dei-me conta e exclamei: “- Foi isso que o Chico Buarque viu!” e transformou em canção, e povoou o coração de milhares de brasileiros com lembranças de bandas que cantam coisas de amor.
Tempos bicudos. Tais como aqueles que vieram após o golpe militar. Recordo que, na época, havia murmúrios que condenavam a nostalgia de Chico por “fugir” da realidade com uma “velha” marchinha. Cinquenta anos depois, vendo “O Enterro dos Ossos” e a Bela Vista em festa veio-me a certeza de que é este o Brasil que é nosso; alegre, leve, suave, o país que “tomou seu lugar depois que a banda passou”.
A banda ou o bando que tomou o país em 1964 passou; outro bando que está por aí, impedindo o país de cantar, também terá seu fim. Paramos para brincar carnaval, mas já voltamos. Estamos aqui, atentos, prontos para continuar. E lutaremos por um país melhor porque também amamos bandas, blocos, carnaval, e belas senhorinhas cantando nos terraços.
Ala das Baianas da Vila Maria. União do sagrado e do profano.
A história comprova: O que fica de um bom carnaval é a velha e intensa emoção diante da musa, da alegoria, da fantasia engraçada… Para uma escola de samba vencer o campeonato é exigido muito mais. Tudo começa com um belo e bom enredo a soma de todas as alas, todos os quesitos, todos os detalhes atingindo o coração do público leva à vitória, independendo de resultados oficiais. Assim, sem receios, sem titubear: vou guardar o carnaval de 2017 como aquele em que, pela primeira vez, fiquei intensamente emocionado por uma escola, a Unidos de Vila Maria.
“Aparecida – A Rainha do Brasil; 300 anos de amor e fé no coração do povo brasileiro” foi o enredo que uniu com rara competência o sagrado e o profano. O carnavalesco Sidney França estreou celebrando o jubileu dos 300 anos da aparição da imagem nas águas do Rio Paraíba do Sul. Os pescadores encontrando a santa foi mote para subir imensa escultura na abertura do desfile que, ainda, teve como destaque a ala das baianas vestidas tal qual a Santa e terminando com chave de ouro ao colocar réplica da basílica transformada em alegoria.
Aos teus pés vou me curvar
Senhora de Aparecida
A prece de amor que nos uniu
Salve a Rainha do Brasil
O samba de Leandro Rato, Zé Paulo Sierra, Almir Mendonça, Vinicius Ferreira, Zé Boy e Silas Augusto contou linearmente o enredo proposto. Saltando da história para os hábitos atuais, a Vila Maria mostrou que é possível tratar de temas aparentemente impensáveis dentro da tradição carnavalesca.
A primeira noite do carnaval de São Paulo teve Elba Ramalho na abertura. A cantora foi carregada feito santa por um grupo de rapazes da Tom Maior, o que conota lembranças nada agradáveis de senhorias incapazes de andar com as próprias pernas… A Mocidade Alegre veio correta, sem conseguir empolgar a plateia. Depois da Vila Maria, a emoção continuou com o desfile da Acadêmicos do Tatuapé que, com o enredo “Mãe-África conta a sua história: do berço sagrada da humanidade à terra abençoada do grande Zimbabwe” fez um carnaval para vencer o campeonato no grupo especial.
Que me perdoem as outras, já vou para o segundo dia, direto para a Unidos do Peruche. A segunda escola que passou pelo sambódromo, no sábado, cantou Salvador “Cidade da Bahia, Caldeirão de Raças, Cultura, Fé e Alegria”. A comissão de frente lembrou grandes ícones da cidade: atores representando Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e, entre outros, Jorge Amado e Raul Seixas, abriram o desfile da escola, dançando com leveza e graça.
A riqueza de detalhes é o maior trunfo da Império da Casa Verde. A campeã de 2016 veio íntegra, luxuosa, com alas inteiras fantasiadas com o maior capricho e, notável, a maquiagem dos foliões. É comum ver gente desfilando com cara amarelada, piorada pela iluminação exagerada. Ao fazer da maquiagem complemento da fantasia, Jorge Freitas garante bons pontos para a escola.
De repente a lembrança de Gonzagão emociona até corações endurecidos. A emoção volta a imperar com a escola Dragões da Real que homenageou “Asa Branca”, a música de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Triste por si, Asa Branca conta a história, infelizmente atual, dos problemas decorrentes da seca, mas a história aposta na esperança, em “samba em forma de oração”… “Que eu voltarei, viu, pro meu sertão”.
Fonte inesgotável para bons sambas, o nordeste e, especificamente a Bahia, propicia mais emoção no carnaval. É a Vai-Vai com “No Xirê do Anhembi, A oxum mais bonita surgiu – Menininha, Mãe da Bahia – Ialorixá do Brasil”. Há muito que a Vai-Vai não fazia um desfile tão intenso, com fantasias de rara beleza, da primeira à última ala. Se for a campeã, será título merecido para a escola da Bela Vista.
Outras agremiações passaram pelo Anhembi mostrando sua força. A Rosas de Ouro provou publicamente seu carisma, mantendo a plateia cativa, aguardando essa que foi a última escola a desfilar no grupo especial para um “banquete de alegria”. O enredo da roseira diz, em determinado momento, “não importa a religião, Salve Cosme e Damião”. Salve! Quem irá negar saudação aos santos, a Nossa Senhora Aparecida, à Mãe Menininha do Gantois? O melhor do carnaval continua sendo a capacidade de fazer sorrir e, tocados profundamente, até mesmo chorar.
A Basílica na Avenida. O inusitado que emociona.
A Liga das Escolas de Samba de São Paulo buscou neste 2017 uma formação diferenciada para os jurados. Todos os apaixonados por carnaval estão ansiosos, aguardando os resultados para saber o que se passou na cabeça do grupo de juízes formado por gente de fora da cidade, que foi para a cabine via sorteio, após concurso acirrado. Que venha a campeã! A vitória importa para todos os que lutaram para fazer a grande festa. Para quem ama o carnaval, importa que a festa continue grande e bela.
Eu aposto e desejo que a campeã seja a Vila Maria. Ficarei contente se for a Vai-Vai, a Tatuapé, a Peruche… O júri pode decidir por outra, sem problemas. Como todo júri é soberano, fazer o que? Júri nenhum manda no coração da gente. O meu coração, em 2017, é todinho da Vila Maria.
Uma banda sinfônica é desmantelada pelo Governo do Estado de São Paulo. Faltam recursos! Parece que há planejamento e aprovação de orçamento de um ano para outro; a tal banda estaria dentro desse orçamento, mas por falta de recursos (E o planejamento?) foram todos demitidos. Li nos jornais que os músicos serão chamados quando houver apresentação com patrocínio. Quem buscará essa grana?
Várias atividades artísticas dependem de patrocínio para que possam sobreviver. Há um mundo interessado em baixos custos e altos lucros. Bandas sinfônicas, por exemplo, não são exemplos aceitáveis para tal mercado. Esse aspecto – alto custo – na formação de um artista e na manutenção de grupos de música, de dança e similares é tão discutível quanto os lucros advindos de tal atividade. O que é indiscutível e mesmo impensável é o mundo sem música; boa música.
Grosso modo toda forma de arte tem aspectos eruditos e populares; nessas acepções estão formas com maior potencial para comercialização, afluência de público e consequente retorno para quem banca a formação, e o trabalho, de artistas que obtêm respostas rápidas e vantajosas para produtores e patrocinadores. Óbvio, algumas formas artísticas recebem grandes somas de investimentos e outras ficam na dependência de recursos advindos de instituições públicas ou privadas, sendo que nessas últimas, o dinheiro tem vindo atrelado aos possíveis benefícios fiscais oferecidos pelo Estado.
É pela popularidade, e “facilidade” (entre aspas, pois não pretendo diminuir o trabalho de ninguém), que algumas formas recebem grossas somas de dinheiro privado e outras ficam dependendo da verba de orçamentos que são passíveis de “vontade política”, ou seja, o cidadão no poder direciona as verbas conforme os próprios interesses. Um angu de caroço, já que o artista que recebe grana submete-se ao “objetivo de marketing” do patrocinador enquanto o outro, sem grana, mas patrocinado pelo Estado, vive a insegurança das mudanças de poder.
Quem pode negar a necessidade de uma banda sinfônica? Não é porque a ideologia dominante prega rápido retorno financeiro e máquina enxuta que comunidades inteiras deverão desprezar os benefícios de uma ou outra atividade artística; o conflito é praticamente inevitável e as discussões e debates devem ser exercício constante. Algumas questões não devem ser deixadas ao esquecimento: um artista, no exemplo o músico, não se define ao acaso, mas pelo estudo e aquisição de técnica que demanda, além de tempo, grana para a aquisição de instrumentos, pagamento de professores e de todo um conjunto de profissionais que viabilizarão todo o trabalho: da formação do artista aos recitais do mesmo.
Uma imprensa duvidosa empreendeu, em tempos recentes, ataques a artistas que buscaram patrocínio via Leis de Incentivo Fiscal. Entre os vários casos lembro Maria Bethânia e Claudia Leite e, bom notar, independentemente do certo ou errado da tentativa de ação de cada artista, nenhum jornal criticou as empresas que patrocinam, já que são potenciais anunciantes. Usaram sua máquina para denegrir uma ação (site, no caso de Bethânia, show no caso de Claudia Leite) e uma forma de concretizá-la (o patrocínio obtido via Lei). Precisamos estudar as Leis de Incentivo.
A produção cultural, quando pensamos em arte, tem finalidades bem definidas. Há uma função pedagógica e há uma função expressiva. Ao escolher o que produzir – nisto está implícito o como – cooperamos no tipo de sociedade que queremos; nos benefícios que desejamos para todos os envolvidos; e é por questões tais como essas que a ética deve permear a ação de artistas e produtores. É necessário refletir sobre o papel dos produtores culturais, de patrocinadores.
A discussão é ampla e o debate deve ser contínuo. O que é imediato é a necessidade de pensar e refletir sobre as mudanças na educação e os rumos culturais possíveis advindas de atitudes como o desmantelamento de uma banda sinfônica. O que não dá é deixar passar em branco as ações de governos – municipais, estaduais e federais – que colocam em risco o futuro de todos nós. Não se trata de pensar exclusivamente em uma categoria profissional, mas no que cada forma artística representa e em tudo o que pode decorrer da supressão de ambientes em que atuam tais artistas.
Hoje, um amigo lembrou Bertolt Brecht, pois em duas esferas de São Paulo, municipal e estadual, estamos vendo as ações de indivíduos com princípios – ideologia – similares. Um Intertexto (o poema de Brecht). Um Intertexto paulistano. É preciso ficar atento! Sem alimentar neuras, mas ficar atento. Se preciso ir à luta.
“Primeiro, mandaram a Virada Cultural para a periferia,
Mas não me importei com isso
Eu não trabalho nela.
Em seguida proibiram pichações, pintaram grafites…
Mas não importei com isso
Eu também não era grafiteiro
Depois acabaram com a banda… (*)”
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Até mais.
(*) Conheça o poema de Brecht:
INTERTEXTO
Primeiro levaram os negros Mas não me importei com isso Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários Mas não me importei com isso Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis Mas não me importei com isso Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados Mas como tenho meu emprego Também não me importei
Agora estão me levando Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém Ninguém se importa comigo.
A inconfundível letra que revela as características do ser amado
E por alguma razão abrimos aquelas caixas antigas que guardam segredos, lembranças e recordações de muito, muito tempo. Papeis amarelecidos e fotos esmaecidas exalam cheiros peculiares de pós muito finos acumulados em gavetas ou armários quase sempre fechados.
Abrir uma caixa, folhear o velho álbum é como retomar contato com o antigo proprietário de tais objetos. Há a certeza, por parte de quem mexe, de estar tocando em algo anteriormente manuseado por outra pessoa. Uma inegável energia decorrente da percepção do outro através do objeto.
Fotos de família, velhos convites de casamento agora tornados lembranças, cartões de páscoa, de natal, ano novo… Pequenos tesouros que reativam a memória e que trazem, mesmo que momentaneamente, os acontecimentos de outrora.
Tais objetos nos levam a atitudes de respeito, reverência, carinho. Um alento para uma saudade e um estar junto no tempo retratado pela imagem, relatado pela carta.
“Caro amigo Vadico” começa o texto. Poderia ser com outra tipologia, em caixa alta ou caixa baixa, para usar expressão de diagramadores. Com todas as possibilidades de composição gráfica, nada é tão forte quanto perceber que esta é a letra de Noel Rosa e que tal bilhete foi escrito por ele.
O Poeta da Vila em bilhete ao grande amigo.
Guardo objetos que foram de meus falecidos pais, avós, meu irmão. Guardo fotos, cartões, peças de cerâmica e outros “cacarecos”. Nada é tão forte quanto reconhecer a caligrafia de cada um desses seres tão amados. Ali, na caligrafia, um jeito de ser, de estar no mundo, de levar a vida. E o discurso, típico, único, completando informações sobre quem escreve.
Perdem-se, nesses tempos de textos virtuais, algumas fortes possibilidades de reconhecimento do emissor da mensagem. Estamos constantemente cheios de dúvidas se tal texto é real, se foi ou não escrito por quem supostamente assina. E nossas belas maquininhas manuais, cheias de “emotions” padronizados escondem, certamente, peculiaridades da personalidade daquele que escreve.
Afirmo para quem interessar possa que adoro meu teclado e a tela onde elaboro este texto. Todavia, não nego a força do manuscrito, a beleza única da caligrafia do ser amado. Dela sinto nostalgia e perante as saudações cotidianas dos grupos virtuais bate um pouco de indiferença ao pré-fabricado, à cópia da cópia da cópia… Um simples “eu te amo” com a letra de quem amamos, vale mais que todas as luxuosas reproduções gráficas pelo simples e inequívoco fato: inegável autoria.