Duas lives com música da melhor qualidade. Indicações que fazemos com carinho, conhecedores que somos do trabalho do grupo Mawaca e do compositor e cantor Jonathan Silva. Vejam as informações e façam suas inscrições.
Estava aqui, com meus botões já gastos de tanto confinamento e, de repente, deixei a memória ir longe, onde tudo é possível. Com jeitinho, tudo é até melhor, mais bonito, mais saudável. Benditas lembranças que nos permitem ir para onde a gente bem quiser. E viajar está, desde sempre, entre as coisas que mais gosto. Pode ser para logo ali, ou lá, mais além-mar. No final da estrada, onde Judas perdeu as botas. Nos cafundós desse Brasil imenso…
Vamos indo de carona
Na garupa leve do vento macio
Que vem caminhando
Desde muito tempo, lá do fim do mar
O vento me leva para a estrada, pela Via Bandeirantes, e só me sinto saindo de São Paulo quando passo pelo Pico do Jaraguá. Começam a surgir mesmices reflorestadas, mas verdes, plenas do verde e, em dias bons, do perfume de eucaliptos. Pensamento recorrente, ressinto-me da falta de verde e a memória me joga lá pra adolescência, em Uberaba, quando pegava a bicicleta e ia pra zona rural (Na época era zona rural). Passava o posto da Fepasa de Amoroso Costa e entrava no corredor de gado, passando por Rodolfo Paixão e sempre parando em encruzilhada, para onde era só mato, descansando e meditando sobre… nada.
Vamos visitar a estrela da manhã raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas que vai escondida
Querendo brincar
Minha estrela está além da Bandeirantes, entrando pela Via Anhanguera afora até atravessar o Rio Grande e entrar em terras de Minas. O percurso é longo e, sem pressa, vou degustando a viagem. Nem passei por Jundiaí! De um lado da estrada a cidade, e do outro, fazendo uma linha com o horizonte, um campo de aviação onde é possível ver aviões decolando ou pousando. Aviões ínfimos se comparados aos maiores que, daqui a pouco, serão vistos à esquerda de quem sai de Sampa. Descem e sobem no rumo de onde deve estar Viracopos, onde trabalhei e depois, muito tempo depois, voltei como passageiro.
Escolho deixar a Bandeirantes e entrar no primeiro trevo da Anhanguera, em Campinas. Penso nos meus avós, nos meus tios e sigo em frente. Passo pelo que restou da Bendix, onde trabalhei e, no lado oposto ao da empresa, vejo ao longe o bairro onde morou minha prima Dalva. Há muito não vou por lá.
Senta nessa nuvem clara
Minha poesia, anda, se prepara
Traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar
Antes que Campinas fique para trás vem forte a lembrança de meu irmão. A entrada da Via Dom Pedro (nunca sei se é primeiro ou segundo) sai em direção ao bairro onde Valdonei morou. Sinto saudade e vou rezar por ele quando passar em frente à Igreja de Nossa Senhora Aparecida, que lá atrás o Pe. Líbero não quis como paróquia por estar isolada, muito isolada. Ela está próxima de escombros do que um dia foi a fábrica de óleos Minasa, onde também trabalhei. Por seis meses! Esse pedaço da estrada pesa um pouco. Melhor tocar em frente.
Olha quantas aves brancas
Minha poesia, dançam nossa valsa
Pelo céu que um dia
Fez todo bordado de raios de sol
Deixo a mente vagar e só vou atentar para outra fábrica, de cachaça, em Pirassununga. Meu padrinho Nino era chegado em pinga. “… Porque gosto dela, bebo da branca, bebo da amarela, com limão, cravo e canela…” Em Pirassununga ele cumpriu obrigação de jovem, no exército. Meu pai gostava de atirar, se destacou em tiro ao alvo, no exército. Eu gosto de exército circunscrito ao exército, se estou sendo bem claro.
Vai demorar um bocado pra chegar a Ribeirão Preto. O reflorestamento ainda aborrece, mas já consigo ver resquícios de mata ciliar, de montes cobertos por… quem sabe, mata original. Há um imenso aclive no que pessoalmente chamo de Serra de Santa Rita. São quatro quilômetros de subida que sempre, na volta, descíamos na banguela economizando gasolina. E nem estava no preço que está hoje! Logo passarei por Cravinhos e por Ribeirão Preto.
Oh poesia, me ajude
Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias
Pelos campos verdes
Que você batiza de jardins-do-céu
A Via Anhanguera tornou-se uma longa marginal que atravessa Ribeirão Preto. Em direção a Minas fiz todo o trecho que vai do trevo principal, entrada para a cidade, até o viaduto da Fepasa, sobre a estrada que, quando eu era criança, ficava em pleno mato. Duas caminhadas memoráveis:
Com papai e mamãe saímos de trem de Uberaba para Ribeirão Preto. A estação de trens era bem nova, mas estava no meio do mato. Por indicação da minha tia Olinda, descemos do trem e caminhamos pelos trilhos (quem está na estação de Ribeirão Preto é sentido Campinas) até o tal viaduto, descendo deste até a estrada e, mais uma boa caminhada, até chegar à Vila Abranches.
Dessa mesma Vila, outra vez saí com meu primo, caminhando pela estrada em direção oposta, até o trevo (na época era o único) e, entrando para a cidade, passávamos por uma fábrica de bolachas, de onde sempre vinha um cheiro delicioso de coisas assadas. Uma caminhada tranquila, interrompida por um temporal de verão. Entramos ensopados pela cidade e, como dois bons adolescentes, tomamos rumo da Praça XV de Novembro onde não tomamos chopp do Pinguim, mas tomamos sorvete sentados nos bancos da praça.
Mas pode ficar tranquila, minha poesia
Pois nós voltaremos numa estrela-guia
Num clarão de lua quando serenar
Nunca mais voltei. A cidade passou a ser um ponto por onde vou ou volto. Passando pela Vila Abranches recordo canções ouvidas na infância, leite tomado quentinho, ouvindo o barulho dos animais todos da chácara de D. Dina. A estrada pede caminho, ir em frente, vou passar pelo Rio Pardo e olhar em direção a Jardinópolis, por onde gostava de passar quando viajávamos de trem. Em Orlândia, inevitável, vou recordar uma viagem com Tia Amélia, para visitar meus padrinhos Toninho e Rosária, queridos, muito gentis. Em São Joaquim da Barra passo por uma placa que anuncia faltarem 100 quilômetros para Uberaba. Dependendo do motivo da viagem rola desespero ou alívio…
Pioneiros é um local que um dia foi chamado de Bacuri. Fica logo após São Joaquim da Barra e é um lugar da maior importância. Lá nasceu minha mãe, Laura, batizada no município vizinho. Não é o momento de entrar e rever as velhas casas que restaram da extinta estrada de ferro que, atualmente, passa longe dali. Passando por Buritizal já me sinto próximo de coisas de Guimarães Rosa. Minas está perto.
Ou talvez até, quem sabe,
Nós só voltaremos no cavalo baio
O alazão da noite
Cujo o nome é raio, raio de luar.
Já estou ansioso e não vejo a hora de atravessar o Rio Grande, quando nunca deixei de pensar: cheguei! Minas tem um cheiro, um ar… Minas tem as montanhas, e logo após o Rio começa um brincar de montanha russa, com um sobe e desce de responsa. A memória, bendita memória. Essas longas subidas e descidas me lembram Beto Rockfeller, o inesquecível personagem interpretado por Luís Gustavo. Pra fazer firulas com a namorada, o Beto apostou que chegaria de helicóptero em uma festa. Para conseguir a aeronave, alegou aos proprietários que precisava levar um doente para Uberaba. Aquele sobe e desce horrível da estrada tinha que ser evitado e, para isso, só voando. Conseguiu.
São angustiantes os minutos que antecedem passar pelo Catetinho, um antigo restaurante atualmente em ruínas. Às vezes parecem eternos, o trecho longo demais, enlouquecedor de tão longe. E o pior é ter a certeza de que, quando na volta, passará rapidíssimo, aumentando o distanciamento da cidade amada. Mas passo pelo Catetinho, logo, logo, por uma ponte sobre a estrada de ferro, e aí não tem mais lero-lero. Estou em Uberaba.
Vamos visitar a estrela da manhã raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas que vai escondida
Querendo brincar
Já sinto cheiro de café, pão de queijo, bolo… Sinto o calor de abraços, a ternura de beijos.
Viagem (a número um, letra que me inspirou aqui) é canção de João de Aquino e Paulo César Pinheiro. Convido você, leitor, a ouvi-la na interpretação de Marisa, a Gata Mansa.
Dono de um imenso talento, Jonathan Silva tem o reconhecimento do público e da crítica. Após três discos autorais – Necessário, Benedito e Precisa-se de compositor com experiência – Jonathan lançará, em 11 de março, o projeto Poema na Garganta, oficina e live literomusical. Experiência que, certamente, vai mexer com os participantes.
No meio da correria, o artista arranjou um tempinho para falar conosco no Trem das Lives desse domingo, 07 de março, 18h.
Muito bom ouvir Viviana (A desnaturada) e, via ritmo, melodia e letra, viajar por um Brasil profundo, popular, de beleza simples, singela e, por isso mesmo, profunda.
Siga a letra e ouça a canção:
Ô Viviana, côco não é carimbó Lambari não é baleia Maxixe não é jiló ( Bis )
Dei cachaça pro meu santo Quando eu bebo, ele bebe Viviana , quando eu canto A vida fica mais leve
Afinei meu violão “Rebentou” a corda lá Viviana, vê se arruma Um amor pro cê casar
Fiz café e fui pra sala Cantar jongo em si bemol Amanhã vamos a praia Pegar um pouquinho de sol
Se você casar na igreja Me convida por favor Você leva a cerveja Que eu levarei meu tambor
Viviana ( A Desnaturada) está no álbum de Jonathan Silva, Precisa-se de compositor com experiência. O cantor e compositor é o próximo convidado do Trem das Lives do próximo domingo, 7 de março, 18h no instagram.com/tremdaslives.
Você é nosso convidado para uma conversa descontraída com o criador de Viviana (A Desnaturada).
A ficha técnica da gravação é:
Jonathan Silva: Voz Marcos Coin: Violão Filpo Ribeiro: Pífanos e ganzá Lucas Brogiolo: Pandeiro Coro das Moças: Mazé Cintra, Luciana Rizzo, Karen Menatti, Bárbara Bonnie , Victória Alves
Iemanjá, orixá do perdão e do amor incondicional, é conhecida por vários nomes; alguns desses em música de Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro, delicadamente interpretada por Maria Bethânia:
Quanto nome tem a Rainha do Mar? Quanto nome tem a Rainha do Mar? Dandalunda, Janaína Marabô, Princesa de Aiocá Inaê, Sereia, Mucunã Maria, Dona Iemanjá
Dona Janaína, ou simplesmente Janaína, um dos nomes mais populares do Orixá nos cultos afro-brasileiros, é tema de uma linda ciranda, composição de Jonathan Silva e Kiko Dinucci:
Ciranda pra Janaína
O seu colar é de concha Seu vestido se arrasta na areia Ela tem cheiro de mar Ela sabe cantar ponto de sereia
O Janaina, quando estou feliz eu choro O Janaina, deixa eu dormir no seu colo
É no seu colo que afogo a minha sede Quis te pescar, mas caí na sua rede Feita de fio de cabelo emaranhado Moro no mar e hoje sou seu namorado
Gravada em 2008 no CD “Benedito”, de Jonathan Silva, tornou-se conhecida e cantada também em sessões de Umbanda. Abaixo, a gravação original:
Para os interessados, uma linda representação gravada no Templo de Umbanda Caboclo Tupinambá e Sultão das Matas:
Jonathan Silva é o convidado do próximo Trem das Lives, domingo, dia 7, às 18h. Durante esta semana, apresentarei aqui no blog algumas canções do compositor capixaba.
De todas, parece que esta será a mais cinza entre as quartas-feiras de cinzas. E que o dia se justifique conforme sua razão de existir: um marco para a mudança de vida. As chances de mudança são, infelizmente, muito poucas. Nem o carnaval aconteceu da forma que nos habituamos a cantar o primeiro verso da canção de Vinícius de Moraes: “acabou nosso carnaval…”.
Assim como 1º de janeiro se torna irrelevante quando constatamos que a mudança de ano não muda nada, a Quarta-Feira de Cinzas de 2021 tende a celebrar tão somente a fragilidade humana, a vida efêmera tirada das 1.100 vítimas mortas cotidianamente pelo COVID. Esse média, horrorosa, não converte ninguém, não muda comportamento de ninguém.
… Pelas ruas o que se vê É uma gente que nem se vê Que nem se sorri Se beija e se abraça…
Nessa quarta-feira aqueles que se recusam a usar máscara continuarão assim, favorecendo a circulação do vírus. E justificarão sua atitude baseadas em disse-me-disse doméstico no WhatsApp, o espaço de fofoca da era virtual. Esse mesmo espaço onde irão circular vídeos de “profissionais” (entre aspas, pois são assassinos) que fingem vacinar idosos. E entre um copo de cerveja e outro, nas esquinas de São Paulo e de outras cidades, discutirão acaloradamente os destinos dos participantes do BBB e, entre um “Vai, Corinthians!” e outro “O Palmeiras não tem mundial!”, seguirão a vida rumo à Pascoa, período que deveria ser de excelência em mudanças, mas que será mais um marco do mesmo.
Tenho refletido sobre o que poderia vir a sensibilizar as pessoas. Nosso país tem absurdos tais em que o governo oferece via comercial de TV um curso de educação “baseado na ciência”. E ante a angustiante falta de vacina, o contraponto é a liberação da compra de seis, SEIS, armas de fogo por pessoa. A mensagem sugerida é a de que quem pode comprar mata quem não pode? No mínimo domina e faz calar a boca.
…Quem me dera viver pra ver E brincar outros carnavais…
É complicado viver com o inimigo logo ali, além da porta. Está no outro e, na impossibilidade de detecção, todos os outros são os portadores do vírus que mata. Há sobreviventes, dizem alguns. Mas, como saber que estaremos entre os sortudos? A presença de uma vacina à conta-gotas faz aumentar a ansiedade entre a perspectiva de fim de prisão e o receio de morrer na praia, olhando o calendário e contando os dias que faltam para chegar a nossa vez: de morrer ou de nos vacinarmos.
E, no entanto, é preciso cantar Mais que nunca é preciso cantar É preciso cantar e alegrar a cidade…
A gente vive não só de teimosia, mas da lembrança do olhar de mães que nos disseram que estava tudo bem, da segurança que nossos pais nos transmitiam guiando-nos nas travessias perigosas. Esses seres humanos que nos ensinaram a confiar na justiça divina, seja via Deus dos Hebreus, seja via Xangô ou a Lei do Retorno. No merecimento de uma vida melhor, conforme o que cada religião prega. E, ante o desconhecido e a incerteza do que nos virá, melhor é ficar por aqui, com nossos irmãos, com nossos amigos. E é por isso, talvez, que a gente luta e não desiste.
A tristeza que a gente tem Qualquer dia vai se acabar Todos vão sorrir Voltou a esperança É o povo que dança Contente da vida, feliz a cantar…
Ano passado, ingenuamente, pensamos ser breve os anunciados quinze dias de uma quarentena que permanece. Agora temos a vacina em andamento e espero que todos tenhamos o direito de tê-la em nossos corpos, que é o que realmente interessa. Talvez, essa quarta-feira, esse período de quarentena que antecede a Páscoa, seja realmente a passagem para um mundo sem medo. Então, certamente lembraremos desta como a mais cinza, entre as quartas-feiras de cinza que, graças aos céus, aos santos, aos deuses, aos orixás… virou cinzas, ficou no passado.
Notas:
A foto acima foi feita em Recife, o mestre Luiz Gonzaga na praça.
A Marcha da Quarta-Feira de Cinzas é música de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes. Ouça a canção! É linda e cheia de esperança. A gravação que escolhi é de Elis Regina, na primeira fase de sua carreira, no Fino da Bossa.
Um carnaval possível nesse momento! Fernando Brengel, o rapaz atrás dos óculos sem lente e dos óculos com lente, primeiro da foto acima, conduziu o Trem das Lives deste domingo. Sem querer querendo, o Trem das Lives reuniu convidados que participam do carnaval paulista, resultando na presença de quatro queridas e grandes escolas de samba da nossa cidade.
Amanda Salles, na foto acima ao lado do Brengel, é destaque da Rosas de Ouro e evidencia em cada fala um profundo amor pela escola. Lembrou momentos legais e outros de sofrimento, mas que mostram a relação dos integrantes com suas agremiações. Atenção para a palavra destaque: Amanda é linda!
O casal Rafael Nascimento e Walquíria Silva, responsáveis pelo camarote e Júri do Troféu nota 10, e pela organização e realização do evento da premiação durante 13 anos, tem histórias para dez lives sobre esse Prêmio, sobre histórias de carnaval. Um casal respeitado e querido pelos sambistas de todas as escolas.
Carlos Ono, que já estudou Propaganda e Marketing conosco, é típico representante de uma expressão muito comum em São Paulo, “tem japonês no samba”. O rapaz é descendente de japoneses, apaixonado pela Império da Casa Verde, escola que defende com garra.
Alexandre Cremonini Furniel é folião apaixonado e foi o nosso anfitrião na Acadêmicos do Turucuvi. Levados por ele, Fernando Brengel e eu desfilamos pela escola em carnavais inesquecíveis! Alexandre aproveitou para nos contar sua experiência com desfiles cariocas.
Finalizando a foto, Bob Valdo, que não canta reggae, mas que adora Bob Marley e que promete sair mais ou menos assim no próximo carnaval…
Veja detalhes dessa live gostosa via link abaixo! Aproveite a festa com a segurança necessária, fique em casa e seja responsável! E, também, atento para a próxima viagem do Trem das LIves.