Rock para crianças bem nascidas

Indagaram se eu não escreveria sobre o Rock In Rio. Fui quase intimado a escrever, o que não se faz necessário, já que gosto mais de escrever do que de rock. Cheguei a cogitar de ir ao evento. Minha querida Juliana Ramalho até que mediou a venda de uns ingressos, que alguém ganhou e que estava passando adiante. Fui ver a programação do dia em questão; das vinte e cinco atrações oferecidas teria e tenho real interesse em três: Milton Nascimento, Esperanza  Spalding e a Orquestra Sinfônica de Heliópolis. Para isso eu esbarraria em Nx Zero ou Tulipa Ruiz.  Não cometi pecado recente; não careço de punição. Declinei.

Fui verificar a programação...

Após desistir do tal dia, tentei interesse em algum outro dia e a média foi mantida. Três, às vezes duas, uma vez quatro atrações seriam realmente interessantes. Todavia, nada que eu não possa ver por aqui mesmo. Mas, tem o lance da tribo, da moçada, do ambiente. Bisbilhotei bastante o ambiente.

A “cidade do rock” é bonitinha. Pareceu-me segura. Se eu fosse mais jovem, minha querida mamãe não precisaria ficar preocupada. Não tem barro, assim, poderia ir com minhas roupas de “grife”. Também mamãe não ficaria perturbada, com receio de uma má alimentação: tem praça de comidinhas. E se eu ficasse entediado com Claudia Leitte teria o shopping ou o parque de diversões pra me distrair, aguardando outra “grande” atração. E tranqüilidade maior das mamãezinhas: todas as lojas e em todos os pontos de venda de qualquer coisa aceitarão cartões de crédito. E há caixas eletrônicos! Mamãe pode até mandar mais “algum” caso a criança gaste além da conta.

A Ivete até que é bem bonita! Dia 30.

Os tempos mudaram e as crianças de hoje vão lá chorar amores perdidos enquanto saracoteiam com algum bom som. Eu iria, se fosse de graça e bem pertinho, sem ter que encarar  um monte de “nãos”.

Não pode levar alimentos, tipo sanduba de mortadela (Tem que comprar!). Não pode levar uma boa câmera fotográfica (Investimento perdido!), nem pode levar guarda-chuva! (Santo Deus, quem pensaria em levar guarda-chuva pra um festival de rock?). E também não pode ir de carro particular, só de transporte público (aqui, a coisa não ficou muito clara; bicicleta ou moto, pode?).

Provavelmente terão alguns grandes momentos de rebeldia nesse Rock in Rio; Katy Perry ou Rihanna, Ke$ha ou Shakira, alguma dessas aí fará uma pose ousadíssima. O público, certamente, cantará junto com elas, com a Ivete Sangallo, com o Jota Quest… e tomará cerveja, muita cerveja. Certamente haverá overdose de cervejas. Depois, a criança irá para um banheiro químico expelir a “ceva”, se muito precisará de uma injeção de glicose… Nada que as mamães por aí não estejam acostumadas.

Também prometo não ver pela tv.

Desse Rock in Rio, lamentarei não ver Mutantes + Tom Zé no mesmo palco. E trocaria ingressos de todas as estrelas citadas só pra ver Janelle Monáe. Aguardarei outras oportunidades. Elas virão. A moçada da música do planeta descobriu que aqui no Brasil se ganha muito dinheiro, o povo tem de sobra pra pagar ingressos. Então, dá pra aguardar o festival de verão, o de inverno, o carnaval, o carnaval fora de hora, os festivais de todas as praias e tudo o mais que favorece o consumo que tanto desfalque dá na carteira do pai, mas que é a tranqüilidade da mamãe. Afinal, nas cidades do rock atuais, as crianças estão seguras.

Sim, para a boa música.

Apesar do frio, que insiste em permanecer, a vida segue seu rumo. E o destino mais próximo é a primavera. Estive ouvindo a nova música de Marisa Monte, “Ainda bem” e a música me pareceu tão ou mais velha que  “Body and soul”, o velho sucesso regravado por Tony Bennett e Amy Winehouse. Três bons cantores, bem assessorados, certamente essas duas canções serão tocadas, muito divulgadas, vendidas.

Penso em ficar quieto um pouquinho

Lá no meio do som

Peço salamaleikum, carinho, bênção, axé, shalom

Passo devagarinho o caminho

Que vai de tom a tom

Posso ficar pensando no que é bom…

Havia pensado em não escrever sobre Amy, o aniversário de Amy, a morte recente da cantora. E até pensei evitar escrever sobre o encontro dela com o cantor americano para não repisar os acontecimentos, já exaustivamente passados e repassados pela imprensa. Todavia, “Body and soul” é tão bom, a gravação dos dois astros é tão soberba, tão apaixonantemente boa! E aqui estou, deixando Marisa Monte com seu iê-iê-iê tardio para, partindo da canção de Caetano Veloso, curtir a canção americana.

Tony Bennett está comemorando o 85º quinto aniversário e convidou um time de gigantes para um disco só com duetos. Amy Winehouse foi escolhida para dividir com o cantor uma canção dos anos de 1930, “Body and soul”.  O veterano cantor continua impecável e a jovem Amy esbanja elegância e domínio do que canta. Um encontro absolutamente feliz.

E foi ouvindo os dois cantores que “Nu com minha música”, a canção de Caetano Veloso, tomou conta do meu pensamento. Justamente porque Tony Bennett e Amy Winehouse permitiram-me realizar “o caminho que vai de tom a tom / Posso ficar pensando no que é bom”. E fui misturando todas as coisas deste dia e deixei fluir na tela do meu computador.

O frio está indo embora; a primavera logo vem. Seremos bombardeados pelo bom marketing de Marisa Monte; seremos embalados pelos duetos de Tony Bennett com seus convidados. Nesta e em interpretações similares é que Amy Winehouse perdurará sempre e sempre; portanto, vamos celebrar a vida.

Deixo fluir tranqüilo

Naquilo tudo que não tem fim

Eu que existindo tudo comigo, depende só de mim

Vaca, manacá, nuvem, saudade

Cana, café, capim

Coragem grande é poder dizer sim.

Sim; dizer sim para Caetano Veloso que com suas inspiradas letras dá-nos momentos de prazer, sim para os grandes intérpretes que cantam com a alma as canções que nós, pobres mortais, só conseguimos entoar perfeitamente em pensamentos. Sim para o vento frio dessa madrugada e para um possível sol, um desejado dia de sol.

Eu quero um dia de sol – mesmo que este exista só no meu desejo – porque é aniversário de minha irmã Waldênia e da minha amiga Fafá. Duas pessoas amadas por mim e por um montão de gente. E já que não estarei presente com presentes, paro por aqui, desejando…

Boa música para todos!

“Bilogia” é Raul Seixas relançado

O box que reúne os dois discos de Raul Seixas

Os dois últimos álbuns de Raul Seixas já estão nas lojas, em um Box duplo (Bilogia, Uma história em dois CDs de Carreira). “Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!” e “A Pedra do Gênesis”, marcam o final da carreira do cantor e compositor, sendo seus últimos trabalhos individuais. Depois desses, sairia o disco de Raul Seixas com Marcelo Nova, “A Panela do Diabo”, lançado dias antes da morte do baiano, em 1989, aos 44 anos.

Com tanta gente produzindo bons discos aos sessenta, setenta anos, se vivo, como seria a produção de Raul Seixas? É comum ouvir dizer que os últimos trabalhos do roqueiro foram “decadentes”. Todavia, ante tanta mediocridade musical por aí, de jovens entre os 18 e os 25/30 anos, como é que se pode mesmo classificar a última safra do “Maluco Beleza”?

Há sucessos, dessa ultima leva: “Cowboy Fora da Lei”, “Cantar”, “A Lei” e “Lua bonita”. Contam que o processo de gravação de “Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!” foi demorado, devido aos problemas de saúde de Raul. E há também, no segundo disco, “A Pedra do Gênesis”, canções que foram vistas como premonição, presságio.Todavia, nada mais são do que o aspecto filosófico que sempre marcou o trabalho do cantor e compositor.

Os dois trabalhos, originalmente lançados pela gravadora “Copacabana”, registram uma parceria profissional, Claudio Roberto, e uma parceria afetiva representada pelas canções feitas com Lena Coutinho, a última companheira de Raul Seixas. Pessoas que acompanharam os derradeiros movimentos de uma carreira profissional que sempre será lembrada pela universalidade de suas canções, o atemporal de letras inesquecíveis.

Vale conhecer; também vale o registro da obra pelo autor. Com o talento de sempre e a realidade que marcou seus últimos anos.

Toca Raul!

 

Nota: Faixas da “Bilogia”

 

Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!

1.” Quando Acabar o Maluco Sou Eu”. Raul Seixas / Lena Coutinho / Cláudio Roberto

2.”Cowboy Fora da Lei”. Raul Seixas / Cláudio Roberto

3.”Paranóia II (Baby Baby Baby)”. Raul Seixas / Lena Coutinho / Cláudio Roberto

4.”I Am”. Raul Seixas

5.”Cambalache”. Enrique Discépolo / Versão: Raul Seixas

6.”Loba” . Raul Seixas / Lena Coutinho / Cláudio Roberto

7.”Canceriano sem Lar (Clínica Tobias Blues)”. Raul Seixas

8.”Gente”. Raul Seixas / Cláudio Roberto

9.”Cantar”. Raul Seixas / Cláudio Roberto

 

A Pedra do Gênesis

1.”A Pedra do Gênesis”. Raul Seixas / Lena Coutinho / José Roberto Abrãao

2.”A Lei”. Raul Seixas

3.”Check-up”. Raul Seixas

4.”Fazendo o Que o Diabo Gosta”.Raul Seixas / Lena Coutinho

5.”Cavalos Calados”. Raul Seixas

6.”Não Quero mais Andar na Contramão (No No Song)”.David P. Jackson / Hoyt Axton / Versão: Raul Seixas / Lena Coutinho

7.”I Don’t Really Need You Anymore”. Raul Seixas / Cláudio Roberto 8.”Lua Bonita”. Zé do Norte / Zé Martins

9.”Senhora Dona Persona (Pesadelo Mitológico nº 3)Raul Seixas / Lena Coutinho

10.”Areia da Ampulheta”. Raul Seixas

Maria Rita navega em águas seguras

O novo disco da cantora, “Elo”, mantém aposta no estabelecido

Capa do Novo Disco

O primeiro trabalho de Maria Rita veio com composições de Milton Nascimento, Rita Lee, Lenine e Zélia Duncan. Compositores mais jovens, da geração da cantora, estiveram presentes através de Marcelo Camelo.

No disco seguinte, “Segundo” uma novidade, Rodrigo Maranhão, o autor de “Caminho das águas” e mais gente consagrada: Marcelo Camelo, Edu Lobo e Chico Buarque, Marcelo Yuka.

Em “Samba Meu”, no terceiro disco da cantora, o samba foi de Arlindo Cruz, presente em seis canções. Ainda teve Gonzaguinha e outros bons sambistas cariocas.

Visto assim, a impressão é que ousadia não caracteriza a carreira da cantora. E ao que indica o quarto disco, “Elo”, Maria Rita continua aposta na segurança, no estabelecido. Chico Buarque, Caetano Veloso, Rita Lee,  Djavan e Marcelo Camelo. Entre os compositores mais jovens estão os filhos de grandes músicos, como Davi Moraes, Pedro Baby e Daniel Jobim.

Pedro é filho de Baby do Brasil e Pepeu Gomes; Daniel é neto do maestro Tom Jobim. Uma parceria de ambos, “Pra matar meu coração” é a primeira música do disco que está sendo divulgada. O lastro, na retaguarda, vem de canções como “Menino do Rio” (Caetano Veloso) e “A história de Lily Braun” de Chico Buarque e Edu Lobo (a relação completa esta abaixo).

E é assim, navegando em águas seguras, garantida em regravações de grandes sucessos, que Maria Rita distancia-se da sombra e da carreira da mãe, Elis Regina. A trajetória de Elis foi marcada por ousadia, gerando em todos a curiosidade em saber qual seria o compositor da vez a ser lançado pela maior cantora do Brasil. Ao contrário, Maria Rita já cantou a maioria das canções deste quarto disco, experimentando a “aceitação do produto”, como é hábito do marketing contemporâneo. Quem segue a carreira da moça conhece as canções, na voz da própria, em shows e programas de tv.

Ah, Maria Rita, é preciso prestar atenção no que sua mãe cantava. Uma canção de um colega dela, consagrado por si próprio e também na voz dela. Um cara que revolucionou a música brasileira, Gilberto Gil, que então escreveu em “Oriente”:

…Considere, rapaz 
A possibilidade de ir pro Japão 
Num cargueiro do Lloyd lavando o porão 
Pela curiosidade de ver 
Onde o sol se esconde 
Vê se compreende 
Pela simples razão de que tudo depende… 

Ah, como é bom quando nossos artistas surpreendem, tirando-nos da mesmice!

Boa sexta-feira para todos!

Nota:

As canções do disco “Elo”

1. Conceição dos Coqueiros (Lula Queiroga, Lulu Oliveira e Alexandre Bicudo)
2. Santana (Junio Barreto e João Carlos Araújo)
3. Perfeitamente (Fred Martins e Francisco Bosco)
4. Coração a Batucar (Davi Moraes)
5. Menino do Rio (Caetano Veloso)
6. Pra Matar meu Coração (Pedro Baby e Daniel Jobim)
7. A História de Lily Braun (Chico Buarque e Edu Lobo)
8. Nem Um Dia (Djavan)
9. A Outra (Marcelo Camelo)
10. Só de Você (Rita Lee e Roberto de Carvalho)
11. Coração em Desalinho (Mauro Diniz e Ratinho)

Marília Pêra Canta

Marília Pera em Elas Cantam Roberto

Atrizes e cantoras, atrizes ou cantoras; duas funções distintas e frequentemente associadas a uma pessoa: Barbra Streisand, Madonna e, no Brasil, Marília Pêra.

Por conta do sucesso momentâneo há cantoras que, ocasionalmente tornam-se atrizes. Maria Bethânia contracenou com Chico Buarque e Nara Leão em “Quando o Carnaval Chegar”, filme dirigido por Cacá Diegues. Whitney Houston soltou a voz, protegida por Kevin Costner em “O Guarda Costas”.

Beyoncé está no caminho do cinema e não se sabe onde irá parar. Madonna acaba de estrear como diretora do filme “W.E.”, sob uma chuva de críticas e Barbra Streisand reina; como atriz, como cantora, como diretora.

Algumas atrizes brasileiras soltam o gogó, sem nenhuma pretensão à carreira de cantoras. Fernanda Montenegro e Marieta Severo, por exemplo, estão entre as atrizes que fizeram participações especiais em disco. Outra grande atriz, Bibi Ferreira, tem feito mais discos e shows que peças teatrais. Entretanto, nos shows, Bibi prioriza repertório de canções já interpretadas em memoráveis montagens como “My Fair Lady”, “O Homem de La Mancha”, “Gota D’água”, “Piaf” (sobre a cantora francesa Edith Piaf) e, entre outras, “Bibi Vive Amália”, onde lembrou a cantora portuguesa Amália Rodrigues.

Marília Pêra é aclamada como a mais completa entre nossas atrizes. Ela interpreta, dança, canta e é premiada diretora. A atriz tem uma carreira marcante em se tratando de musicais. Pessoalmente destaco “Roda Viva” (1968), “A Vida Escrachada de Joana Martini e Baby Stompanato” (1970) e “A Estrela Dalva” onde Marília interpretou Dalva de Oliveira. E aqui é bom notar que a atriz encarou interpretar aquela que é considerada uma das maiores cantoras brasileiras.

Música, propriamente dita, foi conteúdo de espetáculos extraordinários da atriz. Em “Elas por Ela” (primeira montagem em 1989 com uma remontagem em 1992) Marília Pêra mostrou versatilidade musical lembrando grandes cantoras brasileiras; entre essas, a paulistana Isaura Garcia, a baiana Gal Costa e a mineira Wanderléa. No show Marília somou ao canto, os trejeitos vocais e gestuais de todas as homenageadas. Especificamente musical também foram dois espetáculos: “Marília Canta Ary Barroso” (2003) e “Marília Canta Carmen Miranda” (2005).

Capa do disco que lançou Marília com cantora

Com tanta música no currículo, Marília Pêra deveria configurar-se entre as grandes cantoras brasileiras. Tanto é que em 1975 lançou-se como cantora, com um show, “Feiticeira”, roteirizado por Fauzi Arap e Nelson Motta. Tornado disco, não obteve sucesso. Marília gravou temas de novelas, fez participações especiais em diversos discos e shows. A mais recente, em disco e DVD, foi uma participação no show “Elas Cantam Roberto”.

A boa notícia é que o disco de Marília será editado em formato digital, pela gravadora Joia Moderna, do DJ Zé Pedro. Veja no final deste todos os nomes envolvidos em cada uma das faixas do álbum e tenha uma visão do que é o disco.

Penso que é um equivoco mercadológico não ter dado o devido tratamento aos trabalhos musicais de Marília Pêra. Não tenho a menor simpatia por esse tipo de comparação com a qual termino este, mas devo admitir que é verdadeira: Se fosse nos EUA, Marília Pêra seria, além de atriz consagrada, grande vendedora de discos. Resta o consolo de saber que as principais criações da cantora Marília Pêra estão registradas e garantidas para a memória do cancioneiro nacional.

Bom final de Semana!

Nota: As faixas do disco.

1. Dança da Feiticeira (Guto Graça Melo e Nelson Motta)
2. Bem-te-vi (Luhli e Lucina) – Participação de Luhli e Lucina
3. Samba dos Animais (Jorge Mautner)
4. Coelho Branco (Guto Graça Melo e Nelson Motta)
5. A Natureza (Zé Vicente da Paraíba e Passarinho do Norte em adaptação de Geraldo Azevedo)
6. Alô Alô Brasil (Eduardo Dussek)
7. Canção Pra Inglês Ver (Lamartine Babo)
8. Não Digas Nada (João Ricardo e Fernando Pessoa)
9. A Cara do Espelho (Guto Graça Melo e Nelson Motta)
10. O Medo (Alceu Valença)
11. Avô do Jabor (Nelson Motta) – Participação do grupo Vímana
12. Sem Essa (Duda e Jards Macalé)
13. Estado de Choque (Guto Graça Melo e Nelson Motta)

João Bosco, o astro e uma fina ironia

Ontem vimos a volta da novela O Astro. Hoje é aniversário de JOÃO BOSCO. Certamente a abertura da novela não foi pensada como um presente para o compositor mineiro. Todavia, manter BIJUTERIAS, a música de JOÃO BOSCO & ALDIR BLANC na abertura da novela é mais que homenagem, é obrigação.  Melodia e letra se fundem para  caracterizar com maestria a personagem central proposta por JANETE CLAIR.

Em setembro,
se Vênus ajudar,
virá alguém.
Eu sou de Virgem
e só de imaginar
me dá vertigem…

E é com refinada ironia que a letra de ALDIR BLANC introduz o personagem, embalada na deliciosa melodia de JOÃO BOSCO. Não foi por acaso que ontem, no primeiro capítulo, o mago interpretado pelo grande FRANCISCO CUOCO entregou uma ametista ao “sucessor” RODRIGO LOMBARDI. Música e personagem estão casados, muito bem casados.

Minha pedra é a ametista,
minha cor, o amarelo,
mas sou sincero:
necessito ir urgente ao dentista.

Penso que a abertura de uma novela seja peça fundamental para o sucesso da trama. Isso quando o autor consegue mostrar em cada capítulo, tenha o folhetim 60 ou 200 episódios, uma face da proposta original. Um exemplo clássico é VALE TUDO, com a canção de CAZUZA interpretada por GAL COSTA. Na atual reprise do canal Viva, não consigo deixar de ver a abertura e ouvir GAL, melhor cantora de rock deste país, detonando um “Brasil” com seu incomparável talento. E talvez o sucesso da novela esteja nesse aspecto: a cantora intima: “Brasil, mostra a tua cara” e a cena acontece, com as falcatruas de um país marcado pela corrupção.

Afeita ao folhetim clássico, JANETE CLAIR também batia forte, “mas sem perder a ternura”. A autora deixou a receita de sucesso: “mande a personagem para o pelourinho”, o que vimos já no primeiro capítulo, com a prisão de Quintanilha. Mas as personagens de JANETE são heróis, mas sempre são seres humanos. A autora escreveu e a dupla JOÃO BOSCO & ALDIR BLANC confirma:

Tenho alma de artista
e tremores nas mãos.
Ao meu bem mostrarei
no coração
um sobre e uma ilusão.

Sessenta capítulos foram anunciados pela emissora de TV. E teremos a oportunidade de conviver com uma boa história, introduzida  por boa música na abertura. Novela é coisa de brasileiro. E por mais críticas que venham contra, fomos já fisgados pelo vício da boa história. E sempre que esta ocorrer, estaremos frente ao vídeo, curtindo; afinal, o JOÃO BOSCO aniversariante, unido ao genial letrista ALDIR BLANC, nos define com graça e ironia:

Eu sei:
na idade em que estou
aparecem os tiques, as manias,
transparentes
feito bijuterias
pelas vitrines
da Sloper da alma.  

Vamos lembrar a abertura original da novela?

Até!

(Publicado originalmente no Papolog)

Rainha do Radio

Todo chifre tem seu lado bom!

Rainha do Radio

Que o diga Hillary Clinton! De Primeira Dama traída tornou-se  Secretária de Estado dos Estados Unidos. A história do presidente com a estagiária ficou no tempo e quem faz história agora é a esposa traída. Na separação do casal Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, o Brasil ganhou a grande cantora em carreira solo, brilhando muito mais, para desespero de um enciumado Herivelto.

Tudo acabado entre nós

Já não há mais nada

Tudo acabado entre nós

Hoje de madrugada… 

Começou, na Rede Globo, a minissérie sobre a vida de HERIVELTO MARTINS e DALVA DE OLIVEIRA. Diversos sites noticiaram e, provavelmente baseados em release da emissora, escreveram que “Encantado pela jovem, Herivelto fez dela sua grande criação.” Balela! Não foi o compositor quem deu a voz, o ritmo e o carisma daquela que foi considerada por Villa Lobos como a maior cantora do Brasil.

Adriana Esteves e Fabio Assunção

HERIVELTO MARTINS criou grandes composições, inesquecíveis na voz de DALVA e propiciou à cantora, com suas traições públicas, um pano de fundo para uma vida dramática, levada para o disco e as emissoras de rádio e tv. DALVA DE OLIVEIRA, para usar uma expressão da época, pouca usada ultimamente, era a fossa em pessoa. Se uma parte da imprensa, aliada ao compositor, retratava uma DALVA com tintas pesadas, o público admirava e amava a cantora, tornando-a Rainha do Rádio, quando já em carreira solo.

…Com franqueza

Só não tendo coração

Fazer tal judiação

Você tá mangando d’eu

Kalu… 

Gosto de ouvir DALVA DE OLIVEIRA; nela, por exemplo, há um sotaque paulista perdido (ela era natural de Rio Claro) e um jeito de cantar que fez escola; sua melhor aluna tem sido MARIA BETHÂNIA. Esse jeito é feito de interpretações arrebatadoras, sinceras. Sem receio de expor paixões, DALVA cantava a própria alma. Escorada em composições impecáveis, imprimia verdade às mesmas. A imprensa tratava de confirmar os amores sofridos, imortalizados pela cantora.

A minha dor é enorme

Mas eu sei que não dorme

Quem vela por nós.

Há um Deus, sim

Há um Deus!

E este Deus lá do céu

Há de ouvir minha voz

Se eles estão me traindo… 

A escolha de Adriana Esteves para o papel de DALVA DE OLIVEIRA tem o mérito, inicial, de evidenciar o quanto a cantora foi bonita. Eu a conheci, pela TV, já no final da carreira quando, após um acidente automobilístico, DALVA ficou com uma cicatriz em pleno rosto; some-se a isso as alterações provocadas pelo excesso de álcool e a cantora, muito simpática, não me parecia bonita. É vendo as imagens reproduzidas por Adriana Esteves, que fica evidente o que o tempo comprometeu.

rainha do rádio coroação
Adriana Esteves como Dalva, A Rainha do Rádio
Rainha do Radio
Dalva na revista mais importante da música

Uma minissérie totalmente brasileira é o que começamos a ver nesta segunda. Significa que teremos muitos “barracos”, muito dramalhão mexicano, muita “dor de cotovelo”. Espero que a emissora não deixe de destacar os números musicais. O que vale em tudo o isso, o que realmente merece ficar para a história, é o extraordinário talento e a grande capacidade artística desses dois seres humanos. HERIVELTO, fruto de uma época, é o retrato do macho brasileiro com direito a escapadas, que entre uma aventura e outra, encontra um grande amor. DALVA DE OLIVEIRA, longe de ser submissa – e aqui vai mais um aspecto da vida dessa grande mulher – dá o troco e vai à forra. História boa de ver, gente boa pra gente admirar.

Este amor quase tragédia

Que me fez um grande mal

Felizmente essa comédia

Vai chegando ao seu final

Já paguei todos os pecados meus

O meu pranto já caiu demais

Só lhe peço, pelo amor de Deus

Deixe-me viver em paz… 

Até!

Notas Musicais:

Tudo Acabado – J. Piedade e Oswaldo Martins

Kalu – Humberto Teixeira

Há um Deus – Lupicínio Rodrigues

Fim de Comédia – Ataulfo Alves

(publicado originalmente no Papolog)