Depois da tempestade

Ela chegou àquela altura da vida em que nada havia a perder; mesmo querendo perder o que guardara para um possível príncipe que nunca chegou. Desconfiava que ninguém mais manifestaria interesse pela coisa. “Coisa, coisa, que palavra feia”, pensava Dadinha. A idade chegou e a flor intacta, o símbolo máximo de pureza, a comprovação física da castidade havia se transformado em coisa. “Triste fim da borboleta! Melhor não pensar”, pensava Dadinha.

O apelido veio na infância; Dadinha completou os primeiros quatro anos articulando uma única sílaba “Dá!” Repetia, ensaiava entonações, praticava incríveis variações sorrindo, chorando, séria, ensimesmada, ao som gaguejante: “Dá!” E virou Dadinha. Desconfiava da criatividade familiar a partir do primeiro apelido. E não contabilizaria, ao longo de toda a vida, outros acontecimentos que pudessem desfazer a certeza aumentada ano após ano. Criatividade não era característica familiar e, pior, Dadinha veio com a mesma sina.

Sem conseguir grandes feitos na vida, Dadinha culpava a família pela falta de brilho, pela ausência de algo que a fizesse notável. Cansada de passar o tempo em branco, houve um momento em que se permitiu ser encaminhada para uma espanhola, autodenominada terapeuta alternativa. Esta conseguiu dois feitos notáveis: fez com que Dadinha acreditasse que sofria de complexo de inferioridade e, segundo, que o processo de cura começaria trocando-se o apelido da moça. Assim surgiu Da! Apenas e tão somente Da.

O resultado da terapia foi que Da ganhou olhares incrédulos, sorrisos de espanto e mais solidão. Uma única amiga consentiu em apresentá-la pelo novo nome: “Jurandir, esta é a minha amiga Da!”. O rapaz, olhando-a profundamente procurou esclarecer: “Dalva? Darlene? Dulce? Dilma!”. Da apenas balançava a cabeça negando as possibilidades e o rapaz, percebendo a presa fácil concluiu: “Da?” E ela docemente confirmou: “Sim”.

Jurandir, mineiro das antigas, levou o sim de Da ao pé da letra, arrastando-a para uma rua deserta no começo da noite. Lá em Minas Gerais, dadeira ou dadona era quem dava muito. Acho que ainda é, embora com outros adjetivos. O rapaz ganhou bofetões de uma indignada e ofendida Da que, mediante o ocorrido, reassumiu-se Dadinha.

Décadas depois, já em São Paulo, morando no mesmo edifício nos tornamos amigos em campanha contra uma síndica. Acabamos bebericando em tardes de sábado, quando em ocasiões de excessos alcoólicos Dadinha passou a me confidenciar: “Bem que deveria ter aceitado as investidas de Jurandir. Pelo menos teria alguma lembrança do que é sentir um corpo por cima, por baixo… ou seria de lado?” Ficava com raiva de nem poder expressar uma preferência e achava a vida muito sem sentido. E tomava mais uma dose até que, alta, reclamava não ser ela a mulher da minha vida, despedindo-se e tomando rumo de casa.

Dadinha, vinda desse Brasil tão brasileiro, acreditava em santos, milagres, despachos, patuás, promessas, simpatias. Num já distante junho, bem próximo do dia de Santo Antônio e acreditando que nada mais havia a merecer do santo, deixou todas as crenças de lado. Estava certa de que seu caso pendia mais para Santa Rita dos Impossíveis do que para o santo casamenteiro, mas o que uma santa, chegada à castidade, poderia fazer por ela? Chegou a desancar com o santo chamando-o inútil, imprestável. Foi na mesma noite após o destempero que o raio caiu.

Aquele 11 de junho surpreendeu São Paulo com uma tempestade tenebrosa. Raios caíram sobre a cidade e um, barulhento e forte, bem sobre nosso edifício, na Bela Vista. Em nosso prédio foram muitos os apartamentos com vários eletrodomésticos queimados. Dona Jovelina, vizinha de andar e confidente de Dadinha espalhou a notícia: “Vingança de Santo Antônio! Ela desdenhou do Santo, blasfemou, ele queimou a casa dela e ela, de susto, está lá mais tonta do que antes repetindo dá, dá, dá…”

Todos se compadeceram com pena de Dadinha. Era verdade! Estava repetindo a sílaba indefinidamente, olhar esgazeado, andar cambaleante. Assustada e em choque com o raio seguido do barulho ensurdecedor do trovão, reverberando pelas paredes dos edifícios vizinhos, Dadinha fora condenada a retornar ao dá, dá, dá infantil. Fiquei penalizado por pouco tempo. Três dias depois, chegando da faculdade, encontrei Dadinha toda produzida, jovial, com um sorriso escancarado, eufórica ao ponto de não se conter, me dizendo sem rodeios: “Eu dei, professor! Eu dei!”

Sem conter o riso quis saber o outro ator de tal ato. “Jurandir! Reencontrei o Jurandir. Há muito que está em São Paulo e é eletricista, veio chamado pela síndica. Pra alguma coisa aquela presta. Ele veio consertar os relógios avariados e eu lá, só dizendo dá, dá, dá, ele achou que eu queria, aí, veio me pegando, me cutucando, me beliscando, me bolinando… Ah, seu Valdo, como eu pude viver sem isso?”

Quem não ficaria feliz com tanta felicidade? Que bom que não havia vingança nenhuma, comentei com Dadinha. Comentamos sobre os caminhos tortos dos santos; o simpático Santo Antônio jamais se vingaria; pelo contrário, mostrou sua força nesse quase milagre. Olhando os brilhos e o batom acentuado de Dadinha, toda aquela produção em plena quinta-feira, indaguei se ela estava saindo para novo encontro com o mineiro Jurandir. “Que nada, vizinho. Vou pro boteco da Dinorah, vou recuperar o tempo perdido. Já marquei com o garçom” E saiu piscando com uma safadeza que jamais imaginei ver naquela Dadinha renascida, jovial, cheia de vontades, senhora de si, do seu corpo e do direito de ser feliz.

Valdo Resende (Publicado originalmente em 2011. Revisado em Santos, janeiro de 2025)

Obs. Ilustração criada com IA

Poleiro de pato é no chão

Imagem criada com IA

Um sururu sempre rolava naquele boteco da Lapa. O grupo de frequentadores era quase fixo, amigos e conhecidos não se importando com o final de costumeiros bate-bocas, às vezes levado às vias de fato. Juvêncio, chegado a buscar remédio na cachaça, tinha por hábito desabafar com quem estivesse a seu lado. Belmiro, sempre que percebia tal situação, passava por ele e sussurrava: “Pato!” Pronto, estava iniciada a peleja.

Juvêncio se achava todo pimpão, poderoso. “Pato é a mãe!”. Em seus devaneios traçava a mulherada do pedaço. Quando no espelho, via-se como galã de cinema. Gostava de fazer pose de cantor de tango; às vezes de boxeador ou, ainda, de bom moço, romântico. Dobrando os braços para ressaltar os músculos, estufando o peitoral, via-se sobretudo como um belo e garboso galo. Ele morava na Lapa, o bairro boêmio do Rio de Janeiro, no andar de cima de um sobrado, bem ao lado do boteco frequentado por sambistas, por homens em busca de mulheres e estas em busca de amores, fregueses e patos.

“Essa gente de samba!”, dizia Juvêncio com desprezo. A indisposição vinha principalmente por conta de Belmiro, um afamado compositor, sujeito elegante e refinado em seus ternos de linho branco. Alardeando ter borogodó e ser do balacobaco, pagava bebida para todo mundo quando tinha samba gravado por Araci de Almeida ou Carmen Miranda. Contam que teve uma paixão por Dalva de Oliveira e, por tudo isso, Juvêncio se perguntava o que um cara cheio das coisas faria naquele boteco de samba? O fato é que Belmiro o chamava de Pato. E ele odiava ser chamado de Pato, assim como detestava lembrar quando surgiu o apelido.

Juvêncio viera de São João do Meriti para trabalhar no comércio da Lapa quando conheceu Aurora. Mulher de quadril bamboleante e seios empinados, a moça deixou-se namorar pelo jovem que pensou ter encontrado nela um grande amor. Após meses da aparente paixão, a moça não deu a mínima por ter sido flagrada com um marinheiro de passagem pelo Rio de Janeiro. Trocou o amor de Juvêncio por vidros de perfume contrabandeado. Sobraria para ele lembrar a situação sempre que ouvisse a marchinha carnavalesca que, ironicamente, poderia ser encarada como profecia: “Se você fosse sincera, oh, oh, oh, Aurora. Veja só que bom que era…”

O abandono de Aurora rendeu. Juvêncio bêbado, chorando no balcão, lamentando o fato. Em um desses dias de chororô, rolava uma roda de samba e Belmiro puxou uma marchinha, famosa na voz de Chico Alves, sendo acompanhado pelos animados participantes da roda.

Ai, ai, ai, o galo é que está com a razão
Ai, ai, ai, poleiro de pato é no chão…

Juvêncio achou que aquilo era para ele, ali, no chão dos abandonados. Um pato! Mesmo alcoolizado, o rapaz chamou o compositor pra briga. O segurança empurrou-os pra rua. Mais falação que briga, antes que a contenda estragasse a noite foram separados pela turma. Motivo da briga veio à tona, foi inevitável associar o sujeito ao apelido. Pato. Juvêncio tratou de bolar um jeito de calar a boca do bar.

Disposto a ir à luta, redescobriu-se vaidoso ao fazer a barba, cortar o cabelo. No espelho voltou a ver o galo que achava que era, aprumando-se para nova conquista. Sabia atrair uma mulher e, assim, a morena Aurora foi substituída por uma ruiva de idade indefinida, moradora do Rio Comprido, que trabalhava como copeira em Copacabana. Ele logo descobriu que a nova namorada fazia jus ao mito de que mulher ruiva tem um fogo só comparado à cor do cabelo. Após noites de intensa atividade, ele pensou ser já momento de levá-la ao boteco, mostrar para aqueles sambistas o galo em ação.

Gilda, a ruiva, tinha lá seu jeito de ser, sua forma de levar a vida. Não é por ser copeira que não filosofava. Cada namorado era sempre o um, o que o “um” não sabia é que havia o dois, o três, o quatro… Namorando um rapaz em cada esquina, se entregava com paixão e chegado o momento cantarolava para todos eles:

...Se o amor só nos causa sofrimento e dor

É melhor, bem melhor a ilusão do amor

Quando o casal entrou no Boteco, foi recebido efusivamente por Belmiro que, em andanças por Copacabana, já havia ido até ao Rio Comprido conhecer os lençóis de Gilda. Com desenvoltura, a moça saudou o encontro e, aproveitando a situação, esclareceu para Juvêncio sua forma de encarar a vida, o amor. Mostrando desenvoltura e afinação, juntou-se aos instrumentistas e cantou “Nada Além”, a música que tinha por filosofia de vida.

Eu não quero e não peço para o meu coração

Nada além de uma linda ilusão.

Naquela mesma noite, enquanto Gilda mostrava seus talentos aos sambistas da Lapa, Juvêncio bebia e, atônito, conhecia a liberdade da moça que, em momento de descanso da cantoria, segredou a ele gostar de fazer a dois, a três. O que ele achava de fazer uma brincadeira, ela, ele e o rapaz do cavaquinho, por quem ela revelou nascente tesão? Ele fugiu, escandalizado, deixando-a no bar.

Semanas depois, encheu a cara em estabelecimento vizinho para tomar coragem de voltar ao bar. Foi recebido por conhecidos e por Belmiro, que lembrou a ele o que já era sabido: poleiro de pato é no chão. Nesse dia não houve briga; o abandonado muito bêbado preferiu chorar as mágoas no ombro do inimigo. Destino triste esse que só colocava mulheres traiçoeiras na vida daquele cidadão. Será que era castigo por ele ter abandonado Amélia?

Muito jovem, Juvêncio segredou a Belmiro, ele queria conhecer os prazeres da vida. Amélia, jovem e bonita vizinha, facilitou a primeira experiência. Entusiasmado com os prazeres da convivência doméstica ele saiu da casa dos pais e foi morar com a moça.  De repente a libido acabou e ele, já se sentindo galo, queria mais. Tinha toda a vida e a cidade grande diante de si. Deixou a pacata São João do Meriti e veio para o Rio de Janeiro para, sabia agora, ser traído por uma, dividido com muitos pela outra.

…Ai, meu Deus, que saudade da Amélia

Aquilo sim é que era mulher…

Depois daquele desabafo não falou mais com Belmiro. Quando bêbado se lamentava com quem estivesse a seu lado no balcão. Sóbrio voltava ao espelho e, aprumado, saia pra vida, para buscar novos amores. A lista cresceu. Na roda de samba virou piada. Tantas namoradas sem segurar nenhuma? Volta e meia corneado ou simplesmente abandonado, amigavelmente dispensado, violentamente trocado… Belmiro sentenciava: – não é galo, é pato!

Uma noite Amélia reapareceu radiante. Madura ganhara formas fartas, bem proporcionadas. Portava joias, sapatos e bolsa de couro legítimo e a roupa era coisa para gente de fino trato. O boteco estranhou aquela grã-fina sempre de braço dado com um sujeito que só podia ser doutor. Terno bem cortado, cabelo engomado, disposto a beber e comer do bom e do melhor.  Ninguém entendeu o que fazia o casal passeando pela Lapa. O boteco era bom, mas a desconfiança cresceu quando Amélia voltou usando decotes ousados, fendas de saia que revelavam coxas perfeitas e, novidade para o local, calças compridas, apertadas, evidenciando a generosidade do tempo e da natureza.

Juvêncio conseguiu guardar por várias semanas ser aquela a Amélia de São João do Meriti, que ele conhecera e abandonara na juventude. Em dado momento ela começou a chegar sozinha no local, o companheiro aparecendo mais tarde. Ele notou que ela lhe lançava olhares, esboçava sorrisos. Ele, certo de que decotes e pernas de fora eram pra si, tomou coragem e foi atrás de uma alcoviteira a quem pagou para levar um bilhete marcando dia e hora para um encontro. Cansado de tantas aventuras mal sucedidas iria reconquistar Amélia.

Não demorou para que ela respondesse detalhando dia, hora e local. A porta estaria aberta. Não carecia de chamar a atenção dos vizinhos do mesmo andar. Ele caprichou diante do espelho, vestiu o melhor terno e, perfumado, o cabelo engomado, reconheceu-se o galo de outrora, do primeiro amor.

No local combinado, foi direto ao quarto. Na penumbra encontrou a antiga namorada nos braços de um homem. Amélia disse apenas, “meu filho, que se há de fazer?”. Ela acendeu a luz e ele reconheceu Belmiro, gargalhando com a situação. E ela, golpe de misericórdia, afastou os lençóis e nua pediu ao amante: Como é mesmo a música, querido? Belmiro acentuou cada palavra, para deleite de Amélia e desespero de Juvêncio: “… Pois diz ele que o terreiro é pro galo vadiar. Pato se quiser poleiro, peça à pata pra arranjar. Ai, ai, ai, poleiro de pato é no chão”.

Depois dessa última noite Juvêncio nunca mais foi visto na Lapa.

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Nota do autor:

Em meados de 2008, um site chamado Papolog foi pioneiro nos blogs de músicos no Brasil. Uma das maneiras de apresentar compositores da primeira metade do século XX ao público da Internet foi criar histórias onde, através da FICÇÃO, contextualizávamos as músicas e seus criadores. Assim, pessoas históricas citadas contextualizam o tema. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Dezenas de contos foram criados com a mesma finalidade. O destaque do conto acima é para as músicas do múltiplo Mário Lago. Compositor, ator e, entre outras atividades, advogado que encantou todos nós, Mário pode ser visto em novelas nos canais por assinatura. Nascido em 1911 e falecido em 2002, foi autor das canções citadas no conto acima, relacionadas a seguir e disponíveis na rede.

Aurora (Mário Lago e Roberto Roberti)

Nada Além (Custódio Mesquita e Mário Lago)

Ai, que saudades da Amélia (Ataulfo Alves e Mário Lago)

Poleiro de Pato é no chão (Mário Lago e Rubens Soares)

A caminhante do Embaré

Foto: Valdo Resende

Não era por vaidade, mas por absoluta necessidade. Ela almoçava regularmente às doze horas. Colocava os poucos talheres na máquina de lavar louças enquanto se arrumava para sair. Invariavelmente um collant preto, uma blusa de mangas longas também preta e um turbante cinza, colocado de forma a deixar algumas mexas de cabelo soltas, desalinhadas. Com dificuldade vestia meias e os tênis, únicos diferenciais coloridos do vestuário.

Uma observação desatenta e poderia se pensar que ela estava sempre com a mesma roupa. O rosto sem qualquer sinal de maquiagem, o olhar sempre firme, ela dava a impressão de alguém sem cuidados. As roupas escuras, às vezes desbotadas contribuíam para o aspecto desleixado, sem brilho. Não evidenciava preocupação com o vestuário. Precisava caminhar. Ficava satisfeita com uma meia vermelha, ou amarela, sempre em contraste com os tênis, também coloridos. Um azul, um verde, um branco. E caminhava olhando por onde pisava, interessada em cumprir os quatro quilômetros diários.

Treze horas e trinta minutos em ponto e ela abria a porta da sala, atravessava o alpendre do velho sobrado, ignorava o jardim de há muito sem flores e ouvia-se o barulho do portão, já enferrujado, rangendo com um som que parecia chaleira no fogo. De cabeça baixa, ignorando a vizinhança de muitos anos da Rua Oswaldo Cochrane, tomava o rumo da praia do Embaré andando tão rápido quanto possível, olhando para os lados só para evitar motoristas, ciclistas, tudo gente apta a atropelar distraídos.

“Como vai, Filomena?”, insistia alguma vizinha da qual já não se lembrava o nome. Levantando a cabeça levemente, fingindo olhar para a outra respondia: “Boa tarde!”, seguindo seu rumo. Antes de tomar distância sabia que essa, ou outra qualquer, comentaria com alguma tão desocupada quanto: “lá vai ela, orgulhosa, sempre orgulhosa! Pagando pecados!”. Filomena seguia fingindo não ouvir. Não se importava. Precisa caminhar e o fazia por necessidade.

Quatro quarteirões e atravessava a Avenida Bartholomeu de Gusmão, indo direto para o grande jardim à beira-mar. Chegando no passeio rente à areia, sem olhar o mar pela frente, entrava à direita, rumo ao Gonzaga, mas não chegava até à praia do mesmo nome. Caminhava até os limites impostos pelo Canal 4, quando retornava após se abençoar olhando com fé para a Basílica de Santo Antônio do Embaré. Evitava o passeio paralelo à grande e movimentada avenida, preferindo voltar por entre as flores, árvores e pássaros do jardim. Chegando ao ponto de origem repetia o trajeto já feito. Uma, duas, três vezes. Na quarta tomava rumo de casa. Tudo se repetiria no dia seguinte.

“Orgulhosa, pagando pecados”.  Certamente se referiam ao tempo em que o sobrado estava quase sempre em festa, sempre festivo, pintado com cores alegres que combinavam com o pequeno jardim repleto de roseiras. Nessa época Filomena era alegre e, sem as roupas pretas, tomava rumo da praia sempre com biquinis coloridos, cabelos soltos, óculos escuros. Vinham parentas e amigas de longe para Santos e a casa vivia sempre cheia, barulhentamente alegre. Os pais faziam-lhe as vontades, recebendo colegas da escola, do colégio, da universidade. Reclamavam de netos, mas a moça gostava mesmo é de praia e de namoro. “Casamento? Um dia, quem sabe!”, brincava às gargalhadas. Quando um rapaz vinha mais que uma semana, visivelmente insistindo em algo à mais que amizade, a moça tratava de cortar convites, o que era percebido por Gilberto, então proprietário de um bar na esquina, cheio de sorvetes à tarde e cervejas à noite.

O jovem empresário viera de longe, lá das bandas das Gerais. O sonho era estar e viver perto do mar. Reunindo economias para abrir o estabelecimento, mistura de bar e sorveteria. Ele teve êxito e não demorou a eleger a vizinha entre as moças que frequentavam o local. Era atraente, estava sempre bem vestida e tinha um largo sorriso, cativante. Gilberto interessou-se e tomou iniciativas nunca respondidas. Um convite para a praia, outro para passear de lancha, depois um cinema, um teatro. Nada. A moça era simpática e com evasivas dispensava os convites. “Orgulhosa, repetiam as vizinhas”.

Desistindo após tentativas que beiraram aos dois anos, Gilberto conheceu outra moça. Casaram-se, tiveram três filhos que, num piscar de olhos estavam crescidos, adultos e dando-lhes netos. Mesmo ocupado com o trabalho e a família, então numerosa, Gilberto nunca deixou de esticar os olhos para Filomena. Ela permaneceu sozinha, sem que ele entendesse os motivos. Assim como passara para ele, o tempo levou os pais e os amigos da bela vizinha que, tranquilamente solitária, raramente recebendo até mesmo os amigos da juventude.

Foi por conta de uma ameaça de briga com a esposa de Gilberto que Filomena deixou de cumprimentá-lo. A outra, que de boba tinha pouco, percebia os olhares demorados do marido para com a vizinha e convidou a “sirigaita” a tomar sorvete e beber cerveja “na puta que a pariu”. Filomena não gostou do exagero da outra, queixando-se ao rapaz e, castigando-o por ter se casado com uma estúpida, afirmou e cumpriu promessa de nunca mais frequentar o bar. Foi nessa ocasião que Filomena, chateada, com o falatório advindo do acontecimento deixou de falar com toda a vizinhança, Gilberto incluído na decisão.

Após a morte dos pais Filomena dedicou-se a cuidar da imobiliária da família, mas trabalhando apenas pelas manhãs. Era de seu temperamento a regularidade de horários. Saindo às 7 da manhã, voltava por volta das treze horas. Às quinze saia para a academia, ou para o salão de beleza, ou o shopping. Sempre nos mesmos horários. Voltava às dezenove horas. Percebia então os olhares vigilantes de Gilberto, sabedor desses horários. Mas, fingia não ver. Quando era impossível evitá-lo ela respondia com um leve aceno e um esboço de sorriso para, assim, não alimentar algo além.

Gilberto vigiava os dias de Filomena. Lembrava-se que ela um dia lhe dissera que não se casaria por uma única razão. “Estou bem. Gosto só de namorar”. E a razão por não namorar com ele bateu pesado, quando a moça antecedeu o “não bateu!”. Ele guardou um pouco de mágoa, outro tanto de amor-próprio ferido, tudo muito bem equilibrado com um tesão que nunca passou. Olhar a vizinha passou a ser fetiche aliviado em costumeiras sessões de masturbação praticadas no banheiro superior do bar, no exato momento em que ela ia para a praia com os biquinis que estimulavam o ato solitário do rapaz.

Foi por constatar ao longo dos anos a constante vigilância de Gilberto que Filomena, ao passar mal, levantou-se do sofá e saiu até o portão. Não precisou gritar, acenar. Bastou olhar e o outro, percebendo algo errado correu em direção à vizinha que, entregando-se aos braços do homem, pediu: “Acho que é derrame. Por favor, me socorra!”. Era visível o cuidado e o carinho de Gilberto, principalmente para a esposa. Esta resolveu mostrar à vizinhança o tamanho da sua indignação traduzida em palavrões. Ignorando a chuva de impropérios, Gilberto pegou o carro e levou Filomena para o hospital. A pedido da vizinha, ele ainda chamou uma prima que veio cuidar da doente.

Todo o lado esquerdo afetado. Filomena reapareceu com a boca torta ao sorrir. A perna enrijecida, a mão paralisada. Novos hábitos seriam necessários e ela adotou as caminhadas vespertinas, as vestes escuras. Em casa só recebia semanalmente uma faxineira. A prima passou a vir duas vezes por semana. Um dia para a feira, outro para o supermercado. Também essa não falava com a vizinhança e ninguém sabia qual doença tinha sido a causa de tanto. “Orgulhosa, nem a doença melhorou esse jeito. Orgulhosa”. Filomena fingia não ouvir enquanto saia ou voltava dos exercícios que lhe garantiam sobrevida com melhor qualidade.

Caminhando cabisbaixa, raramente levantando o olhar para um cumprimento, Filomena repetiu ao longo do tempo os exercícios cotidianos, quando começou a perceber com frequência indesejada a presença de Gilberto, sentado de frente para o mar em um ponto por onde ela passava. Mesmo mudando horário e itinerário não teve resultado. Lá estava o homem. Em uma tarde, surpreendendo-o, sentou-se ao lado dele, sorrindo levemente e limitando-se a um “Diga!”. Ele contou da viuvez e da certeza de ela não ter percebido, do contrário teria dado as condolências. “Com certeza. E?”. O velho Gilberto reuniu coragem para enunciar um “Quero ficar com você!”. E ela, controlando a dificuldade no falar decorrente da doença sentenciou: “E eu gosto de estar só. De caminhar só. Adeus, Gilberto!”.

Dia seguinte, aliviada, Filomena percebeu o banco vazio. Prosseguiu seu exercício, cabeça baixa para evitar uma queda, mas ainda assim olhando o céu, o mar, ouvindo os pássaros, observando de soslaio as cores das flores e folhagens do jardim. Dizia um breve boa tarde para outros frequentadores da praia. A perna estava cada vez melhor, a mão esquerda já dava sinais do retorno das principais articulações. Em breve ela arriscaria a nadar. Não por vaidade, nem só por necessidade: Tinha um encontro com o mar, com o bronzeado do corpo, com a saúde possível e com a vida que sempre quis.

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Dona Assunta, a soprano

Quem frequentava a paróquia já sabia de algumas regras que regiam o local. Havia uma certa hierarquia entre as carolas e os candidatos a beatos. Na ânsia de ganhar o céu, já aqui na terra, havia aqueles que tratavam de marcar presença de maneira inequívoca nas cerimônias litúrgicas e nos festejos adjacentes.

O decoro era fundamental, então nada de roupas justas e curtas para ambos os sexos; que ninguém se atrevesse a incitar o outro com volumes insinuados por debaixo dos panos. Dona Ednéa tratava de garantir a compostura das beatas. Portava sempre uma enorme bolsa e, dentro desta, lenços, véus e até mantilhas. Tudo de cor leve e neutra. Ela não gostava de decotes, saias curtas, peitos exuberantes. Sem pedir licença tirava o necessário da bolsa e limitava-se a dizer, ao colocar o tecido cobrindo a parte evidente: “É preciso estar bem composta!”. Fim da missa recuperava o tecido e passava um sermão nas desinibidas.

Seu Lázaro, já na casa dos setenta, estava sempre vestido com um paletó preto cheio de medalhas de santas e santos. Faria inveja aos militares folclóricos de ditaduras sul-americanas. No pescoço pendurava três fitas com as preferências de sua devoção. Uma, azul, ostentava imensa medalha que parecia um pires com a imagem do sagrado coração de Maria. Outra, vermelha, com o Cristo, o coração sangrando e exposto. A terceira, amarela, tinha uma imagem de São Mateus, o padroeiro dos banqueiros.

Encarregado de receber as ofertas em cada missa, Seu Lázaro tinha comportamento inequívoco conforme a data em cada mês. No primeiro domingo após o quinto dia útil, quando supostamente todos os paroquianos já haviam recebido o salário ele ia, de banco em banco, oferecendo a sacola aberta e olhando firmemente para a cédula dada. Nessa data não aceitava menos que dez reais de um, cinquenta reais de outro. Conhecedor de cada fiel, sabia quem podia dar o quanto ele estipulava. Chegava na frente da “vítima” e sussurrava: “50”! Menos que isso, insistia levantando a voz. Quem iria passar tal vergonha?

Pessoa notória e alvo da inveja de muitos era Dona Assunta. A preferida do pároco, de nome Domênico. Ele havia estipulado lugar fixo para a mulher, no quinto banco, na extrema esquerda do assento, pois de acordo com ele era o local ideal para que Dona Assunta puxasse o canto, segurando ritmo e afinação. Quando ela faltava ele subia ao altar com cara fechada, mal humorado e, sem pestanejar, reclamava quando o cântico não saia bom: “Vocês estão desafinadas!”.

Se cantora de ópera, Dona Assunta seria páreo para Jessie Norman, Maria Callas. Cantava com a força necessária para garantir a audição de todos não só nas cerimônias internas, mas nas procissões onde reinava absoluta. Podia atrasar o quanto fosse – e contam que em algumas ocasiões atrasou para mostrar seu poder – que o padre não tirava o pé do lugar, chamando por ela com seu megafone. “Dona Assunta já chegou? Quando ela chegar a procissão sai”. O recorde de atraso da beata foi de uma hora e dez minutos.

Dona Assunta tinha uma inimiga não declarada, Dona Tereza. Com voz miúda e sem graça, ela ardia de inveja da outra, fato confessado por ela, o que deixava o Padre Domênico irritado. Era sagrado, uma vez por semana lá estava Dona Tereza ajoelhada no confessionário contando desejar que a outra ficasse rouca, engasgasse, ficasse muda. Após cada confissão de Tereza era o padre quem sentia necessidade de também se confessar, cheio de raiva da pecadora reincidente.

Noite de Natal, a paróquia de Santa Luzia resolveu reativar a velha tradição da missa do galo, à meia-noite. Tudo deveria correr bem! As mulheres bem compostas com seus trajes noturnos, os homens com as notas separadas conforme o aviso de Lázaro, que não queria demora na recolha do dindim. Todavia, na hora da missa, Dona Tereza não escondia ser aquela a sua noite feliz. Dona Assunta não chegou. Marcada para iniciar às 23h00, passados trinta minutos da meia-noite o burburinho aumentou, a pressão venceu e o padre iniciou a missa sem sua cantora preferida.

Dez quadras dali, Dona Assunta havia enfrentado um entrevero com o marido que, sonolento, se recusou a sair de casa. Ela o deixou, ciente de sua importância na cerimônia de gala. Caminhando pela rua com seu porte volumoso, italiana que era cheia de dotes, foi abordada por um gatuno querendo levar-lhe a bolsa. Nesta estava um escapulário, presente do padre, e uma medalha benta pelo próprio Papa, ela acreditava. Entrou em luta com o assaltante e levou a melhor, mantendo a bolsa, mas ficando com o vestido rasgado, o cabelo desgrenhado, o rosto arranhado.

Após a comunhão era hábito do padre pedir uma canção à Dona Assunta. Sem esconder a frustração, ele informou que faria a benção final dada à ausência da cantora. E iniciou a benção quando, lá de fora se ouviu um poderoso “noite feliz, noite feliz”. E Dona Assunta entrou, recomposta, poderosa feito a soprano Montserrat Caballé. Só justificaria ao padre o motivo do atraso. Ao passar por Dona Teresa respondeu com desdém ao olhar de inveja da outra. E seguiu até seu lugar, de onde ordenou ao menino Deus: “Dorme em paz, ó Jesus!”.

Valdo Resende

Dez/2024

Nota: imagem criada com IA.

Amor nas alturas

É certo que pouca gente da família sabia o que era pré-primário quando ele, arrumadinho no uniforme de calça azul e camisa branca, foi levado para a escola. No segundo dia de aula, outros tempos, já foi sozinho, o irmão mais velho indo até a esquina e apontando o rumo do Grupo Escolar. No terceiro dia nem isso, e ele encontrou Eliana, uma coleguinha linda, vestidinho verde e determinada: vamos ser namorados! E seguiram, mãozinhas dadas. Logo envolvidos na rígida divisão meninos e meninas se separaram.

Primeira paixão, de verdade, veio três anos depois. Já senhor de si, indo brincar em campos de várzea do bairro, em terrenos baldios. A turma da igreja era misturada e em um jogo de queimada ele acertou uma bola bem no rosto de Carolina. As lágrimas desceram de olhos negros, enormes, emoldurados por cabelo levemente ondulado, caindo suavemente sobre os ombros. Ele se apaixonou naquele momento e, culpa maior, ouviu de uma aprendiz de alcoviteira um “logo a Carolina, que gosta de você?”.

Seguiram-se dois, três anos de paquera, pequenas conversas, infinitos olhares. Ela era caçula de pais e irmãos rígidos, só iria namorar após os dezesseis anos. Flertavam de longe. Velhos tempos quando todos os estratagemas eram bem-vindos. De bicicleta ele corria da própria escola para a saída da outra, para ver Carolina. Nas missas chegava cedo para tentar sentar-se próximo, nunca um ao lado do outro. Durante quermesses trocavam correios-elegantes. Nas férias escolares, sem tolerar ficar tanto tempo sem ver a menina, ele “assentava praça” na esquina próxima de onde ela morava.

As coisas pioraram quando Carolina, aos quatorze, tornou-se babá de uma criança de gente rica, lá do centro da cidade. Vê-la passou a ser raridade, mas o afeto dele era alimentado em sonhos e devaneios de menino romântico, amores de outros aprendidos em novelas de rádio. Um dia ficariam juntos. Todavia, as coisas pioraram mais quando ele foi estudar em outra cidade, outro estado. O namoro, suspenso com o emprego da menina, tornou-se quimera, mera possibilidade futura.

Longe da família, dos amigos do bairro. cresceu taciturno, voltado para os estudos e nada mais. Um Werther tupiniquim, digno seguidor da personagem de Goethe, com o adendo da falta de contato e do total desconhecimento de como estava a vida de Carolina. Os ventos tomaram rumo de volta e ele retornou para a casa dos pais após dois transformadores anos. O final da adolescência fizera dele um rapaz esguio, um metro e sessenta de altura, os cabelos compridos e as roupas coloridas dos anos de 1970.

Foi a irmã que o atualizou: Carolina estava sozinha, de babá tornara-se dama de companhia da avó da criança, trabalhando e morando no mesmo endereço. Ele não previu que o reencontro seria em tão pouco tempo. O clube da cidade realizou uma reunião dançante, as baladas de então, e ao comparecer ele a viu de longe sentada junto a amigos. O coração acelerou, a boca ficou seca. Ele não era mais o menino que ficava distante. Tinha que mostrar maturidade, segurança. Precisava tirá-la para dançar, o que não foi possível momentaneamente, pois só se ouvia rock e um monte de gente fazendo a coreografia do momento.

Ele foi até ao bar. Um conhaque o ajudaria a conseguir falar, a língua presa na boca seca. Enquanto aguardava não tirava o olho de Carolina que decididamente o reconhecera, mas não apresentava o mesmo olhar de antigamente. Estaria com algum namorado? Teria se apaixonado por outro rapaz? Por que não sorria leve, como antes, indicando que ele poderia se aproximar, chegar até a ela?

Ah, aqueles bailes! Havia sempre momentos alternados em que o conjunto musical presente tocava ou música lenta, ou música dançante. Os apaixonados preferiam as seleções de músicas lentas, românticas, propícias para convidar uma garota e sentir a proximidade dos corpos, o perfume, a maciez do cabelo. E havia uma história, talvez lenda, que o casal precisa acertar sincronicamente os passos de dança, com naturalidade, sem atropelos. Se não dessem certo ao dançar, jamais dariam certo no amor. Ele matutava enquanto bebericava a bebida, a mão dentro do bolso segurando nervosamente uma bala de hortelã. Precisava de um hálito agradável ao se aproximar de Carolina. Quando essa música vai parar?

No intervalo o balcão do bar ficava lotado, os banheiros congestionados e o vozerio tomava conta do ambiente. Percebia-se uma rápida abertura do que poderia se chamar momento de caça. Os olhares buscando prováveis parceiros para a próxima seleção que, com certeza, seria de músicas lentas, românticas. Os mais ansiosos já se aproximavam de suas escolhidas, buscando manterem-se à frente de possíveis concorrentes. Ele, olhando Carolina lá de longe, preferiu esperar a música começar, ver o que aconteceria.

Quando o grupo musical atacou uma canção dos Bee Gees ele viu um sujeito aproximando-se, convidando e recebendo recusa de Carolina. Sentiu-se o mais feliz dos homens e tomou a direção da mesa onde estava aquela paixão de tantos anos. Chegou tímido, sem saber o que dizer e balbuciou: “Vamos dançar?” Ela sorriu com a suavidade dos primeiros tempos e respondeu: “Prefiro que você se sente aqui. Vamos conversar”.

Ele tremia ao tentar segurar a mão de Carolina que, com delicadeza e decisão o conteve. “Não vai dar certo, desculpe! Não posso aceitar. É impossível”. Ele olhou sem entender e aguardando ansiosamente uma explicação que veio sem rodeios. “Você não cresceu. Eu cresci demais! Vai ficar muito esquisito. Lamento. Se você me der licença, vou ao banheiro. Na volta, não gostaria de encontrá-lo aqui”. E ele, consciente de seus 1,60m de altura viu uma mulher enorme, elegante, que só então ele percebeu que ela se encolhera na cadeira. Atravessando o salão ia uma moça que poderia apoiar-se na cabeça dele para acertar o sapato, coçar o pé.

Naquela noite ele descobriu que Werther era só um personagem romântico. E que os amores distantes podem resultar em falsetas. Poderia beber, poderia chorar, poderia guardar aquela história e a lembrança do amor frustrado. Preferiu ir para o outro lado do salão. Encontrou e convidou uma garota para dançar. Para essa, ele até que era alto. Muito alto!

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Nota: imagem produzida com IA.

D. Maria, dos cachorros e dos parangolés

Era uma época boa, quando cachorros eram amigos do homem. Ninguém carecia de passear com eles catando cocô pelas ruas. Precisavam de carinho, de comida, não dessas rações, Deus me livre do que são feitas… Os cãezinhos viviam livres e felizes pelos quintais e vizinhança das casas. Na minha família atendiam por nomes como Sheik, Bilu, Japi. A maioria era vira-lata, os melhores para fazerem barulho quando alguém invadia a propriedade. Eram dois, no máximo, por residência, exceto pelas dezenas que viviam e acompanhavam D. Maria.

Era uma festa constante. D. Maria caminhando rumo à padaria, à venda, ou sabe-se lá para onde, acompanhada por cerca de duas dezenas de cachorros. De todos os tamanhos e diferentes raças. Ela conversava com todos e os múltiplos latidos, vários abanando os rabos, dificultavam a gente identificar a quem ela se dirigia. Ouvia-se de longe o barulho e crianças, como eu, corriam para a porta de casa para ver a passagem da Dona Maria dos Cachorros.

Uns a chamavam de Velha Suja, ou Porca; outros de Doida Varrida. O que a memória guarda é de longas saias, blusas largas e panos jogados sobre o corpo que, mais tarde, um artista chamou de parangolés. D. Maria dos Parangolés e seus cachorros, todos parados comportadamente na porta da padaria enquanto ela pegava seus pães. Na porta do açougue era uma algazarra, os bichos querendo entrar e a mulher impedindo-os e pedindo o que queria lá do meio da rua. Alguns clientes irritados com o avanço dos cachorros perante o cheiro de sangue eram ignorados, Dona Maria fazendo de conta que não os ouvia. Vez ou outra o açougueiro jogava um pedaço de carne no meio da rua. Os cãezinhos corriam alucinados. Junto com eles a Dona Maria, corria preocupada para o meio da rua, impedindo a passagem de carros e similares, protegendo a matilha.

Mamãe contava que aquela mulher escolheu viver com os cães. O marido era cachaceiro inveterado e judiava dela e dos filhos. Esses, cresceram e foram embora. Nunca voltaram e ela não teria ido atrás de nenhum deles. Um dia ela tomou coragem e, armada de um porrete, botou o marido pra correr, já então com o apoio de alguns cachorros que, defendendo a dona, partiram pra cima do homem. Foi quando passou a acolher todos os cães que apareciam por lá. Uns, levados pelos vizinhos, outros bem filhotinhos eram abandonados na porta da casa.

Vivendo entre os animais, conversando com eles, foi se afastando dos vizinhos, só se comunicando mesmo com fornecedores. O padeiro, o açougueiro; verduras, não. Cultivava em horta própria, assim como frutas vinham do pomar do fundo do quintal. De onde vinha a renda, não se cogitava. Talvez algum filho mandasse algum dinheiro; talvez ela possuísse alguma reserva proveniente de herança. O que era certo é que vivia tomando conta de si e dos cães, passeando alegremente com os bichinhos em meio a festa e cuidados. De sua passagem pelo passeio em frente da nossa casa ouvia-se os latidos e, acima desses, a voz da mulher chamando para perto de si aquele que descia para a rua.

Sem dar bola para os vizinhos, esses também se esqueciam dela, deixando-a em sossegada paz. Às vezes ela passava dias sem sair de casa, mas era vista cuidando do quintal, brincando com os bichos. Entrou para a história o dia em que se ouviu cachorros uivando, lamentando o corpo caído no meio da sala. Quem escutou disse que eram como um choro desesperado, dolorido. Quem viu, guardou a imagem de alguns cachorros lambendo a dona, como se tentando reanimá-la.

A notícia ruim se espalhou feito raio e como mágica o marido retornou. Tomou conta dos funerais e, anunciando a venda do imóvel, avisou aos curiosos que apareceram no velório que daria um fim na cachorrada. Alguns animais foram levados embora, adotados no mesmo dia. Outros foram vistos pelas ruas, dias depois. Sem os cuidados da dona trataram de dar rumo na vida. As ruas do bairro ficaram mais tristes e silenciosas.

De Dona Maria dos Cachorros ficou por muito tempo a lembrança. Diziam por lá pelo Boa Vista, em Uberaba, que quando malditos donos tiravam filhotes das mães e os jogavam em um canto qualquer, via-se nas noites um vulto de mulher, cheia de parangolés, alimentando-os e colocando-os no colo para ninar. Houve até gente que disse ter ouvido acalantos na voz da mulher, o que poucos acreditaram. É lenda, diziam. É bonito, mas é lenda. Deixem Dona Maria descansar em paz!

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Nota: Imagem criada com IA.

Não é só uma senhorinha com um jornal

Uma imagem comum, corriqueira, e de imediato nem me dou conta de que a dita cuja se constituiu em gatilho para um montão de coisas. A foto de uma senhorinha lendo o jornal. Certamente há inúmeras semelhantes não fosse esta particular, familiar, minha mãe. Laura.

Das coisas que emergiram a primeira foi a lembrança de cartas, inúmeras cartas. Um ritual certamente raríssimo nos dias de hoje. Os meios de comunicação facilitam gravar a mensagem e, fato, não é necessário saber escrever para se comunicar com os parentes distantes.

Frequentemente íamos à estação ferroviária ver se havia chegado encomenda. Oriundas de Campinas, onde residiam meus avós, ou de Ribeirão Preto, onde morava tia Olinda. Cestas de vime, cobertas com tecido branco costurado às bordas, e papel colado nesta com os dados do destinatário. Trazida a cesta para a casa havia certamente boas surpresas. Um presente de aniversário, bolo ou doce de ocasião, e a carta. Mamãe se sentava, nós os filhos em volta, e ela lia em voz alta, a gente sentindo a entonação do autor da missiva.

Leitura meio complicada para meus poucos anos eram revistinhas semanais com a publicação de capítulos da novela O Direito de Nascer. Revistas de rádio teatro. Com fotos de moças ou casais bonitos na capa e, na quarta capa, a foto de gente como Cléa Simões, Ézio Ramos ou Gilmara Sanches, que eu guardo na memória como as vozes mais bonitas das radionovelas.

“Textão”, como dizem hoje, era o enorme livreto com a Hora de Adoração. Membro da Congregação do Sagrado Coração, mamãe se obrigava a ir mensalmente à Igreja da Adoração Perpétua onde rezava todo o livrinho, que deveria somar uma hora de reza que, para o menino ansioso, era uma eternidade. Mamãe sussurrando e o garoto só sentindo alívio com o sinal da cruz final.

Havia fotonovelas, gibis e os livros. O primeiro livro, que mamãe guardava com certo ciúme, foi por ela utilizado no primário: “Os companheiros”, que depois me foi presenteado. Entre as páginas, inúmeros cartões de lembranças dos colegas de escola, além de “santinhos” de todas as datas e matizes.

E veio José de Alencar, que meu irmão Valdonei deveria fazer trabalho para a escola. Encarei o livro imenso, O Guarani, o primeiro grande livro que li. Depois vieram outros, como uma coleção do Jorge Amado, de minha irmã Walcenis e, da minha irmã Waldênia, a obra completa de Fernando Pessoa, os livros sobre o ator, de Stanislavski e a antologia de Mário de Andrade. Li tudo! E mais um monte de outros.

Com o tempo o rádio foi substituído gradativamente pela televisão. Mamãe, já idosa, assistia novelas e “interagia” com as personagens, guardando ressentimentos e mágoas de “vagabundas traidoras”, às vezes sofrendo um bocado por não saber se deveria amar ou odiar Eva Wilma, com a primeira dupla Ruth e Raquel de que se tem notícia. Nas sextas-feiras, mamãe viajava com o Globo Repórter, preferindo sempre os programas sobre o que apelidávamos de “mundo animal”.

Sempre que se fala em educação penso em D. Laura, a minha mãe. Ela tinha amor pelo conhecimento e sabia do poder deste. Fez das tripas coração para facilitar, junto com meu pai, educação formal para os seis filhos. E dentro de nossa casa o silêncio era sagrado quando alguém precisava estudar. Comprar cadernos e livros eram dias de festa e ler, uma enorme satisfação.

As fotos “oficiais” são ótimas. A família registrou as conclusões de curso, as formaturas, os bailes. Papai e mamãe orgulhosos ao lado dos filhos “estudados”. Todavia, é esse registro dessa senhoria lendo jornal que mais me comove. É o momento cotidiano e comum dentro do nosso lar. Mamãe atenta ao jornal, lido de cabo a rabo.

Sinto não ter registrado minha mãe lendo os livros que escrevi. Tenho as informações de minha irmã, mamãe no mesmo cantinho, sentada lendo os textos de jornais em que trabalhei, dos livros que li. E os elogios de minha mãe que, sem dúvidas, os que mais me importaram receber. Hoje, 03 de novembro de 2024, mamãe estaria completando 97 anos. Que chegue a ela as orações dos filhos e dos entes queridos. Em especial, nossa gratidão pelo conhecimento facilitado a nós, seus filhos.