Futebol, política e outras coisas mais

Muito feliz e agradecido com o percurso do meu romance, Várzea, agora em post do Instituto Legus, com texto da Roseli Gimenes, coordenadora do Cultura em Foco, para quem registro meus agradecimentos. Veja abaixo o vídeo e texto publicado nas redes sociais.

Futebol, política e outras coisas mais
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A obra é de 2025 e tem publicação pela editora independente do autor cujas vendas
podem ser solicitadas a: valdoresende.com
De pronto, há uma citação que diz tudo feita por Nelson Rodrigues, ‘De nada adiantará o futebol se o homem não presta’. É de esperar o leitor que a obra tratará de futebol. Pela citação e pelo título intuitivo. Mas exatamente as duas coisas, citação e título, levam a leitura a contextos sociais que assolam pessoas até hoje: o transporte, a política, o mal caratismo. Todas essas mazelas podem acabar em pizza ou em futebol. Ou em carnaval. No entanto, Valdo Resende compreende a alma que corre pelas veias humanas e sabe que a alegria costuma ser vista com escárnio pela sociedade. Assim, fica mais fácil dizer que o importante não é a política ou a falta de transporte ou ser desonesto. Culpemos a alegria. Guabiru, a cidade criada para a narrativa, reflete um país que tem muito a discutir. Bem lembrada no prefácio do publicitário, Fernando Brengel, a figura do Policarpo Quaresma, por isso mesmo. Nesse sentido, a obra mergulha na várzea em que vivem os cidadãos para dela extrair questões históricas e sociais que atravessam o período dos anos 70 até o contemporâneo. E, como diz o ‘técnico’, ‘Vamos jogar uma pelada!
Para relaxar!’

Por: Roseli Gimenes
Coordenadora do Cultura em Foco
@roseligii

Grato, Roseli! Muito obrigado!

Várzea na academia.

É muito bom chegar a lugares e pessoas novas. No caso, o romance Várzea chegou e foi citado pela Academia Brasileira de Letras do Futebol. Uma grande honra! Meus agradecimentos e, abaixo, a transcrição do post da ABLF. Muito obrigado!

O novo romance, “VÁRZEA”

Futebol, política e paixões em Guabiru, no calor da Copa do Mundo e das eleições de 1982.

No próximo dia 6 de dezembro, às 14h, no Portella Bar (Bela Vista, São Paulo), lançarei meu mais recente trabalho, o romance Várzea. A obra mergulha no universo do futebol amador e da política interiorana, tendo como pano de fundo a Copa do Mundo da Espanha, em 1982, e a redemocratização brasileira concretamente iniciada com a volta do pluripartidarismo e as eleições estaduais. O prefácio é de Fernando Brengel.

Sinopse

Em Guabiru, cidade fictícia do interior paulista, o técnico e leiloeiro Olympio comemora a vitória de seu time no campeonato regional. Sem imaginar, torna-se alvo de disputas entre dois grupos políticos rivais, em plena volta do pluripartidarismo. Entre paixões, traições e chantagens, o sonho de construir um estádio para o time local se transforma em promessa de campanha eleitoral.

Com humor e crítica social, o autor expõe a falta de escrúpulos de candidatos que se aproveitam da paixão nacional pelo futebol para manipular sonhos coletivos. A narrativa mistura personagens comuns, referências a ídolos como Garrincha e o clima de expectativa pela Seleção Brasileira de 1982, em um retrato sensível e satírico do Brasil profundo.

Entre as pessoas que fizeram uma leitura prévia, colaborando com suas observações e sugestões, deixo registrado trechos dos depoimentos.

  • “Um profundo mergulho em Guabiru, cidade-tema desta história, tão real que parece ter saído direto da nossa memória coletiva.” – Vitória Shigematsu, atriz e produtora cultural
  • “Um retrato poderoso e sensível do Brasil profundo, onde política, futebol e silêncio constroem os heróis esquecidos.” – Carlos Alberto Chicareli, poeta
  • “Uma deliciosa simbiose entre a arte da bola e a arte de escrever. Mais um golaço literário de Valdo Resende.” – Fernando Brengel, publicitário.

Para a composição do livro, a diagramação é do Flávio Monteiro (terceiro trabalho em conjunto, pois ele também criou o design de “A Sensitiva da Vila Mariana” e de “O vai e vem da memória”). Para a capa, foi utilizada uma foto, entre várias feitas especialmente pelo projeto por Agostinho Ermes, o Gugu. Entre as pessoas que também fizeram leituras dos primeiros esboços agradeço a Maria Elza Sigrist e Simone Gonzales.

Meu parceiro de longa data e de muitas atividades, convidei e tenho a honra de ter o prefácio de Fernando Brengel. Além do domínio da língua – ele revisou “dois meninos – limbo” e outros textos esparsos, além desse Várzea, Brengel é palmeirense apaixonado e um cidadão sempre pronto ao bom combate político. Verdade é que eu, também palmeirense, escrevi um livro com destaque para o Botafogo, dos tempos áureos de Garrincha. Brengel compreendeu a diferença entre as paixões pessoais e o amor pelo futebol. Só tenho a agradecer ao brother e aos demais que participaram dessa aventura que é fazer um livro nos dias de hoje.

Aguardo todos os que puderem no Portella Bar!

Serviço – Lançamento do livro “Várzea”

  • Data: 6 de dezembro de 2025
  • Horário: 14h
  • Local: Portella Bar – Rua Professor Sebastião Soares de Faria, 61 – Bela Vista – São Paulo – SP
  • Livro: Várzea, de Valdo Resende
  • Gênero: Romance satírico
  • Páginas: 320
  • Preço: R$ 95,00

Semana Cultural Ars Viva – Veja programação

Com seis décadas, Ars Viva realiza semana gratuita de espetáculos a partir do dia 11

O prédio da Sociedade Humanitária de Santos, um dos locais do evento.

Concentrando apresentações musicais e oficinas gratuitas para toda a população, a Semana Cultural Ars Viva será celebrada entre os próximos dias 11 e 15 da Orla ao Centro Histórico. Fundada em 1961, a Sociedade Ars Viva é uma das instituições culturais mais longevas em atuação na Baixada Santista,com foco principalmente na música coral de concerto.

Ao todo, são 11 atividades descentralizadas em espaços que também compõem a história de Santos, reunindo diferentes gerações e segmentos artísticos. O evento promove o congraçamento de artistas, educadores e público por meio de criações coletivas que atravessam também a literatura, as artes cênicas e visuais.

“A Semana Cultural retoma um dos principais objetivos da Sociedade Ars Viva que é a promoção de diferentes linguagens artísticas, do mais tradicional ao contemporâneo, demonstrando que nossa instituição está em permanente reinvenção e por isso a gente segue até hoje”, destaca o maestro e diretor da Sociedade Ars Viva, Ricardo Cardim.

O concerto de abertura, com Madrigal Ars Viva, homenageando o compositor santista Gil Nuno Vaz será já na terça-feira (dia 11), às 19 horas, na Casa das Culturas de Santos. Situado na Rua Sete de Setembro, 49, Vila Nova, o casarão erguido no início do século 20 era então residência de trabalhadores portuários. A entrada é franca.

Detalhe da majestosa biblioteca da Sociedade Humanitária.

Também há programações previstas na sede do Instituto Histórico e Geográfico de Santos (Av. Cons. Nébias, 689, Boqueirão), erguido em 1887 como sede de uma grande chácara do bairro e fomentou o clubismo local. Outro palco será a Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio de Santos (Praça José Bonifácio, 59, Centro), onde desde 1931 já recebeu bailes, cerimônias e também abriga a biblioteca pública mais antiga da Cidade. Confira a programação:

Dia 11/nov | Terça-feira | Sociedade Humanitária de Santos

• 10h: Oficina de corpo de Contato Improvisação, com Bruno Garrote;

Dia 11/nov | Terça-feira | Casa das Culturas de Santos

• 19h: Concerto de Abertura, com Madrigal Ars Viva – Homenagem a Gil Nuno Vaz;

Dia 12/nov | Quarta-feira | Instituto Histórico Geográfico de Santos

• 15h: Oficina de Xilogravura, com Luciano Favaro

• 19h: Concerto Duo Landum, com Antônio Eduardo e José Simonian;

Palestra e encontro estão programados na biblioteca mais antiga da cidade.

Dia 13/nov | Quinta-feira | Sociedade Humanitária de Santos

• 15h: Palestra “O homoerotismo na literatura brasileira”, com Valdo Resende;

Dia 14/nov | Sexta-feira | Sociedade Humanitária de Santos

• 15h: Roda de Conversa-‘Caminhos da escrita: entre técnica e inspiração’, com os escritores Ricardo Rutigliano Roque, Carlos Alberto Chicarelli e Luis Gilberto Moreira Corrêa, mediação de Valdo Resende;

• 17h30: Palestra “A música coral na cidade de Santos”, com maestro Roberto Martins, mediação de Ricardo Cardim;

• 19h: Concerto Coro-Escola Experimental Ars Viva.

Dia 15/nov (Sábado) | Casa das Culturas de Santos

• 15h: Espetáculo Teatral “Calma e Constância”, com Coletivo Valsa pra Lua;

• 16h: Performance “Sem Título”, com Lípari;

• 17h: Concerto de música antiga, com Lunatus.

A Semana Cultural Ars Viva compõe o projeto o Circuito Ars Viva de Cultura – iniciativa realizada pela Sociedade Ars Viva em convênio com a Prefeitura de Santos através da Secretaria de Cultura. Outras informações em: https://madrigalarsviva.wordpress.com/

Sina de escritor

Como começou nem ele mesmo sabe. Pode ter surgido em distantes manhãs quando, ainda na cama, ouvia as novelas de rádio seguidas por sua mãe. Ou teria sido à noite, em cotidianas reuniões familiares quando as parentes contavam umas às outras tal filme, um capítulo não assistido, um livro lido. Essa mania de contar histórias teria surgido com os casos que, chegando da rua, eram narrados pelo pai para toda a família?

Havia uma vizinha que contava histórias da Espanha. E o avô, cheio de causos de assombrações. Também umas tias, fofoqueiras, detalhando histórias alheias com pitadas críticas, maledicências misturadas com anedotas. E os padres! Com fatos antigos, de antes do nada. “No princípio era o verbo!”.  E vieram as árvores, os territórios, os reis, as viagens.

Das primeiras narrativas compostas por ele, reconhece as decorrentes das necessidades domésticas. Como está sua avó? Me conta, como foi seu dia na escola? Quero saber direitinho o motivo da sua professora estar me chamando! E ai dele se não apresentasse boas razões para não ter feito as tarefas escolares, ou por ter conversado com os amigos durante a missa. O castigo vinha certo. Junto com as consequências desses corretivos foram engendradas, com certeza, vinganças espetaculares. Ele iria se matar e ela iria chorar no velório, e passaria a vida a levar flores no cemitério, soluçando, arrependida.

Do avô ganhou um bloco, lápis, exclusivamente para escrever histórias. E não terminou o primeiro romance, como não terminaria várias outras histórias ao longo da infância, adolescência, juventude. Começava a escrever e no meio do enredo perdia o interesse, achava tudo sem graça. Um dia ouviu que era coisa de gente do signo de gêmeos, deixar coisas pelo caminho. Bobagem! Eram histórias bobas, ruins. Tal qual o exercício que, não se completando, exige do atleta o frequente recomeçar.

A descoberta mais interessante daquelas fases iniciais veio com a decisão de escrever um diário. Espartano, ele obrigou-se a escrever todos os dias e isso gerava dificuldades imensas quando, o que era bem comum, não acontecia nada de relevante, emocionante, instigante. Os dias comuns são exercícios incríveis para um pretenso escritor. É fácil narrar o quebra-quebra do vizinho, a morte da bezerra, o assalto ao trem pagador. Exercício mesmo é escrever sobre o cotidiano medíocre onde nada de relevante, pitoresco ou dramático acontece. Ele viveu momentos de aprendizado ao ter que ir para além do aparente.

De certeza desses tempos de aprendizagem ele tem a escrita enquanto ato solitário. E mesmo quando dizem escrever em conjunto, o ato de elaborar qualquer enunciado antes de anunciá-lo é ato solitário. Alguns vícios também decorreram daqueles momentos iniciais como, por exemplo, escrever à noite. De preferência com mais ninguém acordado pela casa. Foi quando efetivamente criou os primeiros textos; alguns contos, crônicas, poemas, peças de teatro.

Redigir peças teatrais sob demanda foi eficaz pela imediata exposição dos resultados ao público. A resposta também imediata na reação da plateia, às vezes durante a apresentação. Com temas densos, dramáticos, ele tinha clareza do resultado nos aplausos finais, escassos ou fartos, tímidos ou efusivos. Se era comédia, a angústia era imediata, terminando com os primeiros risos e chegando ao êxtase quando esses se tornavam gargalhadas.

Escrever profissionalmente, para revistas, jornais, sites, foi percebido como ato fundamental para aprimorar o ofício, esquecer questões adolescentes tipo “só consigo escrever à noite”. Foi o tempo de diariamente entrar em uma redação, ocupar uma mesa e trabalhar, ou seja, escrever o que era preciso, o necessário, o que era esperado ou solicitado. Aprendeu a rir de coisas tipo inspiração. Guardou esta para as futuras tentativas de literatura.

Hoje, que o tempo passou, ele contabiliza um, dois, três… seis livros. Vendidos aqui, acolá, atingiram “Europa, França e Bahia”, é certeza. Ele está, comprovadamente, por aí. Há títulos esgotados!  Quer coisa melhor? No entanto, como se retornando aos primeiros momentos, vem a necessidade do interlocutor. Escrever sem ser lido é tipo sexo não consumado.  Meses e anos para construir um texto, elaborar uma narrativa, desenvolver uma história! Às vezes, ele sente vontade de escrever e mais nada. Todavia, só se reconhece escritor quando lido.

Terminado o texto, este mesmo se é que você chegou até aqui, ocorrerá ou não a magia entre emissor e receptor, autor e leitor. Não se trata da resposta mercadológica que se mensura por resultado de vendas. Nem da vaidade tola das críticas e dos elogios simples ou rebuscados. O esperado é que ocorra uma união íntima entre esses dois seres, o que escreve e o que lê. Serena se concordarem, ou cheias de pensamentos argumentativos para, oportunamente, expor as próprias ideias, outra conclusão ou ponto de vista.

E assim aguardarei, caro leitor, que tenhas algo a me dizer. Se assim for, até breve!

A menina do vestido branco de listras verdes

Em tempos de consumo bobo, quando se usa uma roupa por festa, um par de sapatos por ocasião, onde repetir um vestido é motivo de notícia de jornal, o pensamento dele volta e meia recai na menina do vestido branco de listras verdes. A mais linda de todas, a que ele nunca esqueceu.

Havia terrenos baldios, campos de futebol de várzea, quadras de chão batido. E o pátio da escola, as crianças naturalmente divididas em grupos, por idade. As brincadeiras alucinantes com a duração do intervalo, que todos chamavam recreio, onde a imaginação superava a falta de brinquedos, de aparelhos de ginástica, de quadras poliesportivas. Outro pátio, da igreja, onde se alternavam folguedos entre uma e outra das quermesses anuais.

Mexericos paroquiais, ele não esquece que soube dela por um fiasco na folclórica coroação da santa no mês de maio. A competição corria solta entre as meninas nos meses de maio, Nossa Senhora das Graças, e no mês de outubro, Nossa Senhora Aparecida. As mães faziam sua parte, vestindo as garotas de anjo que, ensaiadas pacientemente por uma moça de nome Isabel, a Belinha, faziam o encerramento das manifestações religiosas de cada quermesse. Encerrando a novena havia a procissão pelas ruas do bairro, a missa e a coroação. Depois dessa, a festa era no pátio.

Onde ele ouviu a maledicência? Quem teria dito? “Que fiasco, na hora do solo, cadê a voz? A Belinha deve estar furiosa”. O nome da cantora joãogilbertiana ficou na memória, e tempos depois foi ligada a figura à fofoca. Ele, conheceu a indignação. Só podia ser inveja! Uma menina linda como aquela, com aqueles olhos negros, o cabelo ondulado encostando nos ombros! Bonita demais! Delicada, educada. Certamente a igreja inteira emudeceu quando ela cantou seu pequeno solo, oferecendo um lírio à santa.

E havia um vestido branco de listras verdes. Manga três quartos, gola canoa. Onde se aprende nome de mangas e golas? Foi depois, certamente. Quem vai querer saber o nome de detalhes de um vestido? O que importava era a menina dentro do vestido, cheia de graça, tímida e recatada, mas sempre sorridente, os olhos brilhantes. A roupa de anjo para coroar a santa deve ter sido outra, claro, e é fato, ela não foi mais vista entre o elenco de pequenas cantoras. Ele dando de ombros. Perderam uma voz linda! Um verdadeiro rosto angelical.

Foram as mesmas ou outras faladeiras que o fizeram perceber uma mudança de comportamento. Aquele vestido branco de listras verdes, que era roupa de domingo, agora estava sendo usado também nas reuniões que as meninas tinham às quartas-feiras, na paróquia. Verdade seja registrada, ninguém botou reparo no fato de a menina repetir roupa. A curiosidade é que cresceu entre as futuras alcoviteiras. Para quem a menina estaria se vestindo na quarta com as roupas domingueiras?

Eram tempos em que se brincava mais, sem pressões para namoros e pegações. Havia a percepção do interesse que, via de regra, não ficava em sigilo. Fulano gosta de fulana! Fulana quer namorar fulano! Foram tempos de alegrias singelas, contentamento imenso dele em saber-se correspondido pela menina suave que, grande vantagem, jamais se perdia no meio de tantas! De longe, ou no meio da gentarada da missa, entre as crianças todas era ela a única, a que se distinguia aos olhos e ao coração. O povo do branding aprendeu com ela e seu vestido branco listrado que fazia com que ela se tornasse única.

Outra menina, um divisor de águas. Uma vizinha que gostava de brincar e levar meninos para um canto. Beijo na boca cheio de gosto de saliva, mão sendo encaminhada para dentro do segredo protegido pela calcinha, mão avançando dentro do short, manuseando o que encontrava e provocando descobertas. Será que a primeira, a eleita do vestido branco de listra verdes, tinha algum amigo para descobrir coisas? O divisor de águas foi percebido depois, um divisor de meninas. As mais quietinhas e as mais afoitas. Quem faz o que, só na calada se sabe.

O tempo rodou num instante, cantava o Chico embalando a vida que corria, célere. O pequeno casal teve momentos pífios e acabou que ficaram em cidades distintas, voltaram para a mesma Uberaba, novamente se distanciaram e cada um tomou seu rumo, seguiu sua via. Foram diminuindo os fatos, cresceram os intervalos entre notícias e nem foi notado que possíveis sonhos e desejos não se realizariam. Foram engavetados e escapolem em datas imprevisíveis.

O nome ele não esqueceu. Décadas passadas, é construção do imaginário um rosto, um cabelo, os olhos. A voz, como afirmam por aí, foi a primeira a cair em completo esquecimento.  Às vezes ele pensa na menina do vestido branco de listras verdes. Favoreceu as lembranças à tona nesses últimos tempos conviver com uma moça de mesmo nome. Também gentil, linda, de maneiras afetuosas. Bem humorada. A moça de agora, cheia de características agradáveis, o levou a indagações sobre a outra, aquela de quando ele havia acabado de ser criança.

Onde foi parar a tal menina, mulher, agora uma senhora de setenta anos? A vida costuma ser generosa para pessoas bonitas e então, ele pensa, ela é feliz. Ou foi feliz! E um aperto no peito rejeita o fim, pois fim não teve. Foi afastamento, teve e tem distância. Não dá para ter certeza de distância física, pois ela pode morar na próxima esquina, sem que o acaso os coloque frente a frente. Seria surreal que ela morasse logo ali, perto da Igreja da Aparecida. É devaneio bobo para preencher vazios, o imenso vazio causado pelo tempo.

Nessas reviravoltas de roda mundo, roda gigante, roda moinho e pião, ele percebeu que algumas coisas se tornaram sonhos. Como é sonho a linda história do menino que se apaixonou por uma menina com seu vestido de gola canoa e mangas três quartos. Ela tinha um sorriso suave, uma voz mansa. Os olhos imensos, brilhantes, o rosto emoldurado pelo cabelo preto, ondulado.

Ele reconheceu ter na vida um vasto escaninho, cheio de sessões, de memórias de todas as categorias.  Quase tudo aparentemente esquecido, mas sempre prestes à vir à tona, registrado no cerne, na pele. A tal menina, na verdade, sempre deu as caras fora do escaninho, ele admite! Também reconhece que tal garota esteve entre os sonhos preferidos, as lembranças prediletas. Um sonho bom que, quando retorna, enche a vida de outros sonhos guardados, outras lembranças adjacentes. Ele mesmo tem colocado a memória de listras verdes de lado, puxando do nicho transversal do escaninho a afoita, a menina que se adivinhava mulher e o ensinou os primeiros passos das segredos do sexo.

Valdo Resende 16/08/2025

Notas: Imagem obtida com IA. Quando Chico Buarque gravou Roda-Viva, o casal de meninos do conto estava com 13 anos.

Caminhantes noturnos

foto: Valdo Resende

No início da madrugada, o carro deslizando com velocidade sobre o asfalto, as construções às margens da estrada tornaram-se o que, ultimamente, as pessoas chamam gatilho. Prefiro escrever que acionaram lembranças, despertaram memórias. Tentei em vão visualizar a escola onde lecionei, assim como a empresa em que trabalhou um grande amigo. Já haviam ficado para trás.

Entramos em um trecho em que, seguramente, eu não passava há oito, dez anos. Os versos da canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil tornados realidade: “Tudo ainda é tal e qual, e no entanto nada é igual”. A capital São Paulo, gigante que nunca dorme, é o cenário de milhões e milhões de histórias. Sou um cisco irrelevante, incapaz de acordar a cidade. Mas ali estão as minhas lembranças, testemunhas do que vivi.

Houve um dia em que, após passar em um concurso, saí de Santo André, no ABC, em direção à Rua Dr. Vila Nova, na Vila Buarque. Uma imensa chuva provocara enchente e o trânsito, parado, me impedia atravessar um trecho da Avenida do Estado. Eu não conhecia a cidade e, preocupado em chegar no horário a tempo de realizar a entrevista de admissão, resolvi contornar a enchente tendo como rumo os edifícios centrais, o norte correto dado pela torre do antigo Banespa, hoje sede e propriedade privada.

Próximos de entrar no elevado sobre o Rio Tamanduateí percebi, que a fábrica da Arno não está ali, onde sempre esteve. Quando será que fechou? Ainda existe tal marca? Também, há séculos não careço comprar eletrodomésticos. Ficou para trás a fábrica, também ficou no passado a gravadora de discos que me encantava por saber que Ângela Maria, Elza Soares e Miltinho gravaram discos ali, em qual prédio mesmo? O da esquina, próxima da igreja horrorosa e caça níquel do outro lado da avenida, tão cheia de luzes quanto uma padaria.

Senti vontade de voltar ao Ipiranga, passar pela Avenida Nazaré e chegar ao antigo Instituto de Artes, onde estudei. Mas já descemos do viaduto sobre o rio e evito olhar para o quartel, prestando atenção na Estação do Metrô Pedro II. Sinto-me a caminho de casa. Entramos no trecho da Radial Leste que ligará com o Elevado João Goulart, o Minhocão. Durante quarenta anos passei por essas avenidas e ruas, praças e parques. Estou a caminho de casa.

Meus companheiros de viagem ignoram meus pensamentos, conversam sobre os benefícios do alho, cru, em pedaços. O chá é bom, mas perde um pouco a potência e retarda o efeito curativo. Chá de alho! O motorista segue atento ao tráfego e ignora a entrada para meu antigo lar. É rápido e já passamos em frente ao Teatro Oficina. Meu destino deixa de ser minha casa para ser meu trabalho. O carro faz parte do trajeto que percorri nos últimos anos antes de me aposentar.

Sob o elevado, em um semáforo fechado da Avenida Amaral Gurgel, percebo ainda os resquícios de noites efervescentes da década de 80. Passava por ali em direção ao CPT de Antunes Filho, andava de um lado para o outro para cobrir eventos das boates da região para a revista em que escrevi, onde vi os primeiros shows de sexo explícito, presenciei uma briga tenebrosa no Bar Quadrado, em frente ao Bar Redondo em madrugada como esta, em que atravessamos a cidade rumo ao lar dos nossos hóspedes.

Nosso destino é a Avenida Barão de Limeira, que conheci em relações de trabalho com a Folha de São Paulo. Chegamos ao destino. Despedidas rápidas, pois é tarde e o domingo já está prestes a receber os primeiros raios de sol. O frio é intenso e eu quero voltar para casa, a de agora, no litoral onde a temperatura mesmo fria é sempre mais amena que na Capital.

Estou cansado. A noite foi intensa e todas as lembranças que vieram à tona misturaram-se a flashs de outras histórias, muitas pessoas, vários lugares. Se acionadas com tempo sei que estão todas dentro de mim. Alguns deslizes e falharão as datas corretas, os nomes completos. Um ou outro detalhe se perdeu, talvez com hipnose seja resgatado, mas se foi perdido que fique por lá. Importa o que emergiu, o que está quente, pleno de vida dentro de mim.

Ah, São Paulo! Só um momento, só pequenas lembranças de um ser comum. Quantas outras em seus milhões de habitantes? Outras tantas em viajantes, já distantes. Volto à Caetano para afirmar que o “errante navegante, quem jamais te esqueceria”. São Paulo não é a minha terra. É a maior parte da minha vida!  De tantos outros que, trafegando madrugada adentro por suas ruas e avenidas, se derretem de amor e gratidão, até mesmo pelo emprego perdido por não chegar à tempo por conta de uma enchente.

São Paulo, 09/08/2025. Para meus companheiros de viagem, Patrícia Remondini, André Manzoni e Flávio Monteiro. O título desta crônica refere música d’Os Mutantes (Arnaldo Batista e Rita Lee). Os alhos, ruinzinhos, estavam expostos no supermercado. Não comprei.