Trens de Minas! Trem de São João Del Rei

Bons sujeitos sabem que, para um mineiro, trem é aquilo que ele resolve denominar trem. Pega aquele trem ali! Viu que trem doido? Larga desse trem, meu filho! Cuidado com esse trem, cara… e os exemplos são variados ao infinito. E, fora do contexto, tente adivinhar qual o trem de cada frase! Todavia, de todos os trens de Minas, o melhor é mesmo o Trem de Ferro. Aquele da Maria Fumaça conduzindo vagões que nos levam para as mais ternas lembranças.

Outro dia estive em São João Del Rei, lá para os lados do Campo das Vertentes. Confesso não ter dormido toda a noite durante a viagem, admirando os contornos vistos pela janela do ônibus. Silhuetas, luzes esparsas fazendo perceber os contornos da minha terra. Longas horas curtidas com prazer que cresce com o raiar do dia. Nas beiras da estrada, pequenas capelas pra Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora Aparecida; no centro de um micro trevo, uma escultura de São Sebastião. Estamos em Minas! E se há alguma dúvida de estar em Minas ela se acaba quando passamos sobre o Córrego Cala-Boca (que história levou a esse nome?) ou divisamos o anúncio de um boteco qualquer: “A legítima empada!” Creiam-me, todas as outras são falsas.

Já estava distante, em outro município, uma ponte sobre o Rio Grande quando passamos por uma casa suspeitíssima, a Casa da Maria Rosa. A dona da casa pode ser uma santa, mas o visual da propriedade remete aos velhos e bons bordéis de beira de estrada. Será? Ao longo da estrada corre outro rio, o das Mortes. Minas, que logo em seguida anuncia um Trem Margoso que, ao que tudo indica, jamais saberei do que se trata. Estava lá, a plaquinha: trem margoso. Tudo rapidamente deixado para trás quando, já na rodoviária, antes de qualquer coisa comem-se dois pães de queijo para começar o dia. Dois! Poderia ter sido dez.

Quem quiser saber sobre identidade brasileira deve visitar nossas velhas cidades. Pode ser Marechal Deodoro, a primeira capital das Alagoas; ou então, um pouco mais perto de onde estou, pode ser São Luís do Paraitinga, no Estado de São Paulo. Cidades como essas exalam brasilidade. E me senti assim, caminhando pelas ladeiras de São João Del Rei, com seu casario na beira da calçada, sua gente cordial sempre disposta a dar passagem ao transeunte, sua comida que coloca qualquer regime para escanteio e, entre outras boas coisas, o seu Museu Ferroviário.

As igrejas locais são belíssimas e encantadoras. Bons mineiros se calam observando as majestosas Basílica Catedral de Nossa Senhora do Pilar, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, a Igreja de Nossa Senhora das Mercês. A beleza da Igreja de São Francisco é ímpar e nos impõe respeitoso silêncio e admiração. O Barroco, o Rococó, a arquitetura do século XVIII embelezam a cidade dividida pelo Rio das Mortes, unida por diversas pontes. Fui recebido na casa de D. Bárbara Heliodora, a Bárbara Bela do poeta que hoje, através de um delicado busto, recebe os visitantes da Biblioteca Municipal de São João Del Rei, todos muito bem tratados pela coordenadora local.

É bom registrar que na cidade, durante a semana em que lá estive, aconteceu o XXXIII Congresso da Anppom – Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música. Um monte de gente fera no setor transitando e trocando conhecimento sobre a área. Música sacra na igreja, batucada na esquina, e outras tantas discussões e oficinas pela cidade, viva e atual. Só que cidades históricas nos levam para outros tempos, nossa ancestralidade. Parece que fantasmas ou espíritos, como queiram, estão ali ao nosso lado, contando de tudo quanto o que passaram antes de chegarmos ao século XXI. E, experiência muito pessoal, a cidade me propiciou revisitar um trem. Trem mesmo, sobre trilhos e puxado por uma Maria Fumaça.

Aqueles que conhecem a história da minha família sabem da importância da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, onde meu avô trabalhou por 45 anos. Tio João Batista outro tanto e mais outros tios e primos trabalharam como maquinistas, telegrafistas, chefes de trem, mestres de linha. A composição de São João Del Rei é outra, reminiscências da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas. Na inauguração da estrada, em 1858, a cidade se orgulha de ter recebido a visita de D. Pedro II. Quem é que se lembra disso ao iniciar uma nova viagem?

Com certeza, entrou no trem, rumo a Tiradentes, o menino que um dia eu fui. O garoto que corria apressado para uma janela, abrindo-a e se debruçando aguardando a partida e, de lá, voltando-se apenas para o lado, saudando o chefe do trem que verificava a passagem – normalmente um conhecido que conversava com minha mãe pedindo notícias do meu avô. Outro momento de grata memória era a vinda do garçom vendendo refrigerantes, sanduíches, geleia de mocotó. E as cidades, as turmas de estrada, os postos todos do percurso de Uberaba a Campinas, rumo à casa da avó materna, ou de Uberaba a Araguari, para visitar a avó paterna.

Eu e Flávio Monteiro nessa viagem que mistura passado e presente

Foi comovente ver a mudança de postura nos viajantes, meus companheiros no Trem de São João Del Rei. Feito crianças, alegres como tal, logo estavam acenando para estranhos que, com simpatia, respondiam da rua, das portas de suas casas, das janelas. “Adeus, adeus, vou me embora para Catende, vou me embora pra Catende…” Era o tempo voltando e ao mesmo tempo alertando para a possibilidade de convivência harmoniosa, mesmo que da janela de um trem. Pura poesia. E vieram pontes sobre rios e córregos, lagos, pastos com vaquinhas tranquilas, pássaros em revoada… E o trem apitando, a fumaça traçando outros rumos pelo céu. Foram apenas 45 minutos! Outro tanto para voltar. A eternidade das lembranças e dos afetos.

Quanto custa esse trem? Não tem preço. E não é caro o suficiente para que não haja outros. Lá em Uberaba, onde nasci, há uma linda Maria Fumaça na Praça da Mogiana, certamente “doidinha” para sair apitando por aí. Certamente também há muitas outras disponíveis para tornar a vida das pessoas mais felizes, através de passeios agradáveis e tranquilos. Que bom ter estado em São João Del Rei! Que bom voltar para Santos, onde bondes, esses “trens sem vagões” trafegam pelo centro da cidade. Que outras cidades sigam o exemplo de Santos e São João Del Rei, propiciando felicidade, revivendo lembranças e criando recordações para todos nós.

Até mais!

Todos os lados

Foto: Flávio Monteiro

É cansativo ligar a tv ou qualquer outro meio de comunicação e perceber a quantidade de “informação” unilateral. Na atual linha adotada pelas redes de TV tem-se a predominância do que Boni, o pai, chama de jornalismo hard. No caso, hard é eufemismo para “mundo cão”, uma expressão utilizada em tempos idos para caracterizar emissoras que se chafurdavam na miséria alheia para ganhar audiência. Usando a palavra em inglês parece sofisticado, mas é só para camuflar a ideia que caracteriza o jornalismo hard: vamos noticiar violência em todos os níveis! É o que dá audiência.

Obviamente que uma guerra é de interesse geral. Um conflito entre dois ou mais países nos afeta direta, ou indiretamente. O que nós, pobres mortais, precisamos de nos atentar é para o fato de não haver em tais contendas santos e demônios. Há diferentes lados e, sobretudo, há motivos para que um conflito chegue a uma guerra. E além de um conflito, também há assuntos tão contundentes quanto! É só ver o tratamento dado pela nossa mídia ao terremoto no Afeganistão comparando com a guerra envolvendo Israel e Palestina.

Velho hábito, passo os olhos por todo o jornal, revista ou site antes de parar para ler. Seja qual notícia for. E no final de semana os primeiros números já davam a dimensão da tragédia: na mesma passada de olhos soube que morreram 260 pessoas em Israel e cerca de 1.200 em um terremoto no Afeganistão. Sabia que esses números cresceriam e neste momento, paro de escrever para tentar atualizar perdas humanas: Subiram para mais de 2.500 mortos no Afeganistão. No conflito Israel/Palestina entra a já conhecida “guerra de informação”: o tenente-coronel Richard Hecht, informa o UOL, contou que os corpos de 1.500 terroristas foram localizados no sul de Israel. Ou seja, o dito cujo, em meio aos acontecimentos dos últimos quatro dias é capaz de afirmar que todos os mortos são terroristas? Desisto temporariamente de atualizar perdas.

Livre pensar, é só pensar, dizia Millôr Fernandes. E como não pensar? Resolvi assistir ao Fantástico nesse último domingo, 8 de outubro. Ingênuo (irritantemente ainda sou!), resolvi ver o programa na esperança de saber o que acontecia no Afeganistão. O programa teceu todo um rosário de histórias contadas por vítimas israelenses. As vítimas importam, mas qual é o motivo do conflito? O que provocou atitudes tão extremas? Ações dos dois adversários são interessantes, mas qual é o motivo do conflito, devemos insistir. Rasteiro, após consequências do ataque o programa optou por mostrar a bela Sabrina Sato na Fontana de Trevi e, depois, ao lado da Ilze Scamparini, escondida atrás de imensos óculos escuros. Em seguida, mais um tempo de trivialidades para o programa limitar-se ao que todos já sabiam: Um terremoto mata mais de 1000 pessoas no Afeganistão.

Parece que a guerra é mais importante que o terremoto. E na tal guerra, recebemos mais relatos de Israel do que de Palestinos. Nada de novo. Na guerra entre Rússia e Ucrânia só recebemos notícias dos mortos e feridos ucranianos, embora recebamos também notícias de ataques à Rússia. Assim como pendem para o lado Ucraniano, agora pendem para Israel. E eu, que sou apenas um mineiro curioso, gostaria de ter informações do que chamam “jornalismo neutro” (uma voz interior está aqui às gargalhadas murmurando: Bobinho!). Quero saber os motivos. Conhecer a história!

O “bobinho” aqui ainda é teimoso feito jumento. Irei espernear enquanto tiver vivo. O planeta é redondo e, portanto, não existe um lado. Os ventos sopram para norte e sul, leste e oeste. O sol nos ilumina enquanto giramos recebendo todas as possibilidades de temperatura ao longo do ano. As águas parecem correr para uma única direção, mas no meio do caminho evaporam para depois, em forma de chuva regar o mesmo espaço por onde passaram. E se algo impede essa normalidade da natureza, cabe identificar o motivo! Também nas guerras! Nos conflitos. Ninguém é santo, ninguém é demônio. Assim vale a expressão batida, mas absolutamente verdadeira: Nada é por acaso. Resta continuar mineiro e como tal, cismado olhar para jornais, revistas, sites, emissoras de tv com aquele olhar desconfiado, que pede mais que uma mera história para boi dormir. Qual é mesmo o outro lado?

Usuários ou otários?

Com certeza não sou o único no planeta que, ao ligar o computador, o infeliz emperra exigindo que eu faça uma atualização não solicitada. Ocorre também com o telefone, com sites, apps e o escambau. Atualização! E dá-lhe sabe-se lá qual novidade, pois quando a máquina volta a funcionar nada acontece. Só uma certeza: não é para minimizar os custos dos programas, das assinaturas, das licenças de utilização. Outra certeza é a que, com um tempo muito curto, nossos aparelhos ficam incapazes por não comportarem tanta novidade tornando-se obsoletos e obrigando-nos a comprar um novo.

Não possuindo um computador que “canta Babalu em grego” e não tendo internet poderosa como a da ONU, as coisas demoram mais um pouco aqui em casa. Isto é: ontem, por exemplo, foram HORAS aguardando as atualizações “exigidas” e baixadas sem terem sido pedidas. A razão do tempo maior, é a lenda, foi por ter ficado mais de uma semana sem ligar o computador, daí terem acumulados novidades que, após as malditas esperas, não são minimamente percebidas.

Uma maquininha das boas está pelos olhos da cara. Algo que vai de 8 a 10 mil reais para quem pode pagar e há outras, por volta de 2 a 3 mil reais para serem adquiridas em 10 prestações sem juros, como é o caso do meu objeto, como comprova a imagem. Aqui está o x da coisa e a razão do ódio. PAGO E O OBJETO NÃO É MEU. O fabricante me cede um “espião” para vigiar meus desejos, vontades, necessidades e só não envia meus nus para o espaço porque não os faço. Compro um objeto que, para ser usado, careço de comprar programas e pagar sites e pagar, e pagar e pagar… Ganhar mesmo, só os malditos vírus.

Será que sou o único a me descabelar de raiva dessa situação? Será que mais alguém sonha com autonomia sobre um mero aparelho de uso pessoal? Nossos governantes não deveriam atuar para impedir essas enormes extorsões camufladas em “atualizações”? Para usar este word acabo de pagar R$ 449,00 mais impostos. Ao invés de um “obrigado”, os canalhas me enviaram um e-mail informando a data da nova cobrança em 2024. Ou seja, é como se a velha Remington ou sua contemporânea Olivetti me cobrassem aluguel pelo uso das teclas datilográficas.

Considero como a primeira grande aquisição da minha vida uma máquina de escrever Olivetti Studio 46. Leve, útil, pequena o bastante para não se tornar um estorvo. Uma paixão que me acompanhou por muitos e muitos anos. Cuidadoso, nunca precisei encaminhá-la ao conserto e tinha um único problema: a fita com tinta nas cores preta e vermelha um dia acabava. Como bom produto que era, avisava na medida em que ia perdendo nitidez, o preto virando cinza, o vermelho um rosinha vagabundo. Às vezes uma cor terminava primeiro. A gente usava a outra, acionando apenas uma tecla.

Não tenho a menor intenção em voltar ao século XX para reviver as dores e as delícias da datilografia. A questão é que já perdi as contas de quantos computadores tive, e maior ainda a quantidade de telefones celulares descartados por “incompatibilidade” com novidades não desejadas. E assim vou indo: De um lado, me sinto superior perante, por exemplo, a indústria automobilística, e gosto de me gabar por não ter sucumbido ao desejo de comprar um “carro do ano”, cuja maior novidade costuma ser coisas do tipo maçaneta diferentona. De outro lado, sou o otário que contribui para o lixo eletrônico com aparelhos em bom estado, mas tornados inúteis pelos seus malditos fabricantes ou que é obrigado a esperar por uma “atualização” que não fará absoluta diferença no meu cotidiano.

Minha arma é a escrita. Quem sabe um dia, ainda nesta encarnação, consiga ver esse quadro modificado. Me resta escrever e provocar: você, caro leitor, que se acha o máximo por comprar carro do ano, o último celular, o computador mais poderoso! Tu é tão otário quanto eu, mesmo sobrando a grana para pagar todas as contas de despesas desnecessárias. Portanto, deixe de ser otário e faça sua parte nessa contenda. Vamos formar um clube da luta contra essa joça toda?

Os aviões do fim do mundo

Até!

O ser humano é complicado, insensato. Consegue gastar US$ 223,2 milhões para construir um único avião para, supostamente, garantir a segurança de alguns sujeitos em caso de guerra nuclear. O valor acima, é de um aparelho pertencente aos Estados Unidos, com capacidade de permanência de 12 horas voando sem ser reabastecido, com capacidade para levar 112 passageiros. No caso, os distintos seriam o presidente do país e alguns comparsas.

A quantia, convertida em reais seria algo tipo R$ 1,11 bilhão. Está lá na notícia que li. Eu gostaria de ser capaz de calcular quantos quilos de arroz, ou de feijão daria para comprar com toda essa grana. Um montão, diriam meus conterrâneos mineiros. Em conta rasa, mais de 125.000.000 de sacos de arroz à R$ 8,00 cada. Daria para uma bela comilança!

O diferencial desses aviõezinhos norte-americanos e russos – sim, os russos também possuem os seus! – é o de serem capazes de resistir à um ataque nuclear. E de estarem em condições de detonar bombas e mais bombas pra cima da gente lá de cima. Coordenar esforços de terra, é o eufemismo. No pior cenário, guerra em curso, esses coisos não teriam onde aterrizar, o que seria um belo sinal de justiça divina.

Justiça é um caso sério, já que não há quem consiga impedir o armamentismo no planeta. Se há alguém que ganhe com a indústria bélica, com certeza não é o cidadão comum. Em nome de garantir a segurança, alguns sujeitos recebem fortunas faraônicas para a fabricação de ogivas nucleares, aviões, drones e todo o arsenal que, somados os investimentos para tal produção, alimentariam o planeta.

Tais aeronaves são apelidadas de “aviões do juízo final”. Pense na arrogância de tal apelido! Como se a tripulação fosse um corpo de jurados capitaneados pelo próprio Deus. Na real, são aviões do fim do mundo, pois é difícil acreditar que o mundo, tal qual o conhecemos continue o mesmo após uma guerra nuclear. Será outro mundo e, com certeza, muito pior.

Foi imposto a todos nós a ideia de que lutar contra tudo isso seria ingenuidade. Pior, fazem-nos acreditar na necessidade vital de cada país produzir, comprar e usar armas, uns contra os outros que, no frigir dos ovos são o nosso próximo, tão humanos quanto! Aqueles que acreditam que esse tipo de coisa resolve, deveriam olhar para trás. Desde o arco e flecha, passando por punhais e outra centena de tipos de armas, sabemos que a violência não resolve nem muda o ser humano. O problema é acreditar no que dizem aqueles interessados em, de uma forma ou outra, ganhar com a guerra. Muita grana!

Tomara que nunca vejamos um avião desses sobrevoando qual país seja. Nem para demonstração, muito menos para exercício. Os dois lados mais letais do planeta – aqueles dois que controlam o arsenal atômico do mundo – não estão interessados no bem de seus próprios cidadãos, enviando-os para as guerras que os “comandantes” de tais aviões arranjam. São incapazes de resolver o desemprego, a fome, a educação e a saúde de seus habitantes, pois preferem munição à alimentação.

Nota: O avião norte-americano é o E-4B Nihtwatch, da Boeing, um 747 adaptado para a guerra. Existem quatro aeronaves prontas para o combate. O modelo russo é o II-80 Maxdone, fabricado pela United Aircraft Corporation. Os russos não divulgam muito sobre o aparelho, mas sabe-se que estão construindo novos e mais potentes modelos

Outros versos para uma velha canção

Cantei no Pará… em O casamento do Pará com o Maranhão.

A letra de um samba de 1930, autoria de Vicente Paiva e Anibal Cruz tem esses versos na música gravada por Carmen Miranda: “Cantei em São Paulo, cantei no Pará / Tomei chimarrão, comi vatapá…”. Numa tacada são quatro citações de quatro regiões brasileiras que, penso, deveriam estar entre possíveis destinos de todos nós. Longe de um ufanismo fora de hora, a questão mesmo é a beleza e a diversidade ambiental da nossa terra que, infelizmente, valorizamos pouco, conhecemos menos ainda e, talvez por isso, mal cuidamos. Essa introdução se justifica no fato de a Amazônia estar em foco neste momento.

Em Belém, a capital do Pará, se discute na Cúpula da Amazônia os problemas e o futuro da região visada pelo mundo inteiro. Uma mega floresta, imensos recursos hídricos, outro tanto de possibilidades em extração mineral, uma rica fauna… E, da maior importância, a presença dos donos da terra, os povos originários em constante ameaça pela ganância dos ditos civilizados. Há que se cuidar da Amazônia! Para além das nossas fronteiras, toda a Amazônia. E para o desenvolvimento sustentável da região é preciso considerar a estrutura necessária para que seus 50 milhões de habitantes tenham uma vida digna.

Quando penso na Amazônia me vem outras regiões, outros ecossistemas. Penso nos Pampas gaúchos, no Pantanal mato-grossense, na Caatinga nordestina, no Cerrado do centro-oeste e, guardando milhares de quilômetros da nossa costa, a diversa paisagem litorânea da Mata Atlântica, além das nossas belíssimas praias. Tanta riqueza merece pelo menos uma visitinha ao longo da vida.  O planeta é maravilhoso e é lícito querer conhecer o deserto do Saara, as montanhas do Himalaia, descer o Danúbio, caminhar pela Muralha da China. Mas, seria possível incluir nos roteiros de futuras férias esse Brasil, rico e diverso? Antes que ele acabe.

Parece exagero afirmar o risco do fim. Mas não é. Uma cidade como São Paulo, para exemplificar, não conta com um único córrego despoluído. Esses mesmos córregos que contribuíram para poluir os principais rios que cortam a capital, o Tietê, o Pinheiros e o Tamanduateí. As margens plácidas do Ipiranga, cantadas cotidianamente em nosso hino, ficaram na história. E assim como o riacho histórico, carece cuidar para que no futuro não estejam somente na história nossa fauna e flora. Se o caro leitor acha que estou exagerando solicito ao distinto que enumere quantos pés de pau-brasil já teve oportunidade de ver? Poderia colocar nessa solicitação também alguns outros “pés”: Jequitibá-branco, Ipê, Araucária, Mogno… Já perdemos tanta coisa!

Nossa diversidade sofre por ações de gente ignorante e inconsequente, algo que herdamos de quando o país foi invadido pelos portugueses. O desmatamento desenfreado começou com a exploração do pau-brasil, assim como a monocultura que empobrece a terra teve início com os canaviais do período colonial. A exploração mineral, desde o ouro encontrado em Minas Gerais, segue rumo a outros países que enriquecem seus cofres e, por exemplo, com o ferro, importam o minério para nos vender produtos industrializados. Hoje sofremos o avanço indiscriminado do tal Agro que repete erros já conhecidos. Se as pessoas buscassem o motivo de a China não plantar soja descobriria que o cultivo indiscriminado não paga o prejuízo que temos e teremos por conta da água potável necessária para tal cultivo. Quanto ao desmatamento e às queimadas, o calor vigente responde já sobre as consequências que, a ciência alerta, irão piorar.

Para tudo há conserto, diziam nossos avós. Sai caro! Além do que já foi gasto para despoluir o Tietê, o governo de São Paulo promete investir R$ 5,6 bilhões para despoluir o rio. Essa promessa vem de outros governos e nada nos garante que será cumprida. Assim, deve levar algumas décadas para que paulistanos possam voltar a pescar, navegar e nadar em seus rios. Quanto nos custaria recuperar a Mata Atlântica? E se for necessário recuperar o Cerrado, o Pantanal, a floresta Amazônica? Haja imposto para tanto! E resta saber se haverá vida e saúde para isso.

“Cantei em São Paulo, cantei no Pará / Tomei chimarrão, comi vatapá…” são os versos da canção e sugiro outros mais: nos deliciarmos com as cachaças das montanhas de Minas, o sol de Ipanema e, se a gente fizer tudo direitinho com nosso país, poderemos até caminhar novamente sob a garoa paulistana. Mais, muito mais! Dançar com as prendas do sul e sambar o samba de roda do recôncavo baiano. Comer arroz com pequi em Goiás, arroz de cuxá ouvindo os tambores de crioula do Maranhão, arroz de carreteiro no Pantanal… Arrematar tudo com uma caldeirada de tucunaré com a paçoca de Tocantins. E para que toda essa possível festa tenha razão de ser é necessário que cada região esteja bem cuidada, inteira, nos propiciando o que há de melhor.

Nas próximas férias, que tal programar conhecer ou visitar uma das nossas reservas ambientais? Enquanto as férias não chegam, que tal nos mantermos alertas para agir em prol da diversidade brasileira? Um apoio necessário para que esse país “lindo e trigueiro” continue sendo abençoado por Deus.

Quatro anos: Carta a Lorenzo

Um acontecimento pode ser comum e, ao mesmo tempo único, pelo fato de assim o ser na vida das pessoas envolvidas. Um aniversário que não pude comparecer acendeu uma luzinha sobre o tempo perdido e as consequências disso na vida das pessoas. Um aniversário revela o tamanho de uma vida. Daí minha carta ao aniversariante que, espero, venha a ser tão meu amigo quanto seus familiares.

Carta a Lorenzo.

Santos, 23 de Julho de 2023

Quanto tempo, Lorenzo! Já se foram quatro anos.

Cheguei à maternidade um ou dois dias após você ter nascido, naquele julho de 2019. Terminando a amamentação sua mãe te colocou, confiante, em meus braços. Estávamos felizes, teus pais e eu, falando baixinho como convinha ao momento.

Eu já sabia desse nome, Lorenzo, embora tivesse sugerido para que o batizassem Francisco, o Chiquinho de Assis. Sua avó, Regina, quem me passou a informação: Lorenzo! Os pais escolheram! Nome bonito! Deixa o Chiquinho para outra oportunidade.

Você ficou quietinho no meu colo. Acredito que seja esse um sinal de amizade se estabelecendo. E assim, logo vieram os primeiros meses. Luciana sendo a mãe que a gente esperava e Regina adorando a ideia de ser avó. Todo mês durante o primeiro ano rolou uma foto via internet, uma mensagem; os amigos acompanhando seu crescimento.

De repente o planeta entrou em caos. Você teve a boa sorte de ignorar tudo aquilo e de estar longe do burburinho de São Paulo, protegido na pacata Araçariguama. Tua família obedecendo aos protocolos todos para que a epidemia não chegasse até você. Foram tempos difíceis que, espero, não voltem a se repetir.

Embora raramente nos tenhamos visto, sempre soube de você. Nos vimos muito rapidamente no lançamento do meu livro, O vai e vem da memória. Isso ainda em tempos de máscaras escondendo e ao mesmo tempo protegendo o rosto das pessoas. Fora essa rápida passagem, acompanhei teu crescimento via contato com sua avó. Fase por fase. E fico feliz sabendo que você está em meio a muito verde, muitas frutas, flores, pássaros, cachorros. Provavelmente, em breve será você a cultivar a horta, cuidar do pomar.

Lá se foram 4 anos! Restabelecida a normalidade, outras tantas mudanças se concretizaram. Agora, por exemplo, moro em outra cidade, vivo outra vida. O que me dificultou nesse momento e acabou que não consegui comparecer às comemorações de seu quarto aniversário, aumentando mais um pouco esse tempo desde seus primeiros dias. Todavia, tenho certeza, foi uma linda festa e você esteve em companhia de muita gente querida. E deve ter sido tudo muito divertido!

Quatro anos! Quantas coisas passaram por todo o planeta desde então. Você, Lorenzo, é um dos símbolos de esperança, de luta e de vitória. A certeza de que tudo passa e, de que, o que vale são esses momentos de alegria ao lado dos familiares. De que tudo o que foi preservado, de tudo o que merece ser preservado. A vida segue! Que Nossa Senhora da Saúde, tão cara à sua avó, cuide de você e o proteja por toda a vida.

Feliz aniversário. Grande abraço!
Valdo

Chico solitário em manhã de domingo

Uma rápida saída e caminho pela Praça Rui Barbosa, nesse domingo ensolarado de Uberaba. O céu azul desse dia brilhante tem, no alto da torre da catedral metropolitana, a imagem de Cristo soberano, vigilante, tomando conta de tudo que sempre foi dele. Me sinto solitário caminhando pela praça vazia, com um ou outro veículo subindo ou descendo indiferente à beleza das árvores, ao canto dos pássaros. Os automóveis estão com vidros escuros, fechados, escondendo passageiros.

Passo por Chico Xavier, cuja escultura aparenta ser como as tantas que há por aí, as cidades homenageando pessoas ilustres. O médium está sentado no lado esquerdo do banco, usando paletó e boné, calças e sapatos simples. No colo, sobre as pernas unidas segura um livro transformado em suporte para livros reais, flores murchas e uma enorme, artificial. Na capa do livro que está na frente lê-se o título: O caso dos exploradores de cavernas. Não guardei o nome do autor e, registrando o momento em foto, não consigo decifrar o sujeito. Com certeza, não é da autoria de Chico.

Desço pelo calçadão da Rua Artur Machado que, nessa manhã, tem uma única loja aberta, dois vendedores ávidos oferecendo bolsas, mochilas, carteiras. Entro à esquerda na Avenida Leopoldino de Oliveira. Feia, sem charme algum. Não consigo ver graça em asfalto e corredor de ônibus onde um dia houve um córrego, muretas baixas que nos serviam de acento sob árvores que ofereciam sombra refrescante. A avenida está vazia de gente, cheia de carros que correm para não sei onde.

Após sair da farmácia caminho até ao Mercado Municipal. Estou tão solitário quanto o Chico. Ele, parado enquanto ocupantes de veículos passam indiferentes. Tento me dominar, evitando a irritação diante do Cine Metrópole abandonado. É preciso preservar o humor nesse dia bonito. Ainda assim acho a gente de hoje meio besta. Deixar um cinema bonito como o Metrópole foi destinado ao nada…

Há gente, muita gente no Mercado. Quase todas sem portar sacolas com compras. Queijo, doces, pinga! A moça me oferece cachaça para provar. Brinco com ela: Me parece que, por aqui, vem um para comprar e dez para aplaudir! Ela ri, concordando e completando: Falam muito, não compram nada. Volto feliz portando duas pratas da casa, pinga e queijo, mais mexericas, que sempre preferi ao Zebu.

De volta à praça, reencontro o Chico. A praça continua vazia e tento uma telepatia básica com o médico: Oi, Chico! Cadê o povo? Eles se isolam dentro de seus carros, correm de um esconderijo para outro como se as ruas fossem perigosas! Mas, não há ninguém, pelo menos no plano em que consigo ver! Vai ver têm medo de encontrar espíritos, ou a si mesmos. O senhor não acha que é isso?

O médium não responde e gosto da ideia de que quem cala consente. Tento materializar o barulho do passado, quando a praça era tomada por humanos. Gente que ia ao cinema, ao clube, aos bares, à banca de revista. Agora correm em seus carros, assumindo um individualismo motorizado, correndo direto de suas garagens para shoppings, ou para o mercado, para aplaudir quem compra queijos e outras delícias.

Solitário humano, temporariamente dono da praça, saco meu celular para fotografar o Chico em sua singela humildade, sentadinho em um banco comum na parte baixa da praça. Há sutilezas outras, além dessa simplicidade em contraste com a imponência da catedral católica. Chico está de costas para o prédio antigo da Prefeitura Municipal, onde hoje está a Câmara dos Vereadores. Educado demais para dar uma banana para o poder e seus representantes temporários, Chico dá as costas.

Enquanto me distancio da representação em bronze do médium não deixo de pensar em suas caminhadas pela região, presenciadas quando fui jovem. Ele nunca ficava sozinho por um único minuto. Jogava conversa fora com todo mundo, sempre atento, sorridente e, qualidade incomparável: falando baixinho!

Sem olhar para trás, vim-me embora, certo de que nas outras esferas, também sendo domingo, Chico deve estar rodeado de amigos, de pessoas queridas, feliz da vida por não precisar psicografar nada para aqueles que estão com ele. Há um lado bom em tudo. Bom domingo, Chico Xavier! Meus respeitos! E para que o senhor não se livre de pidões, peço: dê lembranças aos meus.

Obrigado!

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Nota: A escultura em bronze de Chico Xavier é obra de Vânia Braga, inaugurada em 2020, por ocasião dos 110 anos do médium espírita.