Para meus parceiros

Parceiro é a palavra que melhor define um colega de trabalho. Amigos nos aceitam incondicionalmente; colega, tenho a impressão, é aquele que nos foi imposto pelas circunstâncias. Colega, penso ainda, é uma etapa primária do que pode vir a ser uma grande parceria; esta, quando sólida, torna-se verdadeira amizade. Tenho grandes parceiros e deixo para que o tempo determine quais serão os maiores amigos. Porque em situação de trabalho há que se atravessar o limite final – a demissão, o afastamento seja lá por qual motivo, ou a aposentadoria.

Minha irmã Walcenis teve grandes parceiros de trabalho e conta, pelo menos, com três grandes amigas: Edna, Marlene e Conceição. Estão sempre presentes lá em casa. Todas são ex-professoras. E é assim que espero, quando vier a aposentadoria, poder ter alguns parceiros, professores, em minha vida. Hoje quero homenagear os meus atuais parceiros professores.

Claudia Bouman e Regina Cavalieri
Claudia e Regina

Vou começar por quem tem mais de dez anos de estrada comigo: Regina Cavalieri, que hoje coordena todo mundo, cumpre fielmente a posição que a função lhe exige. Ela nos dá segurança; e não é difícil perceber o quanto isso é importante. Fernando Brengel é corretíssimo; tenho a impressão de que todo mundo, intimamente, afirma: – ele é mais correto do que eu. Claudia Bouman dá show de segurança, domínio de conteúdo. Precisaria de algumas horas pra explicar direitinho tudo o que aprendeu em todos os cursos que fez. Waldemar Jorge, o Dema, dá lições constantes de leveza; um estar de bem com a vida que torna agradável o ambiente mais sombrio.

Fernando Brengel

com Fernando Brengel

Lilian

Os “Gêmeos” Carlos Henrique e

André

Alguns chegaram depois, bem depois. Mas a boa cumplicidade já está estabelecida. Tem o mestre de cerimônias, o Marcelo Abud; ele é parcimonioso, não menos atencioso, e solícito. Lilian Brito, sempre pronta a sorrir, sabe dividir e trabalhar em dupla – e disso sou testemunha! Dou fé também de trabalho em conjunto com André Antas, que leva tudo com muito humor. André é irmão gêmeo do Carlos Henrique, o que o céu e o cotidiano explicam. Esse Carlos sabe tudo de números e eu, que preciso de máquina de calcular para operações mínimas, olho-o com profundo respeito. Desse grupo há a discreta Cristina Guerino, que mostra competência no que faz e Maria Schochter, que é a delicadeza em pessoa.

Da turma mais novinha, os que chegaram depois vêm conquistando espaço nessa seleta categoria de grandes parceiros de trabalho. Levo fé de que chegarão lá, profissionais como Rene Mesquita, Shellida Fernanda, Anderson Ladeira, Igor Ferreira, Igor Magrini e, entre outros, Su Stathopoulos. Nem tudo é perfeito; neste momento, por exemplo, estou em pinimbas com a Vânia Toledo – ela sabe o motivo! Não escreverei que ela é educada e gentil. E como o mundo caminha já tem ex-alunos como parceiros: é o caso da Luciana Ferrari.

Um trabalho escolar é composto por muita gente. Não dá pra citar todos os profissionais envolvidos. Priorizei, neste texto, alguns professores do campus onde atuo. Contei com uma parceira adorável para ajudar a ilustrar este post. Rosi Canto comparece, mais uma vez, em várias imagens precisas, e por captar essas com muito carinho acabou deixando todo mundo mais bonito. E para simbolizar todos os funcionários, vou enviar um agradecimento – tenho certeza que meus parceiros concordam – pra lá de especial para Gisele Alves, nossa colaboradora mais próxima.

Gisele

Tenho aprendido muito, ao longo de todos os anos, com esses profissionais. Primeiro de tudo a paixão pelo que fazem – professores têm a firme convicção de que a disciplina que ensinam é a coisa mais importante do planeta. Vem em segundo, mas não menos importante, o prazer em facilitar o conhecimento com o outro: aquele mais próximo que vai do porteiro à faxineira, passando pelos vizinhos, o dono do boteco, pela família, pelos cônjuges e, prioritariamente ao aluno; do mais relapso ao mais aplicado. Conheci e aprendi um monte de coisas com todos eles.

No ano passado, nesta data, eu estava em Belém do Pará. De lá prestei homenagem a minha querida professora Maria Ignez Prata. É o meu referencial de professora e para ela, assim como para os amigos professores, e aos meus parceiros professores do Campus Marquês, envio todo meu carinho.

Até!

Jim Morrison e The Doors, atração contínua

The Doors, agora mito.

Meus jovens alunos sempre solicitam que eu escreva sobre esse ou aquele artista. O grupo THE DOORS é lembrado com uma certa insistência por Neimar. Esse garoto tem menos de 20 anos; fico imaginando como surgiu o interesse, de onde veio e se instalou a atração por um grupo cujo líder, JIM MORRISON, morreu em 1971. Meus alunos não são os únicos interessados. Estima-se que o “THE DOORS” venda cerca de um milhão de discos, anualmente, e que há maior interesse agora, sobre o mesmo, do que quando atuaram.

O que sobrevive com maior força, me parece, vem da fase underground do grupo. Além disso, a figura, agora mítica, de JIM MORRISON encanta e seduz. Um “herói” da contracultura, o vocalista continua ícone perfeito para a contestação juvenil. Aparentemente devasso, aberto a todas as experiências com alucinógenos, JIM ainda tinha status de galã, símbolo sexual. Uma  alardeada espontaneidade, nas primeiras apresentações deram o toque especial que marcaria toda a trajetória do grupo.

Duas músicas, em especial, marcam minhas lembranças do grupo:

This is the end

Beautiful friend

This is the end

My only friend, the end

Of our elaborate plans, the end

Of everything that stands, the end

No safety or surprise, the end

I’ll never look into your eyes…again

A performance teatral de Morrison, somada ao conteúdo expresso na letra, dá um bocado do que pensar sobre a música THE END. A década de 60, a guerra do Vietnã, o surgimento dos Hippies, as experiências alucinógenas, enfim, a era de aquário, fadada a não ser nada além de mais um período da história humana. Se JOHN LENNON disse que “o sonho acabou”, um pouco antes, MORRISON anunciou esse fim com sua canção. A segunda música, entre as que mais curto do grupo, é LIGHT MY FIRE; e aqui, os fãs do THE DOORS que me perdoem, mas prefiro essa quando cantada por MAYSA.

Maysa em cena no Canecão

Distante dos palcos e do Brasil, MAYSA voltou (mais uma vez!) exuberante em um show no Canecão, no Rio de Janeiro.  Foi no ano de 1969. Desse momento resultou um disco, clássico, no repertório da cantora. MAYSA estava mais bonita do que nunca e esbanjava sensualidade ao cantar a música do grupo norte-americano.

You know that it would be untrue

You know that I would be a liar

If I was to say to you

Girl, we couldn’t get much higher

Come on baby, light my fire

Come on baby, light my fire

Try to set the night on fire

Calminha, crianças! Assim como o processo de bebedeira acelerou o fim de JIM MORRISON, em 1971, essa mesma situação levaria MAYSA à morte, poucos anos depois. Ambos quebraram estruturas, viveram a vida com total intensidade, priorizando sempre a sensibilidade. Estão mais próximos do que se possa imaginar.A batida da canção é a mesma que caracterizou a Bossa Nova e Maysa, até Elis Regina admitiu, era uma cantora muito acima da média.

Jim, o vocalista
Val Kilmer em impressionante recriação

De MORRISON, para finalizar, quero lembrar a interpretação grandiosa de VAL KILMER, vivendo o roqueiro no filme THE DOORS, de Oliver Stone. VAL KILMER impressionou até os ex-parceiros de JIM MORRISON, pela semelhança. De quebra, o ator ainda cantou ao vivo, nas cenas de performance, imitando a voz marcante de MORRISON. Bom para conhecer um pouco, mesmo que romanceada, da vida do cara.

Até!

(Publicado originalmente no Papolog)

Racionais

Sobrevivendo no inferno!

“Todo homem tem sua hora e sua vez” diz a personagem Augusto Matraga, de Guimarães Rosa. “Quem sabe faz a hora” cantou Geraldo Vandré. E o Chico Buarque, falou de um homem da periferia: 

“Pedro, pedreiro, penseiro esperando o trem…

 …esperando aumento para o mês que vem

Esperando a festa, esperando a sorte

E a mulher de Pedro, esperando um filho…” 

E esse filho do “Pedro Pedreiro” poderia ter sido Pedro Paulo S. Pereira que um dia virou “Mano Brown” e que, decididamente, não é filho do “Pedro, pedreiro, penseiro”. Porque esse, esperava “um filho pra esperar também”. O PEDRO, agora dito MANO, decidiu abrir a boca contra um monte de coisas que afetam sua gente. Com muito ritmo, suingue, ginga e força! Fez sua hora e sua vez.

Racionais
O "Mano"
Naldinho

Conheci o RACIONAIS MC’S através do meu amigo Robson. Antes disso, ouvia aqui e ali esse tipo de manifestação, mas faltou algo que me fizesse prender a atenção. Robson é o próprio “171” (rs)! E constantemente, mandava ver nos versos infindos da letra.

“Hoje eu sou ladrão, artigo 157

As cachorra me amam,

Os playboy se derretem…”

Imagine você dentro de um elevador (portanto, sem pra onde fugir) e o cara falando, falando, falando…. Do vigésimo andar até o térreo, passando pela portaria, o estacionamento… “-Cara, cale a boca!”  Que nada. E aí passou a ser zoeira. Era estar no trânsito, sem saída, e pronto: tome ladainha infinda.

Bom, se o cara se diz 157, eu vou confiar? Claro que não. “- Então, tá,” disse ao amigo, “cante a música inteira, eu vou ouvir!” E assim, atento para evitar o 171, percebi e conheci EU SOU 157, todo disco SOBREVIVENDO NO INFERNO, com o DIÁRIO DE UM DETENTO e outras, mais leves, como FIM DE SEMANA NO PARQUE.

Também, pelo ROBSON, conheci o Ndee NALDINHO; e acho que a descrição do assalto, antecedentes e consequências, em O QUINTO VIGIA, é algo raro na literatura (dita aqui de maneira mais ampla – envolvendo a produção escrita de um determinado país), pela veracidade e capacidade de síntese, detalhando friamente o acontecimento. A emoção fica por conta de quem escuta.

A ELITE, também é um marco divisor das diferenças sociais que rolam no país. NALDINHO, nessa letra, vai fundo no conflito social estabelecido a partir da condição social dos jovens e seus padrões de consumo: “os boyzinhos x os manos”.

E aí, TATTYANE FERNANDES, o que eu acho do RACIONAIS, NDEE NALDINHO? Eles são verdadeiros e, por isso, indigestos para o sistema. Às vêzes, rancorosos; todavia, é só colocar-se no lugar de quem vive os problemas que esses grupos cantam que o rancor é justificado.

Neste momento, por exemplo, a grande imprensa quer saber se o Brasil é ouro, prata ou bronze. E o rap tende a estragar o esquema dos “caras”, sacou? Vamos todos celebrar CIELO e sua medalha de ouro para a natação (Beleza! O cara merece!) e, já que o feito foi na água, esquecer o racionamento e, pior, a falta de água potável para milhares de brasileiros (deixar pra depois?).

Um disco divisor de águas
O preferido do Robson, meu amigo

A TV adora contar as desgraças cotidianas nos telejornais. É só uma notícia, rápida e, no próximo quadro, vamos esquecer e já comemoramos os 50 anos da BOSSA NOVA. Tem também o fator tempo: músicas como AGORA, do Nx ZERO só duram três minutinhos e pouco. Como segurar audiência com sete, oito minutos  de RAP com palavrões, estupros, vagabundas, ladrões, drogas, violência?

É comum ouvir, nas conversas das pessoas, reclamações contra a novela A FAVORITA. Todo autor de novela defende o folhetim enquanto “estória”; não carece de realismo. E dá-lhe absurdo para Floras e Donatelas. A realidade, em novela, é enfeite de bolo. Reclamações de “todo mundo”, mas a novela continua mantendo sua média de 40 pontos de audiência… Boa parte da população prefere uma mentirinha enfeitada com gente bonita.

Se em A FAVORITA, rolasse o universo descrito em DIÁRIO DE UM DETENTO, o que ocorreria?  O rap, de 1997 precedeu filmes, tipo CARANDIRU e CIDADE DE DEUS (2002). Nesses, a miséria tornou-se estética cinematográfica gerando prêmios por todo lado. Deu prestígio e carreira internacional para diretores e atores. Mas foi gente “de cá” falando sobre o pessoal “de lá”.

O RACIONAIS MC’S é “de lá”, sacou? E como evitam, fogem, brigam contra o sistema “de cá”, não os veremos no Gugu, nem no Faustão, nem no Fantástico e muito menos na Hebe (Eu adoraria ver a reação do MANO BROWN se ela o chamasse de “gracinha”).

Quando os jovens classe média (ou seja, “de cá”) cantaram os problemas nacionais nos anos 60, 70, eles viraram NARA LEÃO, CHICO BUARQUE, GERALDO VANDRÉ… Vamos ver o que o futuro reserva para os NALDINHOS e MANOS BROWNS da periferia.

Até!

(publicado originalmente no Papolog)