Em tempos de consumo bobo, quando se usa uma roupa por festa, um par de sapatos por ocasião, onde repetir um vestido é motivo de notícia de jornal, o pensamento dele volta e meia recai na menina do vestido branco de listras verdes. A mais linda de todas, a que ele nunca esqueceu.
Havia terrenos baldios, campos de futebol de várzea, quadras de chão batido. E o pátio da escola, as crianças naturalmente divididas em grupos, por idade. As brincadeiras alucinantes com a duração do intervalo, que todos chamavam recreio, onde a imaginação superava a falta de brinquedos, de aparelhos de ginástica, de quadras poliesportivas. Outro pátio, da igreja, onde se alternavam folguedos entre uma e outra das quermesses anuais.
Mexericos paroquiais, ele não esquece que soube dela por um fiasco na folclórica coroação da santa no mês de maio. A competição corria solta entre as meninas nos meses de maio, Nossa Senhora das Graças, e no mês de outubro, Nossa Senhora Aparecida. As mães faziam sua parte, vestindo as garotas de anjo que, ensaiadas pacientemente por uma moça de nome Isabel, a Belinha, faziam o encerramento das manifestações religiosas de cada quermesse. Encerrando a novena havia a procissão pelas ruas do bairro, a missa e a coroação. Depois dessa, a festa era no pátio.
Onde ele ouviu a maledicência? Quem teria dito? “Que fiasco, na hora do solo, cadê a voz? A Belinha deve estar furiosa”. O nome da cantora joãogilbertiana ficou na memória, e tempos depois foi ligada a figura à fofoca. Ele, conheceu a indignação. Só podia ser inveja! Uma menina linda como aquela, com aqueles olhos negros, o cabelo ondulado encostando nos ombros! Bonita demais! Delicada, educada. Certamente a igreja inteira emudeceu quando ela cantou seu pequeno solo, oferecendo um lírio à santa.
E havia um vestido branco de listras verdes. Manga três quartos, gola canoa. Onde se aprende nome de mangas e golas? Foi depois, certamente. Quem vai querer saber o nome de detalhes de um vestido? O que importava era a menina dentro do vestido, cheia de graça, tímida e recatada, mas sempre sorridente, os olhos brilhantes. A roupa de anjo para coroar a santa deve ter sido outra, claro, e é fato, ela não foi mais vista entre o elenco de pequenas cantoras. Ele dando de ombros. Perderam uma voz linda! Um verdadeiro rosto angelical.
Foram as mesmas ou outras faladeiras que o fizeram perceber uma mudança de comportamento. Aquele vestido branco de listras verdes, que era roupa de domingo, agora estava sendo usado também nas reuniões que as meninas tinham às quartas-feiras, na paróquia. Verdade seja registrada, ninguém botou reparo no fato de a menina repetir roupa. A curiosidade é que cresceu entre as futuras alcoviteiras. Para quem a menina estaria se vestindo na quarta com as roupas domingueiras?
Eram tempos em que se brincava mais, sem pressões para namoros e pegações. Havia a percepção do interesse que, via de regra, não ficava em sigilo. Fulano gosta de fulana! Fulana quer namorar fulano! Foram tempos de alegrias singelas, contentamento imenso dele em saber-se correspondido pela menina suave que, grande vantagem, jamais se perdia no meio de tantas! De longe, ou no meio da gentarada da missa, entre as crianças todas era ela a única, a que se distinguia aos olhos e ao coração. O povo do branding aprendeu com ela e seu vestido branco listrado que fazia com que ela se tornasse única.
Outra menina, um divisor de águas. Uma vizinha que gostava de brincar e levar meninos para um canto. Beijo na boca cheio de gosto de saliva, mão sendo encaminhada para dentro do segredo protegido pela calcinha, mão avançando dentro do short, manuseando o que encontrava e provocando descobertas. Será que a primeira, a eleita do vestido branco de listra verdes, tinha algum amigo para descobrir coisas? O divisor de águas foi percebido depois, um divisor de meninas. As mais quietinhas e as mais afoitas. Quem faz o que, só na calada se sabe.
O tempo rodou num instante, cantava o Chico embalando a vida que corria, célere. O pequeno casal teve momentos pífios e acabou que ficaram em cidades distintas, voltaram para a mesma Uberaba, novamente se distanciaram e cada um tomou seu rumo, seguiu sua via. Foram diminuindo os fatos, cresceram os intervalos entre notícias e nem foi notado que possíveis sonhos e desejos não se realizariam. Foram engavetados e escapolem em datas imprevisíveis.
O nome ele não esqueceu. Décadas passadas, é construção do imaginário um rosto, um cabelo, os olhos. A voz, como afirmam por aí, foi a primeira a cair em completo esquecimento. Às vezes ele pensa na menina do vestido branco de listras verdes. Favoreceu as lembranças à tona nesses últimos tempos conviver com uma moça de mesmo nome. Também gentil, linda, de maneiras afetuosas. Bem humorada. A moça de agora, cheia de características agradáveis, o levou a indagações sobre a outra, aquela de quando ele havia acabado de ser criança.
Onde foi parar a tal menina, mulher, agora uma senhora de setenta anos? A vida costuma ser generosa para pessoas bonitas e então, ele pensa, ela é feliz. Ou foi feliz! E um aperto no peito rejeita o fim, pois fim não teve. Foi afastamento, teve e tem distância. Não dá para ter certeza de distância física, pois ela pode morar na próxima esquina, sem que o acaso os coloque frente a frente. Seria surreal que ela morasse logo ali, perto da Igreja da Aparecida. É devaneio bobo para preencher vazios, o imenso vazio causado pelo tempo.
Nessas reviravoltas de roda mundo, roda gigante, roda moinho e pião, ele percebeu que algumas coisas se tornaram sonhos. Como é sonho a linda história do menino que se apaixonou por uma menina com seu vestido de gola canoa e mangas três quartos. Ela tinha um sorriso suave, uma voz mansa. Os olhos imensos, brilhantes, o rosto emoldurado pelo cabelo preto, ondulado.
Ele reconheceu ter na vida um vasto escaninho, cheio de sessões, de memórias de todas as categorias. Quase tudo aparentemente esquecido, mas sempre prestes à vir à tona, registrado no cerne, na pele. A tal menina, na verdade, sempre deu as caras fora do escaninho, ele admite! Também reconhece que tal garota esteve entre os sonhos preferidos, as lembranças prediletas. Um sonho bom que, quando retorna, enche a vida de outros sonhos guardados, outras lembranças adjacentes. Ele mesmo tem colocado a memória de listras verdes de lado, puxando do nicho transversal do escaninho a afoita, a menina que se adivinhava mulher e o ensinou os primeiros passos das segredos do sexo.
Valdo Resende 16/08/2025
Notas: Imagem obtida com IA. Quando Chico Buarque gravou Roda-Viva, o casal de meninos do conto estava com 13 anos.